MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/08/2011

“TUDO O QUE EXORBITA”…

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em  24 de julho de 2001)

O eminente gramático Domingos Paschoal Cegalla vem publicando pela DIFEL suas traduções de tragédias gregas clássicas, como Rei Édipo e Antígona (441? a.C). Salvo engano, a versão brasileira mais importante, em tempos recentes, dessas peças de Sófocles (497?-406? A.C) era a de Mário da Gama Kury, numa série editada pela Jorge Zahar. Nela, Kury adotava, ainda que livremente, a forma poética, ao contrário de J. B. Mello e Souza (no volume dedicado ao teatro grego dos “Clássicos Jackson, edição de 1950), o qual optara pela prosa.

Cegalla, por sua vez, alterna as duas formas e, apesar de certos termos esquisitos (rebramem, ornitoscópio, gafado, conculcando), e alguma notas de rodapé desnecessárias e até impertinentes, que tutelam demais o leitor (chamando atenção para efeitos poéticos do texto, por exemplo), quando deveriam apenas cumprir um papel informativo, a nova tradução funciona, ou como se diz tantas vezes, flui.

“A lei que no passado vigorou

      e no futuro há de vigorar é esta:

      na vida humana, tudo o que exorbita

      tem como companheiras as desgraças.”

Há 2.500 anos esta advertência ressoa na civilização ocidental. Ela aparece num dos coros de Antígona, logo depois que a protagonista é condenada à morte pelo rei Creonte, em Tebas, por sepultar o irmão Polinices e cumprir os piedosos ritos religiosos fúnebres, contra a vontade expressa do soberano.

Ao longo da peça de Sófocles, palavras como prudência, sensatez, moderação são reiteradamente contrapostas às atitudes “exorbitantes”, que ferem, às vezes, as leis humanas (Antígona infringe um decreto real) e, às vezes, as leis divinas (Creonte infringe as regras funerárias da civilização tebana, estabelecidas pelos deuses).

Em suma, os antagonistas, Antígona e Creonte, pecam por infringir o senso comum, “a medida de todos os homens”.

É uma experiência comum a vários leitores surpreender-se, ao tomar contato com a peça, com o comportamento de Antígona: rude, enfático, até arrogante. Ela está, todavia, adotando a linguagem dos heróis masculinos da época, como boa precursora das “donzelas guerreiras”, além, é claro, do orgulho de pertencer a uma gens, uma família importante, e há toda uma sutil crítica à passividade  e à covardia dos homens de Tebas, incluindo o noivo, Hêmon (filho de Creonte), nessa atitude insólita, híbrica, oposta à da irmã, Ismene, que diz: “É preciso não esquecer que somos mulheres e que, portanto, não podemos lutar contra os homens”.

Ao saber que seu decreto foi desobedecido, Creonte diz: “Qual foi o homem que teve esse atrevimento?” E ao se defrontar com ela: “No dia em que uma mulher tripudiar impunemente sobre mim, eu deixarei de ser homem e ela tornar-se-á homem (…) enquanto for vivo, não me deixarei governar por mulheres”.

Veja-se também o que ele diz ao filho: “Cumpre defender as instituições e não ceder, de modo algum, a uma mulher. Se for preciso cair do poder, é melhor cair pela mão de um homem porque, assim, não poderão rir-se de nós, dizendo que fomos derrotados por mulheres”.

A insurreição de Antígona contra Creonte é tanto ética quanto religiosa. Ética, por expressar o sentimento cívico, calado pela coletividade, contra o tirano (só depois é que se manifestam vozes discordantes, como a de Hêmon e a do vidente Tirésias): “Se o temor não lhes fechasse a boca, todos esses cidadãos haveriam de aprovar o meu gesto a altas vozes. Mas a tirania desfruta, entre muitas outras vantagens, a de fazer e dizer o que lhe apraz”; e religiosa, por mostrar que o autoritarismo patriarcal do governante de Tebas está em desacordo com as leis divinas[1]:

“Eu não creio que teus decretos, escritos pela mão de um mortal, possam ser superiores às leis não escritas e imutáveis dos deuses. Elas não são de hoje nem de ontem, mas são eternas, vigoram em todos os tempos e ninguém sabe quando nasceram. Tinha para mim que não devia, por temor da arrogância de um homem, transgredir essas leis e ser castigada pelos deuses”.

Evidentemente, há uma ironia terrificante contida na última passagem citada: se há uma pessoa castigada pelos deuses é Antígona, e de uma forma muito pior do que os castigos sofridos pelo tirano Creonte, que resultam das suas ações imediatas na peça (o filho e a esposa suicidam-se): filha de Édipo e Jocasta, ela já esta amaldiçoada e não há como escapar do castigo. Na tradução de Cegalla, isso já fica claro na primeira fala da peça: “Ismene, minha irmã querida, conheces dentre as muitas desgraças oriundas de Édipo, uma só que Zeus não tenha descarregado sobre nós, que ainda estamos vivas? De fato, nenhuma aflição existe, nenhum infortúnio, opróbrio ou vilipêndio que não faça parte da tua e da minha desgraçada vida. Que dizer desse decreto que, segundo dizem, Creonte acaba de promulgar para toda a cidade? Tens conhecimento? … Ou ignoras que sobreviveram para os nossos amigos castigos que só se infligem a inimigos?”

Em apenas uma fala, temos desgraças, aflição, infortúnio, vilipêndio, desgraçada vida, castigos! Não é à toa que o caráter de Antígona tem todo um lado sombrio, mórbido: “Considero um bem, um lucro, morrer prematuramente”, “A minha alma há tempo que morreu para poder servir aos mortos”,

     “Viva e morta ao mesmo tempo

     já não pertenço aos vivos nem aos mortos”.

Como Hamlet, seu descendente trágico, muito, muito depois, há um ato de justiça a cumprir e há um desejo íntimo irrefreável de auto-dissolução. Mas o sentimento de desolação universal que, com as subseqüentes desgraças que ocorrem com a família de Creonte, a peça de Sófocles nos transmite, talvez só tenha sido alcançado mesmo por Macbeth e Rei Lear, mais do que com a tragédia do príncipe da Dinamarca.


[1] Vale lembrar aqui a célebre interpretação do significado do ciclo das grandes tragédias, efetuada pela dupla Vernant-Naquet em Mito e Tragédia na Grécia Antiga: ele acontece quando a pólis começa a questionar o Mito. Nesse sentido, Creonte significaria o avanço, enquanto que Antígona representaria o elemento retrógrado e atrasado. Mas a forma intensamente dialética do conflito nas tragédias permite que experimentemos a luz e a sombra de todos os lados envolvidos.

TRADUÇÕES DE ANTÍGONA:

A primeira tradução que li da peça de Sófocles foi a de J.B. de Mello e Souza (num volume que reúne também Rei Édipo; Prometeu acorrentado, de Ésquilo; Alceste, Electra, Hipólito, de Eurípedes); depois vim a conhecer as de Mário da Gama Koury (no volume A trilogia tebana) e Domingos Paschoal Cegalla; só na época do curso que dei em 2008, analisando os romances Lie down in darkness (William Styron), Sobre héroes y tumbas (Ernesto Sabato) e Ópera dos mortos (Autran Dourado), sob a perspectiva das figuras trágicas de Ifigênia e Antígona, é que conheci e utilizei a tradução de Donaldo Schüler, editada pela L&PM.

Para os interessados, uma amostra de cada uma delas:

1)    J.B. de Mello e Souza:

O CORIFEU

Oh!Agora é tarde! Parece-me que o que estás vendo é a justiça dos deuses!

CREONTE

Ai de mim –agora sei—que sou um desgraçado!Sobre mim paira um deus vingador que me feriu! Ele me arrasta por uma via de sofrimentos cruéis… ele destruiu toda a alegria de minha vida! Ó esforços inúteis dos homens!

(entra um MENSAGEIRO que vem do Palácio)

O MENSAGEIRO

Senhor! Que desgraças caem sobre ti! De uma tens a prova em teus braços… as outras estão no teu palácio… creio que tu deves ver!

CREONTE

Que mais me poderá acontecer? Poderá haver desgraça maior do que a fatalidade que me persegue?

O MENSAGEIRO

Tua esposa acaba de morrer… a mãe que tanto amava este infeliz jovem.. Ela feriu-se voluntariamente para deixar a vida.

CREONTE

Hades, que a todos nós esperas, Hades que não perdoas, nem te comoves…

dize: por que, por que me esmagas por essa forma? Mensageiro das desgraças, que nova desgraça me vens anunciar? Ai de mim! Eu já estava morto, e tu me deste mais um golpe ainda…”

2)    Mário da Gama Kury:

CORIFEU

Como tardaste a distinguir o que era justo!

CREONTE

Ah! Hoje sei quão infeliz eu sou,

mas penso que algum deus, com muita força,

golpeou-me na cabeça e me impeliu

para os caminhos da ferocidade

–pobre de mim!—calcando sob os pés

e destruindo todo  o meu prazer!

Ah! Sofrimento dos sofridos homens!

(sai do Palácio, o segundo MENSAGEIRO,correndo)

SEGUNDO MENSAGEIRO

Quantas desgraças tens de suportar, senhor!

Uma trazes contigo, nos teus próprios braços,

e em tua casa há outra, que logo verás!

CREONTE

Ainda pode haver males piores que este?

SEGUNDO MENSAGEIRO

Morreu tua mulher, mãe infeliz do morto,

há pouco, vítima de golpe bem recente.

CREONTE

Ah! Boca inexorável dos infernos!

Por que me estás matando? Sim! Por quê?

Tu, mensageiro da calamidade

triste até de narrar, que vais contar-me?

Ai!Ai de mim! Matas um homem morto!

3)    Domingos Paschoal Cegalla:

CORIFEU

Ah! Tarde, muito tarde, enxergaste a justiça!

CREONTE

Mísero que sou! Agora estou vendo que foi algum deus que naquela hora me golpeou a cabeça e me empurrou para cruéis caminhos, deitando ao chão e conculcando a minha ventura. Ai, ai, canseira dos mortais!

(Um PAJEM do Palácio Real chega correndo)

PAJEM

Senhor,pareces um homem que possui todos os males: desgraças aqui presente, desgraças dentro de casa, que já haverás de ver.

CREONTE

Que há? Porventura desgraça  ainda maior que esta?

PAJEM

A tua esposa, a mãe infeliz deste morto, acaba de morrer, em conseqüência de recentes ferimentos.

CREONTE

Ah! Insaciável porto de Hades! Por que me arruínas, assim? Por quê? Ó mensageiro de infortúnios, o que dizes? Mataste a quem já estava morto.

4)    Donaldo Schüler:

CORIFEU

Tudo indica que tarde reconheceste a justiça.

CREONTE

Assim é,

tenho o mal por mestre. Golpeou-me a cabeça

um deus então, e então carga pesada

me impôs, conduziu-me

a caminhos agrestes,

arrasou corriqueiros prazeres,

míseros despropósitos dos homens.

SEGUNDO MENSAGEIRO

Senhor, como um que tem e ainda terá,

isso já nos braços e aquilo ainda por vir, o mal

que no palácio te aguarda em breve verás.

CREONTE

Que poderá haver de mais amargo que esta amargura?

SEGUNDO MENSAGEIRO

Tua esposa, a mãe deste morto, mais mãe

que esposa,  está morta.

Já deplorável, golpeou-a novo golpe.

CREONTE

Porto insaciável da Morte,

por que, por que me fustigas?

E tu portador

De molestas mensagens e prantos,

que novas atrocidades atroas?

Matas um homem já morto.

A BALANÇA ALEATÓRIA DO DESTINO (e o nosso pesar, partidário, por Heitor de Tróia)

PRIMEIRA PARTE (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 25 de maio de 2004)

“…A sangueira encharca o solo. Desde

o amanhecer, até que cresça o dia sagrado

lanças golpeiam, de uma e de outra parte. Tomba

a gente . Quando o sol ascende a meio-céu,

o Croníade, soerguendo a balança dourada,

coloca em cada prato uma das torvas Queres

longa-lutuosa morte, a dos Troianos, doma-

corcéis; a dos Aqueus, vestes-brônzeas. Librou-a

segura bem no centro; cai, aziago, o dia

dos Aqueus, cuja Moira pousou na fertílima

terra, a dos Tróicos sobe aos céus…” (CANTO VIII, vv. 65-75)

Além de Tróia, a redução hollywoodiana da ILÍADA, o brasileiro tem à sua disposição nova versão do épico de Homero, composto provavelmente entre os séculos IX e VIII a.C. Depois das traduções importantíssimas de Odorico Mendes e Carlos Alberto Nunes, a de Haroldo de Campos (lançada em dois volumes pela ARX, e da qual tivéramos amostras em A ira de Aquiles e Os nomes e os navios) mostra qualidades de concisão e precisão que faltam às vezes na de Nunes (a qual, no entanto, é fantástica), e uma clareza e legibilidade que faltam na de Mendes (que é um desafio de leitura, quase como se estivéssemos lendo outra língua). O único senão é que, na capa, o nome do tradutor  aparece com mais destaque do que o do autor!

O primeiro volume traz 12 dos 24 cantos. Em 7.589 versos, mostra-se como, no nono ano do cerco a Ílion (Tróia), Aquiles e o chefe das tropas gregas,Agamêmnon, desentendem-se por causa de uma presa de guerra (Briseida), o que causa a célebre ira de Aquiles e sua retirada da guerra.

Sua mãe imortal, Tétis, pede a Zeus que os gregos sejam prejudicados até que se honre o filho como devido. Palas Atena e Hera, todavia, são favoráveis aos gregos e várias celeumas e picuinhas ocorrem no Olimpo até que Zeus, o Croníade, decreta que nenhum imortal deve participar das batalhas e ele mesmo passa a manipular o destino do combate, fazendo com que Héctor (assim aparece na tradução de Campos, contrariando a tradição, que sempre o nomeou como Heitor), o chefe dos troianos (e irmão de Páris, que raptou Helena de Menelau, começando a guerra), quase consiga destruir o exército grego, acercando-se dos navios invasores, os quais ele pretende incendiar.

Ler a ILÍADA é uma experiência cultural estranha a princípio, até incômoda, e que depois se mostra cada vez mais apaixonante (ainda mais se somos servidos por traduções como as de Nunes & Campos).

Por que a estranheza? É difícil nos acostumarmos com uma narrativa sobre o embate de dois lados e nenhum deles ser colocado como o certo, como aquele com o qual devemos nos identificar.

Troianos e gregos, cada lado tem razão, cada exército tem seus heróis valorosos e honrados. Héctor e Enéias equivalem-se a Aquiles, Odisseu (Ulisses), Diomedes ou Ájax. O rei Príamo tem tanta dignidade quanto Néstor, o conselheiro dos gregos. O que importa é ser favorecido pelos Deuses. Pode ser Diomedes, quando Palas Atenas o protege em combate, pode ser o próprio Zeus, influenciando as ações de Héctor. Nenhuma outra obra conseguiu captar tão bem a arbitrariedade do destino, encarnando-a em potências transcendentes. A guerra de Tróia é o palco do jogo do fado, da música do acaso, representada muito bem pela balança de Zeus, que aparece na passagem de abertura deste meu texto. Não é por acaso (sem trocadilho) que os heróis evidenciam um sentimento tão profundo da precariedade da vida (Agamêmnon diz, no canto IX, de Hades, que representa a morte: “para os mortais, é o mais odioso Deus”); não é por acaso que eles se agarram tanto aos prazeres mais sensoriais, seja comer e beber, e aos mais violentos, como matar e despojar os inimigos das suas posses valiosas. A única coisa que conta é viver, prevalecer e, se possível, perdurar após a morte, através da Fama (mesmo por um “sinistro fado”, como Helena  diz a Héctor, sabendo que ela e Páris causaram tantas desgraças, “para que, ambos, sejamos tema dos vates vindouros”).

Na ILÍADA vemos a tão falada natureza humana sem disfarces. Por isso, o incômodo nas primeiras abordagens do texto. Ájax repreende Aquiles por não aceitar ofertas de Agamêmnon com uma visão bem pragmática:

“…No entanto a morte do filho

ou do irmão, o ofensor pode pagar o resgate

condigno  e ficar na pátria, apaziguando

o coração e o orgulho do ofendido. A ti

porém, os deuses infundiram mal-volente

fereza de ânimo em razão de uma, uma única moça

e nós te oferecemos sete,entre as mais

belas e muitos outros dons…”

E é essa consciência da instabilidade da existência que dá azo a uma passagem reveladora, maravilhosa e até engraçada do canto X: na véspera de serem possivelmente massacrados por Héctor, e sabendo disso, os chefes gregos compartilham um repasto magnífico (e os emissários que procuram Aquiles ainda usufruem outro). A seguir, vão dormir! No meio da noite, Agamêmnon, Menelau e o sábio Néstor decidem acordá-los e Odisseu diz a este último, que o tira do “doce sono”: “Que grande afã vos move?” Isto é o que se pode chamar de despreocupação!

SEGUNDA PARTE (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de junho de 2004)

“… Zeus tomou da áurea balança

em cada prato pôs uma Quere mortífera

esta para o Aquileu, aquela para o doma-

corcéis; librando-a pelo meio ela declina

soa, para Héctor, o dia aziago: ruma para o Hades…”

(CANTO XXII, vv. 210-214)

Como na seção anterior, o assunto é a memorável tradução de Haroldo de Campos para a ILÍADA, mas agora tratando dos 12 cantos do segundo volume: 8.104 versos.

Pela citação de abertura, vê-se que a sorte da guerra mudou: entre os triunfos de Héctor está a morte de Pátroclo (a luta pelo cadáver do amante de Aquiles é um momento incrível, que só encontra paralelo numa disputa macabra similar pelo corpo de Sarpédon, filho de Zeus; este, favorável aos troianos).

Desta forma, urde-se o destino previsto no canto XV:

“Que Héctor afugente uma vez mais os Aqueus

desfibrados de medo, e que a fuga os arraste

às naves multirremes de Aquiles Peleide

que instigará o amigo Pátroclo, a quem Héctor

faiscante, de um lançaço abaterá defronte

a Ílion, tendo antes morto a muitos mais (Sarpédon

meu florescente filho, incluso). Irado, Aquiles

vingando o  amigo, acabará com Héctor…” (vv. 62-69)

Os acontecimentos humanos continuam provocando controvérsias entre os deuses, tanto que Hera (favorável aos gregos) chega a seduzir Zeus e adormecê-lo para que ele não impeça a intervenção de Posêidon. Ela não é a única a se valer de táticas insidiosas e desprezíveis (Apolo prejudica Pátroclo e Palas Atena cria o estratagema  que levará Héctor a uma morte solitária).

No canto XX, depois de um tempo de interdição, Zeus permite que os imortais desçam a Ílion:

“Ficarei no alto Olimpo, apreciando o espetáculo

de um píncaro. Vós outros, porém, misturai-vos

a Gregos e Troianos, a estes ou àqueles

a gosto, socorrendo (…)

Retumba a terra. O céu troveja

Zeus no alto ouvia. E pôs-se a rir, de coração

gozando ao ver os deuses que travavam luta.”

O momento mais impressionante dessa interferência sobrenatural talvez seja aquele em que o rio Xanto-Escamandro, ressentido com Aquiles por conspurcá-lo com cadáveres troianos, tenta afogá-lo por meio de uma inundação, sendo detido por Hefesto, filho de Hera (o qual, em outro momento extraordinário, confecciona a pedido de Tétis, mãe de Aquiles, uma armadura de guerra indestrutível para o “funesto herói”).

Ao contrário do que se costuma pensar, o ardil do cavalo de madeira não faz parte da ILÍADA. O poema tem seu clímax no Canto XXII, com a morte de Héctor (nele, também, começa a crescer a figura tragicamente imponente de seu pai, o rei Príamo). É Héctor quem detém o pathos trágico em meio às peripécias épicas.

Pátroclo é uma vítima do jogo do destino (é preciso que ele morra para Aquiles voltar ao conflito e seja, enfim, honrado pelos gregos como devido, após a ofensa de Agamêmnon); o arrogante Peleide tem consciência de que, mesmo gerado por uma deusa, seu destino é morrer prematuramente, sem voltar ao seu cantão natal, e essa é a pedra-de-toque para que ele insista na manutenção da sua imagem heróica, cuidando de sua Fama e Glória. Héctor, em contrapartida, carrega consigo o fardo de ser o baluarte de uma cidade condenada. Desde o início, cerca-o uma atmosfera de “morto que ainda habita os vivos”. Já no canto VI (n primeiro volume) lê-se: “…Na mansão de Héctor-ainda vivo—choram por Héctor…” (na versão de Carlos Alberto Nunes: “…Na própria casa de Heitor, ainda vivo, por morto o choravam…”; na de Odorico Mendes: “… o pranteiam vivo”).

No meio da batalha, o poeta nos antecipa:

“Restava-lhe de vida apenas um lapso mínimo

Palas Atena já o empurrava para a Moira

mortal, pelo vigor de Aquiles subjugado…”

Toda a parte final (à exceção dos jogos fúnebres como preito a Pátroclo) centraliza-se no resgate do seu corpo, que Aquiles insiste em ultrajar (após admirar a sua beleza, caído no chão, como também o fazem os demais combatentes gregos), até que contraria os próprios deuses, o que dá ensejo ao surpreendente canto final, no qual Príamo vai à sua tenda implorar pelos despojos do filho, e que tem uma grandeza que só seria vista novamente em Shakespeare. O próprio Aquiles cresce como figura humana. Príamo diz a ele:

“Lembra teu pai: mais piedade mereço

por fazer o que não fez outro homem nenhum

beijar, levando-a à boca, a mão que assassinou-me

o filho…” (CANTO XXIV, vv. 504-507)

Hera chega a reclamar da preocupação geral com Héctor:

“… Justa será tua palavra

se os Numes atribuíssem honra igual a Aquiles

e a Héctor ? Mortal, em peito de mulher mamou

Héctor. Mas o Aquileu é filho de uma deusa…”

Zeus replica:

“…Honras

maiores, sim, merece Aquiles; porém, Héctor

era, entre os mortais de Ílion, o mais caro aos céus…”

Após 15.693 versos, ele se tornou o mais caro ao leitor também.

ANEXO

Como fiz com Antígona (VER https://armonte.wordpress.com/2011/08/05/tudo-o-que-exorbita/), colocarei para os interessados uma mostra de cada uma das três grandes traduções da ILÍADA. Entre parênteses, a editora que as publicou por último: escolhi a passagem do CANTO I em que Tétis vai se queixar a Zeus:

1)    ODORICO MENDES(Ateliê Editorial, Editora Unicamp), tradução de 1874:

“Sempre enfadado nos baixeis, o ardente

Generoso Pelides na assembléia

De heróis não comparece ou nas batalhas;

Do ócio porém seu coração ralado,

Almeja o alarma e pela guerra brame.

Ao duodécimo dia, à casa etérea,

Em testa Jove, os numes se encaminham.

Dos mares Tétis, sem que olvide o filho,

Surgindo matutina, ali se alteia;

Semoto encontra o providente Padre

No fastígio do Olimpo cumioso;

Pára, da sestra prende-lhe os joelhos,

Da destra o mento afaga, e assim lhe implora:

Se entre os imortais, senhor, te fui profícua

Por dito e ação, preenche-me este voto:

Orna o meu filho a vida, já que é breve;

Que o rei possante o assoberbou de insultos

E retém-lhe o só prêmio. Glorifica-o,

Ó pai celeste; aos Frígios dá vitória,

Té que de honras os Dânaos o acumulem.

O anuviador calou-se, e ela mais insta:

Pois que receias? ou concede ou nega;

Que a deusa ínfima sou prove-te agora.

Do imo geme o Tonante: É mau que incites

A com seus ralhos molestar-me Juno,

Que, assídua em me aturdir perante os numes,

Desses Troianos parcial me acusa.

Vai-te, ela não te enxergue. A mim o tomo:

Do certíssimo aceno entre as deidades,

Selo à minha promessa irrevogável.”

2)    A de Carlos Alberto Nunes (Ediouro):

“Junto da nave ligeira, entretanto, se achava agastado

o divo Aquiles, de céleres pés, de Peleu descendente,

sem freqüentar a assembléia, onde os homens de glória se cobrem,

nem tomar parte nas lutas. Ralado de fundo despeito,

só pelos gritos de guerra e sangrentos combates ansiava.

Quando a dozena manhã prometida raiou matutina,

para o Olimpo voltaram os deuses de vida perene,

todos, com Zeus grande à frente. Não pôde do filho esquecer-se

Tetis, do que lhe pedira; emergindo das ondas marinhas,

em névoa envolta, ao céu subiu e ao Olimpo altanado,

onde foi dar com o filho de Crono, que ao longe discerne,

dos demais deuses à parte,  no pico mais alto do monte.

Ao lado dele assentando-se, passa-lhe em torno dos joelhos

o braço esquerdo, e, tomando-lhe o queixo na destra, afagando-o,

desta maneira a Zeus grande, nascido de Crono, suplica:

Se já algum dia, Zeus, pai, te fui grata entre os deuses eternos,

seja por meio de ações ou palavras, atende-me agora:

honra concede ao meu filho, fadado a tão curta existência,

a quem o Atrida Agamémnone, rei poderoso, de ultraje

inominável cobriu: de seu prêmio, ora, ufano, se goza.

Compensação lhe concede por isso, Zeus, sábio e  potente;

presta aos Troianos o máximo  apoio, até quando os Acaios

a distingui-lo retornem e de honras condignas o cerquem.

Nada lhe disse, em resposta, Zeus grande, que as nuvens cumula.

Quedo e silente ficou. Tétis, logo, lhe os joelhos abraça

mais firmemente, insistindo outra vez no primeiro pedido:

Abertamente concede, ou recusa o que venho pedir-te,

pois desconheces o medo. Que obtenha, desta arte, a certeza

de que, em verdade, entre os deuses eu sou a que menos distingues.

Muito abalado lhe diz Zeus potente que as nuvens cumula:

Coisa mui grave me pedes, que vai contra mim chamar o ódio

de Hera, que tem por costume irritar-me com ditos molestos,

té sem motivo lhe apraz, entre os numes eternos, lançar-me

acusações, com dizer-me parcial, nesta guerra, aos Troianos.

Trata de ir logo daqui: não suceda que sejas por ela

reconhecida, que tomo ao meu cargo fazer o que pedes.”

3) HAROLDO DE CAMPOS (editora ARX):

“… A ira o roendo à beira de suas naves rápidas,

sentava-se o Peleio Aquiles, pés-velozes,

nem a glória da ágora o atraía agora,

nem a guerra. Ficava ali, o coração

pisado, ansiando pelos gritos de combate.

Mas assim que surgiu a aurora duodécima,

Os deuses sempiternos voltam para o Olimpo,

à frente deles, Zeus. E Tétis não esquece

o pedido do filho. Sai da onda marinha.

Qual bruma da manhã se eleva ao grande céu.

O Satúrneo, voz forte, encontra-o, separado

dos outros, no mais alto píncaro do Olimpo.

senta-se ao lado dele; abraça-lhe os joelhos

pela esquerda, e afaga-lhe o queixo à mão direita.

Suplica então a Zeus, soberano Satúrneo:

Zeus, pai, se alguma vez a ti, entre imortais,

com palavras e obras te ajudei, atende

o que te peço. Aquiles, o que-a-Moira-espreita,

meu filho, honra-o. Fez-lhe duro insulto o rei,

Agamêmnon: tomou-lhe o prêmio e goza o roubo.

Vinga-o, senhor do Olimpo, Zeus prudente, dá

força aos troianos contra os Aqueus, até que

as honras, que a meu filho devem, restituam.

Assim falou. E Zeus, cumulado de nuvens,

nada lhe respondeu. Assentado, calava-se.

Tétis, colado a seus joelhos, insistiu:

Promete-me, Infalível, ou recusa-me algo.

Não conheces o medo. Sim ou não, acena-me

que eu saiba quanto sou desonrada entre os deuses.

Cumulado de nuvens, Zeus responde aflito:

Funesto assunto!Vai-me inimizar com Hdera,

quando me irrite e afronte com palavras duras.

Ela, entre os imortais, sempre me acusa, injusta,

de ajudar no combate aos guerreiros troianos.

Afasta-te, daqui, agora. Que Hera nada

perceba. Cabe a mim dar às coisas seu rumo…”

03/08/2011

A admirável Julieta Cupertino e o gosto da Revan pela não-confiabilidade

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É admirável que aos 103 anos Julieta Cupertino esteja em plena atividade, e traduzindo Joseph Conrad para a editora Revan. Menos admirável é que a editora malbarate esse trabalho com informações tão esdrúxulas que chegam a criar no leitor a desconfiança de que os seus responsáveis ficaram presos no visgo da não-confiabilidade, aquele tipo de foco de narrativo que mestres como James, Conrad e Machado de Assis nos legaram.

   Na recentíssima edição da tradução de Coração das Trevas de Julieta Cupertino há um preâmbulo editorial ridículo, em que lemos pérolas do tipo:

Almayer`s folly, que estava inédito no Brasil até a Revan publicá-lo em 1999, com o título de A loucura de Almayer” Não, não, não. O texto já fora traduzido por Virginia Lefebvre para a Boa Leitura com o título de Perdição.

   A desinformação acima pode ser resultado de mera ignorância. Mas a próxima só pode ser má-fé:

Vitória–também publciado pela primeira vez no Brasil”.

  Já existiam duas traduções de Vitória no Brasil, uma delas impossível de desconhecer já que lançada pela Globo e feita por Mário Quintana, e a outra pela Francisco Alves, e assinada por Marcos Santarrita.

 E essa pérola suprema:

“e agora Coração das trevas, igualmente inédito no país na forma de título com texto integral e volume único”

   E logo a seguir, na página subsequente, lemos: “Há diversas traduções desta obra, publicadas no Brasil e em Portugal…” !!!

    Por que, ao invés dessas abobrinhas, não lançaram uma nova tradução (não será inédita também) de Sob os olhos do Ocidente, que se torna um romance centenário agora em 2011. Que oportunidade perdida!

   Que fique claro que essa minha diatribe nada tem a ver com o trabalho específico de madame Cupertino.

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