MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/08/2011

“TUDO O QUE EXORBITA”…


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em  24 de julho de 2001)

O eminente gramático Domingos Paschoal Cegalla vem publicando pela DIFEL suas traduções de tragédias gregas clássicas, como Rei Édipo e Antígona (441? a.C). Salvo engano, a versão brasileira mais importante, em tempos recentes, dessas peças de Sófocles (497?-406? A.C) era a de Mário da Gama Kury, numa série editada pela Jorge Zahar. Nela, Kury adotava, ainda que livremente, a forma poética, ao contrário de J. B. Mello e Souza (no volume dedicado ao teatro grego dos “Clássicos Jackson, edição de 1950), o qual optara pela prosa.

Cegalla, por sua vez, alterna as duas formas e, apesar de certos termos esquisitos (rebramem, ornitoscópio, gafado, conculcando), e alguma notas de rodapé desnecessárias e até impertinentes, que tutelam demais o leitor (chamando atenção para efeitos poéticos do texto, por exemplo), quando deveriam apenas cumprir um papel informativo, a nova tradução funciona, ou como se diz tantas vezes, flui.

“A lei que no passado vigorou

      e no futuro há de vigorar é esta:

      na vida humana, tudo o que exorbita

      tem como companheiras as desgraças.”

Há 2.500 anos esta advertência ressoa na civilização ocidental. Ela aparece num dos coros de Antígona, logo depois que a protagonista é condenada à morte pelo rei Creonte, em Tebas, por sepultar o irmão Polinices e cumprir os piedosos ritos religiosos fúnebres, contra a vontade expressa do soberano.

Ao longo da peça de Sófocles, palavras como prudência, sensatez, moderação são reiteradamente contrapostas às atitudes “exorbitantes”, que ferem, às vezes, as leis humanas (Antígona infringe um decreto real) e, às vezes, as leis divinas (Creonte infringe as regras funerárias da civilização tebana, estabelecidas pelos deuses).

Em suma, os antagonistas, Antígona e Creonte, pecam por infringir o senso comum, “a medida de todos os homens”.

É uma experiência comum a vários leitores surpreender-se, ao tomar contato com a peça, com o comportamento de Antígona: rude, enfático, até arrogante. Ela está, todavia, adotando a linguagem dos heróis masculinos da época, como boa precursora das “donzelas guerreiras”, além, é claro, do orgulho de pertencer a uma gens, uma família importante, e há toda uma sutil crítica à passividade  e à covardia dos homens de Tebas, incluindo o noivo, Hêmon (filho de Creonte), nessa atitude insólita, híbrica, oposta à da irmã, Ismene, que diz: “É preciso não esquecer que somos mulheres e que, portanto, não podemos lutar contra os homens”.

Ao saber que seu decreto foi desobedecido, Creonte diz: “Qual foi o homem que teve esse atrevimento?” E ao se defrontar com ela: “No dia em que uma mulher tripudiar impunemente sobre mim, eu deixarei de ser homem e ela tornar-se-á homem (…) enquanto for vivo, não me deixarei governar por mulheres”.

Veja-se também o que ele diz ao filho: “Cumpre defender as instituições e não ceder, de modo algum, a uma mulher. Se for preciso cair do poder, é melhor cair pela mão de um homem porque, assim, não poderão rir-se de nós, dizendo que fomos derrotados por mulheres”.

A insurreição de Antígona contra Creonte é tanto ética quanto religiosa. Ética, por expressar o sentimento cívico, calado pela coletividade, contra o tirano (só depois é que se manifestam vozes discordantes, como a de Hêmon e a do vidente Tirésias): “Se o temor não lhes fechasse a boca, todos esses cidadãos haveriam de aprovar o meu gesto a altas vozes. Mas a tirania desfruta, entre muitas outras vantagens, a de fazer e dizer o que lhe apraz”; e religiosa, por mostrar que o autoritarismo patriarcal do governante de Tebas está em desacordo com as leis divinas[1]:

“Eu não creio que teus decretos, escritos pela mão de um mortal, possam ser superiores às leis não escritas e imutáveis dos deuses. Elas não são de hoje nem de ontem, mas são eternas, vigoram em todos os tempos e ninguém sabe quando nasceram. Tinha para mim que não devia, por temor da arrogância de um homem, transgredir essas leis e ser castigada pelos deuses”.

Evidentemente, há uma ironia terrificante contida na última passagem citada: se há uma pessoa castigada pelos deuses é Antígona, e de uma forma muito pior do que os castigos sofridos pelo tirano Creonte, que resultam das suas ações imediatas na peça (o filho e a esposa suicidam-se): filha de Édipo e Jocasta, ela já esta amaldiçoada e não há como escapar do castigo. Na tradução de Cegalla, isso já fica claro na primeira fala da peça: “Ismene, minha irmã querida, conheces dentre as muitas desgraças oriundas de Édipo, uma só que Zeus não tenha descarregado sobre nós, que ainda estamos vivas? De fato, nenhuma aflição existe, nenhum infortúnio, opróbrio ou vilipêndio que não faça parte da tua e da minha desgraçada vida. Que dizer desse decreto que, segundo dizem, Creonte acaba de promulgar para toda a cidade? Tens conhecimento? … Ou ignoras que sobreviveram para os nossos amigos castigos que só se infligem a inimigos?”

Em apenas uma fala, temos desgraças, aflição, infortúnio, vilipêndio, desgraçada vida, castigos! Não é à toa que o caráter de Antígona tem todo um lado sombrio, mórbido: “Considero um bem, um lucro, morrer prematuramente”, “A minha alma há tempo que morreu para poder servir aos mortos”,

     “Viva e morta ao mesmo tempo

     já não pertenço aos vivos nem aos mortos”.

Como Hamlet, seu descendente trágico, muito, muito depois, há um ato de justiça a cumprir e há um desejo íntimo irrefreável de auto-dissolução. Mas o sentimento de desolação universal que, com as subseqüentes desgraças que ocorrem com a família de Creonte, a peça de Sófocles nos transmite, talvez só tenha sido alcançado mesmo por Macbeth e Rei Lear, mais do que com a tragédia do príncipe da Dinamarca.


[1] Vale lembrar aqui a célebre interpretação do significado do ciclo das grandes tragédias, efetuada pela dupla Vernant-Naquet em Mito e Tragédia na Grécia Antiga: ele acontece quando a pólis começa a questionar o Mito. Nesse sentido, Creonte significaria o avanço, enquanto que Antígona representaria o elemento retrógrado e atrasado. Mas a forma intensamente dialética do conflito nas tragédias permite que experimentemos a luz e a sombra de todos os lados envolvidos.

TRADUÇÕES DE ANTÍGONA:

A primeira tradução que li da peça de Sófocles foi a de J.B. de Mello e Souza (num volume que reúne também Rei Édipo; Prometeu acorrentado, de Ésquilo; Alceste, Electra, Hipólito, de Eurípedes); depois vim a conhecer as de Mário da Gama Koury (no volume A trilogia tebana) e Domingos Paschoal Cegalla; só na época do curso que dei em 2008, analisando os romances Lie down in darkness (William Styron), Sobre héroes y tumbas (Ernesto Sabato) e Ópera dos mortos (Autran Dourado), sob a perspectiva das figuras trágicas de Ifigênia e Antígona, é que conheci e utilizei a tradução de Donaldo Schüler, editada pela L&PM.

Para os interessados, uma amostra de cada uma delas:

1)    J.B. de Mello e Souza:

O CORIFEU

Oh!Agora é tarde! Parece-me que o que estás vendo é a justiça dos deuses!

CREONTE

Ai de mim –agora sei—que sou um desgraçado!Sobre mim paira um deus vingador que me feriu! Ele me arrasta por uma via de sofrimentos cruéis… ele destruiu toda a alegria de minha vida! Ó esforços inúteis dos homens!

(entra um MENSAGEIRO que vem do Palácio)

O MENSAGEIRO

Senhor! Que desgraças caem sobre ti! De uma tens a prova em teus braços… as outras estão no teu palácio… creio que tu deves ver!

CREONTE

Que mais me poderá acontecer? Poderá haver desgraça maior do que a fatalidade que me persegue?

O MENSAGEIRO

Tua esposa acaba de morrer… a mãe que tanto amava este infeliz jovem.. Ela feriu-se voluntariamente para deixar a vida.

CREONTE

Hades, que a todos nós esperas, Hades que não perdoas, nem te comoves…

dize: por que, por que me esmagas por essa forma? Mensageiro das desgraças, que nova desgraça me vens anunciar? Ai de mim! Eu já estava morto, e tu me deste mais um golpe ainda…”

2)    Mário da Gama Kury:

CORIFEU

Como tardaste a distinguir o que era justo!

CREONTE

Ah! Hoje sei quão infeliz eu sou,

mas penso que algum deus, com muita força,

golpeou-me na cabeça e me impeliu

para os caminhos da ferocidade

–pobre de mim!—calcando sob os pés

e destruindo todo  o meu prazer!

Ah! Sofrimento dos sofridos homens!

(sai do Palácio, o segundo MENSAGEIRO,correndo)

SEGUNDO MENSAGEIRO

Quantas desgraças tens de suportar, senhor!

Uma trazes contigo, nos teus próprios braços,

e em tua casa há outra, que logo verás!

CREONTE

Ainda pode haver males piores que este?

SEGUNDO MENSAGEIRO

Morreu tua mulher, mãe infeliz do morto,

há pouco, vítima de golpe bem recente.

CREONTE

Ah! Boca inexorável dos infernos!

Por que me estás matando? Sim! Por quê?

Tu, mensageiro da calamidade

triste até de narrar, que vais contar-me?

Ai!Ai de mim! Matas um homem morto!

3)    Domingos Paschoal Cegalla:

CORIFEU

Ah! Tarde, muito tarde, enxergaste a justiça!

CREONTE

Mísero que sou! Agora estou vendo que foi algum deus que naquela hora me golpeou a cabeça e me empurrou para cruéis caminhos, deitando ao chão e conculcando a minha ventura. Ai, ai, canseira dos mortais!

(Um PAJEM do Palácio Real chega correndo)

PAJEM

Senhor,pareces um homem que possui todos os males: desgraças aqui presente, desgraças dentro de casa, que já haverás de ver.

CREONTE

Que há? Porventura desgraça  ainda maior que esta?

PAJEM

A tua esposa, a mãe infeliz deste morto, acaba de morrer, em conseqüência de recentes ferimentos.

CREONTE

Ah! Insaciável porto de Hades! Por que me arruínas, assim? Por quê? Ó mensageiro de infortúnios, o que dizes? Mataste a quem já estava morto.

4)    Donaldo Schüler:

CORIFEU

Tudo indica que tarde reconheceste a justiça.

CREONTE

Assim é,

tenho o mal por mestre. Golpeou-me a cabeça

um deus então, e então carga pesada

me impôs, conduziu-me

a caminhos agrestes,

arrasou corriqueiros prazeres,

míseros despropósitos dos homens.

SEGUNDO MENSAGEIRO

Senhor, como um que tem e ainda terá,

isso já nos braços e aquilo ainda por vir, o mal

que no palácio te aguarda em breve verás.

CREONTE

Que poderá haver de mais amargo que esta amargura?

SEGUNDO MENSAGEIRO

Tua esposa, a mãe deste morto, mais mãe

que esposa,  está morta.

Já deplorável, golpeou-a novo golpe.

CREONTE

Porto insaciável da Morte,

por que, por que me fustigas?

E tu portador

De molestas mensagens e prantos,

que novas atrocidades atroas?

Matas um homem já morto.

2 Comentários »

  1. Eu tenho uma tradução de Guilherme de Almeida. Trata-se de uma brochura muito simples que não traz maiores informações sobre sua impressão, a não ser de que foi feita, a transcrição, para ser levada ao palco em 1952 com Cacilda Becker e Paulo Altran. Traz também uma fotografia de uma das páginas do manuscrito do tradutor e algumas fotos da peça.
    Eu gosto muito dos primeiros versos:

    Ó meu próprio sangue, Ismene, irmã querida, que outros males Zeus, da herança infanda de Édipo há de nos mandar enquanto formos vivas?

    Gostei do blog, parabéns!

    Comentário por josaphat — 22/05/2010 @ 23:04 | Responder

    • Além da oportunidade de agradecer, vou aproveitar para lhe contar que há muito tempo estou atrás dessa tradução de Guilherme de Almeida, afinal uma “Antígona” traduzida por um poeta dessa categoria! Quem sabe algum dia eu a encontre. Um forte abraço.

      Comentário por alfredomonte — 23/05/2010 @ 13:02 | Responder


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