MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/07/2011

O VALE DAS CINZAS

 

Azar Nafisi tentou manter a literatura como atividade lúcida e lúdica em meio ao furor fundamentalista que lhe tirou a possibilidade de trabalhar como professora no Irã. Os leitores brasileiros não vivem sob nenhum regime antidemocrático. Nem por isso têm acesso a várias das obras mencionadas no livro de Nafisi, Lendo Lolita em Teerã.

Felizmente, O Grande Gatsby, cujo “julgamento” encenado pelos alunos da autora iraniana (quando lhe era permitido dar aulas) ocupa a segunda parte do livro, ganhou recentemente duas novas traduções: a de Roberto Mugiatti para a Record e a de William Lagos para a L&PM (há uma tradicional versão de Brenno Silveira, já publicada por várias editoras). Ainda bem, pois esse notável romance de 1925 transformou-se no paradigma da visão que os norte-americanos têm de si mesmos e que temos deles.

E isso com a banal história do pobretão que enriquece contrabandeando bebidas, tornando-se famoso por suas festas, embora na verdade só queira reconquistar seu amor do passado, a nebulosa Daisy Buchanan, a qual não consegue se desligar da vida acomodada e esnobe que leva com o marido (enquanto este a engana descaradamente com a mulher de um mecânico).

O narrador é Nick Carraway (que na sofrível versão de Jack Clayton era vivido pelo grande Sam Waterston, a melhor coisa do filme, eclipsando totalmente o casal de astros, Robert Redford e Mia Farrow), cujo envolvimento com o sonho romântico de Gatsby em torno de Daisy nos permite ver como os famosos valores americanos, sempre fortemente arraigados no provincianismo e no puritanismo, são dissolvidos na passagem do Oeste (origem dos personagens do livro) para o Leste.

O enredo se concentra em Nova York e arredores, no contraste entre o brilho da cidade grande e o vale de cinzas (uma região degradada e deprimente que todos têm de atravessar para alcançá-la de Long Island), o qual, em última instância, é sempre onde tudo ganha sua medida final.

Azar Nafisi, em sua defesa do livro no “julgamento”, diz¨”A cidade, como Daisy, tem nela mesma uma promessa, uma miragem que quando é atingida se torna degradada e corrompida. A cidade é o elo entre o sonho de Gatsby e o sonho americano. O sonho não diz respeito apenas ao dinheiro, não se trata de uma análise sobre a América como  um país materialista, mas como um país idealista, que transformou o dinheiro num meio de recuperar o sonho. Não existe nada grosseiro aqui, ou o grosseiro é tão misturado ao sonho que se torna muito difícil diferenciar os dois. No final, todos os melhores ideais e todas as mais sórdidas realidades acabam juntos.”

E, lógico, há a beleza incomparável do estilo de Fitzgerald (além do soberbo e inaparente exercício narrativo) que faz uma história de desilusão romântica terminar como visão de um sonho civilizatório ambíguo (quando Nick observa o Estreito de Long Island, após o melancólico funeral de Gatsby, assistido por quase ninguém, ele que era anfitrião de festas nababescas e com incontáveis convidados), de uma forma quase tão poderosa quanto o que Conrad mostrou ao descrever o Tamisa no início de O coração das trevas.

O grande Gatsby é uma obra-prima desesperada e pungente. Nick fica contente de ter feitor a Gatsby um único elogio (“você vale mais do que eles todos juntos”) porque o “reprovava do começo ao fim”. É essa a empatia que todo grande romance cria e que é tão bem descrita por Azar Nafisi, ecoando Harold Bloom: “Não podemos experimentar tudo o que os outros vivenciaram,mas podemos compreender mesmo os indivíduos mais monstruosos. Um bom romance é aquele que mostra a complexidade dos indivíduos e que cria espaço suficiente para que todos eles tenham uma voz; desse modo, um romance é chamado de democrático, não porque defenda a democracia, mas porque ele é assim, por sua natureza. A empatia está no âmago da questão, no âmago de Gatsby, como no de tantos outros romances; o maior pecado é ficar cego diante dos problemas e sofrimentos de outras pessoas. Não enxergar esses problemas e sofrimentos significa negar sua existência.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de dezembro de 2004)

 VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/lendo-azar-nafisi-na-baixada-santista/

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/alcapoes-invisiveis-de-onde-surge-a-borboleta-esquecida-da-revelacao/

Lendo Azar Nafisi na Baixada Santista

 

Meu receio diante de um livro como Lendo Lolita em Teerã [tradução de Tuca Magalhães, editora A Girafa] era que usasse a literatura apenas como um enfeite para um martirológio das mulheres no regime fundamentalista que se apossou do Irã..

Na página 288 da edição brasileira do livro de Azar Nafisi pode-se ler: “Minha amiga Mina me relembrou que no livro The tragic muse, Henry James explica que, quando escreve, seu objetivo é produzir a arte como uma complicação humana e como um obstáculo social. Isso é o que o torna tão difícil.  Mina era uma especialista em James e contei-lhe das dificuldades dos meus alunos com Daisy Miller. Ela acrescentou com uma certa ansiedade: Espero que não esteja pensando em tirá-lo do curso porque ele é difícil.  Eu lhe assegurei que não tinha essa intenção; de qualquer modo, não era porque fosse difícil para eles, mas sim por que os fazia se sentirem desconfortáveis… dizem que não precisamos de James, mas o que realmente querem dizer é: temos medo desse senhor James, ele surpreende, atordoa, confunde, inquieta um pouco”.

Nem é preciso chegar a esse ponto para compreender que, para Azar Nafisi, a literatura jamais ficaria em segundo plano. Desde as primeiras páginas, quando conta como deixou  (por imposição externa) de ser professora universitária no Irã e começou um clandestino grupo de estudos com algumas moças (a inclusão de um homem despertaria suspeitas), tendo Nabokov, autor de Lolita, como espírito tutelar, relatando também o cotidiano das discussões, as experiências pessoais das participantes, e depois ampliando o leque para abarcar sua trajetória de vida, a observação social não impede instigantes análises literárias (de obras de Nabokov, de Scott Fitzgerald,  de James, de Jane Austen). Isso não impede que tomemos contato com uma realidade quase surreal. Um exemplo: Negar, filha de Azar, está numa aula quando irrompem a diretora e a professora de moralidade (!).: “A classe inteira foi escoltada para fora da sala, suas mochilas foram vasculhadas à procura de armas e contrabando., fitas, romances, braceletes de amizade.  Seus corpos foram examinados cuidadosamente, as unhas inspecionadas.  Uma aluna, uma menina que acabara de voltar dos Estados Unidos, foi levada à sala da diretora, suas unhas estavam muito compridas….A própria diretora as cortou tão curtas que sangraram… Para Negar o fato de sequer poder chegar perto da amiga para consolá-la  dói tão ruim quanto o trauma da revista. Ela continuava repetindo, mamãe, ela simplesmente não conhece todas as nossas normas e regras, como você acha que ela se sente quando eles nos forçam a pisar a bandeira americana e gritar Morte aos Estados Unidos?”

Por causa desse estado de coisas, o grupo de leitura é formado “numa tentativa de, a cada semana, escapar do olhar fixo do censor cego durante umas poucas horas…não importa quão repressor o Estado se tornara, não importa o quanto estivéssemos intimidadas ou amedrontadas, tentamos escapar e criar nossos próprios pequenos bolsões de liberdade, como Lolita. E, como Lolita, aproveitamos todas as oportunidades para exibir nossa insubordinação:  uma pequena mecha de cabelo à mostra sob os véus, um pouco de cor insinuada na monótona uniformidade da aparência, as unhas compridas, apaixonando-nos ou ouvindo músicas proibidas”.

Lendo Lolita em Teerã tem feito muito sucesso. Para os leitores de Lolita, de O grande Gatsby, dos livros de Henry James e de Jane Austen do mundo inteiro, nada mais merecido.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de novembro de 2004)

LEIA TAMBÉM AQUI NO BLOG:

 

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/o-vale-das-cinzas/

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/alcapoes-invisiveis-de-onde-surge-a-borboleta-esquecida-da-revelacao/

 

 

Uma espécie de grandeza épica

“Apenas o romantismo preserva as coisas que vale a pena preservar”. Esse trecho de Belos e Malditos (1922) ajuda a compreender a atmosfera de um dos contos mais emblemáticos de Scott Fitzgerald, O boa vida. O seu protagonista, Jim Powell, descende de uma família importante, mas arruinada. E ele não é capaz de diz adeus ao passado e desvencilhar-se de um tipo de vida que não é mais o dele e, embora tente, não consegue incorporar-se aos jovens endinheirados e irresponsáveis da pequena cidade de 40 mil habitantes, ao sul da Georgia, onde vive.

Sua “boa vida” é um limbo, um simulacro de uma inadaptação existencial básica: “Uma parede erguera-se subitamente em torno dele, encarcerando-o, uma parede tão palpável e definida como a branca parede de seu pobre quarto. E, com a percepção dessa parede, tudo o que tinha constituído o romance de sua existência—a sua inteligência, a sua despreocupada imprevidência, a miraculosa liberalidade da vida—se dissipou”.

Powell é, em suma, o homem emparedado que o ensaísta francês Michel Mohrt identifica na obra do autor de O grande Gatsby (1925), um dos romances-chave do século XX: “Seu herói está emparedado dentro da sua vida sentimental; sua vontade de poder manifesta-se por um desejo de dominar os outros. Para ele, não há conquista que se diferencie—quer seja uma cidade ou um meio social—da conquista de uma mulher”.

E como fica então o romantismo “que preserva as coisas que vale a pena preservar”?

Em O boa vida, Powell vislumbra uma chance de mudança ao contemplar Nancy Lamar numa festa. Nancy, assim como a Gloria de Belos e Malditos, a Alicia de Feiticeira ruiva e outras tantas mulheres do universo fitzgeraldiano, emociona o seu apaixonado por ser tremendamente viva. E há um momento em que tudo parece incrivelmente romântico, charmoso, perfeito, em que a vida parece não ter limites, porque o homem tem acesso a uma mulher dessas.

A desilusão que decorre dos textos de Fitzgerald e sobre a qual assenta a estrutura de algumas das suas melhores realizações é que esse momento, esse auge do romântico, só dura um instante, e o resto é apenas a nostalgia desse romantismo. É o caso de Jim e Nancy. Há uma festa, há essa sensação, e Jim passa a desejar uma outra existência. No dia seguinte, ele descobre que sua eleita casou-se e foi embora da cidade devido a um escândalo na madrugada.

O paradoxo maior do mundo ficcional desse grande e pungente escritor norte-americano (e talvez sua maior fraqueza) é que por mais cínico, cáustico e sofisticado que ele pretenda ser (geralmente no início dos textos), sua visão de mundo invariavelmente conduz a história para esse momento de puro romantismo, que é também um momento de pura fragilidade. Por isso, e apesar dos resultados muitas vezes imperfeitos (caso de Belos e Malditos, que mesmo assim é lindo, ainda mais considerando-se que foi escrito por alguém com vinte e poucos anos), Fitzgerald alinha-se com honra no time simplesmente excepcional de ficcionistas das primeiras décadas do século nos EUA. Só para citar alguns nomes: William Faulkner (o maior de todos), Edith Wharton, Jack London, Willa Cather, Sherwood Anderson, Theodore Dreiser, John dos Passos, Thomas Wolfe, Katharine Anne Porter, Ernest Hemingway, Dorothy Parker, Sinclair Lewis, John Steinbeck…

     Sobre si, Fitzgerald escreveu: “Não sou um grande homem, mas às vezes penso que a qualidade impessoal e objetiva do meu talento, e o sacrifício dele, aos pedacinhos, para preservar-lhe o valor essencial, têm uma espécie de grandeza épica”. Palavras famosas, parodiadas por Woody Allen numa cena de A rosa púrpura do Cairo.

O boa vida faz parte de Seis contos da Era do Jazz & outras histórias, livro organizado postumamente pela filha de Fitzgerald  (e traduzido pelo grande Brenno Silveira), e que sai em nova edição pela José Olympio (a anterior foi pela Civilização Brasileira nos anos 60), nestes dias em que  se comemora o centenário de nascimento do autor de Suave é a noite (1934), outro monumento do romantismo fitzgeraldiano.

Além da história de Jim Powell (a minha favorita), há a fascinação  do livreiro Merlin pela irrequieta Alicia em Feiticeira ruiva, há o marido  que rouba um dia inteiro da existência da esposa no divertido  A soneca de Gretchen, há o noivo que, despeitado com a indecisão da amada, gaiatamente se fantasia de camelo e se vê envolvido numa esdrúxula cerimônia de casamento, em As costas do camelo; e, por fim, um dos melhores textos  de Fitzgerald, O curioso caso de Benjamin Button, cujo protagonista nasce idoso e vai rejuvenescendo, sempre em descompasso com as pessoas que o cercam.

Seis contos da Era do Jazz & outras histórias é um bom princípio para conhecer Scott Fitzgerald e, para os aficionados, uma visão em miniatura do brilhante (e também árido) mundo em que se passam as tramas dos seus grandes romances, que bem poderiam entrar em circulação novamente aqui no Brasil.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de setembro de 1996)

19/07/2011

O protótipo dos romances de espionagem e a encruzilhada de eras para o império Britânico

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de julho de 2011)

É quase unânime a opinião de que o romance de espionagem, uma derivação muito peculiar que o século XX proporcionou ao gênero “aventura” teve como matriz Os 39 Degraus (The thirty-nine steps, 1915), aqui no Brasil mais conhecido pela famosa versão cinematográfica (1935) de Hitchcock, na qual este—ainda na sua fase inglesa—estabeleceu o paradigma de vários de seus filmes (um homem inocente que é perseguido, num corre-corre geográfico danado), o principal deles Intriga Internacional 1 (diga-se de passagem, modelo também para tramas do tipo O Código Da Vinci).

A recente edição da Tordesilhas (em tradução de Tiago Novaes Lima) permite ao leitor brasileiro verificar que há pouco em comum entre o clássico hitchcokiano (com roteiro de Charles Bennett) e a história original do escocês John Buchan (1875-1940), a não ser o crime em seu apartamento, que lança o herói, Richard Hannay,numa fuga desenfreada por paisagens ermas, na tentativa de desbaratar uma rede de espionagem (às vésperas da Guerra de 1914). No romance, não há mocinha (Madeleine Carroll, em bela parceria com Robert Donat), nem o patético Sr. Memória, elementos essenciais e memoráveis da adaptação.

O que há é uma flagrante falta de organicidade. Boa parte da narrativa se reduz a episódios muito frouxamente ligados entre si, que me incomodam mais do que a sempre pitoresca inverossimilhança e que eram muito mais bem amarrados no filme).. Na verdade, o que vemos é uma apologia do “cavalheiro” inglês, aquele que se lança em aventuras por um senso quase de diversão (Hannay se entediava em Londres). Na Escócia, perseguido por espiões e pela polícia (é suspeito de um assassinato), tentando decifrar num caderninho em código o que seriam os 39 degraus (correspondentes a uma organização de origem alemã, a Pedra Negra, para roubar planos navais), ele encontra um hospedeiro com ambições literárias que o ajuda, assim como um ingenuamente idealista político (ambos aceitam sua história porque vêem que ele é um “cavalheiro”, pura e simplesmente, e ele confia em ambos pelo mesmo motivo; trata-se de um tmepo em que a palavra de honra era tudo). disfarça-se de trabalhador braçal, e vai parar precisamente—neste vasto mundo de Deus—na casa do vilão, sem querer!

Essa primeira parte do livro, só mesmo com uma boa vontade nostálgica e um resgate do leitor infanto-juvenil que há (ou deveria haver) em nós, para ser apreciada (e foi melhor explorada por Hitchcock, através de hábeis modificações e do ritmo cinematográfico, mais adequado). .O detalhe mais interessante é uma característica que veremos alguns anos mais tarde muito pronunciada na obra de Agatha Christie: o gosto pelo teatro e pelo disfarce. Vários personagens (o herói inclusive) de Os 39 Degraus utilizam disfarces (até num momento-chave da trama, numa reunião de lideranças dos governos britânico e francês), e toda a segunda parte (muito melhor, a meu ver) vai se basear nisso, principalmente no, quando Hannay confronta seus inimigos—disfarçados—numa casa à beira-mar que dá acesso aos misteriosos 39 degraus. É o momento que resgata a obra de John Buchan da mera curiosidade histórica.

Em todo caso, as peripécias de John Buchan foram fecundas: abriram caminho para o universo de Graham Greene (O Ministério do Medo), Eric Ambler (Jornada do Pavor) John Le Carré (O Morto ao telefone), Ian Fleming (a série 007), já que o submundo da política, seus meandros mais obscuros, dominou o imaginário do século passado, e principalmente compensou para a Inglaterra, ao menos na ficção, a perda do seu império. Lendo esses autores, parece que o centro nervoso da espionagem internacional, mesmo depois do início da Guerra Fria, se concentrava no Reino Unido.

Nesse ponto, o senso de importância estratégica dessa potência para os destinos do mundo, sublinhado em Os 39 Degraus,é mais verdadeiro. Em 1915, os EUA ainda não tinham a supremacia, e a URSS sequer existia. Um determinado tipo de civilização européia estava chegando ao fim. Portanto, entre todos os seus atrativos, as aventuras de Richard Hannay se postam numa encruzilhada de eras.

 

1Outro exemplar prazeroso dessa vertente é Sabotador.

15/07/2011

O prazer de ler Harry Potter apesar das edições brasileiras

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de junho de 2004, em função do lançamento da versão cinematográfica)

Quando foi lançado em 1999, Harry Potter e O prisioneiro de Azkaban marcava uma diferença com relação aos dois volumes anteriores (Harry Potter e A pedra filosofal & Harry Potter e A câmara secreta): enquanto eles mostravam enredos fechados em si mesmos (e, no caso do segundo, trata-se de um enredo extraordinário, que faz dele o melhor da série até agora); desta vez, o desfecho ficava inconcluso, abrindo um leque maior, complicando mais as relações e as possibilidades da história.

Harry fica sabendo que seu padrinho, Sirius Black, tido como perigoso assassino e responsável pela morte dos pais do jovem bruxo (motivo  pelo qual ele passou doze anos na prisão de Azkaban), é inocente, porém no desfecho Sirius não consegue limpar seu nome e tem de se tornar um foragido, assim como o hipogrifo Bicuço (Buckbeak), condenado à morte por intrigas do perverso Draco Malfoy, rival de Harry em Hogwarts; além disso, um servo importante de Lord Voldemort, Peter Pettigrew, supostamente assassinado por Sirius e que esteve camuflado na forma do rato de Ron Weasley, Perebas (Scabbers), consegue escapar—após seus desmascaramento—para se runir ao seu mestre (o que dará ensejo ao quarto volume, Harry Potter e O cálice de fogo, no qual se mostra como Voldemort consegue recobrar um corpo, com a ajuda de Pettigrew).

Sem contar que as coisas se tornaram mais ambíguas: o Ministério da Magia caça Sirius por meio dos macabros Dementadores (que evocam os Espectros do Anel de O Senhor dos Anéis), seres que sugam toda a felicidade e alegria das pessoas e parecem tão ameaçadores quanto Voldemort, tanto que, quando os professor de defesa contra a Arte das Trevas do terceiro ano (nenhum chega a ficar mais), Remus Lupin—que depois se revela um lobisomem—,faz com que a classe de Harry materialize seu maior terror num Bicho Papão (Boggart), o que aparece para o herói da série não é Voldemort e sim um Dementador, o que acarreta aulas particulares nas quais Lupin—que foi amigo do pai de Harry—lhe ensina como conjurar um Patrono protetor, através de um feitiço avançadíssimo, que terá grande importância na trama.

Em Harry Potter e O prisioneiro de Azkaban aparecem dois personagens que se tornarão importantes nos seguintes: Cedric Diggory (um rival amistoso de Harry na disputa pelo cálice de fogo, tendo um cruel destino) e Cho Chang, que namorará os dois.

Harry ainda recebe como presente o Mapa do Maroto, que foi criado por Lupin, Pettigrew, Sirius e seu pai, durante a adolescência, em suas identidades de Aluado (Moony), Rabicho (Wormtail), Almofadinhas (Padfoot) e Pontas (Prongs).Esse item mágico permitirá que se estabeleça um elo entre ele e o passado, inclusive com o desagradável professor Snape, o eu levará ao clímax da história num lugar tido como assombrado, a Casa dos Gritos.

Por fim, é o livro que deixa claro um dos grandes temas da série: o respeito pelas diferenças. Já em Harry Potter e A câmara secreta havia a questão do preconceito (contra os de sangue impuro); aqui, começam a proliferar outros seres, desrespeitados e desprezados pela sociedade dos bruxos[1]. O professor Lupin é um exemplo. É o lado politizado do universo de J.K. Rowling.

Como todos os outros volumes da série, Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban é muito bem traduzido por Lia Wyler. O único senão, e se trata de uma questão puramente idiossincrática, é a tradução dos nomes (por isso, neste artigo, utilizou-se o recurso pedante de informar o nome em inglês). Mesmo aí ela consegue equivalentes perfeitos (quando não se trata dos nomes próprios), como nôitibus andante por the knight bus.

Em compensação, levando-se em conta o preço que a Rocco coloca em seus livros, ela poderia dar um tratamento visual melhor à série, ainda mais devido ao seu público-alvo, os adolescentes.  Compare-se, por exemplo, com a edição americana da Arthur A. Irvine Books-Scholastic Press, que tem um tipo de impressão delicioso que duplica o prazer de ler J.K. Rowling, e que principalmente tem o cuidado de diferenciar as manifestações escritas dos personagens. Dois exemplos são suficientes: enquanto na ultra sem-graça edição brasileira, todos os bilhetes, informes, anúncios e cartas são impressos no mesmo formato (estraga-vista), no capítulo 14 da edição americana, O ressentimento de Snape (Snape´s Grudge), quando Snape tenta fazer funcionar o Mapa do Maroto, é insultado por palavras mágicas de cada um dos seus quatro criadores, com tipos de fonte diferenciados para Moony, Wormtail, Padfoot & Prongs; há um bilhete de Hagrid no capítulo seguinte (The Quadditch Final, isto é, A final do campeonato de quadribol), escrito num momento de tristeza e angústia, e na impressão que copia a peculiar forma de expressão do amigo gigante de Harry aparecem as marcas de lágrimas, borrando o texto e nos fazendo visualizar sua reação à condenação do hipogrifo de estimação. Isso é respeito pelo leitor. E aumenta a diversão. Quem sabe, algum dia, a Rocco siga o exemplo.


[1] Em Harry Potter e O cálice de fogo há um toque Vestígios do dia: a bruxinha Hermione se revolta ao descobrir que há criadagem em Hogwarts, elfos domésticos, explorados e alienados  ao mesmo tempo; comentando esse fato, o padrinho de Harry, Sirius, diz algo revelador sobre a estrutura social britânica: “Se você quer saber como um homem é, veja como ele trata os inferiores, e não os seus iguais”).

A série Harry Potter e o quinto volume

 

 

 

PRIMEIRA PARTE

O lançamento de Harry Potter e A Ordem da Fênix traz de volta tanto a badalação por parte da mídia quanto as reações negativas de praxe. E como a série já está no quinto volume, é possível uma avaliação objetiva de suas qualidades ficcionais e literárias, que são muitas.

Antes de mais nada, é preciso dizer de saída que sou fã dos livros de J.K. Rowling. Poderia dar como razão o fato de que a literatura feita no Brasil é deprimente. Qualquer um que tenha experiência como professor percebe que os livros são mal escritos, pobres ficcionalmente, tem “toques” politicamente corretos repelentemente deliberados e óbvios, encomendados pelas editoras e ditados por parâmetros curriculares, temas transversais e o escambal, que parecem ter substituído a inteligência e o talento.

J.K. Rowling sabe exatamente como funcionam as crianças e os adolescentes e a competição acirrada entre as casas de Hogwarts (especialmente entre Grifinória e Sonserina) prova isso.

Mas é necessário mesmo qualquer razão ou desculpa? O fato é que muitos dos que discutem a série Harry Potter, a favor ou contra, estão pouco preocupados com ela enquanto leitura para jovens. É ótimo que os jovens gostem de uma coisa tão boa, tão inventiva. O interessante é que muitos leitores adultos, conquistados pelo poder fabulatório de Rowling, procuram justificar esse inesperado prazer, meio que envergonhados porque há uma mídia tão forte cercando tal prazer.

Quando surgiu o primeiro Harry Potter, o da pedra filosofal, um espaço foi preenchido: entre o infantil e o adulto nada havia, a não os clássicos e o cinema meio-efeitos especiais meio-visão debilóide da vida, pós (e por causa de) Spielberg & Lucas.

Podia ser um feliz acaso. Aí veio o segundo, o mais impressionante até agora, Harry Potter e A Câmara Secreta, que reafirmava as qualidades do anterior e criava um suspense incrível até sua solução realmente inesperada e inteligentíssima.

Esses dois primeiros volumes eram esféricos, fechados em si mesmos. A partir do terceiro, Harry Potter e O prisioneiro de Azkaban (cuja solução também é bárbara, com a revelação da identidade de Rabicho), o leque se abre, os finais se tornam inconclusivos, exigindo continuação, o que fica mais evidente ainda em Harry Potter e O cálice de fogo, no qual a Macronarrativa (a guerra ente o lado de Dumbledore e o lado de Lord Voldemort, com o Ministério da Magia no meio), que percorre a serie, se delineia claramente.

Esse quarto volume, aliás, em que se pese o seu brio narrativo, é o que mais justificaria a ácida crítica de Harold Bloom, de que a leitura de J.K. Rowling seria apenas uma preparação para a leitura de Stephen King. Tanto no início quanto no clímax (quando há ossos desenterrados de um cemitério, um braço amputado, e literalmente tira-se o sangue de Harry para que Voldemort readquira um corpo) parece que se está lendo um livro de terror (Bloom parece ter se esquecido de que o mesmo acontece com autores clássicos como Robert Louis Stevenson ou Rudyard Kipling; no fundo, é uma besteira tão grande quanto dizer que o universo criado por Rowling é derivativo, que se serve de várias fontes anteriores. Onde estão os autores “puros”, que sacam universos ficcionais do nada? Quem conhecer um, pode me indicar, por favor).

Ao mesmo tempo, a melancolia da série acentua-se e o tom torna-se soturno. Isso já podia ser sentido no terceiro volume, com a aparição de Sirius Black, o  trágico padrinho de Harry, mas é O cálice de fogo que vai impor esse clima, que predomina igualmente em Harry Potter e A ordem da fênix).

É interessante notar que a autora, desta vez, confia totalmente em que o leitor da nova aventura já conheça a série porque, ao contrário dos anteriores, não se deu ao trabalho de explicar acontecimentos passados ou quem são os personagens. Por isso, é pouco indicado para quem não tiver lido os outros. Em compensação, isso torna a leitura,para quem já os conhece e se sente em casa, mais fluente e absorvente,ao ponto de não se sentir as setecentas páginas.

O tom é aflitivo, pesado até, a autora investe pouco em acontecimentos aventurosos (a não ser novamente no início, com Harry sendo atacado pelos terríveis Dementadores, e no clímax, quando ele e seus companheiros de Hogwarts penetram no Ministério da Magia) e mais nos conflitos  dramáticos, ligados ao desabrochar da adolescência de Harry (aos 15 anos) e da sua conseqüente e inevitável rebeldia.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de dezembro de 2003)

 

SEGUNDA PARTE

“Os jovens são tão infernalmente convencidos de que têm absoluta razão em tudo. Será que ainda não lhe ocorreu…que pode haver uma excelente razão para o diretor de Hogwarts não contar a você cada pequeno detalhe dos planos dele? Você nunca parou, ao se sentir desprezado, a observar que a obediência às ordens de Dumbledore nunca o colocou em perigo? Não. Não, como todos os jovens, você tem certeza de que só você sente e pensa, só você reconhece o perigo, só você é bastante inteligente para perceber  o que o Lorde das Trevas está planejando…”

    Essa arenga (na pág. 406 da edição brasileira da Rocco, traduzida por Lia Wyler) do falecido diretor de Hogwarts, Fineus Nigellus, que como figura de quadro na sala de Dumbledore (como se sabe, os retratados têm vida própria e podem até abandonar os próprios quadros e percorrer os demais) conversa com Harry Potter, confirma aquilo que eu afirmava em artigo anterior (ver acima): a rebeldia adolescente fornece o colorido de Harry Potter e A Ordem da Fênix.

A própria idade a que Harry chegou já propicia as condições para esse clima (afinal a série está acompanhando seu desenvolvimento desde os 11 anos), mas ele será reforçado pela situação em Hogwarts: após uma campanha do Ministério da Magia para desacreditar Harry e Dumbledore, com o fito de impedir que a comunidade bruxa saiba que Voldemort retornou (o que ocasiona até um ataque dos apavorantes Dementadores, que evocam para mim os Espectros do Anel de Tolkien), a própria escola de magia começa a sofrer a ação invasiva por parte do Ministério, através de uma série de decretos educacionais que culminarão com o afastamento de Dumbledore como diretor em favor da tirânica, arrivista e arbitrária Dolores Umbridge, que lembra incrivelmente a nefasta e sinistre Rose Neubauer, ex-secretária da educação do estado de São Paulo, onde ela causou tanto mal quanto a Alta Inquisidora de Hogwarts (já o atual secretário, Gabriel Chalita, lembra por sua vez um dos personagens cômicos da série, Gilderoy Lockhart, um dos malfadados professores de defesa contra a Arte das Trevas, e cujos únicos talentos eram a autopromoção, a proximidade com os poderosos e a capacidade de distribuir sorrisos e autógrafos).

É preciso dizer que, embora o livro seja ótimo, há um certo exagero caricatural na caracterização de Umbridge, a qual vai criando um regime opressivo em Hogwarts e chega ao ponto de ameaçar Harry com a tortura física (com a maldição cruciatus, que consiste em fazer a pessoa sentir dor até enlouquecer). Harry também consegue ficar bem chatinho algumas vezes, como qualquer adolescente, porém isso é perdoável. É verdade que J.K. Rowling abusa da quantidade de vezes em que o faz sentir um aperto no estômago em todos os momentos em que vê ou fala com Cho Chang, sua paixãozinha. Aliás, essa é a parte mais sem-graça de uma leitura em tudo e por tudo empolgante.

E, apesar da forçada de mão na figura de Umbridge, também é preciso dizer que muito do tão falado clima de suspense do livro (que nos faz devorar centenas de páginas) é alcançado por meio da restrição do ponto-de-vista narrativa, o famoso foco, a Harry. Como só vemos os acontecimentos através dele e não sabemos o que está acontecendo fora de Hogwarts (e às vezes ele fica alienado e distante de seu próprio grupo de amigos), tudo fica mais ameaçador e asfixiante.

Outro aspecto curioso: cada vez mais o desenvolvimento dos personagens vai aproximando o mundo de Harry Potter de um premonitório roteiro escrito há quase vinte anos por Chris Columbus, Young Sherlock Holmes-O enigma da pirâmide, que virou um lindo filme de Barry Levinson (em 1985) e que tinha o internato, a rivalidade entre estudantes e um apelo a um mundo sobrenatural e mágico. Não por acaso Columbus acertou a mão (sei que  não é a opinião corrente entre a crítica) na adaptação do primeiro livro (Harry Potter e A pedra filosofal), embora fosse até covardia, com uma dupla tão maravilhosa quanto Daniel Radcliffe e Emma Watson (Harry e Hermione). De fato, foi por causa da versão cinematográfica que eu quis conhecer o livro de J.K. Rowling e, bem, chegamos aqui.

Harry Potter e A Ordem da Fênix representa uma espécie de conclusão do rito de passagem que se esboçava desde o livro anterior (Harry Potter e O cálice de fogo). Vamos ver o que resultará dele. Só sabemos que uma profecia sombria tornou sua vida um destino.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de dezembro de 2003)

MAIS UM PROFESSOR DE DEFESA CONTRA AS ARTES DAS TREVAS PERDIDO

JKRowlingPA_468x461

3939B9_1

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em julho de 2009)

Finalmente, em Harry Potter e O Enigma do Príncipe (mais precisamente, Harry Potter e O Príncipe Mestiço), o antipático (embora descubramos mais tarde que ele é uma figura mais para trágica) professor Snape consegue o que almejava desde que apareceu pela primeira vez na história: ser o professor de Defesa contra as Artes das Trevas. O leitor da série sabe, porém, que esse é um cargo azarado: nenhum dos ocupantes voltou para o ano seguinte; também sabe que cada um desses malfadados mestres (Quirrell, que carregava Voldemort como parasita no seu corpo; Gilderoy Lockhart, que era um embusteiro; Remus Lupin, vítima de preconceito por ser um lobisomem; Olho-Tonto Moody, que era um disfarce, proporcionado pela poção polissuco, para um seguidor do grande inimigo de Potter; a repelente e totalitária Dolores Umbridge) estava diretamente ligado à trama principal do volume de que participavam. E desta vez não é diferente: Snape assassina o diretor de Hogwarts e protetor de Harry, Dumbledore, o qual depositava nele uma confiança não compartilhada por mais ninguém, uma vez que o temido professor de Poções (nos anos anteriores) já fora um Comensal da Morte, assecla de Lord Voldemort. Só no volume seguinte saberemos que esse crime foi arquitetado pelo próprio Dumbledore, para proteger Draco Malfoy, encarregado pelo grande vilão, de executar  essa terrível tarefa (e nós conheceremos o desamparo do rapaz, em seus colóquios com a patética Murta-que-geme, o fantasma dos banheiros de Hogwarts).

harryp

O andamento da trama também explica por que tanta atenção se dá ao professor que troca de lugar com Snape, Horace Slughorn, que vem dar à  escola de magia um toque de mundanidade e sede de prestígio social, com sua escolha de “favoritos” que lhe podem ser úteis no futuro (“Ocorreu a Harry a nítida imagem de uma grande aranha inchada, tecendo a teia em torno dele, torcendo um fio aqui e outro ali para trazer mais perto suas moscas gordas e sumarentas”). Potter, agora com 16 anos, se destaca nas suas aulas ao usar um velho livro paradidático cheio de anotações criativas (e potencialmente perigosas) de um ex-aluno, um “Príncipe mestiço” (que descobriremos tratar-se do próprio Snape), apesar dos avisos de sua amiga Hermione (parece que ele se esqueceu do que acontecera em Harry Potter e A Câmara Secreta).

Enquanto isso, ele e Dumbledore se ocupam em vasculhar o passado de Lord Voldemort quando era o jovem Tom Riddle e vivera, muito à Dickens, num orfanato (ficamos conhecendo também a sua mãe, que era bruxa, e seu pai, trouxa, que fugira com ela e a abandonara, grávida), e em localizar os objetos nos quais ele concentrou parte de seu ser, as horcruxes (ter tentado destruir uma delas parece ser a causa da ampla mutilação de uma das mãos do grande bruxo). Harry participará, inclusive, de uma incursão em busca de um medalhão antigo numa caverna, cujo clímax será o crime de Snapes.

inimigos de HP

Na condição de penúltimo volume, e postado entre dois livros monstruosamente prolixos e vibrantes (A Ordem da Fênix e As Relíquias da Morte), O Enigma do Príncipe parece o mais sem graça de toda a série. O primeiro (A Pedra Filosofal) a apresentava de forma muito bem sucedida, os dois seguintes eram brilhantes (A Câmara Secreta & O Prisioneiro de Azkaban) em termos de fabulação e esgotavam todas as possibilidades de Hogwarts como cenário principal (e na minha opinião ainda constituem seu ponto alto), depois o quarto (O Cálice de Fogo) abria-se para uma visão mais ampla do mundo bruxo (com o torneio internacional, além da copa mundial de quadribol), além de marcar a restauração física de Voldemort, o quinto (A Ordem da Fênix) é o ciclope que conhecemos, e o sétimo (As Relíquias da Morte) um “grand finale”. Apesar de conter o fato mais dramático até então ocorrido, a morte de Dumbledore (além disso, traído ignominiosamente), o que a sexta aventura de Harry Potter oferece?

harrypotter3poster02

Para começar, tem o início mais inteligente e divertido, entre todos, com o encontro entre o ministro da magia e o ministro trouxa. Além disso, é o único em que há realmente uma excursão aventuresca clássica, ou seja, para um lugar desconhecido (quando Dumbledore e Harry penetram na caverna onde Voldemort escondeu uma das horcruxes), que não seja as dependências ou imediações de Hogwarts ou do Ministério da Magia, talvez o grande momento narrativo do romance. Aliás, o desaparecimento de Dumbledore, que era uma figura perpassada por um sopro poético  (não é à toa que, quando busca Potter na casa dos tios, ele diz a seu protegido de forma shakesperiana: “E agora, Harry, vamos sair para a noite em busca dessa sedutora volúvel, a aventura”) mostra o grande vazio que se abate sobre os heróis: a sucessora é a sempre firme, leal, mas inabalavelmente prosaica Minerva McGonagall (e caberá a Harry preencher o vazio).

Para os adolescentes (será que só para eles ?), há decerto um charme a mais: pode parecer estranho (e no entanto é totalmente verossímil) que Harry e seus amigos se preocupem com exames, matérias e paixonites e rusgas e picuinhas, com tal ameaça pairando sobre eles. Ou seja, o cotidiano equilibra a sombria atmosfera geral. Esse é o momento das descobertas amorosas (inclusive da paixão de Harry pela, a meu ver, chatinha Ginny Weasley, que substitui em definitivo a anódina Cho Chang), dos beijos, dos amassos, dos ficares e demais rituais da idade. Esse deve ser, aliás, o grande apelo do filme de David Yates (incrementado pela crescente beleza de Daniel Radcliffe e Emma Watson desde o primeiro filmeJ.K. Rowling os captura com precisão. Parece não estar acontecendo nada, e está acontecendo tudo.

_

Dumbledore__

________________________________

potter e amigos

_______________

16031_hogwarts

__________________

O último Harry Potter: sem decepção

( as resenhas abaixo foram originalmente publicadas em A TRIBUNA de Santos, em 10 e 17 de novembro de 2007)

I

Como milhões de pessoas, eu aguardava fervorosamente Harry Potter e As Relíquias da Morte, sete e último volume da série,  oficialmente lançado hoje no Brasil. Não tanto para saber se o Harry viveria ou morreria (e J.K. Rowling maliciosamente brinca com tal expectativa, fazendo o bruxo descobrir que a aparente intenção de seu mentor, Dumbledore, era que ele morresse no confronto com Lord Voldemort; e, em pleno clímax, colocando um capítulo que se passa numa espécie de Além, com Harry debatendo seu destino com o falecido diretor de Hogwarts, o qual fora supostamente assassinado à traição pelo professor Snape, em Harry Potter e O Enigma do Príncipe), mas para saber se a autora conseguiria amarrar todos os fios de uma trama geral que a cada volume ficava mais intrincada e politizada.

Saldo de uma leitura febril: tirando os persistentes pequenos defeitos (muita gente acha que a prolixidade é um deles, só que as páginas de Rowling são devoráveis, e ela criou um mundo completo, então…; não, o que mais incomoda é certa obtusidade do protagonista, que insiste em uma atitude burra e às vezes nos aliena do seu ponto-de-vista, que, afinal, domina a narrativa, pois Harry está presente em 99% do texto, à exceção do primeiro capítulo, e muitas vezes isolado do mundo dos bruxos), tudo se cumpre à perfeição e com absoluta habilidade. Só é dispensável inapelavelmente o apêndice onde se dá um salto de 19 anos e que contraria de forma inconvincente o clima mais para pessimista desse livro semeado de perdas: a coruja Edwiges, Olho-Tonto Moody, Professor Lupin e sua esposa, um dos gêmeos Weasley, o elfo Dobby…

Um dos aspectos mais fortes de Harry Potter e As Relíquias da Morte é a denúncia do totalitarismo que ameaça o mundo na esteira dos acontecimentos do 11 de setembro: a limitação das liberdades, principalmente àqueles que são os Outros. Aliás, já  comentei em outras ocasiões como Rowling entrelaçou de forma magistral o antigo sistema de classes da Inglaterra com o seu mundo de famílias bruxas “sangue puro” as quais têm de engolir a convivência com mestiços e “sangues ruins”, sem falar de outras espécies (elfos, duendes, gigantes).

Por outro lado, a escolha da moldura da série (os anos escolares da escola de magia de Hogwarts) não podia ter sido mais feliz, pois permitiu que se acompanhasse o desenvolvimento do personagem desde seus 11 anos, com as rivalidades, anseios e rebeldias da passagem pela adolescência. Por isso, embora a maior parte da narrativa transcorra longe de Hogwarts (Harry, Hermione e Rony saem pela Inglaterra numa peregrinação em busca das Horscruxes que contêm, cada uma, uma parcela da alma de Voldemort, para destruí-las, com escassas pistas; ao mesmo tempo, são proscritos da “nova ordem mundial” dos bruxos, e ainda ficam sabendo da existência de três “relíquias da morte”: uma varinha invencível, uma pedra ressuscitadora e a já famosa capa de invisibilidade, que Harry herdou do pai no primeiro volume da série), é mais do que justo que seja  ali, o lugar que o portador d cicatriz tem como seu verdadeiro lar, o palco do embate final entre Lord Voldemort e seus Comensais da Morte e Harry e a Ordem da Fênix e a Armada de Dumbledore, após a história começar como de praxe, com o aniversário de Harry, quando ele completa 17 anos e perde o feitiço de proteção que o resguarda e portanto se torna suscetível de ser morto com sucesso pelo Bruxo das Trevas.

II

O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, número 4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.”

Desde a publicação, há 10 anos, do livro (Harry Potter e A Pedra Filosofal, 1997) que se abria com a frase acima, os sete volumes da série não só encantaram milhões de pessoas, entre elas o autor deste artigo, mas também foram progressivamente configurando um universo completo, “mobiliado” (para utilizar uma expressão de Umberto Eco), auto-suficiente em termos ficcionais.

J.K. Rowling sabe exatamente como funcionam as crianças e adolescentes: a competição acirrada entre as casas de Hogwarts (principalmente entre Grifinória e Sonserina) prova isso. Foi ótimo que os jovens gostassem de uma coisa tão boa, tão inventiva. Só que os leitores adultos tiveram também um quinhão apreciável desse prazer inesperado. Quando surgiu o Harry da pedra filosofal foi preenchido um vácuo no mundo da fabulação: entre o infantil e o adulto nada havia, a não ser os clássicos e o cinema meio-efeitos especiais/meio-visão debilóide da vida, pós Spielberg & Lucas.

Podia ser um feliz acaso. Veio o segundo (talvez o mais impressionante de todos), Harry Potter e A Câmara Secreta, reafirmando as qualidades do anterior e permeado por um suspense incrível, até sua solução realmente inesperada e inteligentíssima.

Esses dois primeiros volumes eram esféricos, fechados em si mesmos. A partir do próximo, Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban (cuja solução também é bárbara, com a revelação da identidade de Rabicho, que se disfarçava no rato Perebas), o leque se abre, os finais tornam-se inconclusos, exigindo continuação, o que fica mais claro ainda em Harry Potter e O Cálice de Fogo, no qual a macro-narrativa (a guerra entre o lado de Dumbledore e o lado de Lord Voldemort, com o Ministério da Magia no meio) que percorre a série delineia-se nitidamente, o que exigirá volumes de fôlego de forma a sustentar convincentemente o clímax, Harry Potter e As Relíquias da Morte.

Na seção anterior, salientei seu lado mais politizado, a denúncia da limitação das liberdades civis, devido a uma ameaça latente ou efetiva. O que é preciso enfatizar realmente é que o dado mais preocupante reside no fato de que Lord Voldemort, com toda a sua maldade e megalomania, apenas serve como elemento catalisador de preconceitos, intolerâncias e desigualdades subjacentes à sociedade dos bruxos. Ele não perverte essa sociedade, e sim expõe o seu lado mais feio e desagradável, tão revoltante como a indiferença e estupidez do casal “trouxa” Dursley no início da história (aliás, Rowling redime o filho deles, Duda, da sua excessiva sanha caricatural neste seu adeus à série). E com que rapidez o Ministério da Magia reage, limitando ou anulando direitos civis, e transformando indivíduos em “indesejáveis” ao regime, não tanto num passe de mágica, mas através de decretos arbitrários e expurgos! Provavelmente esse fator, mais do que a extensão, é que propiciou o clima opressivo dos três últimos volumes, além da habilidosa redução do ponto-de-vista narrativo, que faz com que tudo fique ainda mais aflitivo.

Por outro lado, entre as muitas qualidades de Harry Potter e As Relíquias da morte, não se poderia deixar de destacar a justiça que o livro faz a dois personagens essenciais à trama (é verdade também que a adorável Sra. Weasley tem seu momento de glória ao duelar com a perversa Belatriz): o professor Snape e Neville Longbottom.

Snape é um dos personagens de trajetória mais bem urdidas dentro da série, em razão da ambigüidade que cerca seu posicionamento, e isso até o fim, quando Harry descobre o porquê dos seus atos (seu amor por Lílian Potter) e a combinação entre ele e Dumbledore (acometido por uma doença terminal) para tirar o máximo efeito possível de um pretenso assassinato (propiciando ao diretor da Sonserina reaproximar-se de Voldemort), num dos capítulos-chaves do romance, o quase elegíaco “A história do príncipe”. O que torna efetivamente trágica a figura de Snape e o redime de todos os desagradáveis confrontos anteriores com Harry é que este fica sabendo da verdade após testemunhar a morte do seu professor mais detestado (ou seja, quando a vida deste transformou-se em destino) por ordem de Voldemort, o qual acredita ser indispensável sacrificar seu “colaborador” para possuir de fato uma das três “relíquias da morte” (como se vê, tudo é muito bem amarrado).

Já a figura de Neville cresceu junto com a série: era o gordinho desajeitado, objeto de risotas e peças de mau gosto, servindo um pouco de alívio cômico, e aos pouquinhos (muito aos pouquinhos, discretamente) foi mudando e afirmando-se; também ficamos sabendo do passado terrível de sua família, e houve até a possibilidade de que ele fosse o predestinado, ao invés de Harry (como se aventou em Harry Potter e A Ordem da Fênix). Pois na volta de Harry, Rony e Hermione a Hogwarts, após centenas de páginas, descobrimos que ele é o líder da resistência a Voldemort na escola, o que levará ao desenlace (a batalha entre os dois lados), no qual ele estará ao lado do protagonista (cumprindo de certa forma a enviesada profecia) no momento crucial, em que tudo se decide.

12/07/2011

O SÁTIRO QUE RI À SOCAPA E O DESTINO QUE RI POR ÚLTIMO


A meditação tragicômica sobre a falibilidade de Mordecai Richler

(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 12 de julho de 2011)

“Acompanhar o que aconteceu com todo mundo é  que me levanta do estado de decrepitude em que me encontro…”

    (Mordecai Richler, A Versão de Barney)

 

Em 1995, Philip Roth publicou uma de suas obras-primas (e o livro dele que me é mais caro), O teatro de Sabbath, que tem como protagonista uma espécie de Rei Lear da sexualidade: sexagenário, continua a causar escândalo com episódios de incontinência, tidos como sórdidos e inconvenientes (a amante morre de câncer e ele vai todos os dias até o seu túmulo masturbar-se, por exemplo). Sabbath possui o “talento que um homem arruinado tem para cometer imprudências”, e ele mesmo afirma, a respeito dessa “imprudência” politicamente incorreta: “Para mim também é uma coisa inexplicável. Isso substituiu praticamente tudo o mais na minha vida. Parece constituir o único objetivo do meu ser”[1].

Mais ou menos na mesma época, Sabbath ganhou um “irmão  espiritual”, por assim dizer, em infâmia sublime e provocação à caretice chapada contemporânea: o personagem-título de A Versão de Barney (Barney´s Version, publicado originalmente em 1997, e traduzido por Luciano Vieira Machado, para a Companhia das Letras, em 2008[2]), cuja versão cinematográfica—batizada no Brasil de Minha versão do amor—foi exibida por apenas uma semana em Santos (é claro, não se trata de nenhum Se beber não case, daí a indiferença do público).

Trata-se de um virtuosístico e exuberante exercício da primeira pessoa e da sua não-confiabilidade: Barney Panofsky escreve a história da sua vida (ou a “carnificina”, como ele mesmo diz) porque um desafeto antigo, o escritor Terry McIver, numa autobiografia a ser lançada, traça dele uma imagem infame e acintosa. Embora politicamente incorreto e afrontoso em seu comportamento geral (e de uma generosidade ímpar em assuntos financeiros, em decorrência do seu temperamento “bon vivant), ou seja, “falhando” muito ou, como se diz por aí, “pisando na bola” Barney quer refutar a versão de McIver, a maneira malevolente com que ele o caracterizou,  mas se depara com o emaranhado da sua memória, já prejudicada pelos indícios do Alzheimer (ao longo do texto, temos intervenções do filho dele, Michael, “corrigindo” lapsos e erros factuais):

“—(…) Quero que você procure um neurologista. Você precisa fazer alguns exames.

__ De cabeça?

__ Temos de eliminar algumas possibilidades. Pode ser que seja apenas cansaço. Ou uma perda de memória benigna, não muito incomum em homens de sua idade.

__ Ou então um tumor no cérebro?

__Por favor, não vamos tirar conclusões desagradáveis antes da hora Mora sozinho, Sr. Panofsky?

__ Sim, por quê?

__ Estou só perguntando.

   No dia seguinte, no começo da tarde, entrei na biblioteca d McGill e li num livro de referência:

   Quando Alzheimer (1907) descreveu a doença que hoje tem o seu nome, considerava-a uma forma atípica de demência… Há relatos de casos de hereditariedade, tanto dominante quanto recessiva… Do ponto de vista histopatológico, o mal de Alzheimer é indistinguível da demência senil…

   Oh, meu Deus. Kate. Saul. Michael. O que é que eu fiz, Miriam?

   (…) O primeiro sintoma é a perda de memória. A dona de casa perde a costura, deixa queimar a torrada e se esquece de um ou dois produtos quando vai às compras. O profissional esquece reuniões ou então hesita de forma embaraçosa em meio a uma palestra, incapaz de encontrar a palavra certa. Nada mais grave pode ser observado durante um ano ou mais, porque o lento progresso da doença…

__Morty, sou eu. Desculpe-me ligar em sua casa. Posso falar com você um minuto?

__ Sim, claro. Deixe-me desligar a televisão.

__ É Alzheimer, não é?

__ Não temos certeza.

__ Morty, a gente se conhece há séculos. Não vá me sacanear.

__ Tudo bem. É uma possibilidade (…)

__ Tenho de organizar as minhas coisas, os meus negócios, Morty. Quanto tempo ainda tenho?

__ Se for Alzheimer, o que ainda não passa de mera hipótese, os lapsos de memória vão e vêm, mas eu diria que você tem um ano antes de…

__ Ficar totalmente gagá?”

      O que ajuda a estruturar o ir-e-vir das reminiscências panofskyanas (além de informações, como a do nome dos sete anões, do nome do escorredor de macarrão, que vão e voltam na narrativa, como mantras para não se afundar no trágico torpor mental do Alzheimer), antes de ele “ficar totalmente gagá”, é que cada parte do romance gira em torno de uma das suas três ex-esposas:

– a primeira, Clara, uma artista que se suicidou em Paris e depois de sua morte tornou-se objeto de culto de feministas agressivas (para as quais Barney é uma besta-fera)[3]; “A jovem que vem me entrevistar é a locutora da Lesbos FM—uma emissora estudantil da Universidade McGill—cuja tese de doutorado é sobre Clara. Houve visitas, cartas e questionários de feministas de lugares distantes como Tel Aviv, Melbourne, Cidade do Cabo e aquela cidade da Alemanha onde Hitler tomou de assalto o Parlamento, sabe? Foi lá que aquele primeiro britânico que não largava o guarda-chuva esteve para prometer a paz na Terra. Diabo, diabo, diabo. É a cidade que tem aquele famoso festival de cerveja. Polsner?  Molson´s? Não. O nome se parece com o daquele homenzinho de ´O mágico de Oz´. Ou o nome do autor daquele quadro ´O Berro´. Munch. MUNIQUE.  Enfim, o que quero dizer é que as admiradoras de santa Clara são legião e têm duas coisas em comum: elas me consideram uma abominação e não entendem que Clara tinha a mais viva antipatia pelas outras mulheres, porque lhes disputavam a atenção dos homens…”

-uma insuportável patricinha (que se tornará uma megera vingativa), e que ele só mencionará como a Segunda Sra. Panofsky: “Sim, a Segunda Sra. Panofsky era uma digna representante desse grupo tão injuriado, a princesa judia-americana… Quando a conheci, ela já tinha vivido num kibutz, se formara em psicologia na McGill e estava trabalhando com crianças com problemas mentais no Hospital Geral Judaico. Elas a adoravam. Ela as fazia rir. A Segunda Sra. Panofsky não era uma má pessoa. Tivesse se casado com uma pessoa de princípios, e não com alguém que fingia ser isso, hoje seria um modelo de esposa e mãe. Não seria uma velha feia, gorda e rabugenta, fascinada por cristais e outras picaretagens new age…”;

-e enfim, o amor de sua vida, Miriam, a qual o deixou devido aos seus excessos e para se tornar companheira de um sujeito “do bem” (para utilizar essa odiosa expressão da moda, da mesma linha de “qualidade de vida” e “sustentabilidade”, entre outras), e a quem ele tem a esperança patética de reconquistar. “Mas minha mulher não morrera, estava apenas ausente. Temporariamente ausente. Ela está naquela cidade, acho que Ontário. Não, Ottawa. A cidade com a Sala Príncipe Artur, lembram-se? Pois é. Ainda não estou totalmente maluco. Lembro-me até de como se escorre espaguete. É com aquele troço que tenho numa prateleira da cozinha. Os anões são sete. Quem está aí para o nome deles? Lillian Kraft não escreveu O homem na camisa Brooks Brother. Ou terno. Seja lá o que for. Foi Mary McCarthy. Peguei o telefone, comecei a discar… e parei. Não lembrava o número de Miriam.”

Como não podia deixar de ser no universo do admirável escritor canadense (como sabem os leitores de Joshua então e agora), há um escândalo envolvendo a vida de Barney: foi acusado de assassinar seu melhor amigo (na época do casamento com a patricinha, que tinha dormido com ele). O corpo nunca foi achado e, mesmo inocentado, essa suspeita sempre pairou sobre nosso anti-herói. Diga-se de passagem, a solução do caso é um dos mais sublimes achados de A Versão de Barney.

Pena que chega tarde demais para seu protagonista, que afunda no torpor mental anunciado. E a comédia humana poderosa que foi se desenhando ao longo das mais de quinhentas páginas termina, ao transformar em destino trágico a trajetória de Barney, por desvelar sua face de tristeza iniludível diante da certeza da nossa mortalidade e da fragilidade da nossa condição absurda.

Como Margaret Atwood, num bonito necrológico[4] (do qual me aproveitei para fisgar o sub-título deste texto), salientou de forma lapidar: A Versão de Barney é uma “meditação tragicômica sobre a falibilidade”: “Ainda tenho pendurado na parede, acima da lareira, um daqueles bicos-de-pena de Clara, torturados e saturados de detalhes. Ela mostra um estupro coletivo de virgens. Uma orgia. Gárgulas  e gnomos brincando. O sátiro que ri à socapa, desenhado à minha imagem, puxa pelos cabelos uma Clara nua. Ela está de joelhos, e eu forço minha entrada em sua boca, aproveitando o momento em que ela grita. Já me ofereceram duzentos e cinqüenta mil dólares por esse quadro encantador, mas anda me faria separar-me dele. Ao contrário do que parece, sou mesmo um velho tolo e sentimental”.

Ficção de primeira.

 


[1]Utilizo aqui a tradução de Rubens Figueiredo (Companhia das Letras, 1997).

[2]   A edição tem uma capa de que gosto muito, de  Mariana Newlands. No geral, a tradução é boa, só chamo a atenção para  algumas soluções esquisitas e desajeitadas: por exemplo, “restaurante de auto-serviço”, nas págs. 112 e 302 (quem usa esse termo?); na pág. 124 numa descrição do  policial O´Hearne, aparece “um duro da Warner Brothers” (não seria “um cara durão”?; mesmo porque “duro” tem a acepção por aqui de “sem grana”);na pag. 280, numa manchete de jornal: “Suspendida  a condicional de pena..’ (suspendida?!); e há os casos que podem ser  uma brincadeira do autor, um jogo de gato e rato referencial, já que muitos lapsos e erros do narrador são corrigidos pelo filho de Barney em notas de rodapé, e no entanto há vários outros que não o são, então fiquei na dúvida quanto ao texto traduzido em determinadas passagens, talvez injustamente.

E a questão de uso de termos “estranhos”, pelo menos para mim, pode ser exemplificada na seguinte passagem (de resto, maravilhosa): “Pensando bem, de todo modo estas memórias cheias de divagações encerram um ensinamento: nunca diga a verdade. Na hora do aperto, minta  feito um tira-dentes [?]. Ao longo de toda  esta minha vida cheia de equívocos,  consegui sair de todo tipo de enrascada graças a mentiras, pequenas, grandes ou enormes.  Na primeira em que disse a verdade, fui acusado de assassinato.  Na segunda, perdi minha felicidade. ..” (p.493).

[3] “Clara, que desprezava as outras mulheres, gozando de uma fama póstuma de mártir feminista. Eu, que ganhei uma modesta notoriedade como o porco-chauvinista que a traiu, e ainda por cima talvez um assassino…”

[4] “Diógenes de Montreal”, publicado originalmente em 4 de julho de 2001 e recolhido na coletânea Buscas Curiosas (Rocco).

MORDAZ RICHLER

(resenha publicada de forma ligeiramente condensada, e sem as notas de rodapé, em A TRIBUNA de Santos de 03 de maio de 2011)

O  canadense Mordecai Richler, nascido em 1931, morreu há 10 anos. Da sua importante obra (O aprendizado de Duddy Kravitz é considerado um clássico tanto como romance quanto como roteiro cinematográfico, tendo sido indicado para o Oscar[1]), só dois títulos foram traduzidos no Brasil: Joshua então e agora e A versão de Barney(1997), que virou o filme recentemente lançado no Brasil, Minha versão do amor, com o grande Paul Giamatti e Dustin Hoffmann.

Joshua então e agora (Joshua then and now, 1980, traduzido em 1982 por Ruy Jungman na coleção A prosa do mundo da Francisco Alves) consegue ser denso e delicioso a um só tempo. No seu início, vemos o protagonista,  Joshua Shapiro, que acabara de sofrer um grave acidente de carro (fugindo da polícia, após tentar comprometer um desafeto, invadindo sua casa e “plantando” cédulas comprometedoras), recuperando-se em meio a um escândalo: a publicação da sua correspondência homoerótica com um conhecido escritor britânico, além de uma foto comprometedora de ambos (e nisso tudo, sua esposa, que estava numa clínica de repouso, desapareceu; ela mesma entrou em colapso após outro clamoroso escândalo, desta vez financeiro, relacionado a seu irmão, envolvido em mega-investimentos fraudulentos). Um policial (que se tornará um tormento em sua vida) o surpreendera numa manhã pós-porre, em sua casa, vestido com uma calcinha[2].

Não se preocupe, leitor, tudo será esclarecido no devido tempo (não há conteúdo gay no romance de Richler). Nem por isso deixará de ser grotesco e afrontoso o painel que o autor retratará para nós do Canadá dos anos 30 ao final dos anos 70, com passagens por Londres e por Ibiza.

Shapiro e sua esposa, Pauline, vêm de estratos sociais muito diferentes, quase configurando um sistema de castas: judeu, ele vem de uma família não muito bem vista: sua mãe é tida como piranha (já madura, estrelará filmes pornôs) e seu pai é um mafioso, “cobrador” de dívidas de um gângster, e de vez em quando tem de “sumir do mapa” (e a esposa aproveita sua ausência para manter um caso com um vereador); ela é uma Hornby,  filha de um senador, de uma linhagem de famílias ferozmente tradicionais e até as transgressões (como o casamento dela com um judeu) são feitas por esnobismo.

Os dois se conhecem na Londres tomada pelo ímpeto esquerdista dos anos 50 (e que é implacavelmente desmistificado em Joshua então e agora) e ao voltarem para o Canadá acabam ingressando, apesar das objeções às “origens” de Shapiro, no círculo social de Pauline, embora ele mantenha contato com amigos judeus “da antiga”, uma roda de beberrões que vai ficando detonada, física, intelectual e moralmente, ao longo dos cada vez mais melancólicas anos. Será nosso destino a degradação ou o conformismo? O amadurecimento e o envelhecimento passam, obrigatoriamente, por um empobrecimento disfarçado em “qualidade de vida” e situação econômica estável (a não ser no caso dos perdedores, é claro)? Mordecai Richler me parece, em certo sentido, mais próximo do mundo da camaradagem masculina conspícua e complicada pelo sentimento de sucesso ou fracasso social, do Joyce de certas cenas de Ulisses, especialmente as que envolvem o pai de Stephen Dedalus, e do William Kennedy de romances como Ironweed e A grande jogada de Billy Phelan do que do universo de outros judeus, mesmo Philip Roth ou Norman Mailer, cujos protagonistas são sempre mais para franco-atiradores solitários, ou Saul Bellow, apesar de sua obsessão pela investigação da natureza ambígua da amizade.

Um dos prazeres de Joshua então e agora (apesar de Richler não ser um escritor nem de longe tão experimentador e ousado como Joyce e mesmo Kennedy, com o qual no entanto rivaliza em exuberância e verve) é o enovelamento da sua trama, de forma que o Joshua de então e o de agora se entrelaçam em episódios simultâneos. Alguns personagens secundários quase roubam a cena, como os pais dele. Entre as melhores cenas do livro estão a do bar mitzvah de Joshua, em que a mãe (o pai está foragido) faz um show erótico para ele e os colegas[3], e os impagáveis diálogos em que o pai, envergonhado do filho não conhecer as tradições religiosas judaicas, tenta incutir-lhe conhecimentos bíblicos[4]… a seu modo, claro (as dicas sexuais  de pai para filho também são fora-de-série).

Também excepcional é a cena quase próxima ao final do romanceem que Joshua, após todo o escândalo que revirou sua vida, confronta-se com Jack Trimble, outro arrivista que ascendeu a uma classe social mais alta do que sua origem, e mentor das falcatruas especulativas do irmão de Pauline, diálogo em que toda a engrenagem social posta a nu pelo romance fica exposta. Em compensação, eu não entendo muito bem a contribuição de todos os episódios passados na Espanha para a economia do romance, é uma parte chata e discutível, a não ser pelo que acentua de farsesco na atmosfera do livro, inclusive mirando a lamentação judaica pós-holocausto.

Mordecai Richler não perdoa ninguém. Qualquer um podem ser atingidos por suas balas, até as perdidas. O humor de Joshua então e agora é uma superfície de gelo quebradiça.


[1] O romance é de 1959 e a adaptação foi dirigida  por Ted Kotcheff em 1974 (Kotcheff, ótimo artesão, que  esteve à testa de muitos episódios de  Law & OrderSpecial Victms Unit,, também dirigiu o filme baseado em Joshua então e agora, em 1985, mas sem a mesma repercussão.

[2] Apesar de não ser um escritor muito considerado, Joshua tem uma “carreira” midiática, por assim dizer, e sempre está encontrando pessoas que lhe querem mostrar as coisas que escreveram. O policial, Stu, quer impingir-lhe suas “memórias”. Veja-se a seguinte passagem:

“E eu não podia levar meus netos para assistirem a um filme porque não havia um único passando em Montreal em que não houvesse sexo, entre homens e mulheres se você tivesse sorte, embora, mais provavelmente entre mulher e mulher e homem e homem. Mas eu não preciso lhe falar sobre isso. Vocês estão com o prato cheio até as bordas, você e ele. Eu vi as fotos nos jornais, sabe, quem é que não viu? Mas não acredito numa única palavra, disse o policial, sondando, incapaz de esquecer a visão da calcinha preta com acabamento de renda…”

[3] “As mães não falavam mais com ela, agarrando os filhos pela mão quando ela passava. Algumas cruzavam mesmo a rua quando a viam aproximar-se. A sra. Sivak, do andar de baixo, queixou-se ao senhorio do sapateado dela às duas da manhã, Louis Armstrong tocando a todo vapor no gramofone, mas quando o velho Dworin foi até lá, arrastando os pés, Esther fê-lo sair voando com uma torrente de obscenidades. Despachara, também, com a maior rapidez, a assistente social enviada a fim de indagar a respeito do bem-estar de Joshua. E quando mais socialmente desprezada, maior seu desafio, servindo a corda de roupas a secar no quintal como sua bandeira de rebelião. Enquanto calças de algodão imensas e sutiãs para abrigar melancias balançavam dignamente ao vento em outras cordas de roupas, pequenos e provocantes sutiãs pretos e calcinhas pretas de renda com cinturas incrivelmente finas dançavam maliciosamente na sua. Ali mesmo, no beco dos fundos, onde maridos, ponde para fora o lixo erguiam a vista e engoliam em seco…”

     Quando estoura o escândalo envolvendo a suposta homossexualidade de Joshua, lemos esta deliciosa passagem: “Da Califórnia veio uma foto (ligeiramente fora de foco, copirraite do Ellen Markham Studios) que mostrava Joshua e Murdoch beijando-se à beira de uma piscina em Beverly Hills. A foto era apoiada por uma história que um diligente repórter do Daily Express obtivera com uma camareira negra do Century Plaza Hotel. Abençoada com uma memória retentiva, ela se lembrou de que Murdoch e Shapiro haviam passado a noite no hotel, num mesmo quarto. Tomara que eu não esteja criando caso para ninguém, disse a sra. Cartwright, porque eu sei o que é preconceito.

     A foto de Esther apareceu em jornais de costa a costa. De pé em frente a sua casa de massagens em Winnipeg, usava um anúncio tipo sanduíche que proclamava: MEU FILHO É BICHA, MAS TUDO BEM.”

[4] A maneira como ele conta a história de Ester éimpagável.

« Página anteriorPróxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.