MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/08/2011

ANDREA CAMILLERI, a aldeia-mundo


 

um fio de fumaça

A ENGRENAGEM DO RESSENTIMENTO E DO DESPEITO

Balzac, que agudamente intuiu e descreveu os mecanismos psíquicos que regem as chamadas leis sociais, teria apreciado muito Um fio de fumaça, cujo autor, o já septuagenário Andrea Camilleri, vem nos últimos anos fazendo enorme sucesso com romances policiais que se passam na Sicília, mais precisamente na cidadezinha de Vigàta (infelizmente, eu só li um, e achei apenas razoável, A forma da água).

A comédia humana de Um fio de fumaça recua no tempo, transcorrendo no dia 18 de setembro de 1890. O fio de fumaça do título (ironicamente roubado dos versos da mais famosa ária de Madame Butterfly, aquela em que a heroína imagina o amado voltando para ela num navio) refere-se a um vapor russo que despontará no horizonte a fim de apanhar um grande carregamento de enxofre prometido pela firma da família Barbabianca, da qual Don Totó é o patriarca.

O lugarejo todo espera pelo fio de fumaça porque este concretizará um desejo coletivo: a derrocada comercial dos Barbabianca. Urdiu-se uma trama para que, através da confusão de datas, o navio apanhe a firma desprevenida com relação à quantidade de enxofre necessária para honrar o compromisso. O filho de Don Totó, Nenê, percorre a cidade humilhando-se para outros comerciantes, procurando fazer com que algum deles ceda a mercadoria. Todos se comprazem em negar, educadamente a princípio, depois, conforme o dia progride, de forma abertamente afrontosa.

Lemmonier, um engenheiro piemontês (numa Itália que se unificou politicamente, mas continuou dividida no sentido mais profundo, isso equivale a ser um estrangeiro), vai apurando, ao longo do dia, os motivos do ódio geral por Totó Barbabianca: ele chantageou, prejudicou, ou espoliou muitos daqueles que “entram em cena”, por assim dizer, na grande encenação operística que a narrativa ensaia da queda do poderoso comerciante. E vai desvendado também a alma siciliana: “Pois nos dois anos de permanência em Vigàta já tinha aprendido alguma coisa sobre os sicilianos, que o que importavam não eram as palavras que diziam, nem os gestos que faziam, o engenheiro estava persuadido de que era preciso, pelo contrário, ficar atento a côo diziam aquelas palavras e a como faziam aqueles gestos. Nuances, inflexões, mudanças imperceptíveis de ritmo e entonação, eram essas as coisas que contavam”.

Mais adiante, Lemmonier sofre um rude golpe ao perceber quão falsa e idealista é sua concepção dos sicilianos como seres infantis (“se eram maus, tratava-se daquela maldade momentânea e superficial que é típica das crianças”), após encantar-se com um convite para contemplar uma bela vista e constatar que todos estão esperando pela fumaça do vapor russo: “Como um pássaro traiçoeiramente atingido em meio a um maravilhoso vôo, Lemmonier despencou violentamente no solo. Então, estava tudo explicado, o convite, que lhe parecera tão inocente, tinha pelo contrário, um significado preciso: a cerimônia canibalesca em torno de Barbabianca continuava, implacável, sem desvios, sem a menor hesitação, e toda aquela conversa fiada, aquelas falas sobre poesia, aquele agradável encontro era um modo de passar o tempo necessário a que se desse o evento esperado, a que este atingisse o amadurecimento”.

Um dos aspectos que tornam Um fio de fumaça uma novela memorável é sua apreensão de um mecanismo psíquico da natureza masculina (pois se trata de um relato em que a mulher tem pouco espaço e se refere quase exclusivamente à psicologia do homem) que interfere nas leis sociais: a inveja, a dor de cotovelo em ver que outro “se deu bem”, “que está por cima”, o chamado espírito de porco, a necessidade de ver fulano “dando com os burros n´água” e que se resolve (ou melhor, não se resolve, é por isso que o 18 de setembro de 1890 é tão especial em Vigàta) em rancores, mesquinharias e maledicência, numa maldade praticada socialmente, que nada tem de momentânea nem tampouco é superficial. É claro que rancor, mesquinharia e maledicência existem de sobra no mundo feminino, mas no masculino se reveste de um caráter especial, mais insidioso, mais disfarçado em comentários chulos e em bravatas machistas.

Sem precisar chegar à eminência de obras-primas do naipe de O povoado & Pantalão Negro, de William Faulkner, quem mostrou esse universo de maquinações invejosas muito bem foi Marcel Pagnol na história que gerou os filmes Jean de Florette & A vingança de Manon.

Infelizmente, ao contrário do enredo de Pagnol, em que aparecia a figura inesquecível do invejoso e dissimulado Ugolin (principalmente se o lembrarmos na interpretação fantástica de Daniel Auteiul, um dos dois ou três melhores atores da atualidade), Um fio de fumaça peca pela ausência de uma figura marcante. E isso Balzac certamente não apreciaria. O panorâmico, o coletivo, é representado de forma brilhante, só que faz falta o elemento individual. Li a novela de Camilleri duas vezes seguidas, admirando a forma cruel com que orquestra as mazelas da cidadezinha siciliana, e ainda assim mal lembro dos personagens a não ser nos seus detalhes mais gritantemente caricaturais, como o padre impenitente e blasfemo, o príncipe louco, obcecado pela quadratura do círculo, o nonagenário que mal enxerga, porém quer ver a fumaça do vapor para ter um último gostinho na vida, etc.

Fora isso, há uma irritante opção editorial: como vários autores italianos, e o exemplo mais ilustre é o de Carlo Emilio Gadda (Aquela confusão louca na Via Merulana, um dos romances do século), Camilleri privilegia o dialetal. E fez questão de mostrá-lo na sua especificidade mais radical, tendo com isso de explicar ao seu leitor vários termos. A edição brasileira colocou tais explicações em notas de rodapé, atravancando e poluindo a leitura, uma vez que tal aspecto só interessa a filólogos e especialistas. É um tratamento pedante e acadêmico para uma narrativa fluente, que está muito bem traduzida. Parece até aquelas edições “críticas” onde mal se consegue ler o texto.

No mais, é delicioso o uso dos provérbios em Um fio de fumaça (que atende também a uma tradição italiana e especificamente siciliana, basta lembrar de Giovanni Verga). Esse mundo proverbial, que mexe com um sentimento profundo de fatalismo (“aquele que nasce redondo não pode morrer quadrado”) tem um grande representante brasileiro: Autran Dourado, cujo Novelário de Donga Novais, todo construído em cima de provérbios utilizados pelo personagem-título, a leitura do texto de Camilleri faz lembrar algumas vezes. Aliás, o livro do também septuagenário autor mineiro está sendo relançado pela Rocco e seria uma experiência interessante para o leitor confrontar dois textos que confirmam de forma tão expressiva as seguintes palavras de Dante Maffia: “É a divertida saga coral e provinciana da inveja e da maledicência, da mediocridade e do beatismo, da extravagância e do sentimento, embora, por trás desse desfile, esteja a tragédia dos limites de uma sociedade pequena e, sobretudo, o encanto-desencanto de quem assiste à pantomima de um mundo absurdo, anacrônico e folhetinesco”.

(resenha publicada em “A Tribuna”, em quatro de julho de 2000; o livro original foi lançado em 1997)

)

linha telefônica

                LINHA OCUPADA

Uma das formas de resistência ao processo de globalização é a insistência de certos grandes autores no particularismo de suas regiões, no privilégio dado à feição dialetal para a construção da sua linguagem. Portanto, longe de estar ameaçado, o regionalismo parece mais vivo do que nunca quando se lê, por exemplo, um autor como Andrea Camilleri.

Um dos mais importantes escritores italianos da atualidade, sua ficção circunscreve-se a um pedacinho da terra de Giovanni Verga, Luigi Pirandello, Leonardo Sciascia, a mítica Sicília: Vigàta, povoado da província de Montelusa (“órfã e malfadada província de nossa bem amada Itália”, diz um de seus personagens, insinuando, involuntariamente, que à idéia unificadora de uma bem amada Itália não corresponde uma fraternidade das suas diversas regiões).

O leitor pode penetrar nesse território ficcional através de um romance divertidíssimo e cruel, La concessione del telefono- Por uma linha telefônica (1998), que mostra, já no final do século XIX (1891-92) cidadãos “encurralados entre o Estado e a Máfia”, isto é, entre um mundo de burocracia ineficiente e propensa à corrupção, e o crime organizado. Familiar, não?

Quem aciona o imbróglio é Pippo Genuardi, um boa-vida aparentemente regenerado após o casamento (na verdade, mantém um caso com a madrasta da esposa). Ele quer uma linha telefônica entre sua oficina e a casa do sogro. Ao escrever equivocadamente, contrariando os trâmites burocráticos pertinentes, ao prefetto (não confundir com prefeito) da sua região, Vittorio Marascianno, um paranóico meio amalucado, desperta nele suspeitas de subversão política (por que Genuardi quereria uma linha telefônica?).

Por mais que o único trio de personagens sensatos da administração pública (Corrado Parrinello, Arrigo Moterchi & Antonio Spinoso) tente impedir as trapalhadas de Marascianno, o caso Genuardi toma um vulto imenso e fatal para o desmiolado requerente, que não imaginara o dédalo burocrático que teria de enfrentar.

Não é só o Estado que se interessa pelas atividades de Pippo. Um mafioso local, Don Lollò, quer descobrir o paradeiro de um amigo dele, e por causa da sua obsessão pela linha, o nada ético protagonista se decide a denunciá-lo. Só que Sasà (deliciosamente arrolado na lista de personagens no início do romance como “ex-amigo de Genuardi”) consegue sempre enganar seus perseguidores, o que acaba por tornar Pippo suspeito aos olhos de Don Lollò.

Como se vê, o desejo de Pippo por uma linha telefônica transcende os limites do seu interesse individual e se mistura ao cadinho de reivindicações populares (é uma época de agitação política e repressão por parte do governo) e à infiltração desmoralizadora do crime organizado no aparelho estatal. Essa interferência do público no privado (e sua contrapartida) revela-se grotescamente trágica no momento em que ele consegue alcançar seu objetivo: o sogro descobre que o telefone servirá para o caso entre a esposa e o genro, irá lavar sua honra e os carabinieri (os quais se aliam ao prefetto Marascianno na convicção de supostas atividades subversivas de Pippo) darão um jeito de manipular politicamente o acerto de contas entre eles.

    La concessione del telefono confirma a revelação que foi Um fio de fumaça para o leitor brasileiro, só que trazendo uma trama ainda mais colorida e caleidoscópica, impulsionada pela correspondência entre os personagens e por diálogos desbocados entre eles, método bem diferente do estilo enxuto e “neutro” do genial Leonardo Sciascia, e com uma qualidade que faltava àquela talentosa narrativa da expectativa do povoado de Vigàta pela bancarrota de um comerciante de enxofre odiado por todos: os personagens desta vez são mais individualizados e memoráveis. Ainda predomina o traço caricatural, mas é evidente o capricho com que Camilleri desenha, por exemplo, seu malfadado trio de funcionários escrupulosos e seus destinos ironicamente melancólicos, após sua bem-intencionada e inútil interferência no caso Genuardi.

No intróito do livro, há uma citação de Pirandello, o grande antepassado de Sciascia & Camilleri, que fala de corrupção política, concessões e favores escandalosos, clientelismo e vergonhoso desperdício do erário público. As imperdíveis 270 páginas de La concessione del telefono servem para demonstrar que realmente (como afirma Camilleri, ao explicar a origem do livro) Pirandello “diz tudo”. O Brasil de 2002 não fica atrás em demonstração cabal.

2 Comentários »

  1. Até hoje só tinha lido os livros do Comissário Montalbano, foi uma boa dica, vou procurar outros livros desse autor que é um dos meus favoritos

    Comentário por Sandra Olivieri — 10/03/2011 @ 22:57 | Responder

    • Se você já gosta da linha Montalbano, você vai adorar. Muito obrigado pelo seu comentário. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 11/03/2011 @ 8:30 | Responder


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