MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/06/2011

SAUDAÇÕES A FEDERICO SANCHEZ


“A vantagem de uma vida aventurosa, preenchida pelo som e a fúria do século, é que ela tem o dom– graça e desgraça, fortuna e infortúnio– de uma memória inesgotável. Sempre haverá, efetivamente, alguma coisa para se contar, para além de tudo o que tiver contado…”

“Quando me pergunto, voltando-me às vezes para mim mesmo, para que eu era dotado na vida, uma certeza ao menos se impõe a mim: era dotado para a clandestinidade. Foi a profissão que melhor exerci…”

“…esse outro que às vezes sou: eu mesmo…”

(a resenha abaixo foi publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 21 de junho de 2011)

O IRMÃO GÊMEO DE FEDERICO SANCHEZ: HOMENAGEM A JORGE SEMPRUN (1923-2011)

Antes de ser um dos maiores escritores do mundo[1], o recém-falecido (no dia sete de junho) Jorge Semprun viveu como um personagem de John Le Carré: nascido em Madrid em 1923, pertencia a uma família de prestígio (o pai era diplomata), a qual teve de exilar-se por conta da derrota republicana na mítica Guerra Civil espanhola. Na França, participou da resistência, ingressou no partido comunista e, preso pela Gestapo, foi enviado (tinha 20 anos) ao campo de concentração de Buchenwald.

Após a guerra, ainda que escrevendo muito furtou-se à vocação literária e filosófica que lhe era natural, mergulhando na militância e depois na clandestinidade (sua atividade escrita teve um cunho eminentemente partidário): proscrito pelo regime franquista, atravessava a fronteira da Espanha  em missões para o partido, assumindo como avatar principal a identidade de Federico Sanchez. Ele mesmo o disse: “Escolhi a ilusão de um futuro, por meio do engajamento político, já que o engajamento na escrita me levava ao enclausuramento da memória e da morte.

Federico Sanchez, portanto, existia mais verdadeiramente do que Jorge Semprun. (“todos os que me conhecem um pouco sabem que o trabalho clandestino político é o que mais me excitou, agradou, interessou, divertiu, apaixonou durante toda minha vida”). Em 1964, ele caiu das nuvens: por manifestar objeções à fossilizada e irrealista ação do partido e seus miasmas stalinistas (tais como encarnados pela figura de proa do PCE, Santiago Carrillo, com quem ajusta contas em Autobiografia de Federico Sanchez), foi expulso (a famosa La Pasionaria o chamou de “intelectual cabeça de vento” na reunião que sela o destino de Semprun-Sanchez).

Federico Sanchez aparentemente deixou de existir (eu coloco “aparentemente” porque ele será inclusive personagem de alguns romances).  Pode-se dizer que para Semprún-ele mesmo, a vida começou, como no dito popular, aos 40. Ou, nas palavras de Georg Lukács, “a viagem terminou, começou a estrada”. Era a hora de se entender com a “vertiginosa espiral imóvel de minha memória. No final da viagem, a jornada da escrita.

O primeiro romance já era brilhante (e não poderia ilustrar de forma mais precisa a fórmula lukacsiana): Le grand Voyage (1963)A grande viagem (com o qual ele se tornou um escritor da língua francesa, com algumas exceções importantes; trata-se ainda de um modo de clandestinidade e infiltração). Aqui na minha coluna eu o incluí numa lista dos 100 maiores do século XX. Por quê? Acho que o próprio autor tem a resposta perfeita: “Tornara a ser eu mesmo—esse outro que eu ainda não havia sido—graças a esse livro, o livro que eu não chegara a escrever em 1945. Ou melhor, uma das variantes possíveis desse livro: elas eram virtualmente infinitas. Ainda o são, aliás. Quero dizer: não haverá versão definitiva desse livro, nunca. Estará sempre por recomeçar…”

E recomeçou: a experiência de Buchenwald, contada em A grande viagem, reaparece nos extraordinários Quel beau dimanche! (1980)- Um belo domingo e  L´écriture ou La vie (1994)- A escrita ou a vida. Em todos os três, utiliza uma técnica narrativa ousada, original, caleidoscópica, com idas e vindas temporais alucinantes (“não escrevi esta história por ordem cronológica, talvez porque não sou Deus, talvez porque me aborreçam os modelos bíblicos e a falaz reconstrução de uma vida do princípio ao fim, talvez porque a vida não tenha princípio nem fim, embora tenha princípios e fins”; é como se ele perseguisse  a derradeira “babushka”, a derradeira bonequinha contida em inúmeras outras); nessa vertente “buchenwaldiana”, embora mais linear, inclui-se também O morto certo (2001), cujo título original é bem mais instigante: Le mort qu´il faut.

Houve, também, os inclassificáveis, candentes e poderosos embates com seu avatar Federico Sanchez. O primeiro, o já clássico Autobiografia de Federico Sanchez (1977, escrito em espanhol) relata sua vida como intelectual e militante com a visão turvada pela ideologia stalinista até sua expulsão do partido. O segundo, Federico Sanchez vous salue bien (1993)- Saudações de Federico Sanchez, mostra que o enclausuramento da memória e da morte não o impediram de participar ativamente do presente: aí se conta sua experiência (ele, o proscrito, o clandestino, o desterrado) como ministro da cultura de 1988 a 1991, num dos mandatos de Felipe Gonzalez, o homem que deu à Espanha a cara pós-Franco.

Com essa obra memorialística formidável, que o torna uma figura-chave para se entender a 2ª. metade do século passado, Semprun ainda se deu ao luxo de ser um romancista de primeira, basta lembrar de La deuxième mort de Ramon Mercader- A segunda morte de Ramón Mercader (1969, certamente um dos pontos altos da ficção contemporânea),  algarabie-A algaravia (1981, que teve uma magnífica tradução brasileira, de Margarida Salomão), La Montagne Blanche-A Montanha Branca (1986), Netchaïev est de retour- Netchaiev está de volta (1987) e  Veinte años y un dia- Vinte anos e um dia (2003), este último uma obra-prima aos 80 anos, e voltando à língua espanhola. Sem contar seus roteiros inquietantes, suas colaborações com gente do calibre de Alain Resnais, Joseph Losey e Costa Gavras, que renderam filmes como Z e A guerra acabou.

Nada dado a conciliações, consolos ou conformismos, o alter ego de Federico Sanchez não gostaria que se fechasse a conta a seu respeito de forma confortável. Mas, citando-o, pode-se afirmar: “nada foi inútil ainda que nada tenha sido como estava previsto nem como estava sonhado.

(as citações de Semprun do texto acima foram extraídas de dois livros, Autobiografia de Federico Sanchez & Saudações de Federico Sanchez. Eles foram editados aqui no Brasil pela Paz & Terra, e é preciso dizer que, embora bem traduzidos—por Olga Savary & Eloisa Ferreira Araújo—não dá para compreender como uma editora tão séria pode impingir ao leitor tais amontoados de erros, falta de revisão, de forma que a Autobiografia fica quase incompreensível em alguns trechos—e já é um livro difícil—, sem falar que eles sequer se dão ao trabalho de fornecer o título original e o ano da publicação original de Saudações. O que nos leva a exigir a inversão da célebre fórmula: não basta parecer séria, tem que ser de fato)


[1]  Pelo menos, um dos meus favoritos: nunca esquecerei a minha primeira leitura de Semprun, a de Um belo domingo, ainda um dos livros que eu levaria para a ilha deserta. Depois, houve os dois livros “míticos”, não sosseguei enquanto não os li, A segunda morte de Ramon Mercader & Autobiografia de Federico Sanchez.  Curiosamente, eu já tinha A grande viagem, mas por algum motivo tinha resistência com relação ao livro, o que se revelou uma grandíssima bobagem.

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