MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/09/2011

OS HERDEIROS e a genialidade de William Golding


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de agosto de 1999)

Ao conceber Os HERDEIROS (The Inheritors, Inglaterra-1955, em tradução de Ana Luiza Ventura Vieira Pereira, editora Nova Alexandria), um dos romances mais extraordinários do século XX, William Golding teve uma idéia genialmente simples: colocar lado a lado dois estágios de evolução da Humanidade, numa narrativa ambientada na pré-história.

O protagonista de OS HERDEIROS é Lok, jovem homem-macaco que, com seu clã (mais sete indivíduos), procura a segurança de uma plataforma rochosa, após o inverno. Inesperadamente são atacados por criaturas diferentes, que se vestem com peles e que mantêm estranhos rituais. Lok é um dos poucos sobreviventes dos ataques e, observando os costumes do “povo novo”, vai desenvolvendo um misto de fascínio e de terror diante de seus  procederes quotidianos. O que Lok não imagina é que para o “povo novo” ele é um demônio, uma ameaça.

Podemos ler, então, a obra-prima de Golding como uma parábola a respeito das estruturas instintivas e emocionais através das quais se constituiu a própria Humanidade, e também a respeito da incapacidade dessa mesma Humanidade em compreender a alteridade, a existência do Outro.

Nesse sentido, é bem esclarecedor o clímax da história, após uma hecatombe da natureza que provoca a fuga do “povo novo” (levando um bebê do clã de Lok). O herói sobrevive, irremediavelmente solitário (é um momento tão desolador que sempre me tira a vontade de reler o romance). Na última imagem que temos dele, quando o autor despoja-o cruelmente até do seu nome—mencionando-o como “a criatura”—, como se o estivesse deixando para trás no passado, ele está lado a lado com a “figura” que dele fez um membro do “povo novo”. Portanto, temos lado a lado uma imagem, uma das formas da Humanidade de representar sua mente, de dar forma ao conteúdo dela, de racionalizá-la, em seus medos, suas visões e sua fantasias (e que também é um meio de anular—ou pelo menos neutralizar—o outro ser, prendendo-o numa representação), e o próprio ser representado, em sua realidade irredutível.

O pessimismo de Golding é tal que, no capítulo seguinte, o último, ele mostra Tuami, membro do “povo novo”, sonhando em utilizar a faca que está fazendo num companheiro de grupo. Como já mostrara no seu primeiro e mais famoso romance, O senhor das moscas (e mostrará em textos posteriores como O Deus Escorpião, Visível Escuridão e Ritos de Passagem), para ele os impulsos primordiais do ser humano são a crueldade e a destruição mútua.

O que sempre impressiona em Golding é que ele é um dos raros grandes autores contemporâneos que se atêm à narrativa. Seu estilo parece até pobre, às vezes, pois ele procura expressar tudo através da ação e da reação dos personagens e da descrição intensa do ambiente físico. Não há discursos, digressões, moral da história ou reflexões por parte do narrador[1].

Ele também escapa totalmente do estereótipo do escritor “que faz pesquisas”. OS HERDEIROS é um livro ambientado na pré-história, mas não há nenhuma tentativa de criar verossimilhança histórica ou “clima de época” (e mesmo assim não é que o danado consegue?).

O autor de Homens de Papel descreve mecanismos de ação do ser humano, diante da natureza, dos outros seres, dos próprios sentimentos e percepções. Isso, por si só, já cria um poderoso efeito convincente para a história de Lok, do seu clã e do “povo novo”,e se o livro nada tem de “histórico”, também não cai no tom fácil da “fábula”, do universozinho inventado para provar algo.

O que significa, somando tudo, que William Golding escreve textos extremamente originais. Tão originais que causaram celeuma na própria Academia Sueca, quando lhe foi outorgado o seu merecido Nobel em 1983. Foi uma das poucas polêmicas internas (muitos ali não queriam lhe atribuir o prêmio) que vieram a público  com relação a uma escolha.

Curiosamente, foi uma das escolhas mais acertadas. O que não deixa de ser muito engraçado, no final das contas.  Entretanto, a visão do mundo proposta pelo autor de OS HERDEIROS não é nada engraçada, como se pode constatar no trecho seguinte—no qual vemos o homem já pensante que foge da sua ancestralidade: “Não tardaria muito, pensou Tuami, agora que tinham saído da terra dos demônios da floresta[2] e estavam a salvo, para se atrever a usar o punhal de ponta de marfim. Olhar o rosto de Marlan e pensar em matá-lo era assustador”.

Neste ano de 1999, só se lançarem de fato a prometida tradução integral de Finnegans Wake, de James Joyce, OS HERDEIROS deixará de ser a tradução mais importante.


[1]  Nota de 2011: Sei (como sabia em 1999, quando escrevi o texto acima) que com essas afirmações vou de encontro à própria auto-caracterização de Golding como escritor:  alguém que tem uma idéia e procura um mito para corporificá-la. Mas continuo achando a mesma coisa, ou melhor, tendo a mesma percepção da sua obra, pelo menos na primeira fase (os últimos textos já têm um rebuscamento retórico mais pronunciado, penso especialmente em Visível Escuridão).

[2] Leia-se Lok  e seu clã.

2 Comentários »

  1. Você faria, ou tem, em todo caso, um texto a respeito dos romances e crônicas de Nelson Rodrigues?

    Eu estou planejando um projeto de Mestrado nem em Literatura (Teoria Literária), mas em filosofia, sobre o modo como Nelson vê a entrada do niilismo no Brasil, no período da ditadura militar.

    Mas, nesse caso, é só por curiosidade mesmo. Porque, lendo esses textos do Golding, pensei que você talvez se interessasse por Nelson.

    Abraços e obrigado!

    Comentário por Bruno Marcondes — 18/09/2011 @ 18:07 | Responder

    • Oi, Bruno, demorei muito para apreciar Nélson Rodrigues, principalmente seu teatro. Por isso, ainda não escrevi nada sobre ele. Na época dos meus cursos aqui em Santos, pensei em propor aos meus alunos uma comparação entre “Asfalto selvagem”, a história de Engraçadinha, com “Lolita”, de Nabokov, por causa da mistura em ambos, da questão da permissividade com a moral de classe média, isto é, os apelo e fetiches sexuais e um “padrão de normalidade”. Quem sabe um dia ainda faço isso…
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 19/09/2011 @ 10:41 | Responder


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