MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/07/2011

Sobre a obra de Marguerite Yourcenar


yourcenar

O CENTENÁRIO DE YOURCENAR

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de junho de 2003)

Nascida a 8 de junho de 1903 na Bélgica (e tendo vivido boa parte da sua existência nos EUA), Marguerite Yourcenar confirma o chavão “a língua é minha pátria”: tornou-se um dos principais nomes da literatura francesa do século XX.

No Brasil, ganhou notoriedade com a tradução, em 1980, do seu livro mais famoso, Memórias de Adriano (1951), um inusitado best seller, que coincidiu com sua eleição como a primeira mulher da Academia Francesa de letras (tão ridícula e grotesca quanto a nossa). Sorte de quem, como eu, estava na adolescência: em muitíssimo boa hora (para utilizar uma expressão que lhe era peculiar: de très bonne heure) pôde conhecer uma série de livros essenciais que a Nova Fronteira lançou regularmente (arrefecendo no início dos anos 90), além da inigualável reconstituição da mentalidade do imperador romano do século II.

Assim, tivemos sua obra-prima suprema, A obra em negro (1968), que aborda ao mesmo tempo o muno do Renascimento, como também a fronteira entre o ser e o não-ser; o seu romance mais desencantado (pelo menos na segunda versão, publicada em 1959, a partir de um original de 1934), Denário do sonho, igualmente fundamental, onde encontramos todos os seus defeitos e qualidades como escritora (o estilo às vezes vacila e fica meio afetado, porém o efeito geral é poderoso e cada revisão confirma isso): a Roma de Mussolini continua a “cidade eterna” na qual podemos encontrar o Mito em meio à insustentável leveza do ser do dia-a-dia (dois capítulos particularmente extraordinários são os que mais persistem na memória anos depois: o que aborda a vida da vendedora de círios, a siciliana Rosalia di Credo, antes do seu suicídio, e aquele em que sua irmã, Angiola, está incógnita num cinema vendo a si mesmo como atriz na tela e embarcando num incidente sexual como Alessandro, marido da protagonista do romance, Marcella, que comete um atentado contra o “Duce”).

Tivemos, também, o belo Golpe de Misericórdia (1939), que marcou o final de sua primeira fase como escritora, antes da mudança para os EUA e o retorno triunfal com a publicação de Adriano. Mesmo os que não gostam de Yourcenar como escritora (e são muitos) geralmente apreciam esse romance, muito mal adaptado para o cinema por Volker Schlondorff (um contumaz assassino de obras literárias), ao contrário de A obra em negro.

Ainda podem ser citado entre os destaques da sua obra, os textos mitológico-passionais de Fogos (1936), um dos raros da primeira fase em que ela aparentemente não mexeu, e que ganha muito se lido com Denário do sonho. Alguns dos Contos Orientais (1938) são memoráveis, como “O último amor do príncipe Genji” ou “Como Wang Fô foi salvo” (outros, nem tanto).

De Como a água que corre, que é de 1981, mas a partir de um outro livro de 1934 (La mort conduit l´attelage-A morte conduz a carroça) temos os dois magníficos textos-testamentos tardios de Yourcenar, que transcorrem no século XVII, Um homem obscuro e Uma bela matinê (cujo protagonista, Lazare, filho do “homem obscuro”, Nathanael, aos 12 anos, sonha toda a sua vida futura, interpretando personagens de Shakespeare, ao se incorporar numa compahia teatral; a história de Nathanael, por sua vez, mostra que qualquer homem que se indaga sobre o mundo e as coisas—e deixa a água correr—pode realizar em si a meta que a filosofia se propôs).

Obrigatória seria, também, a leitura de O labirinto do mundo, trilogia sobre a história da família da autora, da qual destaco especialmente o primeiro volume, que tem o belíssimo título original de Souvenirs Pieux (1974), vertido insossamente para Recordações de família; para mim, marcou um novo patamar na minha admiração pela obra de Yourcenar, ao contrário de quase todo o restante da crítica, que exalta o tumultuoso e cansativo segundo volume, Arquivos do Norte (1976). O último, A eternidade, o que é, ficou incompleto e foi lançado postumamente (ela morreu em 1987).

E também a leitura de alguns ensaios de Sous bénéfice d´inventaire, outro belo título, que virou um reles Notas à margem do tempo (aquele sobre Thomas Mann, por exemplo, ou aquele sobre Piranesi), e de O tempo, esse grande escultor, além de A visão do vazio, sobre Mishima (o único não publicado pela Nova Fronteira entre os textos citados aqui, mas que tem edição pela Guanabara).

E, para fechar, um livro muito querido e infinitamente lido nos anos 80, De olhos abertos (o título é uma alusão à frase final de Memórias de Adriano), suas entrevistas com Mathieu Galey, as quais delineavam uma mulher admirável (e de fato ela o era, mas de outro modo). Infelizmente, era uma imagem esculpida, inventada, retocada, uma persona.

A biografia de Josyane Savigneau, A invenção de uma vida, uma das melhores no gênero, desmistifica cruelmente De olhos abertos e Marguerite Yourcenar, sem, no entanto, fazer cair o interesse nem por um nem por outro. Nem sempre a grande escritora francesa caminhou de olhos abertos. Atire a primeira pedra quem nunca fechou os seus também.

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