MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/07/2011

Uma espécie de grandeza épica


“Apenas o romantismo preserva as coisas que vale a pena preservar”. Esse trecho de Belos e Malditos (1922) ajuda a compreender a atmosfera de um dos contos mais emblemáticos de Scott Fitzgerald, O boa vida. O seu protagonista, Jim Powell, descende de uma família importante, mas arruinada. E ele não é capaz de diz adeus ao passado e desvencilhar-se de um tipo de vida que não é mais o dele e, embora tente, não consegue incorporar-se aos jovens endinheirados e irresponsáveis da pequena cidade de 40 mil habitantes, ao sul da Georgia, onde vive.

Sua “boa vida” é um limbo, um simulacro de uma inadaptação existencial básica: “Uma parede erguera-se subitamente em torno dele, encarcerando-o, uma parede tão palpável e definida como a branca parede de seu pobre quarto. E, com a percepção dessa parede, tudo o que tinha constituído o romance de sua existência—a sua inteligência, a sua despreocupada imprevidência, a miraculosa liberalidade da vida—se dissipou”.

Powell é, em suma, o homem emparedado que o ensaísta francês Michel Mohrt identifica na obra do autor de O grande Gatsby (1925), um dos romances-chave do século XX: “Seu herói está emparedado dentro da sua vida sentimental; sua vontade de poder manifesta-se por um desejo de dominar os outros. Para ele, não há conquista que se diferencie—quer seja uma cidade ou um meio social—da conquista de uma mulher”.

E como fica então o romantismo “que preserva as coisas que vale a pena preservar”?

Em O boa vida, Powell vislumbra uma chance de mudança ao contemplar Nancy Lamar numa festa. Nancy, assim como a Gloria de Belos e Malditos, a Alicia de Feiticeira ruiva e outras tantas mulheres do universo fitzgeraldiano, emociona o seu apaixonado por ser tremendamente viva. E há um momento em que tudo parece incrivelmente romântico, charmoso, perfeito, em que a vida parece não ter limites, porque o homem tem acesso a uma mulher dessas.

A desilusão que decorre dos textos de Fitzgerald e sobre a qual assenta a estrutura de algumas das suas melhores realizações é que esse momento, esse auge do romântico, só dura um instante, e o resto é apenas a nostalgia desse romantismo. É o caso de Jim e Nancy. Há uma festa, há essa sensação, e Jim passa a desejar uma outra existência. No dia seguinte, ele descobre que sua eleita casou-se e foi embora da cidade devido a um escândalo na madrugada.

O paradoxo maior do mundo ficcional desse grande e pungente escritor norte-americano (e talvez sua maior fraqueza) é que por mais cínico, cáustico e sofisticado que ele pretenda ser (geralmente no início dos textos), sua visão de mundo invariavelmente conduz a história para esse momento de puro romantismo, que é também um momento de pura fragilidade. Por isso, e apesar dos resultados muitas vezes imperfeitos (caso de Belos e Malditos, que mesmo assim é lindo, ainda mais considerando-se que foi escrito por alguém com vinte e poucos anos), Fitzgerald alinha-se com honra no time simplesmente excepcional de ficcionistas das primeiras décadas do século nos EUA. Só para citar alguns nomes: William Faulkner (o maior de todos), Edith Wharton, Jack London, Willa Cather, Sherwood Anderson, Theodore Dreiser, John dos Passos, Thomas Wolfe, Katharine Anne Porter, Ernest Hemingway, Dorothy Parker, Sinclair Lewis, John Steinbeck…

     Sobre si, Fitzgerald escreveu: “Não sou um grande homem, mas às vezes penso que a qualidade impessoal e objetiva do meu talento, e o sacrifício dele, aos pedacinhos, para preservar-lhe o valor essencial, têm uma espécie de grandeza épica”. Palavras famosas, parodiadas por Woody Allen numa cena de A rosa púrpura do Cairo.

O boa vida faz parte de Seis contos da Era do Jazz & outras histórias, livro organizado postumamente pela filha de Fitzgerald  (e traduzido pelo grande Brenno Silveira), e que sai em nova edição pela José Olympio (a anterior foi pela Civilização Brasileira nos anos 60), nestes dias em que  se comemora o centenário de nascimento do autor de Suave é a noite (1934), outro monumento do romantismo fitzgeraldiano.

Além da história de Jim Powell (a minha favorita), há a fascinação  do livreiro Merlin pela irrequieta Alicia em Feiticeira ruiva, há o marido  que rouba um dia inteiro da existência da esposa no divertido  A soneca de Gretchen, há o noivo que, despeitado com a indecisão da amada, gaiatamente se fantasia de camelo e se vê envolvido numa esdrúxula cerimônia de casamento, em As costas do camelo; e, por fim, um dos melhores textos  de Fitzgerald, O curioso caso de Benjamin Button, cujo protagonista nasce idoso e vai rejuvenescendo, sempre em descompasso com as pessoas que o cercam.

Seis contos da Era do Jazz & outras histórias é um bom princípio para conhecer Scott Fitzgerald e, para os aficionados, uma visão em miniatura do brilhante (e também árido) mundo em que se passam as tramas dos seus grandes romances, que bem poderiam entrar em circulação novamente aqui no Brasil.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de setembro de 1996)

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2 Comentários »

  1. Alfredo, sou apaixonada pelo conto Ó feiticeira ruiva.Para mim, símbolo de nossas ilusões na vida .Muitas vezes , pessoas perseguem um ideal que no fim revela-se um grande engano. Esse livro, recebi de um amigo dentro de um ônibus, já velhinho9o Livro), o que muito me deixou feliz. Adoro o autor. E gostei do que vc escreveu.Divulgue no CLIc, por favor.
    Um abraço.
    Elô (Helena no Face)

    Comentário por Helena Martins Rodrigues Helentry — 30/05/2013 @ 16:39 | Responder

  2. Valeu, Helena, um grande abraço.

    Comentário por alfredomonte — 30/05/2013 @ 16:45 | Responder


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