MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/07/2011

MAIS UM PROFESSOR DE DEFESA CONTRA AS ARTES DAS TREVAS PERDIDO


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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em julho de 2009)

Finalmente, em Harry Potter e O Enigma do Príncipe (mais precisamente, Harry Potter e O Príncipe Mestiço), o antipático (embora descubramos mais tarde que ele é uma figura mais para trágica) professor Snape consegue o que almejava desde que apareceu pela primeira vez na história: ser o professor de Defesa contra as Artes das Trevas. O leitor da série sabe, porém, que esse é um cargo azarado: nenhum dos ocupantes voltou para o ano seguinte; também sabe que cada um desses malfadados mestres (Quirrell, que carregava Voldemort como parasita no seu corpo; Gilderoy Lockhart, que era um embusteiro; Remus Lupin, vítima de preconceito por ser um lobisomem; Olho-Tonto Moody, que era um disfarce, proporcionado pela poção polissuco, para um seguidor do grande inimigo de Potter; a repelente e totalitária Dolores Umbridge) estava diretamente ligado à trama principal do volume de que participavam. E desta vez não é diferente: Snape assassina o diretor de Hogwarts e protetor de Harry, Dumbledore, o qual depositava nele uma confiança não compartilhada por mais ninguém, uma vez que o temido professor de Poções (nos anos anteriores) já fora um Comensal da Morte, assecla de Lord Voldemort. Só no volume seguinte saberemos que esse crime foi arquitetado pelo próprio Dumbledore, para proteger Draco Malfoy, encarregado pelo grande vilão, de executar  essa terrível tarefa (e nós conheceremos o desamparo do rapaz, em seus colóquios com a patética Murta-que-geme, o fantasma dos banheiros de Hogwarts).

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O andamento da trama também explica por que tanta atenção se dá ao professor que troca de lugar com Snape, Horace Slughorn, que vem dar à  escola de magia um toque de mundanidade e sede de prestígio social, com sua escolha de “favoritos” que lhe podem ser úteis no futuro (“Ocorreu a Harry a nítida imagem de uma grande aranha inchada, tecendo a teia em torno dele, torcendo um fio aqui e outro ali para trazer mais perto suas moscas gordas e sumarentas”). Potter, agora com 16 anos, se destaca nas suas aulas ao usar um velho livro paradidático cheio de anotações criativas (e potencialmente perigosas) de um ex-aluno, um “Príncipe mestiço” (que descobriremos tratar-se do próprio Snape), apesar dos avisos de sua amiga Hermione (parece que ele se esqueceu do que acontecera em Harry Potter e A Câmara Secreta).

Enquanto isso, ele e Dumbledore se ocupam em vasculhar o passado de Lord Voldemort quando era o jovem Tom Riddle e vivera, muito à Dickens, num orfanato (ficamos conhecendo também a sua mãe, que era bruxa, e seu pai, trouxa, que fugira com ela e a abandonara, grávida), e em localizar os objetos nos quais ele concentrou parte de seu ser, as horcruxes (ter tentado destruir uma delas parece ser a causa da ampla mutilação de uma das mãos do grande bruxo). Harry participará, inclusive, de uma incursão em busca de um medalhão antigo numa caverna, cujo clímax será o crime de Snapes.

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Na condição de penúltimo volume, e postado entre dois livros monstruosamente prolixos e vibrantes (A Ordem da Fênix e As Relíquias da Morte), O Enigma do Príncipe parece o mais sem graça de toda a série. O primeiro (A Pedra Filosofal) a apresentava de forma muito bem sucedida, os dois seguintes eram brilhantes (A Câmara Secreta & O Prisioneiro de Azkaban) em termos de fabulação e esgotavam todas as possibilidades de Hogwarts como cenário principal (e na minha opinião ainda constituem seu ponto alto), depois o quarto (O Cálice de Fogo) abria-se para uma visão mais ampla do mundo bruxo (com o torneio internacional, além da copa mundial de quadribol), além de marcar a restauração física de Voldemort, o quinto (A Ordem da Fênix) é o ciclope que conhecemos, e o sétimo (As Relíquias da Morte) um “grand finale”. Apesar de conter o fato mais dramático até então ocorrido, a morte de Dumbledore (além disso, traído ignominiosamente), o que a sexta aventura de Harry Potter oferece?

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Para começar, tem o início mais inteligente e divertido, entre todos, com o encontro entre o ministro da magia e o ministro trouxa. Além disso, é o único em que há realmente uma excursão aventuresca clássica, ou seja, para um lugar desconhecido (quando Dumbledore e Harry penetram na caverna onde Voldemort escondeu uma das horcruxes), que não seja as dependências ou imediações de Hogwarts ou do Ministério da Magia, talvez o grande momento narrativo do romance. Aliás, o desaparecimento de Dumbledore, que era uma figura perpassada por um sopro poético  (não é à toa que, quando busca Potter na casa dos tios, ele diz a seu protegido de forma shakesperiana: “E agora, Harry, vamos sair para a noite em busca dessa sedutora volúvel, a aventura”) mostra o grande vazio que se abate sobre os heróis: a sucessora é a sempre firme, leal, mas inabalavelmente prosaica Minerva McGonagall (e caberá a Harry preencher o vazio).

Para os adolescentes (será que só para eles ?), há decerto um charme a mais: pode parecer estranho (e no entanto é totalmente verossímil) que Harry e seus amigos se preocupem com exames, matérias e paixonites e rusgas e picuinhas, com tal ameaça pairando sobre eles. Ou seja, o cotidiano equilibra a sombria atmosfera geral. Esse é o momento das descobertas amorosas (inclusive da paixão de Harry pela, a meu ver, chatinha Ginny Weasley, que substitui em definitivo a anódina Cho Chang), dos beijos, dos amassos, dos ficares e demais rituais da idade. Esse deve ser, aliás, o grande apelo do filme de David Yates (incrementado pela crescente beleza de Daniel Radcliffe e Emma Watson desde o primeiro filmeJ.K. Rowling os captura com precisão. Parece não estar acontecendo nada, e está acontecendo tudo.

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Dumbledore__

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potter e amigos

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2 Comentários »

  1. Meu mestre Alfredo…

    Estar em seu blog e buscar o conhecimento sempre…
    Voce realmente é muito especial…..

    Comentário por Silvia — 18/07/2009 @ 16:24 | Responder

  2. eu sou genivaldo e gosdo muito de harry potter

    Comentário por genivaldo — 28/12/2009 @ 13:10 | Responder


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