MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/05/2011

Leituras em espelho: JUAN JOSE SAER e MEMPO GIARDIANELLI (ou, em última instância, Bernardo Carvalho e Tabajara Ruas)


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  9 de dezembro de 1997)

Um ponto em comum entre Ninguém Nada Nunca (Nadie Nada Nunca, traduzido por Bernardo Carvalho), de Juan José Saer, e Impossível Equilíbrio (Imposible Equilibrio, traduzido por Tabajara Ruas), de Mempo Giardinelli, além de serem ambos representantes da literatura argentina contemporânea traduzidos este ano no Brasil, é o fato de terem animais como elemento catalisador das suas intrigas.

Em Ninguém Nada Nunca, publicado originalmente em 1980, relata-se uma série de assassinatos cruéis de cavalos numa região meio rural meio litorânea. Por essa razão, Gato Garay, o protagonista, toma conta de um baio amarelo, protegendo-o no quintal de sua casa, à beira-mar.

Já em Impossível Equilíbrio (de 1995), o projeto de importar hipopótamos da África para assegurar o equilíbrio ecológico ameaçado pela proliferação excessiva de certas plantas aquáticas causa tumulto na região do Chaco e, quando a importação se efetiva, um grupo de descontentes seqüestra os hipopótamos.

Ninguém Nada Nunca é uma leitura difícil. Concentra-se num fim de semana, reitera obsessivamente as mesmas informações, alterna narração em primeira e terceira pessoas, e procura amalgamar a realidade social (há a atmosfera muito forte do regime militar) com  a natureza (certos personagens são chamados por nomes de animais, como Gato Garay, seu irmão Pombo e o delegado-torturador Cavalo Leyva, o qual vem a ser assassinado de fato, após sê-lo, digamos, emblematicamente). Juan José Saer dissolve os sentimentos, percepções e relações humanas num processo incessante de descrição dos fenômenos naturais, como raras vezes se viu na literatura, de uma forma mais radical ainda do que Virginia Woolf em obras como As Ondas ou Ao Farol  ou dos autores do noveau Roman francês (penso em Claude Simon).

Numa espécie de constatação fenomenológica do peso de estar no universo, e ser mais uma das “coisas” físicas do reino deste mundo, Saer evoca as investigações primordiais dos pré-socráticos (Heráclito, Parmênides, Zenão) sobre os quatro elementos (fogo, água, terra, ar) e os fenômenos (o movimento, por exemplo), renovando-as através de uma linguagem deslumbrante, como na passagem em que o salva-vidas que trabalha em frente da casa onde se esconde o  baio amarelo lembra das sensações que o tomaram quando procurava bater um recorde de permanência na água: “E, de repente, nesse amanhecer de outubro, seu universo conhecido perdia coesão pulverizando-se, transformando-se num torvelinho de corpúsculos sem forma, e talvez sem fundo, onde já não era tão fácil buscar um ponto que desse pé, como se pode fazer quando se está na água. Sentia menos terror do que estranheza e sobretudo repulsa, de maneira que tentava manter-se o mais rijo possível, para evitar todo o contato com essa substância última e sem significado em que o mundo tinha se convertido (…) o salva-vidas se perguntava com os diabos os como podia avançar nesse meio desconexo, mutante, precário, que flutuava à deriva no vazio”

Se com o romance de Saer o resultado é excelente, apesar das dificuldades que oferece ao leitor, com Impossível Equilíbrio as coisas se complicam. Eu escrevo este artigo sem ter lido os numerosos trabalhos anteriores de Giardianelli, no entanto percebe-se que ele deve ter um estilo e já soube contar uma história, alguma vez (para não falar do inspirado ponto de partida do livro, a importação dos hipopótamos). Ainda assim o livro frustra e decepciona. Após a situação inicial e a apresentação dos personagens principais (feitas pelo narrador, um jornalista-escritor, Cardozo), Impossível Equilíbrio melancolicamente não consegue decolar. Pelo contrário: os seqüestradores embrenham-se nos pântanos, estradas arruinadas e cidadezinhas paupérrimas do Chaco e a narrativa é que afunda.

Banal, excessivamente patética, com personagens sem graça, ela se arrasta m discursos envelhecidos (que muitas vezes são uma tosca transposição para um plano supostamente literário de posturas éticas), como o trecho seguinte, no qual se expõe o ponto de vista de Rafa, um apaixonado por literatura, sobre o seqüestro: “Eles sabem perfeitamente que não têm nenhuma possibilidade de triunfar, que o aparelho repressor do Estado é um máquina de moer carne que inexoravelmente nos alcançará a todos; e que neste país a popularidade de qualquer casa não depende dos desejos e sentimentos das pessoas, mas do que a televisão diz”.

Ou então, mais adiante, no discurso do próprio narrador: “de repente entendi que esse protopovoado que nunca existira, esse projeto que não fora mais do que um sonho despropositado e que demandara tanto dinheiro e tanto esforço inútil, era uma verdadeira metáfora do Chaco. Uma representação trágica dessa terra em que sempre tem alguém promovendo um empreendimento faraônico que acabará em fracasso”.

São posturas éticas pelas quais se tem a maior simpatia, por sua revolta contra a realidade, mas é muito pouco em matéria de literatura, essa entidade tão louvada, porém tão maltratada, ao longo do romance. E é pouco principalmente para criar um clima que sustente o final ousado, em que o casal formado durante a fuga (Vitório, ex-militante contra a ditadura, e a jovem burguesa Clélia) deixa a realidade “desequilibrada” para ingressar na “utopia” da literatura, levados por um cortejo do qual participam Dostoievski, Kafka, Melville, seus personagens e um vasto etc.

Infelizmente, ao contrário de Ninguém Nada Nunca, um dos melhores lançamentos de ficção deste ano, a linguagem nunca é convocada para dar corpo à utopia literária de Giardinelli. O que a torna duplamente insustentável e impossível.

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