MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/10/2011

A poesia e o horror inexprimível


(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 18 de outubro de 2011)

No livro que apresentou Herta Müller ao leitor brasileiro, O Compromisso, há uma passagem reveladora em que a protagonista diz: “depois do campo de concentração, ninguém era muito feliz na minha casa”, recebendo a seguinte resposta: “Acredite, sem campo eles também não seriam felizes”.

Não se trata dos campos de concentração nazistas. Após a guerra, como a Romênia apoiou Hitler e ficou sob o domínio da URSS, milhares de cidadãos de origem alemã foram enviados a campos de trabalho no território russo como compensação para as  enormes perdas  humanas no conflito. É o caso de Leo Auberg, narrador de Tudo o que tenho levo comigo (Atemschauke, em tradução de Carola /saavedra, para a Companhia das Letras) que figurará com certeza nas listas sensatas de melhores traduções publicadas em 2011.

A condenação de Leo ao chamado “universo concentracionário” se inspira nos fatos reais da vida do poeta Oscar Pastior. Aos 17 anos, ele é deportado para um campo de trabalhos forçados, em prol da sua “reeducação” no mundo socialista e a reconstrução do pós-guerra, que na prática significa escravidão, fome e um exercício diário de sobrevivência durante cinco anos.

Como todos os que leram e viram muitos relatos desse tipo, eu me perguntei diante do livro de Herta Müller o que poderia trazer de novo mais uma descrição de horrores impensáveis, e se eu não teria mais uma vez a sensação de que, ao fim e ao cabo, essas experiências são inexprimíveis.

E é aí que reside a originalidade de Tudo o que tenho levo comigo: o que menos importa na história dos cinco anos de “reeducação” de Leo são os incidentes terrificantes, a degradação contumaz, os maus-tratos e a abjeção a que o ser humano é levado em certas situações-limite. O que deixa o leitor atordoado é o olhar de poeta a autora romena lança sobre o cotidiano no campo. Entenda bem, leitor: quando digo “olhar de poeta”, não estou afirmando que ela faz lirismo com o horror. Ao contrário, a impregnação poética da narrativa faz com que sintamos muito mais o horror, sem que ele seja relacionado a um evento específico, a fatos dramáticos ou trágicos: temos a sensação do trabalho diário brutal e sem sentido, do peso físico de levar aquela existência minuto a minuto, o arrastar do tempo, como no capítulo “Cimento”: “O cimento pode apoderar-se de nós e afogar-nos. Fiquei doente de cimente. Durante semanas, por todos os lugares eu só via cimento: o céu claro era uma camada lisa de cimento, o céu nublado, cheio de montes de cimento. A chuva ligava o céu e a terra com seus fios de cimento. Minha tigela de latão salpicada de cinza era de cimento. Os cães de guarda tinham uma pelagem de cimento, assim como as ratazanas no lixo da cozinha atrás do refeitório… E no pátio da chamada, na beira do poço, pousava à noite um pássaro de cimento. Seu canto era áspero, uma canção de cimento…

E é aí que se juntam as duas perspectivas da citação de O compromisso que abrem esta resenha: sim, viver a experiência do campo é algo tão radical que realça a tristeza, a melancolia, o mal estar de existir.  Mas não é a sua origem ou sua fonte exclusiva (no caso de Leo, suas preferências sexuais o levam a uma vida clandestina e furtiva, antes e depois do campo—neste, a prática homossexual é interdita e passível de execução).

Por isso, mais do que os capítulos de um romance, parece que lemos os poemas de uma coletânea, os quais, somados, compõem um quadro avassalador. A poesia vencendo o inexprimível.

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: