MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/07/2011

Lendo Azar Nafisi na Baixada Santista


 

Meu receio diante de um livro como Lendo Lolita em Teerã [tradução de Tuca Magalhães, editora A Girafa] era que usasse a literatura apenas como um enfeite para um martirológio das mulheres no regime fundamentalista que se apossou do Irã..

Na página 288 da edição brasileira do livro de Azar Nafisi pode-se ler: “Minha amiga Mina me relembrou que no livro The tragic muse, Henry James explica que, quando escreve, seu objetivo é produzir a arte como uma complicação humana e como um obstáculo social. Isso é o que o torna tão difícil.  Mina era uma especialista em James e contei-lhe das dificuldades dos meus alunos com Daisy Miller. Ela acrescentou com uma certa ansiedade: Espero que não esteja pensando em tirá-lo do curso porque ele é difícil.  Eu lhe assegurei que não tinha essa intenção; de qualquer modo, não era porque fosse difícil para eles, mas sim por que os fazia se sentirem desconfortáveis… dizem que não precisamos de James, mas o que realmente querem dizer é: temos medo desse senhor James, ele surpreende, atordoa, confunde, inquieta um pouco”.

Nem é preciso chegar a esse ponto para compreender que, para Azar Nafisi, a literatura jamais ficaria em segundo plano. Desde as primeiras páginas, quando conta como deixou  (por imposição externa) de ser professora universitária no Irã e começou um clandestino grupo de estudos com algumas moças (a inclusão de um homem despertaria suspeitas), tendo Nabokov, autor de Lolita, como espírito tutelar, relatando também o cotidiano das discussões, as experiências pessoais das participantes, e depois ampliando o leque para abarcar sua trajetória de vida, a observação social não impede instigantes análises literárias (de obras de Nabokov, de Scott Fitzgerald,  de James, de Jane Austen). Isso não impede que tomemos contato com uma realidade quase surreal. Um exemplo: Negar, filha de Azar, está numa aula quando irrompem a diretora e a professora de moralidade (!).: “A classe inteira foi escoltada para fora da sala, suas mochilas foram vasculhadas à procura de armas e contrabando., fitas, romances, braceletes de amizade.  Seus corpos foram examinados cuidadosamente, as unhas inspecionadas.  Uma aluna, uma menina que acabara de voltar dos Estados Unidos, foi levada à sala da diretora, suas unhas estavam muito compridas….A própria diretora as cortou tão curtas que sangraram… Para Negar o fato de sequer poder chegar perto da amiga para consolá-la  dói tão ruim quanto o trauma da revista. Ela continuava repetindo, mamãe, ela simplesmente não conhece todas as nossas normas e regras, como você acha que ela se sente quando eles nos forçam a pisar a bandeira americana e gritar Morte aos Estados Unidos?”

Por causa desse estado de coisas, o grupo de leitura é formado “numa tentativa de, a cada semana, escapar do olhar fixo do censor cego durante umas poucas horas…não importa quão repressor o Estado se tornara, não importa o quanto estivéssemos intimidadas ou amedrontadas, tentamos escapar e criar nossos próprios pequenos bolsões de liberdade, como Lolita. E, como Lolita, aproveitamos todas as oportunidades para exibir nossa insubordinação:  uma pequena mecha de cabelo à mostra sob os véus, um pouco de cor insinuada na monótona uniformidade da aparência, as unhas compridas, apaixonando-nos ou ouvindo músicas proibidas”.

Lendo Lolita em Teerã tem feito muito sucesso. Para os leitores de Lolita, de O grande Gatsby, dos livros de Henry James e de Jane Austen do mundo inteiro, nada mais merecido.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de novembro de 2004)

LEIA TAMBÉM AQUI NO BLOG:

 

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/o-vale-das-cinzas/

https://armonte.wordpress.com/2011/07/22/alcapoes-invisiveis-de-onde-surge-a-borboleta-esquecida-da-revelacao/

 

 

1 Comentário »

  1. […] Uma resenha do professor Alfredo Monte […]

    Pingback por | Lendo Jane Austen em Teerã | Jane Austen em português — 13/12/2009 @ 1:58 | Responder


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