MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/08/2011

A BALANÇA ALEATÓRIA DO DESTINO (e o nosso pesar, partidário, por Heitor de Tróia)


PRIMEIRA PARTE (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 25 de maio de 2004)

“…A sangueira encharca o solo. Desde

o amanhecer, até que cresça o dia sagrado

lanças golpeiam, de uma e de outra parte. Tomba

a gente . Quando o sol ascende a meio-céu,

o Croníade, soerguendo a balança dourada,

coloca em cada prato uma das torvas Queres

longa-lutuosa morte, a dos Troianos, doma-

corcéis; a dos Aqueus, vestes-brônzeas. Librou-a

segura bem no centro; cai, aziago, o dia

dos Aqueus, cuja Moira pousou na fertílima

terra, a dos Tróicos sobe aos céus…” (CANTO VIII, vv. 65-75)

Além de Tróia, a redução hollywoodiana da ILÍADA, o brasileiro tem à sua disposição nova versão do épico de Homero, composto provavelmente entre os séculos IX e VIII a.C. Depois das traduções importantíssimas de Odorico Mendes e Carlos Alberto Nunes, a de Haroldo de Campos (lançada em dois volumes pela ARX, e da qual tivéramos amostras em A ira de Aquiles e Os nomes e os navios) mostra qualidades de concisão e precisão que faltam às vezes na de Nunes (a qual, no entanto, é fantástica), e uma clareza e legibilidade que faltam na de Mendes (que é um desafio de leitura, quase como se estivéssemos lendo outra língua). O único senão é que, na capa, o nome do tradutor  aparece com mais destaque do que o do autor!

O primeiro volume traz 12 dos 24 cantos. Em 7.589 versos, mostra-se como, no nono ano do cerco a Ílion (Tróia), Aquiles e o chefe das tropas gregas,Agamêmnon, desentendem-se por causa de uma presa de guerra (Briseida), o que causa a célebre ira de Aquiles e sua retirada da guerra.

Sua mãe imortal, Tétis, pede a Zeus que os gregos sejam prejudicados até que se honre o filho como devido. Palas Atena e Hera, todavia, são favoráveis aos gregos e várias celeumas e picuinhas ocorrem no Olimpo até que Zeus, o Croníade, decreta que nenhum imortal deve participar das batalhas e ele mesmo passa a manipular o destino do combate, fazendo com que Héctor (assim aparece na tradução de Campos, contrariando a tradição, que sempre o nomeou como Heitor), o chefe dos troianos (e irmão de Páris, que raptou Helena de Menelau, começando a guerra), quase consiga destruir o exército grego, acercando-se dos navios invasores, os quais ele pretende incendiar.

Ler a ILÍADA é uma experiência cultural estranha a princípio, até incômoda, e que depois se mostra cada vez mais apaixonante (ainda mais se somos servidos por traduções como as de Nunes & Campos).

Por que a estranheza? É difícil nos acostumarmos com uma narrativa sobre o embate de dois lados e nenhum deles ser colocado como o certo, como aquele com o qual devemos nos identificar.

Troianos e gregos, cada lado tem razão, cada exército tem seus heróis valorosos e honrados. Héctor e Enéias equivalem-se a Aquiles, Odisseu (Ulisses), Diomedes ou Ájax. O rei Príamo tem tanta dignidade quanto Néstor, o conselheiro dos gregos. O que importa é ser favorecido pelos Deuses. Pode ser Diomedes, quando Palas Atenas o protege em combate, pode ser o próprio Zeus, influenciando as ações de Héctor. Nenhuma outra obra conseguiu captar tão bem a arbitrariedade do destino, encarnando-a em potências transcendentes. A guerra de Tróia é o palco do jogo do fado, da música do acaso, representada muito bem pela balança de Zeus, que aparece na passagem de abertura deste meu texto. Não é por acaso (sem trocadilho) que os heróis evidenciam um sentimento tão profundo da precariedade da vida (Agamêmnon diz, no canto IX, de Hades, que representa a morte: “para os mortais, é o mais odioso Deus”); não é por acaso que eles se agarram tanto aos prazeres mais sensoriais, seja comer e beber, e aos mais violentos, como matar e despojar os inimigos das suas posses valiosas. A única coisa que conta é viver, prevalecer e, se possível, perdurar após a morte, através da Fama (mesmo por um “sinistro fado”, como Helena  diz a Héctor, sabendo que ela e Páris causaram tantas desgraças, “para que, ambos, sejamos tema dos vates vindouros”).

Na ILÍADA vemos a tão falada natureza humana sem disfarces. Por isso, o incômodo nas primeiras abordagens do texto. Ájax repreende Aquiles por não aceitar ofertas de Agamêmnon com uma visão bem pragmática:

“…No entanto a morte do filho

ou do irmão, o ofensor pode pagar o resgate

condigno  e ficar na pátria, apaziguando

o coração e o orgulho do ofendido. A ti

porém, os deuses infundiram mal-volente

fereza de ânimo em razão de uma, uma única moça

e nós te oferecemos sete,entre as mais

belas e muitos outros dons…”

E é essa consciência da instabilidade da existência que dá azo a uma passagem reveladora, maravilhosa e até engraçada do canto X: na véspera de serem possivelmente massacrados por Héctor, e sabendo disso, os chefes gregos compartilham um repasto magnífico (e os emissários que procuram Aquiles ainda usufruem outro). A seguir, vão dormir! No meio da noite, Agamêmnon, Menelau e o sábio Néstor decidem acordá-los e Odisseu diz a este último, que o tira do “doce sono”: “Que grande afã vos move?” Isto é o que se pode chamar de despreocupação!

SEGUNDA PARTE (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de junho de 2004)

“… Zeus tomou da áurea balança

em cada prato pôs uma Quere mortífera

esta para o Aquileu, aquela para o doma-

corcéis; librando-a pelo meio ela declina

soa, para Héctor, o dia aziago: ruma para o Hades…”

(CANTO XXII, vv. 210-214)

Como na seção anterior, o assunto é a memorável tradução de Haroldo de Campos para a ILÍADA, mas agora tratando dos 12 cantos do segundo volume: 8.104 versos.

Pela citação de abertura, vê-se que a sorte da guerra mudou: entre os triunfos de Héctor está a morte de Pátroclo (a luta pelo cadáver do amante de Aquiles é um momento incrível, que só encontra paralelo numa disputa macabra similar pelo corpo de Sarpédon, filho de Zeus; este, favorável aos troianos).

Desta forma, urde-se o destino previsto no canto XV:

“Que Héctor afugente uma vez mais os Aqueus

desfibrados de medo, e que a fuga os arraste

às naves multirremes de Aquiles Peleide

que instigará o amigo Pátroclo, a quem Héctor

faiscante, de um lançaço abaterá defronte

a Ílion, tendo antes morto a muitos mais (Sarpédon

meu florescente filho, incluso). Irado, Aquiles

vingando o  amigo, acabará com Héctor…” (vv. 62-69)

Os acontecimentos humanos continuam provocando controvérsias entre os deuses, tanto que Hera (favorável aos gregos) chega a seduzir Zeus e adormecê-lo para que ele não impeça a intervenção de Posêidon. Ela não é a única a se valer de táticas insidiosas e desprezíveis (Apolo prejudica Pátroclo e Palas Atena cria o estratagema  que levará Héctor a uma morte solitária).

No canto XX, depois de um tempo de interdição, Zeus permite que os imortais desçam a Ílion:

“Ficarei no alto Olimpo, apreciando o espetáculo

de um píncaro. Vós outros, porém, misturai-vos

a Gregos e Troianos, a estes ou àqueles

a gosto, socorrendo (…)

Retumba a terra. O céu troveja

Zeus no alto ouvia. E pôs-se a rir, de coração

gozando ao ver os deuses que travavam luta.”

O momento mais impressionante dessa interferência sobrenatural talvez seja aquele em que o rio Xanto-Escamandro, ressentido com Aquiles por conspurcá-lo com cadáveres troianos, tenta afogá-lo por meio de uma inundação, sendo detido por Hefesto, filho de Hera (o qual, em outro momento extraordinário, confecciona a pedido de Tétis, mãe de Aquiles, uma armadura de guerra indestrutível para o “funesto herói”).

Ao contrário do que se costuma pensar, o ardil do cavalo de madeira não faz parte da ILÍADA. O poema tem seu clímax no Canto XXII, com a morte de Héctor (nele, também, começa a crescer a figura tragicamente imponente de seu pai, o rei Príamo). É Héctor quem detém o pathos trágico em meio às peripécias épicas.

Pátroclo é uma vítima do jogo do destino (é preciso que ele morra para Aquiles voltar ao conflito e seja, enfim, honrado pelos gregos como devido, após a ofensa de Agamêmnon); o arrogante Peleide tem consciência de que, mesmo gerado por uma deusa, seu destino é morrer prematuramente, sem voltar ao seu cantão natal, e essa é a pedra-de-toque para que ele insista na manutenção da sua imagem heróica, cuidando de sua Fama e Glória. Héctor, em contrapartida, carrega consigo o fardo de ser o baluarte de uma cidade condenada. Desde o início, cerca-o uma atmosfera de “morto que ainda habita os vivos”. Já no canto VI (n primeiro volume) lê-se: “…Na mansão de Héctor-ainda vivo—choram por Héctor…” (na versão de Carlos Alberto Nunes: “…Na própria casa de Heitor, ainda vivo, por morto o choravam…”; na de Odorico Mendes: “… o pranteiam vivo”).

No meio da batalha, o poeta nos antecipa:

“Restava-lhe de vida apenas um lapso mínimo

Palas Atena já o empurrava para a Moira

mortal, pelo vigor de Aquiles subjugado…”

Toda a parte final (à exceção dos jogos fúnebres como preito a Pátroclo) centraliza-se no resgate do seu corpo, que Aquiles insiste em ultrajar (após admirar a sua beleza, caído no chão, como também o fazem os demais combatentes gregos), até que contraria os próprios deuses, o que dá ensejo ao surpreendente canto final, no qual Príamo vai à sua tenda implorar pelos despojos do filho, e que tem uma grandeza que só seria vista novamente em Shakespeare. O próprio Aquiles cresce como figura humana. Príamo diz a ele:

“Lembra teu pai: mais piedade mereço

por fazer o que não fez outro homem nenhum

beijar, levando-a à boca, a mão que assassinou-me

o filho…” (CANTO XXIV, vv. 504-507)

Hera chega a reclamar da preocupação geral com Héctor:

“… Justa será tua palavra

se os Numes atribuíssem honra igual a Aquiles

e a Héctor ? Mortal, em peito de mulher mamou

Héctor. Mas o Aquileu é filho de uma deusa…”

Zeus replica:

“…Honras

maiores, sim, merece Aquiles; porém, Héctor

era, entre os mortais de Ílion, o mais caro aos céus…”

Após 15.693 versos, ele se tornou o mais caro ao leitor também.

ANEXO

Como fiz com Antígona (VER https://armonte.wordpress.com/2011/08/05/tudo-o-que-exorbita/), colocarei para os interessados uma mostra de cada uma das três grandes traduções da ILÍADA. Entre parênteses, a editora que as publicou por último: escolhi a passagem do CANTO I em que Tétis vai se queixar a Zeus:

1)    ODORICO MENDES(Ateliê Editorial, Editora Unicamp), tradução de 1874:

“Sempre enfadado nos baixeis, o ardente

Generoso Pelides na assembléia

De heróis não comparece ou nas batalhas;

Do ócio porém seu coração ralado,

Almeja o alarma e pela guerra brame.

Ao duodécimo dia, à casa etérea,

Em testa Jove, os numes se encaminham.

Dos mares Tétis, sem que olvide o filho,

Surgindo matutina, ali se alteia;

Semoto encontra o providente Padre

No fastígio do Olimpo cumioso;

Pára, da sestra prende-lhe os joelhos,

Da destra o mento afaga, e assim lhe implora:

Se entre os imortais, senhor, te fui profícua

Por dito e ação, preenche-me este voto:

Orna o meu filho a vida, já que é breve;

Que o rei possante o assoberbou de insultos

E retém-lhe o só prêmio. Glorifica-o,

Ó pai celeste; aos Frígios dá vitória,

Té que de honras os Dânaos o acumulem.

O anuviador calou-se, e ela mais insta:

Pois que receias? ou concede ou nega;

Que a deusa ínfima sou prove-te agora.

Do imo geme o Tonante: É mau que incites

A com seus ralhos molestar-me Juno,

Que, assídua em me aturdir perante os numes,

Desses Troianos parcial me acusa.

Vai-te, ela não te enxergue. A mim o tomo:

Do certíssimo aceno entre as deidades,

Selo à minha promessa irrevogável.”

2)    A de Carlos Alberto Nunes (Ediouro):

“Junto da nave ligeira, entretanto, se achava agastado

o divo Aquiles, de céleres pés, de Peleu descendente,

sem freqüentar a assembléia, onde os homens de glória se cobrem,

nem tomar parte nas lutas. Ralado de fundo despeito,

só pelos gritos de guerra e sangrentos combates ansiava.

Quando a dozena manhã prometida raiou matutina,

para o Olimpo voltaram os deuses de vida perene,

todos, com Zeus grande à frente. Não pôde do filho esquecer-se

Tetis, do que lhe pedira; emergindo das ondas marinhas,

em névoa envolta, ao céu subiu e ao Olimpo altanado,

onde foi dar com o filho de Crono, que ao longe discerne,

dos demais deuses à parte,  no pico mais alto do monte.

Ao lado dele assentando-se, passa-lhe em torno dos joelhos

o braço esquerdo, e, tomando-lhe o queixo na destra, afagando-o,

desta maneira a Zeus grande, nascido de Crono, suplica:

Se já algum dia, Zeus, pai, te fui grata entre os deuses eternos,

seja por meio de ações ou palavras, atende-me agora:

honra concede ao meu filho, fadado a tão curta existência,

a quem o Atrida Agamémnone, rei poderoso, de ultraje

inominável cobriu: de seu prêmio, ora, ufano, se goza.

Compensação lhe concede por isso, Zeus, sábio e  potente;

presta aos Troianos o máximo  apoio, até quando os Acaios

a distingui-lo retornem e de honras condignas o cerquem.

Nada lhe disse, em resposta, Zeus grande, que as nuvens cumula.

Quedo e silente ficou. Tétis, logo, lhe os joelhos abraça

mais firmemente, insistindo outra vez no primeiro pedido:

Abertamente concede, ou recusa o que venho pedir-te,

pois desconheces o medo. Que obtenha, desta arte, a certeza

de que, em verdade, entre os deuses eu sou a que menos distingues.

Muito abalado lhe diz Zeus potente que as nuvens cumula:

Coisa mui grave me pedes, que vai contra mim chamar o ódio

de Hera, que tem por costume irritar-me com ditos molestos,

té sem motivo lhe apraz, entre os numes eternos, lançar-me

acusações, com dizer-me parcial, nesta guerra, aos Troianos.

Trata de ir logo daqui: não suceda que sejas por ela

reconhecida, que tomo ao meu cargo fazer o que pedes.”

3) HAROLDO DE CAMPOS (editora ARX):

“… A ira o roendo à beira de suas naves rápidas,

sentava-se o Peleio Aquiles, pés-velozes,

nem a glória da ágora o atraía agora,

nem a guerra. Ficava ali, o coração

pisado, ansiando pelos gritos de combate.

Mas assim que surgiu a aurora duodécima,

Os deuses sempiternos voltam para o Olimpo,

à frente deles, Zeus. E Tétis não esquece

o pedido do filho. Sai da onda marinha.

Qual bruma da manhã se eleva ao grande céu.

O Satúrneo, voz forte, encontra-o, separado

dos outros, no mais alto píncaro do Olimpo.

senta-se ao lado dele; abraça-lhe os joelhos

pela esquerda, e afaga-lhe o queixo à mão direita.

Suplica então a Zeus, soberano Satúrneo:

Zeus, pai, se alguma vez a ti, entre imortais,

com palavras e obras te ajudei, atende

o que te peço. Aquiles, o que-a-Moira-espreita,

meu filho, honra-o. Fez-lhe duro insulto o rei,

Agamêmnon: tomou-lhe o prêmio e goza o roubo.

Vinga-o, senhor do Olimpo, Zeus prudente, dá

força aos troianos contra os Aqueus, até que

as honras, que a meu filho devem, restituam.

Assim falou. E Zeus, cumulado de nuvens,

nada lhe respondeu. Assentado, calava-se.

Tétis, colado a seus joelhos, insistiu:

Promete-me, Infalível, ou recusa-me algo.

Não conheces o medo. Sim ou não, acena-me

que eu saiba quanto sou desonrada entre os deuses.

Cumulado de nuvens, Zeus responde aflito:

Funesto assunto!Vai-me inimizar com Hdera,

quando me irrite e afronte com palavras duras.

Ela, entre os imortais, sempre me acusa, injusta,

de ajudar no combate aos guerreiros troianos.

Afasta-te, daqui, agora. Que Hera nada

perceba. Cabe a mim dar às coisas seu rumo…”

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