MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/06/2011

O CRÍTICO DOS CRÍTICOS: Percorrendo “A escritura profana” de Northrop Frye


O texto abaixo reproduz  anotações de aula, para um curso que ministrei em 2008, chamado “Três Jovens Parcas”,  com relação ao maravilhoso A escritura profana, de Northrop Frye, um dos dois ou três maiores críticos literários do século XX.

O original (The Secular Scripture) é de 1976.  São as conferências que Frye realizou em Harvard, as famosas “Norton Lectures”, em abril de 1975. Não há tradução brasileira ou em língua portuguesa, que eu saiba. O mais próximo de nós é uma tradução para o espanhol, de Edison Simons (1980).

Já em Anatomia da Crítica (1957), a hipótese (sedutora) de Frye era que os ritmos poéticos estão intrinsecamente ligados ao ciclo natural, aos ritmos da natureza, ritualizados: a aurora, o crepúsculo, as estações da natureza, o nascimento, a morte, tudo isso está na base dos mitos de nascimento de heróis, sua ressurreição e a derrota das trevas. O zênite, o verão, dão origem a imagens triunfalistas, apoteóticas, mitos de esponsais sagrados, do Paraíso (o arquétipo da comédia, do idílio, da narrativa romanesca); o crepúsculo, o outono, a morte nos levam a mitos como o dilúvio ou o apocalipse (arquétipo da sátira). A primavera, o verão, o outono e o inverno originam (respectivamente) a comédia, o romance de cavalaria, a tragédia e a ironia.

Resumindo, os ciclos naturais determinam não apenas imagens e temas, mas gêneros.

Para o leitor brasileiro entender bem as teorias de Frye é preciso ter em mente o seguinte:  o que ele chama “romance” (e eu traduzo como narrativa romanesca) nada tem a ver com o romance atual, que, na sua conformação convencional, é o que em inglês é conhecido como “novel”, de feição mais realística e verossímil, oriunda do aburguesamento da sociedade. Então, para não haver confusão, vou utilizar “romance” só no sentido estrito de “novel”, ou seja, da forma relativamente mais recente de narrativa, e “narrativa romanesca”  para o  que ele considera e denomina “romance”.

Quando Frye começa A Escritura Profana, ele diz que:

“Entendo por narrativa romanesca ingênua o tipo de conto que se encontra nas coleções de relatos folclóricos, como os contos de fadas de Grimm. Entendo por narrativa romanesca sentimental[1] uma elaboração mais literária e extensa das fórmulas da narrativa ingênua… Quando o romance se desenvolveu, a narrativa romanesca continuou paralelamente a ele… As convenções da narrativa romanesca em prosa mostram poucas mudanças ao longo dos séculos e um conservadorismo desse tipo é sinal de um gênero estável.”

O dado importante aqui é que a narrativa romanesca, ingênua ou sentimental, é um reservatório de convenções e soluções, que alimenta até mesmo às formas modernas de narrativa.

“O título deste livro, sugere algo de sua relação com estudos bíblicos. A distinção que subjaz nesta relação constitui nosso primeiro passo. Podemos supor que cada sociedade humana possui certa forma de cultura verbal na qual as ficções ou narrações ocupam lugar proeminente. Algumas dessas narrações podem parecer mais importantes que outras: exemplificam o que concerne primordialmente à sua sociedade. Servem para explicar certas características que aparecem na religião de tal sociedade, estruturas sociais, meio ambiente, história ou cosmologia. Outras narrações seriam menos importantes, pois são usadas para entreter ou divertir, satisfazendo as necessidades imaginativas da comunidade. As narrações mais importantes são também imaginativas, mas de modo incidental, já que sua pretensão é transmitir algo como um saber especial, algo que na linguagem religiosa chamamos de revelação, razão pela qual não foram consideradas, durante muito tempo, como tendo uma origem imaginativa, sequer humana.

    Chamarei mitos ao grupo mais importante de narrações que se encontram no centro da cultura verbal de uma sociedade.”

Portanto, temos o relato mítico e o relato folclórico ou fabuloso, dois tipos de experiência verbal. Mas há um paralelismo entre a estrutura dos dois:

Só existem limitados modos eficazes de narrar uma história, e os mitos e a narração folclórica compartilham-nos sem dividi-los.”

    “Os mitos se agrupam para formar uma mitologia, um vasto corpo narrativo conectado entre si…os mitos arraigam-se numa cultura específica e uma de suas funções é dizer a essa cultura que é o que é e como chegou a sê-lo nos seus próprios termos míticos. Deste modo, transmitem um legado de alusões compartilhado por determinada cultura.As narrativas folclóricas têm uma existência mais nômade. Viajam pelo mundo inteiro cruzando todas as barreiras de linguagem, não se expandindo em estruturas mais amplas, porém intercambiando seus temas e motivos ao acaso. Contudo, à medida que se desenvolve a literatura, as narrações “profanas” também começam a se arraigar na cultura e a contribuir na herança compartilhada da alusão.”

Em princípio, porém, a tradição entrega ao poeta “mítico” seu material, enquanto que o poeta “profano” pode, até certo ponto, eleger suas próprias tramas e personagens: “As personagens e as tramas dos poetas míticos têm em torno de si a ressonância do reconhecimento social e congregam uma autoridade que não poderia ser imposta por nenhum autor que seja meramente o que chamamos ´criador´. A transmissão da tradição é explícita e consciente para o autor mítico e seu público. Ora, poderia parecer que o autor profano inventa suas próprias histórias, mas isto nunca ocorre na literatura, ainda que a ilusão de que aconteça constitua uma ilusão necessária para alguns autores. Seu material deriva de tradições que o precedem, as quais podem carecer de um status social reconhecido e explícito, e podem não ser conscientemente conhecidas pelo autor ou seu público. A literatura profana, inclusive no seu nível oral, constitui também um corpo de narrações conectadas entre si.

    A Bíblia constitui o exemplo supremo de como podem os mitos, sob determinadas pressões sociais, agrupar-se para formar uma mitologia… É possível, pois, examinar as histórias profanas em sua totalidade e como elas conformaram uma visão única e integrada do mundo, paralela à visão cristã e bíblica? Essa é a pergunta que implica a ´escritura profana´ do meu título. Gostaria de considerar a ficção como uma ordem verbal total, com os esquemas de um universo imaginativo nela incluídos. A narrativa romanesca é o núcleo estrutural de toda ficção; ao proceder diretamente da narração folclórica nos aproxima, mais que qualquer outro aspecto da literatura, do sentido da ficção considerado em sua totalidade, como a epopéia da criatura, a visão da própria vida do homem como Busca, enquanto a Bíblia é a epopéia do criador, cujo herói é Deus…

… Qualquer exame sério da narrativa romanesca tem que levar em conta seu status curiosamente proletário, como uma forma sobre a qual geralmente os guardiões do gosto e do saber têm uma má opinião, na maioria das épocas… A relação íntima do romanesco e do popular aparece ao longo de toda a literatura[2]… O fato de que o sexo e a violência se manifestam cada vez que têm oportunidade de fazê-lo significa que a sexualidade e a violência são fundamentais na narrativa romanesca e este é um fato cultural importante na sua constituição, sobre o qual teremos que nos debruçar.”

Um conceito importante em Frye é o deslocamento, o ajuste das estruturas das fórmulas e das convenções a um determinado contexto. No contexto pós-realista, dentro do que chamamos romance, herdeiro burguês das narrativas romanescas, o deslocamento se encontra estreitamente vinculado com a paródia (o Ulisses de Joyce recontando a Odisséia,etc,etc).

“Na literatura de ficção dos quatro ou cinco últimos séculos [ou seja, pós-Quixote] tem havido uma espécie de bumerangue que se move entre a imaginação e a realidade… Uma tendência recebe o nome de romântica, a outra de realista. A tendência realista se move em direção ao figurativo e ao deslocado, enquanto a tendência romântica se move na direção contrária, ao concentrar-se nas unidades de fórmula do mito e da metáfora…”

Associação de deslocamento e paródia:

“Quando o romance, no século XVIII, consolidou-se, ele atingiu um público acostumado às fórmulas da narrativa romanesca em prosa. Salta à vista que o romance era um deslocamento realista da narrativa romanesca e que tinha poucos rasgos estruturais que o caracterizavam por si mesmo. Esse deslocamento proporciona na relação do romance com a narrativa romanesca um poderoso elemento de paródia. Não seria demasiado afirmar que a ficção realista, de Defoe a Henry James resulta, quando a consideramos como uma forma da técnica narrativa, essencialmente uma narrativa romanesca paródica.”

“… a realidade na literatura só pode apresentar-se dentro das convenções da estrutura literária e essas convenções devem ser entendidas em primeiro lugar…” 

Portanto, toda ficção é pura convenção, uma forma ritual, por mais disfarçados ou deslocados que estejam seus parâmetros.

Na narrativa romanesca, que é, como já se viu, a base de toda a ficção, há uma polarização gritante entre o mundo do desejo e o mundo da experiência.

“Em primeiro lugar, há um mundo relacionado com a felicidade, a segurança e a paz, com ênfase na infância ou numa época de juventude ´inocente´, e as imagens são as da primavera ou do verão, das flores e da luz do sol. É o mundo do desejo. O outro é um mundo de aventuras excitantes mas que trazem consigo a separação, a solidão, a humilhação, a dor e a ameaça de mais dor. É o mundo da experiência. Em razão da poderosa tendência polarizadora que se dá na narrativa romanesca, habitualmente passamos diretamente de um a outro.”

“É como se a narrativa romanesca estivesse simplesmente suplantando o mundo da experiência ordinária por um mundo onírico…Uma tendência realista busca seus materiais, ou dizendo mais precisamente, as analogias destes materiais, no mundo da consciência desperta; o movimento de altos e baixos na narrativa romanesca constitui um indicativo de que o autor de narrativas romanescas também encontra analogias de seus materiais num mundo no qual ´dormimos´ e ´despertamos´.”

Como se vê, Frye continua buscando suas analogias em ritmos e ciclos, como a vigília e o sono: “A maioria das narrativas romanescas apresenta um movimento cíclico de descida a um mundo noturno e de retorno a um mundo idílico ou a algum símbolo dele, como o matrimônio”. Movimento cíclico, uma expressão-chave.

“Temos afirmado que na narrativa romanesca, considerada na sua totalidade, nem o mundo da vigília nem o do sonho são reais, e sim que a realidade e a ilusão são, ambas, mesclas dos dois. De modo semelhante, o rito é um ato consciente da vigília, porém há sempre nele algo sonâmbulo, uma coisa que se faz conscientemente e outra que significa algo inconsciente com relação ao que se faz. O rito é, por assim dizer, a epifania do mito, sua manifestação ou apresentação em ação.

…A diferença entre as ações práticas que estudam os historiadores, e as ações rituais que a literatura expressa, poderia ser denominada diferença entre ações de trabalho e ações de jogo (lúdicas). Na narrativa romanesca, a ação total humana que a trama descreve é essencialmente ação ritualizada.”

Um ponto importantíssimo:

“O método crítico que sugere o realismo começa por separar a obra literária que se está estudando de seu contexto dentro da literatura. Depois, a obra poderá ser examinada em relação com suas afinidades históricas, sociais, biográficas e outras mais, alheias à literatura. Este método, sendo, como é, inadequado, se racionaliza, amiúde, com a ênfase adequada na ´singularidade´ da obra.”       Por isso, a ênfase de Frye é na reabsorção da obra individual à totalidade da convenção a que ela pertence, mesmo através dos seus disfarces e deslocamentos, ou seja “fazer uma distinção entre o que o relato individual está narrando e o que a convenção à qual pertence o relato expressa através dele”.


[1] Essa terminologia ele tomou de Schiller: grosso modo, ingênuo é o popular; sentimental, o trabalhado por um autor.

[2] E ninguém estudou isso melhor que Mikhail Bakhtin.

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2 Comentários »

  1. Olá! Estou elaborando uma tese de Letras e tenho dificuldade em ter acesso ao livro “La escritura profana” do Frye. Você por acaso teria cópia do livro? Estou procurando em formato PDF para baixar mas não encontro. Sou professor de literaturas espanhola e hispano-americana na Unioeste/Foz do Iguaçu. Muito grato!!!

    Comentário por Flavio Pereira — 20/08/2012 @ 20:08 | Responder

    • Olá, Flavio, eu tenho uma xerox do livro, feita na época da pós-graduação (que tirei da biblioteca da FFCHL da USP). Se quiser, faço uma cópia da cópia.
      Escreva-me: armonte2001@yahoo.com.br
      Abraço, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 22/08/2012 @ 8:41 | Responder


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