MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/06/2011

William Kennedy e o perigo da implosão


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de março de 1995)

A exemplo de Santos, Albany é uma cidade bem antiga dos EUA e muitos imigrantes fixaram-se ali. Em 1958, ano em que Peter Phelan reúne sua família para resolver questões testamentárias e patriarcais, Albany está modernizando seu perfil urbano e, em velhos reservatórios, ossadas são encontradas.

Orson, filho de Peter e narrador de Ossos antigos (Very old bones, EUA-1992, em tradução de Sérgio Flaksman), de William Kennedy, remexe arqueologicamente os ossos ocultos da família. E isso não é apenas uma analogia: há um pequeno cadáver enterrado no porão da casa dos Phelan desde os anos 30.

William Kennedy é obcecado por suas raízes irlandesas, pela peculiar mescla de monstruosidades familiares e um humor peculiaríssimo, e a maneira como ele trabalha tudo isso no interior da consciência dos personagens lembra James Joyce, não só o mais prestigiado autor do século XX, mas também irlandês até a medula. Kennedy gosta igualmente de acontecimentos extravagantes e de um clima quase surreal, lembrando Gabriel Garcia Márquez.

A mistura Joyce-Garcia Márquez poderia ser indigesta, não tivesse ele desenvolvido um universo todo próprio, que foi delineando-se em seus sete romances, especialmente a partir do terceiro, o muito bom I(muito bom mesmo) A grande jogada (na verdade, A grande jogada de Billy Phelan), que trata das façanhas de Billy, primo de Orson.  O quarto foi melhor ainda, Ironweed (assim como o anterior, editado no Brasil pela Francisco Alves, com o título de Vernônia). E marcou um patamar que o autor norte-americano está tentando, com dificuldade, superar ou simplesmente igualar.



Ironweed é de 1983. Em 1988, com grande alarde (por causa da versão cinematográfica do livro anterior, que foi indicada para vários Oscars e tinha Meryl Streep e Jack Nicholson, ambos em grandes momentos de sua carreira), veio O livro de Daniel Quinn, cujas primeiras páginas eram um tour-de-force estupendo de humor e extravagância, que o resto do texto, meio capenga, não acompanhava, deixando uma impressão final de mediania e esgotamento.

OSSOS ANTIGOS causou menos alarido (talvez pelo modesto resultado de seu predecessor) e é melhor, sem dúvida, sem chegar ao nível de Ironweed & A grande jogada. Kennedy foi feliz em situar a narrativa em 1958, na encruzilhada entre os velhos tempos de Albany e um tempo em que as minorias já entram em movimentação rumo à luta pelos direitos civis,que transformará a fisionomia da sociedade americana. Pior para os irlandeses que teimam em trazer à superfície os fósseis do passado e que mumificam o presente.

Mas OSSOS ANTIGOS não escapa de ser um romance desigual. O autor se repete e o leitor fica meio cheio da indefectível figura de Francis (o protagonista de Ironweed e pai de Billy), que virou um errante, após ter—acidentalmente—morto o filho, bebê de poucos dias, e que ganha uma aura heróica neste último livro. Também o tipo de narrativa,memorialístico, não é todo bem resolvido, e resvala por vezes no pior romantismo (é o caso do envolvimento meio Ensina-me a viver entre Orson e a tia sessentona) e é projetando-se no passado mais remoto que ele rende mais (a infância de Peter, a loucura de Malachi, a personalidade rançosa e rancorosa de Sarah Phelan).

Kennedy é um dos autores mais interessantes da atual ficção norte-americano, mas a expansão infinita do universo dos Phelan pode levá-lo a uma entrópica e fatal implosão de criatividade.

nota de 2011A CosacNaify publicou no ano passado novas traduções de A grande jogada (que se tornou O grande jogo de Billy Phelan) e Ironweed (agora sem o aportuguesamento do nome da planta que justifica o título)

1 Comentário »

  1. […] mais: William Kennedy e o perigo da implosão « MONTE DE LEITURAS: blog … Esta entrada foi publicada em Sem categoria e marcada com a tag implosão, kennedy, leituras, […]

    Pingback por William Kennedy e o perigo da implosão « MONTE DE LEITURAS: blog … | iComentários — 13/06/2011 @ 13:42 | Responder


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