MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/10/2011

Rumo ao Oscar e ao Tony, passando pelo Nobel

(o texto abaixo foi escrito a partir das considerações feitas numa mesa-redonda gravada para a Semana de Letras da UNIMES VIRTUAL onde explorei o tema “A desonra como exclusão”)


“Sempre foi conveniente aos interesses do Estado envenenar os poços psicológicos, estimular vaias, limitar a solidariedade humana. Não será tarefa do contador de histórias agir como advogado do diabo, provocar simpatia e uma certa compreensão para com aqueles que estão fora dos limites da aprovação do Estado? Ele representa as vítimas, e as vítimas mudam. A lealdade nos confina às opiniões aceitas, à fidelidade nos proíbe de compreender, de maneira solidária, os nossos companheiros dissidentes; a deslealdade, porém, nos estimula a penetrar qualquer mente humana…”

(Graham Greene, A virtude da deslealdade, em Reflexões)

“Ésa era la palabra que mejor describía lo que se había sentido siempre, en Escocia, en Inglaterra, en el África, en el Brasil, en Iquitos, en el Putumayo: un desterrado. Buena parte de su vida se había jactado de esa condición de ciudadano del mundo que, según Alice, Yeats admiraba en el: alguien que no es de ninguna parte porque lo es de todas. Mucho tiempo se había dicho que ese privilegio le deparaba una libertad que desconecían quienes vivían anclados en un solo lugar. Pero Tomás de Kempis tenía razón. No se había sentido nunca de ninguna parte porque ésa era la condición humana: el destierro en este valle de lágrimas, destino transitorio hasta que con la muerte y el más allá hombres y mujeres volverían al redil, a su fuente nutrícia, a donde vivían toda la eternidad.”

    (Mario Vargas Llosa, O sonho do celta [1])

Em 1981, pode-se dizer que Mario Vargas Llosa alcançou um auge da sua popularidade e prestígio como romancista, com a publicação de A guerra do fim do mundo, que talvez não se tenha repetido depois (apesar de ele ainda ter escrito muitos romances formidáveis, penso especialmente em Lituma nos Andes e nos surpreendentes História de Mayta e O falador, para não falar no requintado Cadernos de Don Rigoberto, uma obra de mestre), pelo menos não com tanta intensidade.

Em 1981, foi justamente um ponto de inflexão na minha vida como leitor, quando eu “saltei” da inconsciência da leitura voraz e apaixonada para o tipo de leitura que até hoje me ocupa a maior parte da minha existência (e com a experiência de O sonho do celta de certa forma me confrontei com 30 anos ‘começou a estrada, a viagem terminou”, na formulação lukácsiana).

Portanto, meu início com Vargas Llosa se deu justamente com esse romance-auge, A guerra do fim do mundo e a idéia vargasllosiana de “romance total”, “romance-mundo”, que muito me marcaram. Por outro lado, também acompanhando os debates ideológicos, já de saída um instinto de  desconfiança com relação às posturas do autor de Contra vento e maré, que foi se ampliando de tal maneira que só após a leitura muito apaixonada de Lituma nos Andes,  resolvi  mandar às favas a questão do Vargas Llosa que aqui no nosso país seria um político do PSDB, o partido que mais desprezo e abomino entre todos.

Pois bem, curiosamente tenho percebido um refluxo por parte do escritor peruano do seu entusiasmo com o ideário neoliberal, antídoto contra a esquerda fanática e sectária, a confiança no mundo globalizado pós-industrial cuja causa ele abraçara tão apaixonada e constrangedoramente ao ponto de ser citado pela VEJA (vejam só!) como o “perfeito intelectual latino-americano”, o que soa mais como um anátema e um epitáfio do que um elogio. Sutilmente, nos últimos livros, Llosa tem mostrado que a receita neoliberal também não funcionou, nem poderia. Lamentavelmente, esses últimos livros (penso especificamente em A festa do bode e Travessuras da menina má, pois gosto de O paraíso na outra esquina, sem considerá-lo um grande romance) representam igualmente um declínio, uma aproximação muito perigosa das receitas e técnicas dos best sellers.

Por isso, a expectativa com O sonho do celta, que foi lançado após o Nobel, mas  escrito antes. De cara, devo dizer que ele confirma o desencanto ao qual aludi mais acima. Nesse sentido, a trajetória de Roger Casement, o celta, é emblemática.

Casement é o irlandês que, no final do século XIX, vai para a África (servindo à Coroa britânica)  imbuído da ideologia em tripé que sustentou e justificou  a colonização e o posterior imperialismo das potências ocidentais: civilização, cristianismo e comércio.

No Congo, ele testemunha horrores (o domínio belga, capitaneado pelo sinistro rei Leopoldo foi um dos mais brutais da história, tanto que originou O coração das trevas, de Joseph Conrad) contra os negros nativos, de tal monta que o levam a redigir um relatório que o torna célebre no mundo todo (e é preciso lembrar que, à época, não havia os meios de comunicação à disposição, embora fosse já época de uma opinião pública forte), “o irlandês mais famoso” de sua época.

A desilusão de Casement com a empreitada colonial ficará completa quando, ao viajar pelo Putumayo, a porção peruana da Amazônia, constatar ali horrores similares e novamente a desfaçatez do homem branco.

A conseqüência mais importante no destino de Sir Roger (sim, ele ganha o título honorífico) é que ele resolve cuspir no prato que comeu e aderir ao que Greene (no texto do qual eu tirei a epígrafe desta minha resenha) chama de forma tão feliz de “a virtude da deslealdade”, ou seja, abraça a causa do nacionalismo irlandês contra a Inglaterra e procurará firmar uma aliança com os alemães, ao eclodir a Primeira Guerra, para acelerar a independência da Irlanda[2] . Por essa razão, é preso como traidor (justamente naquela época, foi publicado Os 39 degraus, de John Buchan, que instaura o jogo de espionagem e a vilania da Alemanha no imaginário ficcional) e condenado à forca. Para fomentar o clima de antipatia contra ele, seu linchamento moral, divulgam-se trechos de diários onde sua “vida secreta”, como homossexual cujas experiências fundamentais foram com negros, nativos, enfim, outras raças, é exposta escandalosamente (poucos anos antes, houvera o caso Oscar Wilde, de triste memória). É a forma de exclusão punitiva daqueles que estão dentro do sistema hegemônico e que ousam sair dos trilhos ou questionar a rota: a desonra, a perda de posição, muito mais radical do que a evasão, tema de O paraíso na outra esquina, que foi outra maneira de se colocar à margem dos descarrilhados do trem do progresso.

O eixo narrativo de O sonho do celta é a vida na prisão de Casement, à espera para ver se a petição de indulto da pena de morte seria concedida.

Infelizmente, quem procurar a riqueza caleidoscópica das grandes ficções llosianos vai se decepcionar. Escrevendo um romance sobre Casement, ele não o “inventa”. Claro, pode ter se permitido mil liberdades a respeito dos fatos, contudo o livro nunca deixa de ter o ar de uma biografia, daquelas bem certinhas, caretas e chatinhas.

O pior é que o romancista que nos fez entrar na cabeça de tantos personagens, inclusive os mais repulsivos, como a eminência parda da ditadura odriísta, Cayo Bermúdez  (em Conversa na Catedral), ou o fanático republicano Moreira César (em A guerra do fim do mundo), nunca consegue nos fazer entrar na cabeça de Roger Casement. Parece que ele o vê à distância, sem nunca se aproximar de fato do seu “sonho”, a não ser com  recursos do best seller: a exposição didática e chapada, sem a menor profundidade, o bom-mocismo—quem em sã consciência, a não ser o mais empedernido e boçal reacionário, iria discordar da indignação do intrépido e corajoso irlandês, com as suas causas? Correndo nas águas tranqüilas da facilidade narrativa, Llosa não nos poupa nem dos clichês mais banais, como o do carcereiro que é duro e hostil a princípio e depois vai se tornando amigo do suposto traidor degenerado.

Aliás, eu não me surpreenderia em ver O sonho do celta comprado por Hollywood e ganhando o Oscar. Ele tem todos os ingredientes para se transformar num daqueles filmes amorfos e acadêmicos (tipo Gandhi, Entre dois amores, Dança com lobos, O paciente inglês, Uma mente brilhante), bem produzidos, com um ótimo protagonista (um grande ator daria um show como Casement), ótimos e fotogênicos cenários, ótimos figurinos, tema politicamente correto e um destino tão certo e implacável quanto a forca para Sir Roger Casement: a irrelevância das Sessões da Tarde. E talvez um musical da Broadway.

Quando comentei A guerra do fim do mundo, equacionei sua sabedoria épica com o retrocesso ideológico que representava. Parece que, como sou um chato de galocha mesmo, e nunca estou satisfeito, com O sonho do celta, terei de fazer a equação contrária: de uma saudável recuperação ideológica e um retrocesso épico.

Para finalizar, devo dizer que no Putumayo, no âmago peruano da trajetória de Casement há um relato em miniatura sobre a desonra do juiz que o governo do país manda para apurar os fatos, momento mise en abyme  que espelha  a narrativa principal (e lembra as tramas de Leonardo Sciascia) e  que daria um romance tremendamente mais interessante do que o que Vargas Llosa escreveu:

“En efecto, la historia de esse probo y temerário doctor Carlos A. Valcárcel que vino a Iquitos a investigar los ´horrores del Putumayo´ no podia ser más triste. Roger la fue reconstruyendo en el curso de estas semanas como un rompecabezas…

    Pablo Zumaeta [poderoso representante local da empresa Peruvian Amazon Company responsável pelos “horrores de Putumayo”], desde su supuesto escondite, orquestro la ofensiva judicial contra el juez Carlos A. Valcárcel, iniciándole, a través de testaferros, múltiples denuncias por prevaricación, desfalco, falso testimonio y otros vários delitos. Una mañana se presentaron en la comisaría de Iquitos una índia bora y su hija de pocos años, acompañadas de un intérprete, para acusar al juez Carlos A. Valcárcel de ´atentado contra el honor de una menor´.  El juez tuvo que emplear gran parte de su tiempo en defenderse de esas fabricaciones calumniosas, declarando, correteando y escribiendo ofícios en vez de ocuparse de la investigación que lo trajo a la selva. El mundo entero se le fue cayendo encima. El hotelito donde estaba alojado… lo despidío. No encontro albergue ni pensión en la ciudad que se atreviera a cobijarlo. Tuvo que alquilar una pequeña habitación en Nunay, una barriada llena de basurales y estanques de aguas pútridas, donde, en las noches, sentía bajo su hamaca las carreritas de las ratas y pisaba cucarachas (…)

Qué había sido de el? Lo único que pudo saber con certeza, aunque la palabra ´certeza´ no parecia tener arraigo firme en el suelo de Iquitos, era que, cuando llegó la orden de Lima destituyéndolo, Carlos A.  Varcárcel ya había desaparecido. Desde entonces nadie en la ciudade podia dar cuenta de su paradero. Lo habían matado? (…) el director de EL ORIENTE, Rómulo Paredes, le dijo:

__ Yo mismo le aconsejé al juez Valcárcel que se mandara mudar antes de que lo mataran, sir Roger. Ya le habían llegado bastantes avisos.

    Que clase de avisos? Provocaciones en los restaurantes y bares donde el juez Valcárcel entraba a comer un bocado o tomar uma cerveza. Súbitamente, un borracho lo insultaba y lo desafiaba a pelear mostrándole una chaveta. Si el juez iba a presentar uma denuncia a la policía o a la Prefectura, le hacían rellenar interminables formularios, pormenorizando los hechos, y asegurándole que ´investigarian su queja´.

   Roger Casement se sentió muy pronto como debía haberse sentido el juez Valcárcel antes de escapar de Iquitos o de ser liquidado por alguno de los asesinos a sueldo de Arana [o presidente da Companhia]: engañado por doquier, convertido en el hazmerreír de una comunidad de títeres cuyos hilos movia la Peruvian Amazon Company, a la que todo Iquitos obedecia con obsecuencia vil.”[3]

Desafortunadamente,  há muito pouco de rompecabezas na narrativa de O sonho do celta. Ao que parece, Vargas Llosa quis facilitar tudo para o comprador do seu livro.

Graham Greene abriu este texto. Nada mais justo do que fechá-lo, aplicando a Vargas Llosa o veredicto que ele tascou em cima do grandíssimo escritor inglês, ao analisar Fim de Caso no seu A verdade das mentiras. É um veredicto que se aplica como uma luva às últimas realizações do Nobel de 2010:

“Por que Graham Greene nunca chegou a escrever uma obra-prima, já que manejava o ofício com excelência, e com a cultura e a paixão pela literatura que tinha? Que lhe faltou? Dois ingredientes, difíceis de definir, que aparecem detrás de todos os grandes romances, porém nunca nos seus: uma ambição desmedida e certa dose de insensatez—podemos até chamá-la de loucura.  Greene, viajante incansável, aventureiro  cuja curiosidade o levou a viver guerras, revoluções, pragas e a freqüentar, por todos os rincões do planeta, os tipos humanos mais pitorescos e diferenciados, na hora de se sentar para escrever perdia seu ímpeto, aquela vocação para o risco que o levou—quando adolescente—a praticar a roleta russa, e tornava-se um escritor eficiente, tímido e funcional, que se sentia satisfeito contando uma história com acerto, uma que fizesse toda tipo de leitor passar um tempo feliz e distraído. Claro que conseguiu o que se propôs como escritor, porém o que se propôs foi sempre pouco e aquém do seu talento…”

Desde A festa do bode ele está enveredando pelo caminho eficiente, tímido e funcional, e realizando pouco e aquém do seu talento.

(outubro de  2011)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/09/sonho-do-celta-pesadelo-do-leitor/


[1] Em tradução (de Paulina Wacht e Ari Roitman): “Esta era a palavra que melhor descrevia como ele sempre se sentira, na Irlanda, na Inglaterra, na África, no Brasil, em Iquitos, no Putumayo: um banido. Durante boa parte da vida, Roger se gabou dessa condição de cidadão do mundo que, segundo Alice, Yeats admirava nele: alguém que não é de lugar nenhum porque é de todos os lugares. Por muito tempo pensou que esse privilégio lhe dava uma liberdade que aqueles que viviam ancorados no mesmo lugar desconheciam. Mas Tomás de Kempis tinha razão. Ele nunca sentiu que pertencia a um lugar porque a condição humana era isto: um desterro neste vale de lágrimas, um destino transitório até que, com a morte e o além, homens e mulheres voltariam para o ninho, para a sua fonte nutriz, onde viveriam por toda a eternidade”.

[2] De passagem, devo dizer que um dos temas fascinantes que O sonho do celta desperdiça é essa ambivalência da Alemanha na nossa bagagem cultural formada por Hollywood. Nem é preciso dizer nada a respeito do horror nazista, mas mesmo antes, por que a Alemanha nunca foi como a França, a Itália ou a Inglaterra para a percepção ocidental?

[3] Na tradução já citada, lançada pela Alfaguara: “ De fato, a história desse integro e temerário doutor Carlos A. Valcárcel que foi a Iquitos para investigar os ´horrores do Putumayo´ não podia ser mais triste. No decorrer daquelas semanas Roger a foi reconstruindo como um quebra-cabeça (…)

 Pablo Zumaeta, em seu suposto esconderijo, orquestrou a ofensiva judicial contra o juiz Valcárcel, iniciando, por intermédio de testas de ferro, inúmeras ações contra ele, por prevaricação, desfalque, falso testemunho e outros delitos vários. Certa manhã se dirigiram à delegacia de polícia de Iquitos uma índia borá e sua filha de poucos anos, na companhia de um intérprete, para acusar o juiz de ´atentado contra a honra de uma menor´. O juiz teve de empregar grande parte de seu tempo se defendendo dessas fabulações caluniosas, depondo, correndo e escrevendo ofícios em vez de se dedicar à investigação que o trouxera para a selva. O seu mundo foi desabando. O hotelzinho onde estava hospedado o expulsou. Não encontrou nenhum albergue ou pensão na cidade que tivesse coragem de aceitá-lo. Teve que alugar um quartinho em Nunay, bairro cheio de depósitos de lixo e tanques de águas pútridas onde, à noite, ouvia as corridinhas dos ratos debaixo da sua rede e pisava em baratas… O que acontecera a ele? Roger só conseguiu apurar com certeza, embora certeza não combinasse muito bem com Iquitos, que o juiz Valcárcel já havia desaparecido quando chegou a ordem de Lima com sua exoneração. A partir de então, ninguém na cidade fazia idéia do seu paradeiro. Teria sido assassinado? (…) O diretor de El Oriente, Romulo Paredes, contou a Roger:

__ Eu mesmo aconselhei o juiz a ir embora antes que o matassem, sir Roger. Já tinha recebido muitos avisos.

    Que tipo de avisos? Provocações nos restaurantes e bares onde o juiz ia comer alguma coisa ou tomar uma cerveja. De repente, um bêbado o insultava e desafiava para a briga mostrando a navalha. Quando o juiz ia dar queixa na polícia ou na prefeitura, mandavam-no preencher intermináveis formulários detalhando os fatos e garantiam que ´investigariam a denúncia´.

   Em pouco tempo, Roger Casement já se sentia como imaginava que o juiz Valcárcel devia se sentir antes de sair de Iquitos ou de ser liquidado por um assassino… enganado por toda a parte, transformado em bobo da corte de uma comunidade de marionetes cujos fios eram puxados pela Peruvian Amazon Company, à qual toda Iquitos obedecia de forma infame…”

A GUERRA DO FIM DO MUNDO: sabedoria épica e retrocesso ideológico de Mario Vargas Llosa

 

NOTA INTRODUTÓRIA- No dia 04 de novembro último, gravei minha participação para o I- Simpósio de Letras da UNIMES VIRTUAL,  promovido pela Universidade Metropolitana de Santos, cujo tema é “O messianismo sob a ótica da literatura”, o qual será veiculado de 22 a 26 de novembro (acesse www.unimes.br ). Reproduzo abaixo meu texto-base (o título “Um neoliberal no sertão” é de certa forma uma provocação moleca  ao título dado à minha companheirade mesa,  Clara Versiani, à sua intervenção, a respeito de Os sertões e Euclides da Cunha, “Um republicano no sertão”).

Aproveito para agradecer o convite e a atenção e gentileza da professora Maria Teresa Ginde de Oliveira.

UM NEOLIBERAL NO SERTÃO

Num dos textos reunidos em SABRES E UTOPIAS-Visões da América Latina, datado de 1979,  quando então escrevia A GUERRA DO FIM DO MUNDO, que seria publicado em 1981, Mario Vargas Llosa afirma:

“É preciso desconfiar das utopias: elas terminam, em geral, em holocaustos. Há uma estranha verdade na política, que consiste em que as soluções medíocres costumam ser as melhores soluções… Não há outra saída, na política, que não seja o realismo. Na literatura não, e por isso ela é uma atividade mais livre”.

   Em que medida essas afirmações podem ser rastreadas no romance que naquele momento ocupava o escritor peruano; em que medida elas contêm uma afirmação profunda e lúcida ou, pelo contrário, oferecem uma resposta fácil e confortável (pois estão muito próximas da visão de “fim da história”, da queda das grandes narrativas—nas quais eu  acredito—e a submissão à idéia de que a democracia está entrelaçada com o mercado e a globalização); e, mais ainda, em que medida podemos, a partir delas qualificar Vargas Llosa  e o próprio romance A GUERRA DO FIM DO MUNDO de reacionários, são as coordenadas pelas quais me guiarei nesta minha intervenção.

De saída, esclareço um ponto: considero A GUERRA DO FIM DO MUNDO um romance formidável, uma grande obra de ficção; porém, trata-se igualmente de um livro reacionário e, nesse ponto, para mim, revoltante. Outros o acharão lúcido.

Leitores que cheguem à mesma conclusão, a respeito do reacionarismo da obra podem se recusar a vê-la como uma obra-prima, ou mesmo como um bom romance.  Há em mim prioritariamente um leitor de romances que se satisfez de tal maneira com o exercício narrativo que o saldo ideológico negativo não chega a ser um óbice intransponível, embora incomode. Esse lado de Vargas Llosa sempre será incômodo (mas eu já comecei a lê-lo com essa visão meio fracionada e esquizofrênica, pois foi na época de História de Mayta e Contra vento e maré, livros que arrepiam qualquer pessoa minimamente de esquerda), e agora veio à tona com mais evidência ainda com o Nobel.

`Para mim, o que salva o livro; mais do que isso, transfigura-o, é o que podemos chamar de sabedoria narrativa, e mais precisamente ainda, sabedoria épica. Na épica, desde Homero, e não excluindo o aspecto da significação final que uma obra narrativa possa e deva tomar na mente do leitor, ou quaisquer aspectos transcendentes, é a imanência do mundo representado, a materialidade da sua representação dos elementos contingentes da existência, que avultam para o leitor. Mais até que Os sertões, e na esteira de obras como Ilíada e Guerra e Paz, pode-se dizer do livro de Llosa, o que José Veríssimo afirmou a respeito do livro de Euclides da Cunha: “é ao mesmo tempo o livro de um homem de ciência, um geógrafo, um geólogo, um etnógrafo; de um homem de pensamento, um filósofo, um sociólogo, um historiador; e de um homem de sentimento, um poeta, um romancista, um artista…”

    Poucos romancistas contemporâneos podem se gabar de atingir esse grau de representação do imanente, e o que mais fica na mente do leitor de A GUERRA DO FIM DO MUNDO, caso ele realmente goste de narrativas, é como ele realmente nos faz entrar em Canudos/Belo Monte, além de todos os outros espaços narrativos, e com sua sabedoria épica e com seu foco narrativo multiforme, pode ser através do ponto-de-vista de mente de um dos revoltosos, ou do círculo imediatamente próximo ao Conselheiro, ou  mais afastado, ou então através de um soldado, “um ateu, um franco-maçom, um protestante, um cão” (são variados os anátemas) que ali está para destruir a rebelião e exterminar os  “ingleses”.

Tal sabedoria épico-narrativa faz com que, na primeira parte (constituída por sete capítulos [1]), que causa estranheza ao leitor habitual de Vargas Llosa (ele pensa: será que o autor de Conversa na catedral e outros livros virtuosísticos se rendeu à facilidade narrativa do best seller?), por se constituir de uns tantos sumários narrativos, quase relatórios, de trajetórias de vida que foram transfiguradas pela aparição do Conselheiro. Mergulhando no desenvolvimento da narrativa, que vai se amplificando e complexificando-se, constatamos o acerto dessa técnica: quando acontece a quarta, a apocalíptica de fato, expedição, e acompanhamos “de dentro” a guerra, não somos estorvados por dados biográficos, explicações e  trajetórias lineares. O mundo romanesco já está devidamente “mobiliado”.

Tal sabedoria épico-narrativa, tão poderosa e convincente, também se coloca a serviço da má-fé ideológica (ou, para amenizar as coisas, da sua má consciência, digamos) : pois mais do que discutir e analisar (embora haja discussões e análises ao longo do texto) a loucura do visionarismo utópico do Conselheiro, muito calcado na espiritualidade mais severa e anti-corporal, ele a esvazia de significado, ao imergir Canudos/Belo Monte na mais pura materialidade, num avultamento do corpóreo, do fisiológico, inscrito até no viver a qualquer custo, em qualquer condição, o que transforma boa parte da última centena de páginas do romance uma experiência quase irrespirável, opressiva, acachapante.

Num outro texto de SABRES E UTOPIAS, por ocasião do centenário da destruição de Canudos, em 1997, Llosa caracterizou da seguinte maneira o Conselheiro e sua liderança no sertão:

“O que Antonio Conselheiro proporcionou àqueles milhares de homens e mulheres, talvez os mais desamparados do país, para que chegassem ao ponto de se imolar por ele? Fiquei com essa pergunta em minha mente obsessivamente durante todos aqueles anos, enquanto estudava as interpretações  contraditórias sobre Canudos, sem encontrar uma resposta satisfatória, seja naqueles que o explicam como um caso simples de fanatismo religioso e de barbárie social, seja nos que quiseram ver em Antonio Conselheiro  uma espécie de Lenin do sertão. Mas, depois de refazer, ao longo de várias semanas, em setembro e outubro de 1979, o percurso do Conselheiro pelo interior da Bahia e de Sergipe, ouvindo os filhos e netos dos que chegaram a ouvi-lo, naquela paisagem de uma beleza rude, naquela sociedade rudimentar que parecia não ter mudado quase nada, a resistência de Canudos tornou-se, para mim, menos enigmática.

   O sucesso da pregação do Conselheiro se deveu, seguramente, a que ele transformava em virtuosas, radicalizando-as, as realidades impostas pelas necessidades ao povo que o ouvia. Aquelas vidas precárias, eternamente ameaçadas pela seca e pelos bandidos, dizimadas pela fome, pelas doenças, pela violência, que conviviam com a catástrofe, estavam predispostas a admitir a proximidade do Apocalipse e a acreditar que a vida—a história—era uma simples antessala de outra vida melhor e mais verdadeira: a morte.

     A frugalidade de costumes era obrigatória para o sertanejo. O Conselheiro transformou a maldição em bênção. Assim como dignificava a morte, dignificou a pobreza. Ele, que não podia dar pão aos que o escutavam, soube dar sentido e valor para a fome que padeciam. Seus jejuns, sua simplicidade no vestir e no morar, converteram-se, graças ao Conselheiro, em práticas escolhidas, como garantia da salvação eterna. Como poderiam não entender uma filosofia enraizada na única coisa que possuíam: fome, morte, estoicismo? A missão do Conselheiro foi essencialmente espiritual. No interior do esquema religioso de seu tempo, ele fez seus aqueles temas e convicções que poderiam tornar psicologicamente desejável, para os homens e as mulheres do sertão, um destino do qual não tinham como escapar.

     Por outro lado, o Conselheiro pratica a moral que prega. Quase não come, não tem nada além da túnica e das sandálias que traz no corpo, prefere dormir no chão a dormir em redes ou catres, é casto. Não é de estranhar que, diante das alternativas que tinham, os sertanejos tenham decidido que ele era o porta-voz de Deus, e não certos párocos de ética menos inflexível…”

   Parece uma bela, precisa e justa avaliação do papel do Conselheiro como líder carismático e cuja mensagem basicamente evangelizadora foi tragicamente mal compreendida. Todavia, se prestarmos mais atenção, vemos que é uma descrição parcial e cômoda: trata-se do Conselheiro pré-Canudos.

Essa descrição, que privilegia a autoridade espiritual e moral, não dá conta da experiência de Belo Monte, da sociedade utópica e igualitária, da experiência espontânea de organização popular, que ali se constituiu, e que em última instância, foi uma experiência política, e subversiva, e na qual havia indivíduos com uma noção muito precisa de organização, distribuição e engenharia social (não sou eu que estou dizendo, no próprio romance de Llosa há destaque para o gênio administrativo de Antonio Vilanova); e também dos atos políticos dos conselheiristas (ainda que não-mancomunados com quaisquer partidos monarquistas ou agentes estrangeiros, tal como se alardeou).

O Conselheiro aparece muito pouco em A GUERRA DO FIM DO MUNDO, as cenas em que está presente ou fala alguma coisa, principalmente depois da primeira parte, são muito raras. Na última e asfixiante parte, todo o seu projeto espiritual desmorona, inclusive no seu próprio corpo (ele morre de disenteria aguda) e o corpóreo, o físico, a sobrevivência miúda é que se impõem (exemplos colhidos ao acaso: “A idéia de apodrecer atormenta Teotônio Leal Cavalcanti”; “É uma das vítimas dessa diabólica arma dos canibais que tem destruído a  pele de bom número de patriotas: as formigas caçaremas. No começo, parecia um fenômeno natural, uma fatalidade, que esses ferozes bichinhos, que perfuram a pele, provocam pruridos e uma ardência atroz, saíssem  de seus esconderijos com o fresco da noite, para deleitar-se sobre os adormecidos. Descobriu-se, porém, que esses formigueiros, construções esféricas de bairro, são os jagunços que trazem até o acampamento, e aqui os arrebentam, para que suas hordas vorazes façam estragos entre os patriotas que descansam…”;”Pois às vezes era assim que devolviam os jagunços à prisão, sem olhos, sem língua, sem sexo, pensando que esse espetáculo destruiria o moral dos que ainda resistiam”; “Tanta carne humana, tanto banquete de cadáver, os meses do cerco, tudo isso fez os cães ferozes, iguais a lobos e hienas. Surgiram matilhas de carniceiros, tanto em Canudos como, sem dúvida, no acampamento dos soldados, em busca de alimento humano”;”Quanto dura esse deslocamento às cegas, afogando-se, esbarrando em paredes, paus, gente que lhe impede o caminho e o empurra  a um lado, a outro lado, para a frente, pelo estreito, sinuoso corredor de terra no qual, de quando em quando, ajudam-no a subir por um poço escavado no interior de um casa para logo voltar a sepultá-lo na terra e a arrastá-lo?.. e espantando-se de que seu corpo o obedeça e não se desmanche em pedaços como, parece, pode acontecer a cada instante”[2];para não falar no medo do jornalista míope do Anão, de morrerem ali, em Canudos, onde foram parar devido ás peripécias aventurescas da narrativa), mas nada tão pungente quanto a visão dos últimos momentos do Conselheiro: “Então, o barulhinho que se desprende  do catre, que escapa debaixo do Conselheiro… É um barulhinho que não agita o corpo do santo, mas já a Madre Maria Quadrado e as beatas correm á sua volta, para levantar seu hábito, limpá-lo, recolher humildemente isso que—pensa o Beatinho—não é excremento, porque o excremento é sujo e impuro, e nada que provenha dele pode ser nem sujo nem impuro. E podia ser suja, impura, essa aguinha que mana sem parar, faz seis, sete, dez dias, desse corpo lacerado? Terá, talvez, nestes dias, comido qualquer coisa que obrigue seu organismo a evacuar as impurezas?… Havia algo misterioso e sagrado nessas ventosidades súbitas, depuradas, prolongadas, nessas acometidas que pareciam não terminar nunca, acompanhadas sempre da emissão dessa aguinha.”

Se o Conselheiro, embora figura-chave, mal aparece no livro, Euclides da Cunha está ausente. Seria interessante indagar por que, ainda mais que Llosa criou a figura do jornalista míope, que não ganha nome ao longo da narrativa, uma figura grotesco-patética. Ele é um dos três “aleijões” ligados à transmissão verbal de fatos e histórias, que curiosamente aparecem com destaque no livro (diga-se de passagem, a má consciência com relação a ser um escritor é constantemente tematizada por Vargas Llosa, basta lembrar da frustrada carreira de Zavalita, em Conversa na Catedral, a louca trajetória de Pedro Camacho, em Tia Julia e o escrevinhador, e até no já tardio Travessuras da menina má temos o tradutor que é um escritor enrustido, na retranca). Utilizo o termo aleijões, que parece pejorativo, mas é dessa forma que os próprios personagens se vêem, e o restante também: o jornalista míope é todo desconjuntado,mal acabado, e é o mais próximo do “civilizado”, da cultura letrada oficial, é o ser da palavra que vem de fora do sertão, e no meio da batalha tem seus óculos quebrados, e acaba vivendo meses em Canudos sem enxergar nada direito, com lentes em caquinhos formando um quebra-cabeça sem nitidez, numa metonímia perfeita da sua cegueira ideológica; o Leão de Natuba pertence ao círculo mais próximo ao Conselheiro, e tendo aprendido a ler quase sobrenaturalmente, é quem lhe registra todas as palavras, é o escriba de Canudos, e é um indivíduo deformado, que anda como um animal, utilizando pés e mãos (seu maior mal, no entanto, é não ter fé); e, por fim, temos o Anão, que pertencia a um circo que foi se deteriorando e perdendo seus integrantes, e no qual sua função era contar as histórias de cavalaria que inundam o sertão; portanto, é o representante da oralidade, do narrador popular e iletrado. O jornalista míope e o Anão acabam dependentes de uma mulher, Jurema, que os protege em Canudos e se torna mulher-mãe (mesmo quando passa a ter relações sexuais com o jornalista míope), mais forte que eles, ambos desamparados.

A cada um desses três seres da palavra mal formados e incompletos corresponde um visionário, um fanático, um “louco” : ao Leão de Natuba corresponde o messiânico Conselheiro, ao jornalista míope o coronel Moreira César, com seu fanatismo republicano, seu positivismo jacobino, sua crença de que só uma ditadura militar consertaria o país, e ao Anão corresponde o escocês Galileu Gall, adepto da frenologia, tomado pela Revolução, pela Razão histórica, pela racionalidade progressista, e que vê em Canudos um movimento revolucionário mal orientado, por isso tem a obsessão de chegar até lá (o que gerará alguns dos incidentes romanescos mais interessantes do livro, e acabará ligando o Anão a Jurema e o jornalista míope), o qual, aliás, também pertence ao universo de seres meio bizarros ligados à palavra,  pois também escreve.

Os dois trios, Conselheiro-Moreira César-Galileu Gall e Leão de Natuba-jornalista míope-Anão representam os extremos, o absurdo configurado pelo episódio de Canudos. Como contraponto, há a figura lúcida e equilibrada do Barão de Canabrava, dono da fazenda de Canudos invadida pelos conselheiristas, e que perdeu prestígio político com a República, sendo, por isso, suspeito de fomentador da revolta sertaneja, mancomunado com os ingleses. Seus colóquios tanto com Galileu Gall quanto com o jornalista míope, mostra que é o único a manter uma posição não-utópica (que, como vimos, levará sempre a uma hecatombe: e de fato todos os três visionários morrem), apesar de se confessar fascinado por esses seres quiméricos. Por exemplo, Gall, ao ouvir suas idéias: “…voltou a examinar Gall como um entomólogo fascinado por uma espécie rara”. Ele o compara ao coronel Moreira César: “Raça estranha, a dos idealistas. Não conhecia um só até agora; em poucos dias, tratei com dois. O outro é o coronel Moreira César. Sim, ele também é um sonhador. Mesmo que os sonhos dele não coincidam com os seus.” Diante da teimosia de Gall em chegar a Canudos, o Barão constata que o mundo parece vítima de “um mal entendido irremediável”: “Tudo o que deseja é morrer como um cão entre pessoas que não o entendem e não entende. Pensa que vai morrer como um herói e, na verdade, morrerá como mais  teme, como um idiota.”

Da maneira como delineia a figura do Barão de Canabrava, temos a impressão de que Vargas Llosa é até monarquista: temos um cavalheiro, um homem culto, interessante, elegante, nada truculento, como os coronéis nordestinos que o Modernismo nos acostumou, um latifundiário cujos jagunços são educados, ordeiros e pacíficos. Dá para acreditar? Sua amargura maior é o fato de que a mulher tenha sido tão afetada pelo episódio de Canudos (uma outra fazenda foi queimada) que tornou-se desequilibrada: “Tinha sido Canudos, essa história estúpida, incompreensível, de gente obstinada, cega, de fanatismos antagônicos, a culpada pelo acontecido a Estela”.

Há muitos episódios e personagens pungentes em A GUERRA DO FIM DO MUNDO, mas nenhum deles desperta nossa simpatia como o Barão, por ser mais nosso contemporâneo por assim dizer. Os demais são interessantes na medida da sua loucura, do seu arcaísmo, do seu anacronismo, do seu exotismo, ele é próximo de nós. Mas tudo clama contra essa identificação, já que ele é justamente um dos pilares do atraso brasileiro que persiste até hoje: o latifundiário, ’dono” do estado. É como se Vargas Llosa nos impingisse um José Sarney como a carta da lucidez e da ponderação no seu baralho de caos e destruição. Daí porque considero reacionário esse livro tão belo.

(novembro de 2010)


[1] A GUERRA DO FIM DO MUNDO é dividido em quatro partes, grosso modo:

– a primeira, que apresenta os principais personagens, com sete capítulos;

-a segunda,  muito curta (menos de 15 páginas), que apresenta um panorama da política, e uma paródia da maneira como os jornais iriam se ocupar do fenômeno de Canudos,  em três capítulos;

– a terceira,  que focaliza a desastrosa expedição de Moreira César, com sete capítulos;

– a quarta, com a expedição final e arrasadora, e os últimos momentos de Canudos, com seis capítulos. A estrutura dessa quarta parte lembra outros romances de Vargas Llosa, porque seu eixo é uma conversa entre o jornalista míope e o Barão de Canabrava.

[2] Poderia multiplicar á exaustão esses exemplos em que se misturam os horrores e selvageria da guerra (de ambos os lados) com minúcias fisiológicas  extremas. Todos são reduzidos ao corpo, produza ele alegria, prazer, angústia, terror, dor, putrefação, excrescências e até lampejo de inteligência e espiritualidade. No final, essa visão criatural e corpórea atinge o próprio Barão de Canabrava, tão distante—geograficamente—dos eventos, mas que é arrastado para eles pelo colóquio com o jornalista míope.

Nota- o termo criatural é utilizado por Erich Auerbach em Mimesis, contraposto ao figural; este último, seria uma projeção transcendente, enquanto o outro nos restituía ao invólucro material destinado a morrer e a apodrecer.

VARGAS LLOSA ENTRE A VERDADE DA MENTIRA E A MENTIRA DA VERDADE

TRAVESSURAS DOS MENINOS MAUS

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos, em 12 de outubro de 2010)

Como admirador de longa data de Mario Vargas Llosa, não só o maior romancista vivo da América Latina como também um dos maiores escritores do mundo, é claro que fiquei contente com o anúncio do Nobel.

Menos contente me deixou saber que essa esperada premiação vem sendo saudada, inescrupulosamente, mais como uma homenagem ao seu pensamento político, às suas posturas ideológicas [1], do que ao seu gênio narrativo, um triunfo da arte da ficção, que conseguiu tantas vezes satisfazer o  “apetite pela totalidade” que ele identificou como vocação maior do romance.

Paradoxalmente, porém, comentarei aqui o mais recente dos relançamentos que a Alfaguara vem promovendo da sua obra ,  e não se trata de nenhum dos apaixonantes romances de fôlego a que ele nos acostumou (A cidade e os cachorros, A casa verde, Conversa na catedral, Pantaléon e as visitadoras, Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, História de Mayta, O falador, Lituma nos Andes, Os cadernos de don Rigoberto, O paraíso na outra esquina), com a exceção de três pequenos romances  (Quem matou Palomino Molero? e Elogio da madrasta são dois deles): a junção no mesmo volume de seu primeiro livro publicado, a coletânea Os chefes, de 1959, e o primeiro daqueles três romancitos, Os filhotes, de 1967, talvez sua experiência mais virtuosística e sensacional como escritor[2].

A Academia Sueca justificou a escolha de Llosa por “sua cartografia das estruturas do poder e mordazes imagens da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo”. A leitura do conto-título de Os chefes confirmará isso de imediato: ao narrar a insubordinação dos estudantes de um colégio contra o novo regime de provas a que serão submetidos, enfrentando um diretor tirânico e truculento, o jovem escritor de 23 anos mostrava mais a incipiente luta de poder e supremacia entre os próprios rebelados adolescentes, que não recuam diante da violência, da criação de facções e da opressão para serem líderes.

Códigos machistas brutais (ou sutis) e ritos de passagem perversos dominam as seis histórias de Os chefes (e também Os filhotes, publicado oito anos depois). E  o leitor vargallosiano perceberá o embrião de várias experiências futuras: o mundo do areal, de Piúra, de A casa verde (infelizmente, ainda um seus dos livros menos populares, e um dos mais brilhantes) aparece em “Um visitante, no qual nasce para a literatura um personagem constante na sua produção posterior, o cabo Lituma (de A casa verde, Quem matou Palomino Molero? e Lituma nos Andes), que vagará pela diversidade do Peru e suas fraturas sociais; no melhor desses textos iniciais, Domingo, vemos nascer a evocação do bairro de Miraflores, em Lima, com sua rapaziada tornando-se adolescente e depois alcançando a idade adulta, que fará parte de A cidade e os cachorros, Conversa na catedral, Tia Júlia e o escrevinhador e até mesmo do tardio (é de 2006) e a meu ver muito fraco e diluído com relação aos demais As travessuras da menina má (embora não tão fraco e diluído quanto A festa do bode).

O conto Domingo é excelente, contudo Llosa desenvolve o assunto vertiginosamente, e com uma crueldade inaudita em Os filhotes, no qual usa  uma forma insólita (é preciso ler para crer) de narração, uma espécie de voz coral, que passa da terceira para a primeira pessoa do plural, e em que parece que o bairro está tomando a palavra: um garotinho tem o pênis mutilado por um cachorro, e como ao longo de sua formação esse fato o tornará um excluído: sendo o mais forte, o mais atlético, o mais rico da rapaziada que anda junto em Miraflores, falta-lhe no entanto o atributo que a nossa sociedade convencionou como o símbolo da presença masculina (tanto que seu apelido será Piroquinha), e todos os seus esforços revelam uma caricatura do machão, do “chefe”: “Quando Lalo se casou com Chabuca, no mesmo ano em que Mañuco e Chingolo se formavam em engenharia, Cuéllar [o Piroquinha] já sofrera vários acidentes e seu Volvo vivia amassado, arranhado, com os faróis rachados. Você vai acabar morrendo, meu coração, não faça loucuras e o velho já era o cúmulo, rapaz, até quando ia continuar assim, outra gracinha dessas e nunca mais lhe daria um centavo, que repensasse e se corrigisse, se não for por você faça isso por sua mãe, ele falava pelo seu próprio bem. E nós: você já está grandinho para andar por aí com essa molecada, Piroquinha. Porque agora dava para isso. Passava as noites jogando com os notívagos do El Chasqui ou do D´Onofrio, ou conversando e bebendo com os viados ou os mafiosos do Haiti (quando será que trabalha, dizíamos, ou será mentira que trabalha?), mas de dia vagabundeava de um canto de Miraflores para o outro, e era visto nas esquinas, vestido como James Dean (jeans justos, camisa colorida aberta do pescoço até  umbigo, uma correntinha de ouro dançando no peito e se enredando entre os pelinhos, mocassins brancos), jogando pião com os moleques, batendo bola numa garagem, tocando gaita. Seu carro andava sempre cheio de roqueiros de treze, catorze, quinze anos e, aos domingos aparecia no Waikiki… com bandos de guris, olhem, olhem, está ali, que  bonitinho, e que bem acompanhado, que jovial: subia um por um na sua prancha havaiana e ia com eles para lá da arrebentação. Ensinava-os a dirigir o Volvo e se exibia para eles fazendo curvas em duas rodas no Malecón e os levava ao estádio, ao catch, aos touros, às corridas, ao boliche, ao boxe. Pronto, dizíamos, era fatal: viado. E também: mas o que mais lhe restava, era compreensível, desculpável só que, irmão, está cada dia mais difícil andar com ele, na rua todos o olhavam, assobiavam e apontavam…”

     Enfim, uma imagem pra lá de mordaz, uma cartografia definitiva da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo numa estrutura de poder que chega à mais recôndita intimidade.


 

[1]  Não consigo ter simpatia ou admiração pelo lado “pensador político” de Vargas Llosa (embora o considere um formidável crítico literário), e a sua campanha para presidente do Peru já foi um episódio lamentável, pelas bandeiras neoliberais que defendia. Talvez ele tenha passado muito tempo da sua vida em seminários, em congressos, em palestras, cursos em Princeton e quejandos, num meio desodorizado e desidratado das convulsões sociais, e perdeu a noção da realidade que só reaparece quando ele escreve ficção, a verdade da mentira (apesar de que, pelo andar da carruagem, pelo que constatamos nos seus últimos livros, até esse dom está meio bruxuleante).

O que mais me impressiona em Vargas Llosa é sua aceitação pacífica da mentira da verdade, tal como aparece num hilariante texto que escreveu aqui no Brasil. Será cinismo ou necessidade de acreditar? Será que ele acha mesmo que há algo como uma “imprensa livre”, desinteressada e objetiva? Que nós vivemos num “mundo livre” , em que as notícias são veiculadas de forma realmente democrática, como se não vivêssemos numa civilização dominada pelo hegemonia do mercado. Vejamos:

“ A impressão que me fica de uma semana intensa passada nesse país, entre o Rio de Janeiro e São Paulo (com direito a uma rápida escapada até o pequeno paraíso de Búzios), durante a qual,
fiel à minha vocação de leitor inveterado de jornais, tomei café da manhã todos os dias mergulhado nas abundantes páginas de “O Globo”, “O Estado de S.Paulo” e “Folha de S.Paulo”, os três principais jornais do país. Excelentes, os três. Bem escritos e otimamente diagramados, com rica informação local e internacional, bons colunistas, pouco sensacionalismo e quase nenhuma fofocagem
”. Uau, Deus é brasileiro mesmo, só aqui encontramos tais jornais desinteressados, pouco sensacionalistas, preocupados unicamente em dar notícias da forma mais imparcial possível (este trecho, assim como os próximos,  foi tirado de um artigo que ele escreveu em 14 de  junho de 2007). E aqui nem estou discutindo a qualidade dos três jornais citados (que, dentro do panorama disponível, ainda são o que melhor temos).

Mas o aspecto mais hilário e grotesco ainda está por vir:

“O último número da revista “Veja” — com uma tiragem de um milhão e duzentos mil exemplares por semana — contém uma excelente reportagem investigativa sobre esse “socialismo do século XXI” inventado pelo comandante Hugo Chávez e que ele, a golpe de petrodólares, empenha-se em disseminar por toda a região. O texto, assinado pelo jornalista Duda Teixeira, que averiguou os dados in loco, é preciso. Alguns exemplos ali expostos demonstram a velocidade e a obscenidade com que os colaboradores políticos mais próximos do caudilho-paraquedista enriqueceram no poder

Vejam só, há uma pessoa que acredita na VEJA, que não a toma pelo que é: uma revista desavergonhada e afrontosamente tendenciosa, parcial, e sobretudo desonesta, sob o  ponto de vista intelectual,  nos meios que emprega para subliminarmente passar essa tendenciosidade e essa parcialidade (basta lembrar do desprezível necrológio, mínimo em termos de espaço–e qualquer leitor de outro veículo da imprensa lembrará do espaço considerável que foi ocupado por essa morte– e preocupado em diminui-lo como homem militante sem nem a contrapartida de uma visão mais acurada da sua obra,  de José Saramago). Como um escritor de romances que desvendaram mecanismos de poder e de manipulação da verdade pode aceitar assim sem mais nem menos o teor de uma “reportagem investigativa” da VEJA?  Por puro masoquismo, só mais um trecho:

“Apesar da pavorosa realidade de corrupção, favorecimentos pessoais, demagogia e autoritarismo que relata, a reportagem da “Veja” não é totalmente pessimista. Por outro lado, confirma algo de que eu já suspeitava depois de ver a maneira corajosa com que a oposição venezuelana se mobilizou contra o fechamento da Radio Caracas Televisión: que, dessa vez, o
caudilho venezuelano deu um passo em falso e o povo venezuelano começou a abrir os olhos para o monstro que criou ao depositar sua confiança e seus votos em um demagogo que pode levar o país à ruína e a uma ditadura totalitária. As pesquisas feitas pelo Instituto Hinterlaces, de Caracas, e publicadas pela “Veja”, falam por si: 78% dos venezuelanos desaprovam o antiamericanismo de Chávez; 85% condenam o financiamento político a outros países; 86% não querem um socialismo à cubana; e 86% são contra o confisco de propriedades privadas. Mais: 40% dos venezuelanos que votaram em Chávez nas eleições de dezembro passado declaram que hoje votariam contra ele.”

    Chego a desgostar da premiação de Llosa após ler um texto como este. Aliás, a própria VEJA  não perdeu tempo e na sua paupérrima matéria (em que se enfatiza mais a “lucidez” do conservadorismo adotado por ele do que a grandeza de sua obra) sobre o Nobel do nada lúcido peruano, proclamou: Llosa lê a VEJA!

[2] Os dois já haviam sido lançados num mesmo volume pela Nova Fronteira, anteriormente, e acho que isso atrapalha um pouco a reputação literária de Os filhotes. Prefiro a solução da Companhia das Letras que publicou o texto sozinho, em ótima tradução de Sérgio Molina, e marcando sua relevância no conjunto da obra, mesmo tendo sido publicado entre dois monstros, A casa verde & Conversa na Catedral.

03/10/2011

O NOBEL DO NÔMADE

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Parece que de meio século para cá a literatura francesa só entra nos cálculos para o Nobel de vinte em vinte anos. Pelo menos quando escolhem um francês, acertam em cheio. Em 1964, Jean-Paul Sartre teve a chance de esnobar sua premiação e utilizá-la como plataforma para declarações políticas bombásticas (e isso no ano em que escrevia um de seus textos supremos, As Palavras, na qual tentava exorcizar e liquidar sua “neurose da literatura”). Em 1985 (portanto, vinte e um anos depois), o mundo descobria maravilhado um autor original, desconcertante, detentor do segredo de uma maneira de narrar extremamente pessoal: o genial Claude Simon, que tem pelo menos dois “romances” extraordinários publicados no Brasil: A Estrada de Flandres e As Geórgicas (infelizmente, não traduziram o fascinante Histoire).

Agora, vinte e três anos passados (se não se contar a premiação, em 2000, do chinês naturalizado Gao Xingjian), chega a vez de Jean-Marie Gustave Le Clézio. Nome chiquíssimo, que podia ser de grife de alta-costura. Não é. J.M.G. Le Clézio, como eu já afirmei na semana passada  (VER ABAIXO) com relação a ele e a Patrick Modiano (o qual, tenho quase certeza, utilizou o colega como modelo para um dos personagens de Rue des Boutiques Obscures; os dados familiares são muito parecidos), é um dos poucos sobreviventes da irrelevância que faz da França atualmente uma “waste land” em termos literários. Tanto que durante muitos anos um autor cotadíssimo para o prêmio, considerado algo assim como o “maior autor francês da atualidade”, era o medíocre Michel Tournier, que em obras mais recentes revelou a sua verdadeira ambição oculta (e alcance de vôo estético): ser Paulo Coelho versão Astérix.

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No meu artigo da semana passada também chamei Le Clézio de “intrigante”.  É lógico que desde que soube do prêmio não tive chance de reler nenhuma de suas obras (devo informar que só conheço três: Deserto, À Procura do Ouro e A Quarentena; se a vida fosse ideal, teríamos tempo de acompanhar integralmente a carreira dos escritores que admiramos, contudo, como é tudo que ela não é, nunca dá para ler tudo o que queremos; há anos tento reservar tempo para conhecer o primeiro e consagrado romance dele, Le Procès-Verbal, e não consigo sequer ler as duas últimas traduções que fizeram aqui no Brasil: Peixe Dourado e O Africano!), mas andei pensando nesse termo que escolhi. Intrigante. Acho que deveria dizer “sortudo”.

Há escritores que além do talento e do fôlego narrativo, além da finura e virtuosismo estilísticos, ainda por cima têm sorte. Le Clézio é um grande escritor, disso não há dúvida, só que ainda teve atrás de si uma família romanesca, que emigrou da Bretanha para a Ilha Maurício (e depois refez o caminho inverso, processo reconstruído e desconstruído pelo autor de Deserto). E não só isso: ao começar a escrever, no início dos anos 60, ele pegou toda a onda final do colonialismo francês (e da Europa em geral) e aplicou a esse cenário seu temperamento muito peculiar de nômade introspectivo, fazendo da viagem um mote narrativo e das “paradas obrigatórias” (como no maravilhoso capítulo de À Procura do Ouro em que “prisioneiro do mar”, retido na enseada dos Anglais, o narrador revê a configuração da sua vida e jornada) mergulhos em profundidade na condição humana (vista sob uma lente mais ampla e minuciosa do que o tradicional ponto de vista eurocêntrico). Ainda que eu considere Deserto e A Quarentena dois dos melhores e mais requintados romances das últimas décadas, e literariamente superiores, confesso que minha preferência recai sobre À Procura do Ouro por duas razões principais, embora nem um pouco racionais. Em primeiro lugar, assim como uma parte da obra de Robert Louis Stevenson (A Ilha do Tesouro e as aventuras de David Balfour, como Raptado), o livro me faz voltar à infância, quando eu não queria literatura, queria aventura, e agora que a aventura se foi (pelo menos da maneira como eu a idealizava), ficou a literatura; então, que elas pelo menos coincidam uma vez ou outra, que um livro mostre uma caça ao tesouro em cenários variados e “exóticos”, enquanto o narrador se auto-esclarece tanto quanto o Marcel de Em Busca do Tempo Perdido ou o Jim de Lord Jim ou o Riobaldo de Grande Sertão: Veredas. Em segundo lugar, é isso aí: por alguma razão do destino, o francês Le Clézio realizou a mais estranha (e aí sim posso recolocar o adjetivo “intrigante”) simbiose concebível: entre Conrad e Proust, a aventura se tornando uma constituição da subjetividade, da memória e da ressignificação dos seres e das coisas, Não me lembro de nenhum caso parecido, ou no qual isso se dê de modo tão natural.

Outro grande escritor contemporâneo, o espanhol Juan Goytisolo, disse: A intimidade e a distância criam uma situação privilegiada. Ambas são necessárias”. Jacques Derrida convidava os leitores a “pensar em viagem. Devo essas duas citações a Zygmunt Bauman que, no final de Modernidade Líquida afirmava que o exílio (não necessariamente político) faz bem ao escritor. Intimidade com a língua, distância dos modos usuais e automáticos. E as seguintes palavras servem como uma luva a J.M.G. Le Clézio, esse escritor do nomadismo e da viagem incessante: “Em vez de ser sem pátria, o segredo é estar à vontade em muitas pátrias, porém estar em cada uma ao mesmo tempo dentro e fora, combinar a intimidade com a visão crítica de um estranho, envolvimento com distância, o que as pessoas sedentárias  dificilmente aprendem… A liberdade que vem dessa condição (que é essa condição) revela que as verdades caseiras são feitas e desfeitas pelo homem e que a língua materna é um fluxo infindável de comunicação entre as gerações e um tesouro de mensagens sempre mais ricas que quaisquer de suas leituras e sempre à espera de serem novamente reveladas”.

Em tempo: me parece que o Nobel está se revelando um prêmio mais vivo do que se podia esperar.

resenha publicada originalmente em 11 de outubro de 2008, em A TRIBUNA de Santos

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E O NOBEL VAI PARA…

Com o tardio e justíssimo prêmio para Doris Lessing no ano passado, e mais três autores de língua inglesa laureados nesta última década (V. S. Naipaul, J. M. Coetzee e Harold Pinter), é melhor esquecê-la nas apostas para o Nobel de 2008 (a não ser que haja uma surpresa), o que significa excluir uma série de grandes escritores, inclusive os dois autores vivos que, a meu ver, são os que mais merecem o prêmio: o norte-americano Don DeLillo (o que existe de melhor que Mao II, Submundo e Cosmópolis?) e o anglo-indiano Salman Rushdie (é difícil dizer qual a sua grande obra: Os Filhos da Meia-Noite, O Último Suspiro do Mouro, Os Versos Satânicos, Fúria).

Então, nada mais natural do que ele ir para o italiano Umberto Eco, não só um prodigioso intelectual, como ainda autor de uma já considerável obra ficcional, entre eles o clássico O Nome da Rosa. Nessa linha, aliás, a Itália é imbatível em candidatos, basta lembrar de Carlo Ginzburg (O Queijo e Os Vermes), Pietro Citati (autor de fascinantes biografias, entre elas as de Proust e Goethe) e Roberto Calasso (Ka e K.), os quais conciliam o talento narrativo com o rigor como pensadores.

Além de Eco, outro vencedor natural deveria ser o peruano Mario Vargas Llosa (Conversa na Catedral, A Guerra do Fim do Mundo, Lituma nos Andes, só para citar uns poucos títulos de uma produção com poucos escorregões, o que não se pode dizer da carreira política de Llosa), mas a Argentina conta com o venerável, grandioso e quase centenário (daqui a três anos) Ernesto Sabato (e como esquecer Sobre Heróis e Tumbas, O Túnel e Abadón, O Exterminador ?); e o Uruguai e o México têm os octogenários Mario Benedetti (A Trégua, A Borra do Café) e Carlos Fuentes (Aura, A Morte de Artemio Cruz, Cristóvão Nonato, Gringo Velho). Na Argentina, dois dos melhores autores contemporâneos pertencem a gerações mais recentes, Ricardo Piglia (A Cidade Ausente, Respiração Artificial) e Alan Pauls (fiquei apaixonado por O Passado e agora estou apaixonado por Wasabi e História do Pranto).

Aqui também temos os nossos veneráveis e ótimos candidatos: Dalton Trevisan (que título escolher do nosso gênio maior: Cemitério de Elefantes, A Trombeta do Anjo Vingador, O Vampiro de Curitiba, A Polaquinha?); Autran Dourado (O Risco do Bordado, Ópera dos Mortos, Novelário de Donga Novais, Armas & Corações), Adélia Prado (Bagagem, O Coração Disparado, O Pelicano). Em português também, como esquecer o moçambicano Mia Couto e suas obras-primas Terra Sonâmbula e A Varanda do Frangipani?

Voltando à Europa, o espanhol Jorge Semprún seria outro excelente candidato ao prêmio (ele ainda teve o requinte de escrever em outra língua, o francês), por livros como A Grande Viagem, A Segunda Morte de Ramón Mercader, Um Belo Domingo. Seu maior “rival”, por assim dizer, é o mestre da ironia Juan Goytisolo, autor de A Saga dos Marx.

Na França, o maior dos candidatos é um expatriado, o tcheco Milan Kundera, que passou a escrever na língua do seu país de adoção (A Identidade, A Ignorância), mas já era mais conhecido pelas traduções francesas das sua extraordinária obra anterior (A Brincadeira, A Valsa dos Adeuses, O Livro do Riso e do Esquecimento, Risíveis Amores, A Insustentável Leveza do Ser). É um dos que eu ficaria particularmente feliz se ganhasse. Entre os “nativos” (palavra cada vez mais problemática), por que não Patrick Modiano (Rue de Boutiques Obuscures, Ronda da Noite) ou o intrigante J. M. G. Le Clézio (Deserto, À Procura do Ouro, A Quarentena), ambos sobreviventes honrosos do apocalipse de insignificância e irrelevância daquela que foi a pátria oficial da literatura?

Na Alemanha, o primeiro nome que vem à cabeça é o de Christa Wolf (Kassandra, Em Busca de Christa T.), embora o desafiador Tankred Dorst (Merlim) e Peter Handke (O Medo do Goleiro Diante do Pênalti) não possam ser esquecidos. Como não se pode esquecer o  holandês Cees Nooteboom (Rituais, A Seguinte História:)

Três nomes fortes (e que estão entre os meus preferidos) se encontram mais à margem do Ocidente: o albanês Ismail Kadaré (Dossiê H, Abril Despedaçado, O Palácio dos Sonhos); o israelense Amós Oz (do soberbo A Caixa Preta e do recém-lançado Rimas de Vida e Morte), ambos fantásticos romancistas; e o genial servo-croata Milorad Pávitch (O Dicionário Kazar, Paisagem Pintada com Chá).

Na verdade, na verdade, NA VERDADE, o que eu gostaria mesmo é que o Nobel abrisse uma exceção e se fizesse póstumo para homenagear a vida breve, mas a longa arte do chileno Roberto Bolaño, que morreu em 2003, com 50 anos apenas, e cuja obra (especialmente Detetives Selvagens, só que temos também A Pista do Gelo, Putas Assassinas e a sua poesia, a sua poesia…) está mais do que viva, e agora é que estamos sentindo seu impacto. O mesmo se poderia dizer de outro morto precoce (2001), dono de uma obra seminal e cada vez mais importante: o alemão W.G. Sebald (Os Anéis de Saturno, Austerlitz).

(resenha publicada originalmente em 4 de outubro de 2008, em A TRIBUNA de Santos)

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02/10/2011

Destaque do Blog: O COMPROMISSO, de Herta Müller

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A CLASSE OPERÁRIA NÃO VAI AO PARAÍSO

Um trajeto de bonde constitui a espinha dorsal de O Compromisso: a narradora, que vive sob o regime comunista de Ceausesco, tem de comparecer, nesse dia, a mais um interrogatório (e pode ser presa ou torturada, quem sabe?), pois vive em “estado de convocação” desde que, operária de uma fábrica, tentou contrabandear bilhetes em ternos de linho que seriam exportados: “… eu decidira me casar no lado ocidental, e em cada um dos bolsinhos traseiros enfiei um bilhetinho: Case comigo, ti aspetto, assinado com meu nome e meu endereço. O primeiro italiano que respondesse seria aceito. Meus bilhetes foram julgados prostituição em local de trabalho…”

No trajeto do bonde, além de incidentes, impressões e apreensões (ela leva até pasta de dente e escova para o caso de não voltar para casa), além de uma surpresa final, temos acesso às suas lembranças: o primeiro casamento, o sogro que fora responsável pela deportação dos avós dela para um campo de concentração, a tentativa do marido de matá-la (por não conseguir bater nela), o fuzilamento da melhor amiga, quando tentava escapar do país clandestinamente com o amante, o segundo casamento com um alcoólatra, a sensação de estar sendo vigiada por estranhos e pelos vizinhos…

Esse “estado de convocação” em que vive a personagem de Herta Müller, mobilizando toda a sua energia, fez com que muita gente a comparasse aos personagens de Kafka (por exemplo, o herói de O Processo), apesar das lentes da escritora romena naturalizada alemã que conquistou o Nobel de literatura de 2009 (exatamente cem anos depois da primeira mulher conquistar o prêmio, a sueca Selma Lagerlof) estarem voltadas para a classe operária e o malogro da promessa de paraíso do comunismo. Porém, nem era preciso sair da Romênia para encontrar um ilustre antecessor: mais forte ainda do que a denúncia de um regime opressor e aterrorizante, O Compromisso faz jus à obra do grande Ionesco (cujo centenário de nascimento também é comemorado este ano), que com seu teatro do absurdo (A Cantora Careca, Os Rinocerontes) desconstruiu o automatismo do dia-a-dia, desmascarando os falsos sentimentalismos e a incomunicabilidade básica em torno da qual nos movimentamos e fabricamos nossas identidades ou máscaras.

Impregnado, além disso, da linguagem dos sonhos e da poesia, com um quê do surrealismo (a amiga da narradora, Lili, é chamada de “Cereja” pelo amante; quando ela morre, dilacerada por cães, as cerejas vêm à mente da narradora, que depois,no bonde, vê uma sacola que parece ensanguentada e da qual a passageira tira… cerejas para comer no percurso), o concentrado e espiralado texto de Herta Müller nos proporciona uma experiência inquietante: as várias associações de imagens com que a narradora repassa sua experiência, a sua relação com os objetos e com os fenômenos da natureza, transmitem um dos aspectos mais impenetráveis da experiência individual, mesmo com todas as referências específicas de lugar, de época, de geração, passando em revista relações de amizade,de parentesco, de trabalho, de vizinhança e conjugais: uma espécie de linguagem cifrada e intransferível, que permanece “estranha” e alheia. Nós acompanhamos o trajeto de bonde da narradora, compartilhamos seus incidentes, suas impressões, suas apreensões e lembranças enoveladas, mas sempre temos a sensação de uma barreira, de que estamos diante de um Outro. Herta Müller não nos oferece a fácil identificação, a empatia epidérmica por uma vítima de uma ditadura. Por isso, seu romance é curto, porém árduo e intenso, já que nos transmite uma sensação de enclausuramento que vai além do circunstancial político e do ideológico (que mal comparece aqui de forma explícita), e vem de um mal estar essencial, da claustrofobia existencial que já assolava Madame Bovary.

Uma passagem reveladora: quando revela ao sogro (que, de resto, é um salafrário, e que, entre outras coisas, não se furta de se oferecer como substituto do marido quando este vai cumprir serviço militar) que não gosta de dançar, este lhe diz: “… faz parte de sua cultura. Nos Cárpatos há danças diferentes das que há no campo, e as do mar são diferentes das do Danúbio, e nas cidades se dança de um jeito diferente de como se dança no campo. A gente aprende a dançar  quando é pequeno, com os pais e os parentes. Nisso sua família foi negligente… você perdeu algo importante”. Ela replica: “… minha família era mais melancólica do que negligente; depois do campo de concentração, ninguém era muito alegre na minha casa”. E ele: Acredite, sem campo de concentração eles também não seriam felizes”.

(resenha publicada em 13 de outubro de 2009,de forma ligeiramente condensada,  em A TRIBUNA de Santos,  com o título “Nobel 2009 revela autora de talento”)

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ANOTAÇÕES DE LEITURA (08.10.09)

“Também conheço os bondes pelo lado de dentro.Quem embarca a essa hora usa mangas curtas, carrega sua bolsa de couro gasta e  tem a pele arrepiada de frio nos braços. Cada um que entra é analisado com olhares lentos. Estamos entre nós, a classe operária. Gente melhor de via vai de carro até o trabalho. E, entre nós, comparamos: esse tem vida um pouco melhor; aquele, pior. Temos pouco tempo, logo chegam as fábricas, e os embarcados vão descendo. Sapatos lustrados ou poeirentos, saltos retos ou gastos, colarinho bem passado ou enrugado, unhas, pulseiras de relógio, fivelas de cinto, repartição de cabelo, tudo provoca inveja ou desdém. Nada pode se ocultar de olhares sonolentos, nem mesmo na multidão. A classe operária procura diferenças, não há igualdade pela manhã…”

“Olhe para nós, diz Paul, e pare de falar em felicidade.”

“Há muito que dizer sobre a vida, mas essencialmente nada sobre a felicdade, porque assim que a gente abe a boca, ela some. Nem mesmo a felicidade perdida suporta ser falada. As coisas a queme habituei têm a ver com a passagem de um dia a outro, não com felicidade.”

       A Romênia nos deu o mito de Drácula, essa escuridão da não-vida sugando ao longo dos séculos a vida, essa sombra de imortalidade. Também nos deu o teatro do absurdo de Ionesco, essa paciente desconstrução do que é lógico, racional através do que o lógico e racional têm de ilógico e irracional. Pelo trechos que escolhi acima, de O COMPROMISSO (o título em alemão  é  Heute wär ich mich lieber nicht begegnet), cuja publicação original é de 1997, parece que estamos longe dessas paisagens desconstrutivas, o foco seria mais epidermicamente social, mais envolvido com a temática de classe, ainda mais porque estamos dentro do regime comunista (alguém ainda lembra do famigerado Ceausescu? quando eu era garoto, estava sempre no noticiário, como Idi Amin ou Franco era uma espécie de bicho-papão da política), ainda que insidiosamente  insinue-se o veneno da não-igualdade essencial entre os homens, mesmo os da mesma classe: “tudo provoca inveja ou desdém”, “a classe operária procura diferenças, não há igualdade pela manhã”…

O relato em primeira pessoa é mobilizado pela informação que o inicia: “Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto.” Esse estado de convocação situa todos os elementos da narrativa, é o seu ponto de fuga: aquele momento em que a narradora é interrogada, aquela insistência de comprometê-la com o Serviço Secreto, que é o canto paralelo dos seus atos quotidianos.  No entanto, assim como a figura de Drácula e a des-razão instituída pelo absurdo no palco, o registro do quotidiano é contaminado pela presença do sonho. Não a fantasia e os devaneios de uma Emma Bovary, como elemento compensatório de uma vida insuficiente. Mas o sonho em sua linguagem cifrada, inquietante, quase monstruosa, porque por mais interpretável que seja, deve ser lido em seus próprios termos: “Quando me deitei no sofá, meu primeiro marido botou a mala sobre a ponte do rio, agarrou meu pescoço e deu risadas estentóreas. Depois olhou a água e assobiou a canção em que o amor se quebra e a água do rio fica preta como tinta. Não parecia tinta, eu vi, e dentro da água vi o rosto dele, de cabeça para baixo e me olhando do fundo de cascalho. Então um cavalo branco comia abricós debaixo de árvores densas. A cada abricó, erguia a cabeça e cuspia a semente como uma pessoa. E quando me deitei na cama sozinha, alguém me pegou por trás, pelos ombros, e disse: Não olhe para trás, eu não estou aqui. Não virei a cabeça, espiei só pelos cantos dos olhos. Eram os dedos de Lili que me seguravam, sua voz era a voz de um homem, portanto não era ela… Eu vi os dedos, eram os dela, só que outra pessoa os estava usando. E essa pessoa eu não vi.  E no sonho seguinte meu avô podava um arbusto de hortênsias coberto de neve e me chamava para junto de si. Venha cá, eu tenho um cordeirinho. A neve caía sobre a calça dele e a tesoura cortava flores manchadas de marrom por conta do gelo. Eu disse: Mas isso não é um cordeirinho. Tampouco é uma pessoa, ele disse. Os dedos dele estavam rígidos e só lentamente conseguiam abrir e fechar a tesoura.  Eu não sabia direito se o que rangia era a tesoura ou a mão dele. Joguei a tesoura na neve. Ela afundou e não se via onde tinha caído. Ele procurou por todo o pátio, o nariz bem perto da neve.  Quando chegou ao portão do jardim, pisei nas mãos dele para que ele olhasse para cima e não saísse pelo portão, para procurar por toda a rua branca. Ele disse: Pare co m isso, o cordeirinho congelou e a lã queimou de frio. Havia ainda uma hortênsia junto da cerca do jardim, toda pelada. Eu apontei para lá: O que aconteceu com ela. Essa é a pior de todas, ele disse, vai ter filhotes na primavera. Isso é impossível.”

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       Ao contrário da polonesa Wislawa Szymborska (Nobel de 1996) e da austríaca Elfriede Jelinek (Nobel de 2004),  e com a exceção das mulheres premiadas em língua inglesa dos últimos 18 anos (Nadine Gordimer, em 91; Toni Morrison, em 93; Doris Lessing, em 2007), a premiada deste ano, a romena que vive na Alemanha (na verdade, já na Romênia sua família pertencia à minoria de origem alemâ)  Herta Müller, 56 anos, tem um livro publicado no Brasil (traduzido por Lya Luft, editado em 2004 pela Globo). Sua premiação foi, para mim, como para quase todo mundo, uma surpresa, mas pelo menos, já que tenho o livro, posso dar uma idéia mínima do seu universo, se um romance apenas permitir tal coisa.

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“Ando pela cidade sem destino. Quando ia à fábrica, não via sentido nisso. Difícil de acreditar, mas era mais fácil esconder a falta de sentido naquela época. Quando, como ontem, me sento no café numa das mesinhas na rua e peço sorvete, no instante seguinte quero um pedaço de bolo. Na verdade, eu só queria mesmo era ficar sentada, ou nem isso, queria apenas ficar um tempinho sem caminhar… Era mais fácil lidar com a falta de sentido do que com a falta de objetivo, então em vez de mentiras eu agora invento objetivos na cidade. Sigo mulheres da minha idade. Passo horas em lojas de roupa experimentando vestidos que lhes agradam. Ontem mesmo vesti um vestido listrado propositadamente com a frente para trás, depois fiquei repuxando, botei as mãos feito gola diante do decote, deixei os dedos parecerem um laço. Comecei a gostar do vestido. Com isso eu não contava, essa sensação de que me afasto de mim mesma. O vestido dava a impressão de que era preciso despedir-me rapidamente dele. Então minha boca ficou amarga, não me ocorria nada que pudesse dizer  no breve tempo que eu ainda tinha… Não quero que alguém balance a cabeça do meu lado porque estou misturando pensamento e fala. Ser ouvida por gente estranha é ainda mais vergonhoso do que ser ignorada ou empurrada…”

    O incidente que motiva a situação de “convocada” da narradora de O COMPROMISSO (uma situação que parece tanto ontológica quanto política, uma vez que a atmosfera do relato transmite uma excruciante claustrofobia existencial, o que nos faz indagar se num regime menos fechado e monolítico as pessoas seriam mais felizes ?) é que ela, quando operária, ela fez o seguinte: “… eu decidira me casar no lado ocidental e em cada um dos dez bolsinhos traseiros [de ternos que iam ser exportados para a Itália] enfiei um bilhetinho. Case comigo, ti aspetto, assinado com meu nome e meu endereço. O primeiro italiano que respondesse seria aceito. Meus bilhetes foram julgados prostituição em local de trabalho… Como eu não era membro do partido, e aquele era meu primeiro erro, decidiram me dar uma oportunidade de me corrigir…” Na verdade, há uma intriga entre ela e um outro funcionário da fábrica, Nelu, que a quer levar para cama e, rejeitado, por despeito procura prejudicá-la (depois ela será demitida).

É preciso dizer que a espinha dorsal do relato, que permite que o passado venha à tona é um percurso de bonde que ela toma para chegar a tempo à sua convocação: nós ficamos sabendo do seu primeiro casamento (cujo final é melodramático, o marido tenta matá-la por não conseguir bater nela), da sua amiga Lili (que tem caso com homens mais velhos, começando pelo padrasto, e é fuzilada ao tentar escapar pela fronteira), da família (o pai, que transava com uma vendedora da idade da filha no pátio onde estacionava o ônibus que dirigia, depois ele se torna um dos fantasmas entrevistos pela narradora nas frinchas do seu dia a dia; a apagada mãe, que diz à filha que ela só nasceu porque tinha perdido o primeiro filho; o avô), do alcoolismo do segundo marido, Paul, com o qual ela compartilha ambiguamente sua condição de “convocada”.

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