MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/09/2011

Simia Sapens: “O planeta dos macacos”- A verdadeira origem


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de setembro de 2011)

“A macaca tirou uma caneta do bolso e escreveu várias linhas em seu caderno. Em seguida, levantando a cabeça e ainda se deparando com meu olhar ansioso, sorriu novamente. Isso me estimulou a tentar outra abordagem amistosa. Estendi-lhe um braço através da grade, com a mão aberta. Os gorilas sobressaltaram-se e esboçaram um movimento para interferir. Mas a macaca, cujo primeiro reflexo havia sido de toda forma recuar, recobrou-se, deteve-os com uma palavra e, sem parar de me fitar, também projetou seu braço peludo, um pouco trêmulo, na direção do meu. Não me mexi. Ela aproximou-se mais ainda e colocou sua mão com dedos descomunais sobre meu pulso. Senti-a estremecer a esse contato. Tentei não fazer nenhum movimento que pudesse assustá-la. Ela deu  um tapinha na minha mão, acariciou meu braço, depois voltou-se para  seus auxiliares com uma expressão de triunfo.

    Eu arfava de esperança, cada vez mais convencido de que ela começava a reconhecer  minha nobre essência. Quando se dirigiu imperiosamente a um dos gorilas, tive  a louca esperança de que fossem abrir minha jaula, com desculpas. Ai de mim! Não era nada disso!O guarda  vasculhava em seu bolso e sacou um pequeno objeto branco, que entregou à sua patroa.  Ela colocou-o pessoalmente em minha mão com um sorriso encantador. Era um torrão de açúcar.

    Um torrão de açúcar! Despenquei de tão alto, senti-me de repente tão desencorajado diante da humilhação daquela recompensa que quase atirei-a na cara dela.”

A exibição de O planeta dos macacos- a origem me deu vontade de conhecer a fonte original de uma saga que rendeu um clássico cinematográfico (o grande filme de 1968, dirigido por Franklin J. Schaffner[1]), quatro continuações, uma série de televisão, episódios em desenho animado (eu gostava muito deste cartoon), e neste novo século dois filmes (por enquanto).

O romance Le planète des singes do francês Pierre Boulle (o qual comento na tradução de André Telles para a Pocket Ouro da editora Agir) foi lançado em 1963[2]. Nele, um casal de namorados (que no final descobriremos serem símios, revelação que vai sendo antecipada por pequenas intervenções do casal na narrativa), num passeio espacial, recolhe uma garrafa que contém o relato de Ulysse Mérou. Este viajara (embora  jornalista e não astronauta!), no começo do século XXVI (e ainda se usam carabinas em 2.500!), com dois companheiros para a constelação de Órion.

São extravagantes os detalhes que Boulle fornece dos meios de locomoção espacialm, sem a menor preocupação com qualquer exatidão cxientífica. Ele segue nesse ponto a linha nitidamente fantasista de Verne & Wells. Quando os três viajantes pousam no planeta Soror, são espoliados de seus trajes, armas e provisões por um grupo de selvagens humanóides que parecem ter aversão a quaisquer artefatos fabricados e que parecem seres sem consciência ou alma. Não bastasse isso, são perseguidos como caça (vários são brutalmente eliminados) e depois capturados por macacos que apresentam o mesmo grau de evolução da espécie humana na Terra. Sem os seus companheiros (um deles foi morto e o outro reaparecerá mais tarde numa condição chocante), Ulysse é levado a um centro de pesquisas biológicas.

A civilização símia, ao contrário dos filmes (onde é mais rústica e com traços mais rurais), ostenta cidades, aviões, até arte impressionista e abstrata. Ganhando a confiança (e o amor e “comunhão espiritual”, atrapalhado pela aversão física[3] entre as “raças”—substituto revelador utilizado por Boulle no lugar de “espécies”—que descortina a sua intenção satírica [4]) da cientista Zira, Ulysse consegue sua libertação da condição de cobaia (“…começaram a me desferir varadas, a mim, Ulysse Mérou, um homem criado à imagem da divindade…”)  e é até assimilado à cultura de Soror. Contudo, escavações arqueológicas apontam para algo que Cornelius, noivo de Zira, já desconfiava: que os macacos herdaram a cultura dos humanos, que antigamente dominavam o planeta (no filme de Schaffner, o viajante estava na própria Terra sem o saber, o que era mais instigante). Como bons imitadores, os novos dominantes “macaquearam” as conquistas humanas, sem criar nada de novo (é por isso que eles estavam estagnados há séculos no mesmo estágio tecnológico), pelo menos no que se refere a gorilas e orangotangos; já os chimpanzés (como Zira e Cornelius) são mais criativos e capazes de iniciativa intelectual própria (“Quase todas as grandes descobertas foram feitas por chimpanzés”, afirma Zira) e são eles que revelam a verdadeira face da evolução da sua “raça”.

De qualquer forma, a descoberta leva à conclusão de que Ulysse, ainda mais depois que ele gera um filho, é uma ameaça. O ciclo pode se inverter. Zira e Cornelius resolvem ajudá-lo a fugir com sua família.

E aí então ele descobre o mesmo que Mark Walhberg descobre na Terra no (nada clássico, aliás não acrescentou nada ao  romance nem ao filme original, tirando uma impressionante interpretação de Tim Roth)  filme de Tim Burton.

Sobrevivendo a todos os seus “filhotes”, o livro de Boulle é engenhoso e ainda muito pertinente. Todos os seus temas encontram-se ainda na pauta do dia. A difícil convivência nos países do Primeiro Mundo entre seus “nativos” e os imigrantes (principalmente de outras “raças”) e os indecentes e inomináveis experimentos com cobaias revelam que somos tudo, menos o topo da evolução.


[1] Schaffner estava em grande fase, realizando filmes como O senhor da guerra, e olhe que com o antipático e (a meu ver) canastrão Charlton Heston. Depois de ganhar o Oscar com Patton, entretanto, ele se perdeu nas produções paquidérmicas e amorfas, tipo Nicholas e Alexandra, que esvaziaram seu impulso. O incrível é que O planeta dos macacos passou em branco nos principais Oscars, devido à nefasta tendência da Academia nos anos 60 de se manter autista com relação ao que estava acontecendo, privilegiando a forma musical  hiper-careta e super-produzida, que faz os filmes parecerem mais velhos do que os realizados décadas antes (caso de My fair lady, A noviça rebelde, Oliver, todos ganhadores do prêmio de melhor filme, o último no ano do filme de Schaffner e de 2001– sem comentários).

[2] Em seu currículo, Boulle também tem o livro que originou A ponte do rio Kwai, outro paquiderme superestimado. Por falar em superestimado, ninguém o é mais do que David Lean. Nunca entenderei por que ele é tão prestigiado.

[3]  “Eu gostava de ouvi-la rir… Eu partilhava o bom-humor da macaca. Na penumbra do vestíbulo, praticamente não discernia seus traços, mal via a ponta branca do focinho. Ela vestira, para sair, um tailleur elegante e um gorro de colegial que escondia suas orelhas. Esqueci por um instante sua condição símia e dei-lhe o braço.”

[4] Vejam se não lembra o ambiente  senhorial das colônias a seguinte passagem, que ocorre logo após a captura de Ulysse: “As damas gorilas estavam sentadas em círculo em poltronas e tagarelavam  à sombra de grandes árvores que lembravam palmeiras. De quando em quando uma delas bebericava outro copo, com a ajuda de um canudinho…”

1 Comentário »

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