MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/07/2011

O prazer de ler Harry Potter apesar das edições brasileiras


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de junho de 2004, em função do lançamento da versão cinematográfica)

Quando foi lançado em 1999, Harry Potter e O prisioneiro de Azkaban marcava uma diferença com relação aos dois volumes anteriores (Harry Potter e A pedra filosofal & Harry Potter e A câmara secreta): enquanto eles mostravam enredos fechados em si mesmos (e, no caso do segundo, trata-se de um enredo extraordinário, que faz dele o melhor da série até agora); desta vez, o desfecho ficava inconcluso, abrindo um leque maior, complicando mais as relações e as possibilidades da história.

Harry fica sabendo que seu padrinho, Sirius Black, tido como perigoso assassino e responsável pela morte dos pais do jovem bruxo (motivo  pelo qual ele passou doze anos na prisão de Azkaban), é inocente, porém no desfecho Sirius não consegue limpar seu nome e tem de se tornar um foragido, assim como o hipogrifo Bicuço (Buckbeak), condenado à morte por intrigas do perverso Draco Malfoy, rival de Harry em Hogwarts; além disso, um servo importante de Lord Voldemort, Peter Pettigrew, supostamente assassinado por Sirius e que esteve camuflado na forma do rato de Ron Weasley, Perebas (Scabbers), consegue escapar—após seus desmascaramento—para se runir ao seu mestre (o que dará ensejo ao quarto volume, Harry Potter e O cálice de fogo, no qual se mostra como Voldemort consegue recobrar um corpo, com a ajuda de Pettigrew).

Sem contar que as coisas se tornaram mais ambíguas: o Ministério da Magia caça Sirius por meio dos macabros Dementadores (que evocam os Espectros do Anel de O Senhor dos Anéis), seres que sugam toda a felicidade e alegria das pessoas e parecem tão ameaçadores quanto Voldemort, tanto que, quando os professor de defesa contra a Arte das Trevas do terceiro ano (nenhum chega a ficar mais), Remus Lupin—que depois se revela um lobisomem—,faz com que a classe de Harry materialize seu maior terror num Bicho Papão (Boggart), o que aparece para o herói da série não é Voldemort e sim um Dementador, o que acarreta aulas particulares nas quais Lupin—que foi amigo do pai de Harry—lhe ensina como conjurar um Patrono protetor, através de um feitiço avançadíssimo, que terá grande importância na trama.

Em Harry Potter e O prisioneiro de Azkaban aparecem dois personagens que se tornarão importantes nos seguintes: Cedric Diggory (um rival amistoso de Harry na disputa pelo cálice de fogo, tendo um cruel destino) e Cho Chang, que namorará os dois.

Harry ainda recebe como presente o Mapa do Maroto, que foi criado por Lupin, Pettigrew, Sirius e seu pai, durante a adolescência, em suas identidades de Aluado (Moony), Rabicho (Wormtail), Almofadinhas (Padfoot) e Pontas (Prongs).Esse item mágico permitirá que se estabeleça um elo entre ele e o passado, inclusive com o desagradável professor Snape, o eu levará ao clímax da história num lugar tido como assombrado, a Casa dos Gritos.

Por fim, é o livro que deixa claro um dos grandes temas da série: o respeito pelas diferenças. Já em Harry Potter e A câmara secreta havia a questão do preconceito (contra os de sangue impuro); aqui, começam a proliferar outros seres, desrespeitados e desprezados pela sociedade dos bruxos[1]. O professor Lupin é um exemplo. É o lado politizado do universo de J.K. Rowling.

Como todos os outros volumes da série, Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban é muito bem traduzido por Lia Wyler. O único senão, e se trata de uma questão puramente idiossincrática, é a tradução dos nomes (por isso, neste artigo, utilizou-se o recurso pedante de informar o nome em inglês). Mesmo aí ela consegue equivalentes perfeitos (quando não se trata dos nomes próprios), como nôitibus andante por the knight bus.

Em compensação, levando-se em conta o preço que a Rocco coloca em seus livros, ela poderia dar um tratamento visual melhor à série, ainda mais devido ao seu público-alvo, os adolescentes.  Compare-se, por exemplo, com a edição americana da Arthur A. Irvine Books-Scholastic Press, que tem um tipo de impressão delicioso que duplica o prazer de ler J.K. Rowling, e que principalmente tem o cuidado de diferenciar as manifestações escritas dos personagens. Dois exemplos são suficientes: enquanto na ultra sem-graça edição brasileira, todos os bilhetes, informes, anúncios e cartas são impressos no mesmo formato (estraga-vista), no capítulo 14 da edição americana, O ressentimento de Snape (Snape´s Grudge), quando Snape tenta fazer funcionar o Mapa do Maroto, é insultado por palavras mágicas de cada um dos seus quatro criadores, com tipos de fonte diferenciados para Moony, Wormtail, Padfoot & Prongs; há um bilhete de Hagrid no capítulo seguinte (The Quadditch Final, isto é, A final do campeonato de quadribol), escrito num momento de tristeza e angústia, e na impressão que copia a peculiar forma de expressão do amigo gigante de Harry aparecem as marcas de lágrimas, borrando o texto e nos fazendo visualizar sua reação à condenação do hipogrifo de estimação. Isso é respeito pelo leitor. E aumenta a diversão. Quem sabe, algum dia, a Rocco siga o exemplo.


[1] Em Harry Potter e O cálice de fogo há um toque Vestígios do dia: a bruxinha Hermione se revolta ao descobrir que há criadagem em Hogwarts, elfos domésticos, explorados e alienados  ao mesmo tempo; comentando esse fato, o padrinho de Harry, Sirius, diz algo revelador sobre a estrutura social britânica: “Se você quer saber como um homem é, veja como ele trata os inferiores, e não os seus iguais”).

Publicidade

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: