MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/06/2011

A SÍNDROME DE CAIM


“Não queria, no entanto, que pensassem em mim como num bandoleiro escaldado em todo tipo de desgraça”  (Cesare Battisti, SER BAMBU).

ENTRE O TÉDIO E O FOLHETIM

 Se depois da morte existe a reencarnação, eu queria renascer como bambu, aproveitar a prodigiosa flexibilidade que lhe permite curvar-se a todas as correntes e sempre se reerguer para continuar contemplando os escombros do alto de sua folhagem”.

    É possível avaliar objetivamente, do ponto de vista literário, uma obra de Cesare Battisti, sem levar em conta a celeuma causada pela batalha em torno da sua extradição (ainda não-efetuada) para a Itália, em função de assassinatos supostamente cometidos durante sua militância política? Não sei. Aliás, a militância política merece pouco espaço em SER BAMBU, livro que me caiu nas mãos nos últimos tempos:  “O que mais machuca são as inúmeras interpretações capengas de todos esses que hoje nos chamam de ´terroristas´(…) É um erro grave, não raro perigoso,  esperar que os outros acatem nossas conclusões e experiências subjetivas como fatos objetivos. Eu estava, àquela época, convencido de que injustiça mais povo revoltado era igual a Revolução! Como 1+1= 2. Fazer o quê, sou um filho do século passado.”

Ser Bambu me revelou o escritor Battisti, que nunca é mencionado em todas as fastidiosas e bombásticas opiniões pró e contra extradição, Um escritor de muitos livros anteriores e que se debruça, numa curiosa mistura de autobiografia e romance alegórico, sobre seu bloqueio como escritor: a condição de eterno foragido é agravada pela paralisia da escrita, a má consciência que pode se tornar um laptop abandonado e acusador (“esse conflito obsessivo com meu passado de escritor“), uma vez que a vida que se leva é construída na sombra, no nada: “A febre do escritor levava a melhor sobre a minha firme convição de eu já não tinha mais nada a dizer”,uma certa “incompetência de viver”, como os heróis de Juan Carlos Onetti ou João Gilberto Noll, e um apetiter pela irritação ininterrupta da imperfeição: “Um cômodo que não serve para nada, uma torneira pingando, barulho, moscas,  uma divindade pavorosa a um canto, eu precisava de alguma coisa do gênero… Acho monstruoso quando não há do que reclamar”.

      Pois quem espera aventuras trepidantes e peripécias rocambolescas envolvendo fugas, passaportes falsos, endereços diversos no mapa-múndi, vai se decepcionar. Os grandes momentos de Ser Bambu, os que fazem dele um livro em certos aspectos notável, são aqueles que vasculham justamente a sombra, o nada, o tédio que constitui a existência desse Caim dos tempos modernos, o qual, no momento em que a narrativa se abre, perambula por países asiáticos: “É impressionante as histórias que o tédio que a gente é capaz de inventar quando o tédio toma conta. Era possível  que, como estrangeiro crônico, eu desse a essa palavra um sentido que não lhe coubesse de fato. Experimentei algumas outras para definir esses momentos em que precisamos a todo custo de um pretexto para continuar em pé. Mas descartei uma a uma, como deve ser feito quando nos prendemos a sinônimos (…) Posso reconhecer facilmente que as iniciativas mais importantes da minha vida foram inconscientemente tomadas por impulso do tédio (…) Depois de certas experiências decisivas, tornei-me quase apto a pressentir as coisas trazidas  por essa espécie de febre latente que é o tédio…”

     Esse clima, e a presença de uma mulher estranha, Áurea,  com algo ameaçador em torno dela, uma espécie de sorvedouro existencial (“aquela mulher, que enfrentava o mundo com a frágil nobreza de um antigo papiro”) , parece indicar que estamos num terreno mais próximo de Marguerite Duras do que de pregações marxistas ou memórias militantes.

    Infelizmente, a mulher (uma brasileira) abre a boca (os diálogos são terríveis), e o encanto se desfaz;  pior ainda, conta sua história. E enveredamos para uma narrativa com certo teor alegórico-brega, e que poderia ter sido escrita por Paulo Coelho: ela é uma dondoca ambiciosa, que trabalha para multinacionais, e que se apaixona por um líder do MST, na verdade um carreirista sem escrúpulos, cuja participação no massacre de ocupantes de uma grande propriedade, fez com que ela o assassinasse, após encampar seus ideais e abandonar sua antiga vida.

    O tom com que tudo isso é narrado é de folhetim, como se Danielle Steel ou Nora Roberts se ocupassem de uma história de amor, tendo como pano de fundo as nossas lutas pela reforma agrária.

   Volta e meia, Cesare Battisti nos surpreende com uma passagem maravilhosa, com uma percepção literária incrível: “Sei perfeitamente que as omissões dizem muito mais aos leitores que essas tantas explicações confusas e pesadas. É bom fechar os olhos sobre um livro aberto e evocar todos os seus não-ditos…Uma réplica interrompida nos evoca uma seqüência lógica e profunda que nenhuma boa escrita saberia oferecer. A arte de não dizer, caros amigos, aí está o livro que ainda não escrevi. Por enquanto, contento-me em ser o mais fiel possível à imagem que eu criara de Áurea, e de nóis dois, e isso dentro dos limites da minha capacidade de expressão. Não há dúvida de que, naquela hora, mãos cruzadas às costas e queixo erguido, Áurea estava tão furiosa quanto um chefe de pelotão irritado com a inaceitável inépcia de seus homens. É verdade que, em vez de enclausurar esse estado de Áurea numa só palavra, ´furiosa´, eu poderia deixá-lo em liberdade, ao sabor da imaginação dos leitores….” etc etc.

       Entretanto,  a vida de foragido e a luta contra a voragem do tédio embotaram sua escrita. Esperemos que, qualquer que seja seu futuro, ele a reconquiste na plenitude.

 (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em março de 2010)

 

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