MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/10/2011

IMPRÓPRIO PARA MENORES: PARA CRIANÇAS-FRANKENSTEINS

Filed under: Críticas Literárias — alfredomonte @ 16:00
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“Ai, ai, duas almas vivem em meu peito!

Uma rude, que me arrasta aos prazeres

da terra e se apega a este mundo; e a outra

que aspira à vida eterna e a seus antepassados…”

    Um dos lançamentos mais insólitos de 2006 foi, sem dúvida, a pretensa e pretensiosa adaptação da primeira parte de Fausto para o público infanto-juvenil realizada por Christine Röhrig (a mesma que já traduzira Ur-Faust/Fausto Zero, a protoversão da obra máxima de Goethe). Não dá nem avaliar a qualidade do trabalho, já que ele é destituído de sentido. Que crianças ou mesmo adolescentes poderão ler o texto da maneira como está? Decerto há, e eu mesmo já conheceu algumas, crianças metidinhas a adultas, que tentam ostentar uma maturidade de opiniões e atitudes, tristes rebotalhos dos nossos neuróticos tempos. Decerto há, também, aqueles tantãs da educação que acham lindo, formativo fazer projetos para crianças de 1a a 4a, envolvendo quadros de Picasso, Matisse ou quejandos. Na vida de verdade o normal e, é preciso dizer, o desejável, é não termos minis-Haroldos de Campos ou minis-Jennys Klabin andando por aí. A garotada precisa ler outras coisas e o Fausto com sua concentração atordoante de significados (Ian Watt o coloca como um dos arquétipos do mundo ocidental, ao lado de D. Quixote, Dom Juan e Robinson Crusoé) estará lá, intacto, esperando “almas já formadas”, para utilizar uma expressão de Clarice Lispector.

    Da maneira como está, o Faustinho é uma triste mixórdia, já que a ambientação (o texto originalmente foi publicado em 1808), não contextualizada em nenhum momento, é remota para a garotada, com o sábio/mago trancado em seu escritório, sofrendo devido à cinzenta ciência que conquistou em detrimento do verdor da vida, com cidades com resquícios medievais, tabernas, e uma linguagem que pode ser exemplificada pela seguinte passagem, a resposta do Espírito da Terra a Fausto: “Tu te igualas ao espírito que concebes, não a mim!” (o leitor está autorizado a imaginar aquela criancinha-gênio declamando isso pela cidade afora).

    Ainda dá para agüentar a aposta entre Deus e Mefistófeles pela alma de Fausto (que lembra tanto a história de Jó), mal e mal a aparição do diabo ao protagonista, o pacto, a cozinha da bruxa. Já é quase intolerável (em se imaginando o leitor-destinatário) a cena da taberna. Quando Margarida entra na história é que tudo vai para o inferno mesmo: o autor deste artigo houve por bem se deleitar durante esta semana imaginando mamãe e papai da mais-que-precoce criança explicando para ela o fato de Margarida perceber que está grávida, repassando com ela, fala por fala. o diálogo que antecede essa descoberta e do qual o mínimo a ser dito é que é reticente.

    Depois, que criança ou adolescente (a não ser nossa criança-gênio, meio concretista meio pós Lacan) vai entender que, após um infanticídio e um assassinato, Fausto vá parar numa orgia (a célebre “Noite de Valburga” –ou Valpurgis) de seres sobrenaturais, a qual, aliás, ficou muito mal ajambrada uma vez que a tradutora não se pôde permitir maior explicitação. E mais incompreensível ainda é a cena-clímax da peça, com Fausto tentando libertar Margarida da prisão, e ela, meio Ofélia, louquinha e recusando-se a ser salva porque visa outra forma de salvação. E então é colocada uma paupérrima, pé-de-chinelíssima nota “informando”, como se isso fosse o que uma criança espera da leitura, o teor da segunda parte, ou seja, o destino das personagens.

    Enfim, esse Fausto de ilustrações sombrias e envolto em estranhas e desconfortáveis páginas roxas é a coisa mais sem pé nem cabeça que o desvairado mercado infanto-juvenil poderia receber. Será que não poderíamos voltar ao velho e bom Monteiro Lobato, a Tom Sawyer, à Ilha do Tesouro ou a Julio Verne ? Menos Mefistófeles e mais Lorde Valdemort para nossos guris. 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de dezembro de 2006)

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