MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/04/2011

Kafka para conquistar amigos e influenciar pessoas

Descobri, em meados da década de 80, que os textos curtos de Kafka eram a coisa mais perfeita que existia em prosa[1]. Por isso, ao descobrir também o (foi o que me pareceu naquele momento) precioso Conversas com Kafka, resolvi, a cada noite, antes de dormir, abri-lo em qualquer página e ler o “ensinamento” do dia, como um I-Ching pessoal.

Riobaldo diz em Grande Sertão: Veredas que mocidade é tarefa pra mais tarde se desmentir. Será que é isso o que se verifica agora, quando o livro de Gustav Janouch ressurge nas livrarias?

Em 1920, Janouch era um admirador de A metamorfose, embora Kafka fosse quase desconhecido, e seu pai apresentou-o ao autor, colega seu numa companhia de seguros. O jovem de 17 anos a princípio decepciona-se com aquele indivíduo simples e bem-educado”. Prestando mais atenção, percebe que seu interlocutor tem grandes olhos cinzentos sob espessas sobrancelhas negras. Sua tez é morena e seus traços extremamente móveis. Kafka fala com seu rosto. A partir daí, visitando-o regularmente no escritório, começa a anotar seus colóquios, publicados pela metade em 1951, e depois de forma mais completa no ano de sua morte, 1968, quando o mundo estava cada vez mais interessado por tudo que se referisse ao gênio de Praga.

Nunca se trata de um mero bate papo (aliás, há sempre um clima de formalidade cordial). A não ser que um bate papo pudesse ser como o seguinte:

Kafka- Um carrasco em nossos dias é um honrado funcionário. O espírito pragmático da função pública assegura-lhe um bom tratamento. Por que não haveria um carrasco adormecido em todo funcionário honrado?

JanouchMas os funcionários não matam ninguém!

Kafka- Oh, sim! E Como! Eles pegam seres vivos e capazes de se transformar, e deles fazem matrículas de arquivos, mortos e incapazes da mínima transformação.

Janouch apresenta um memorial emaranhado da sua convivência, sem indicação precisa de datas, e nem sabemos qual o princípio ordenador ou fundamentador de uma possível autenticidade.

E talvez tenha sido o melhor caminho, ditado decerto pela urgência de anotar o que lhe pareceu importante, incisivo, iluminador. E que para mim, em meados dos anos 80, foi importante, incisivo, iluminador. E provavelmente o será para um jovem de 17 anos por aí, descobrindo a paixão pela literatura, supondo-se que ainda os haja.

De vez em quando, Janouch pondera sobre a experiência de conhecer Kafka: Aprendi a ver melhor e a ouvir melhor. Meu universo aprofundou-se e complicou-se, sem ficar mais frio ou longínquo por isso… Não era mais um insignificante filho de funcionário, mas um ser humano lutando para conquistar sua personalidade e a medida do mundo, e medindo com os homens e com Deus. Isso eu o devia ao dr. Kafka.

Isso soa um pouco como Watson falando de Sherlock Holmes. E hoje que eu tenho um conhecimento muito maior tanto da obra kafkiana quanto da sua vida e das análises e interpretações que escreveram sobre ambas (Elias Canetti, Hanns Zischler, Günther Anders, Marthe Robert, Maurice Blanchot, Erich Heller, Danillo Nunes, Ernst Pawell, entre tantos outros), é um pouco difícil me entusiasmar com esse Kafka “como fazer amigos e influenciar pessoas”. Mas há um toque comovente e inegavelmente espontâneo, que se não torna Conversas com Kafka um I-Ching para literatos afoitos pelo menos permite descobrir (ainda que circunspectamente) esse lado tão mais simpático: Minha embriaguez é oferecer. É a embriaguez mais refinada que existe.

 resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de março de 2008


[1] Por essa época Modesto Carone, no Folhetim da Folha de São Paulo, começara a divulgar suas traduções dessa parte da obra kafkiana, com o título maravilhoso de “Contos de fada para dialéticos”. Até hoje me lembro do impacto da leitura de O abutre:

Era um abutre que bicava meus pés. Ele já havia estraçalhado botas e meias e agora bicava os pés propriamente. Toda vez que atacava, voava várias vezes ao meu redor, inquieto, e depois prosseguia o trabalho. Passou por ali um senhor, olhou um pouquinho e perguntou então por que eu tolerava o abutre. “Estou indefeso”, eu disse. “Ele chegou e começou a bicar, naturalmente eu quis enxotá-lo…mas um animal desses tem muita força. Ele também queria saltar no meu rosto, aí preferi sacrificar-lhe os pés”… “Imagine, deixar-se torturar dessa maneira”, disse o senhor. “Um tiro e o abutre está liquidado.” “É mesmo?”, perguntei.”E o senhor pode cuidar disso?” “Com prazer”, disse ele. “Só preciso ir para casa pegar minha espingarda. O senhor esperaria mais uma meia-hora?” “Isso eu não sei”, disse e fiquei em pé um momento, paralisado de dor. Depois falei: “De qualquer modo tente, por favor.” “Muito bem”, disse o senhor. “Vou me apressar.” Durante a conversa o abutre escutou calmamente, deixando o olhar perambular entre mim e aquele senhor. Agora eu via que ele entendera tudo: levantou vôo, fez a curva da volta bem longe para ganhar ímpeto suficiente e depois, como um lançador de dardos, arremessou até o fundo de mim o bico pela minha boca. Ao cair para trás senti, liberto, como ele se afogava sem salvação no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens.

POEMAS: Rilke, Borges, Vicente de Carvalho, Bilac, Seferis, Jorge de Lima, Drummond, Carlos Nejar, Hilda Hilst…

rainermariarilke-1
RAINER MARIA RILKE
Fragmentos  das ELEGIAS DE DUÍNO
O sentir em nós, ai, é o dissipar-se.
Exalamos nosso ser; e de uma a outra ardência
Nos desvanecemos. Alguma vez nos dizem:
Circulas no meu sangue, este quarto, a primavera
Estão cheios de ti. Inutilmente procuram nos reter
Evolamos. E aqueles que são belos, oh, quem os
Deteria? A aparência transita sem descanso em seu rosto
E se dissipa. Tal o orvalho da manhã
E o calor do alimento, o que é nosso
Flutua e desaparece. Ó sorrisos, para onde?
E tu, olhar erguido, fugitiva onda ardente e nova
Do coração? Ai de nós, assim somos.
Estará o mundo impregnado de nós, pois que
Nele nos perdemos? E os Anjos
Retomarão apenas o que deles emanou?
Talvez um pouco de humano se encontre às vezes
Em seus traços, como o vago no rosto das mulheres
grávidas? Eles porém nada percebem
No turbilhão da volta a si mesmos.”

“E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos nem homens.
E o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face—a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apena ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos –talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.”
borges
O outro tigre (Jorge Luis Borges, El Hacedor)

Penso num tigre. A penumbra exalta
A vasta biblioteca laboriosa
E parece afastar suas estantes;
Forte, inocente, ensangüentado e novo,
Ele irá por sua selva e sua manhã
E deixará seu rastro na lodosa
Margem de um rio cujo nome ignora
(Não há em seu mundo nomes nem passado,
E nem porvir, só um instante determinado)
E vencerá as bárbaras distâncias,
Farejará no enleado labirinto
De todos os odores o da aurora
E o olor deleitável do cervo;
Em meio às riscas do bambu decifro
Suas riscas e pressinto a ossatura
Sob a pele esplêndida que vibra.
Debalde interpõem-se os convexos
Mares e desertos do planeta;
E desta morada de um remoto porto
Da América do Sul, te sigo e sonho,
Ó tigre das beiras do Ganges.
Corre a  tarde em minha alma e conjecturo
Que o tigre vocativo do meu verso
É um tigre de símbolos e sombras,
Uma série de tropos literários tropos- lugares comuns
E de reminiscências da enciclopédia,
Não o tigre fata, a aziaga jóia
Que sob o sol ou a cambiante lua,
Vai cumprindo em Sumatra ou em Bengala
Sua rotina de ócio, amor e morte.
A esse tigre dos símbolos opus
O verdadeiro, o de sangue quente,
O que dizima a manada de búfalos
E a três de agosto de 59 (Hoje),
Estende sobre o prado uma pausada
Sombra, mas só o fato de nomeá-lo
E de conjecturar-lhe a circunstância
Da arte o faz ficção e não a criatura
Vivente, dessas que andam pela Terra.
Procuraremos um terceiro tigre.
Este, como os demais, será uma forma
De meu sonho, um sistema de palavras
Humanas, não o tigre vertebrado
Que, para além dessas mitologias,
Percorre a Terra. Bem o sei, mas algo
Me impõe esta aventura indefinida,
Insensata e antiga, e persevero
Pelo tempo da tarde na procura
Do outro tigre, o que não está no verso.

NOITE DE SÃO JOÃO (de Fervor de Buenos Aires)
O poente implacável em esplendores
quebrou a fio de espada as distâncias.
Suave como um salgueiral está a noite.
Vermelhos faíscam
os redemoinhos das grandes fogueiras;
lenha sacrificada
que se dessangra em altas labaredas,
bandeira viva e cega travessura.
A sombra é aprazível como uma lonjura;
hoje as ruas lembram
que foram campo um dia.
Toda a santa noite a solidão rezando
seu rosário de estrelas esparramadas.
(trad. Glauco Mattoso)
180px-Vicente_Carvalho
UMA IMPRESSÃO DE DON JUAN
(Vicente de Carvalho)
Gastei no amor vinte anos –os melhores,
Da minha vida pródiga: esbanjei-os
Sem remorso nem pena, nem galanteios,
Colhendo beijos, desfolhando flores.
Quentes olhares de olhos tentadores,
Suspiros de paixão, arfar de seios,
Conheci-os, buscaram-me, gozei-os…
Li, folha a folha, o livro dos amores.
Quanta lembrança de mulher amada!
Quanta ternura de alma carinhosa!
Sim, tanto amor que me passou na vida!
E nada sei do amor… Não, não sei nada,
E cada rosto de mulher formosa
Dá-me a impressão de folha inda não lida.
OlavoBilac
A VIA LÁCTEA (sétimo soneto)
Olavo Bilac
Não têm faltado bocas de serpentes
(Dessas que amam falar de todo o mundo
E a todo o mundo ferem, maldizentes)
Que digam: Mata o teu amor profundo!
Abafa-o, que teus passos imprudentes
Te vão levando a um pélago sem fundo…
Vais te perder! -E arreganhando os dentes
Movem para o teu lado o olhar imundo:
-Se ela é tão pobre, se não tem beleza
Irás deixar a glória desprezada
E os prazeres perdidos por tão pouco?
Pensa mais no futuro e na riqueza!
-E eu penso que afinal… Não penso nada:
Penso apenas que te amo como um louco!
ANTÍGONA
A terra treme. Rola o trovão. Brilha o espaço.
Chega Édipo a Colono, em andrajos, imundo,
Sombra ansiosa a fugir do próprio horror profundo,
Ruína humana a cair de miséria e cansaço.
Mas, quando o ancião vacila, órfão da luz do mundo,
Antígona lhe estende o coração e o braço,
E, filha e irmã, recolhe ao maternal regaço
O rei sem trono, o pai sem honra, moribundo.
É o ninho (a terra treme…) amparando o carvalho,
A flor sustendo o tronco! Édipo (o espaço brilha…)
Sorri, como um combusto areal bebendo o orvalho.
É o fim (rola o trovão…) da miseranda sorte:
O cego vê, fitando o céu do olhar da filha,
Na cegueira o esplendor, e a redenção na morte.
SEFERIS
Uma palavra sobre o verão
(Giorgios Seferis,  poeta grego, Nobel 1963)
Eis que voltou o outono. O verão
Como um caderno em que cansamos de escrever, lá fica
Cheio de riscos e garatujas,
De pontos de interrogação nas margens. Eis que voltou
A estação dos olhos que miram
Nos espelhos, sob as lâmpadas,
Lábios cerrados, homens estrangeiros
Nos quartos, nas ruas, sob as pimenteiras,
Enquanto os faróis dos carros matam
Milhares de máscaras macilentas.
Eis-nos de volta. Partimos para cada vez voltar
Na solidão, um punhado de terra em nossas mãos vazias.
E não obstante, amei outrora o bulevar Syngros,
A dupla curvatura da grande avenida
Que milagrosamente nos leva para o mar
Eterno a fim de que nos lavemos dos pecados.
Amei homens desconhecidos
Encontrados bruscamente ao cair do dia
Que falavam consigo mesmos como capitães de uma frota afundada,
Sinais de que o mundo é vasto.
E não obstante, amei as ruas daqui e estas colunas
Ainda que nascido na outra margem, junto
Das canas e dos juncos, das ilhas
Cuja areia guarda água para a sede
Do remador: ainda que nascido
Junto do mar que desenrolo e enrolo entre meus dedos,
Quando estou fatigado– não sei mais onde nasci.
Resta ainda a essência amarela, o verão
E tuas mãos roçando medusas na água,
Teus olhos abertos de repente, os primeiros
Olhos do mundo, e as grutas marinhas,
Pés desnudos no solo vermelho.
Resta ainda o efebo louro de pedra,o verão,
Um pouco de sal seco no oco de um rochedo,
Algumas agulhas de pinheiro após a chuva
Ruivas e dispersas como um filete em fiapos.
Não compreendo esses rostos, não os compreendo;
Imitam às vezes a morte e depois iluminam-se de novo
Com uma vida rasteira de vermes luzentes,
Com um esforço repuxado, sem esperança,
Como apertado entre duas rugas
Entre duas mesas de café gordurosas…
(…) Resta ainda o deserto amarelo, o verão,
Vagas de areia em fuga até o último círculo
Um ritmo de tambor lancinante, interminável
Olhos inflamados afundando no sol,
Mãos com ímpetos de pássaros riscando o céu
Saudando filas de mortos em duelos,
Perdidas num ponto que me ultrapassa e me governa,
Tuas mãos que tocam a onda livre.
(trad. Darcy Damasceno)
caricatura de jorge de lima
Anunciação & Encontro de Mira-Celi (quadragésimo poema)
(Jorge de Lima)
Quando sentires tua carne incendiar-se
e a labareda divina altear-se no ar,
desfralda tua bandeira neste tope*,
que logo virão dos quatro pontos cardeais
os conspiradores que precisas;
pois tua língua não pode continuar a que herdaste
nem os teus homens são os que hoje te cercam.
Antes que os tambores ensurdeçam teus ouvidos
e teu passo se cadencie num galope constante,
vê que a dor do mundo deseja redimir-se em teu canto.
É certo que te esmagarão como se esmaga uma asa.
Mas as penas que espalhares no chão
podem voar ao vento
e baixar com sua sombra mínima
sobre qualquer ovo perdido dentro dos ninhos abandonados.
Entre a noite e o mar visitarás de novo
os litorais desertos, e semearás teu pólen.
Hão de cair sobre ele as chuvas que lavam as tempestades,
e se os homens não quiserem ouvir-te,
ressurgirás para as abelhas ou para as solidões
em que Deus ouvirá as palavras do Início.
drummondclaro enigma
Relógio do Rosário (de Claro Enigma)
(Carlos Drummond de Andrade)
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva
pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,
que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.
Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,
a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,
dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,
convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,
prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,
dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,
dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa
tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,
dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,
dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!
Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?
Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?
O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa, e fala  impura.
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta
que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.
Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,
a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário
já cinza se concentra, pós de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.
carlosnejaro chapeu das estações
“o barulho de existir:
um cão dentro
de mim

atravesso
como a um pátio:
o barulho de existir

A CHUVA DO VELHO TESTAMENTO (trechos)
(Carlos Nejar, O chapéu das estações)
“Quis possuir a alma,
possuí-la um instante,
numa respiração
que a conjugasse
em suas potências
e fosse alma
em corpo atravessada.
Quis possuir a alma,
mas de súbito
é uma conspiração
de antigos súditos
que a obriga sucumbir.
E é luz varando luz
de inerte vinco.
Quis possuir a alma,
a rebelião mais pura
de ser Deus
no Deus que me conjura.
Quis possuir a alma
como se um arado empurrasse
na soga deste instante
o corpo amado
para o corpo amante.
Quis possuir a alma
e a vislumbrei inteira
e alheia corpo adentro
como se alguma barca
fosse somente vento”
“Fui condenado ao corpo.
Como isolar a alma,
se está morto?
Como isolar a alma
se ela é corpo
e sabe conluiar os elementos
de sua retração, seu desespero?
Mas o corpo transgride
onde fora trancado.
E é vivo o condenado,
mesmo se a alma já morreu
nos arredores.
Se o corpo não é seu,
a alma estende
a renitência a outras,
entre as formas do céu
e dos planetas.
Eu tive a rebelião
de ser um corpo.
Fui condenado a Deus,
a seu estado mais feroz,
aquele que, de amor,
as coisas tremem
e as vozes não conseguem separar.
Fui elevado ao corpo”
********************
Trecho de A árvore do mundo (do mesmo autor)
“O humano é custo,
empresa que se apresta
no deter
e detendo, cobra,.
E sobrando,
se gasta.
Mais preciso:
a parede do tempo
de estar vivo.
A parede sem nível
do possível.
Salvar? Mas estou salvo,
sou matéria.
Nenhum impedimento de subir,
exceto a condição de ser humano.
Mas esta é de romper.
Um osso, um plasma, uma epiderme,
o susto.
Quanto nos apanha, nos encerra
a popa de uma nau
que é apenas alma.”
hilda furacão hilst
HILDA HILST: Cantares de perda e predileção
“Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças
Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.
Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijos
Pás, a areia dos dias
E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.”
Hilda_Hilst_01
HILDA HILST: ODES MÍNIMAS
“Perderás de mim
Todas as horas
Porque só me tomarás
A uma determinada hora
E talvez venhas
Num instante de vazio
E insipidez
Imagina-te o que perderás
Eu que vivi no vermelho
Porque poeta, e caminhei
A chama dos caminhos
Atravessei o sol
Toquei o muro de dentro
Dos amigos
A boca nos sentimentos
E fui tomada, ferisa
De malassombros, de gozo
Morte, imagina-te.”
 
 
 

14/04/2011

Um decadentista fora da estufa: AS CIDADES E AS SERRAS

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de janeiro de 2001)

Para o leitor, o evento mais interessante do centenário da morte de Eça de Queirós (1845-1900) talvez seja o lançamento conjunto de A Ilustre Casa de Ramires (1900) & A cidade e as serras (1901) pela editora Hedra. Há muito tempo Eça não ganhava uma edição não-didática tão bonita e caprichada no Brasil, uma iniciativa editorial ainda mais pertinente porque também os dois romances também estão tornando-se centenários.

Nos dois, o protagonista é o último membro de uma antiga estirpe fidalga, com uma diferença fundamental: Gonçalo Ramires é um fidalgo arruinado; Jacinto (de A cidade e as serras) é riquíssimo. Mas ambos são decadentes e a narrativa apresenta sua reabilitação moral e patriótica, porque o destino deles espelha as preocupações e expectativas de Eça com relação a Portugal.

E é nesse sentido que ambos são injustamente desprezados por uma parcela da crítica, a qual vê neles a degringolada ideológica do combativo e anti-conformista autor de O crime do padre Amaro & O primo Basílio. Quando se elogia A Ilustre Casa de Ramires, e especialmente A cidade e as serras, é para exaltar o estilo, a qualidade do uso da língua portuguesa. Mas é uma visão muito pobre e insuficiente de duas obras-primas.

Examinemos primeiro A cidade e as serras, publicado depois de A Ilustre Casa de Ramires, mas cujo ponto de partida é Civilização, conto de 1892 (bem próximo, portanto, de Os Maias, de 1888, e muito próximo também de Às avessas—publicado em 1884—de Joris-Karl Huysmans, com o qual tem pontos de contato evidentes).

Em Os Maias denunciava-se o “anseio francês”, a imitação da civilização de Paris pelos portugueses, tanto que o herói, Carlos da Maia, terminava o livro morando em Paris, nada querendo saber da sua pátria. Em Civilização, Jacinto é ultra-sofisticado, um lisboetaparasiense, por assim dizer, e que, no entanto, morre de tédio, até que resolve visitar suas terras no interior e encanta-se com o mundo rural, como nos conta seu melhor amigo (um narrador para lá de mordaz), que dá um salto no tempo, quatro anos, para nos informar que o ex-paladino da civilização pelas serras interioranas permanecer: “Jacinto ainda habita Torges… Não faz a barba. Nos caminhos silvestres, pára e fala com as crianças. Todos os casais da terra o bendizem. Ouço que vai casar com uma forte, sã e bela rapariga de Guiães. Decerto crescerá ali uma tribo, que será grata ao Senhor”.

Em A cidade e as serras é a mesma história, o mesmo Jacinto hiperbolicamente cercado pelos produtos da civilização, e desta vez morando em Paris (nunca botou os pés em Portugal). Seu amigo, José Fernandes, preocupa-se (um pouco maliciosamente, é verdade) com o tédio e a saciedade bocejante que ele ostenta. E novamente são as serras (em vez de Torges, Tormes), a vida rural e bucólica, que resgatarão Jacinto dessa paralisia da vontade e do viver.

Civilização tem 15 páginas, A cidade e as serras tem 200. Por que ler a mesma história ampliada? Também não é romantizar demais o campo colocá-lo como pólo positivo de uma negatividade absoluta com relação a um estágio civilizatório artificial e neurotizante?

O fato é que Eça não apenas “ampliou” ou “esticou” a história de Jacinto. A mudança para Paris permite continuar de onde Os Maias parara, e propor uma reflexão sobre o fim de século europeu e todas as suas manifestações decadentistas. O mundo de Jacinto, do seu “lodoso fastio”, ecoa o mundo superabundante e saciado do Teodoro de O Mandarim, do Dorian Gray de Oscar Wilde, ou do Des Esseintes de Às avessas. Ampliando o conto no romance, o maior autor português taça um esplêndido painel urbano, e quem pensa que neurose de cidade grande ou obsessão por novas tecnologias são coisas dos dias atuais, que leia A cidade e as serras; além disso, a narrativa feita pelo amigo tornou-se mais sutil, menos afrontosamente satírica, enriquecendo com uma afável malícia que não deixa de trazer interessantes ambivalências psicológicas do narrador quanto ao seu herói.

Quanto à romantização da vida rural, é inegável. Felizmente, a narrativa indireta “protege” o texto, se se pode dizer assim, de qualquer kitsch bucólico. O recurso de fazer as desventuras iniciais e venturas posteriores de Jacinto em Tormes chegarem ao leitor pela voz narrativa de José Fernandes permite muitas ironias, matizes diversos, que relativizam bastante os chamados bordões do Arcadismo (o movimento literário do século XVIII, todo baseado no bucolismo) detectados no texto: o fugere urbem, a fuga do mundo falso e artificial da cidade, cheio de apelos debilitadores (segundo José Fernandes, ecoando Balzac, dois desejos insaciáveis movem o espaço urbano: o lucro e o gozo); a áurea mediocritas, a vida equilibrada, sem grandes paixões ou sobressaltos.

Agora pense, leitor: será que esses temas não estão sempre presentes? Ou melhor, eles não estão cada vez mais presentes?

Talvez a solução dada por Eça ao seu protagonista seja fácil demais (como diz José Fernandes, Jacinto tem os quatro elementos à sua disposição: o ar, a água, a terra e o dinheiro), mas ele estava repensando sua nação e o mundo europeu. E o estilo a que chegou é o máximo que se alcançou em língua lusitana.  Tanto que, ao reler A cidade e as serras para este artigo, eu comecei, como sempre faço, a anotar trechos que pudesse utilizar como citações. Depois de ter enchido 12 páginas em papel ofício, desisti. Mesmo assim, só para dar um gostinho da melhor escrita que se pode encontrar na nossa língua, veja-se esse momento em que o narrador mostra, como, na sua patuscada bucólica, Jacinto descobre, espantado, que há miséria nas suas terras, ao visitar a casa de uma camponesa: “…em redor, a natureza e o trabalho tinham, através de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiras cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam deliciosas para uma écloga aquela morada da fome, da doença e da tristeza…”


O engenhoso fidalgo Dom Gonçalo

O MEU EÇA FAVORITO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de janeiro de 2001)

A editora Hedra lançou uma caixa contendo A Ilustre Casa de Ramires (1900) e A cidade e as serras (1901), este último já comentado.

Agora é a vez de Ramires, aproveitando que Eça está na ordem do dia, com a exibição na tevê do filme Amor & Cia (simpática, porém pálida versão de Alves & Cia, um dos textos mais cínicos e cruéis do fantástico escritor português) e a estréia da minissérie Os Maias.

Em A Ilustre Casa de Ramires, Gonçalo Mendes Ramires, o Fidalgo da Torre, é um anti-herói. A expressão nunca foi mais adequada, tendo em vista que ele é o último representante de uma família aristocrática, mais antiga que o reino português, cuja história é repleta de feitos heróicos. Como símbolo da antiguidade e grandeza da estirpe, ergue-se a Torre de Santa Irenéia. À sua sombra vive Gonçalo, com uma modesta renda, sem poder fazer frente à posição de “mais genuíno fidalgo português”.

Sua vida, no buraco rural onde está enterrado, é um tecido de pequenas humilhações, contrariedades, covardias, bravatas e fantasias, em que aparecem alguns rasgos de generosidade e cavalheirismo. É como se concentrasse em si o pior e o melhor de sua raça.

Para aumentar um pouco sua renda, falta à palavra dada a um agricultor que desejara arrendar suas terras (e palavra dada era ponto de honra para os antigos Ramires). Para entrar na política, a “fenda no muro que o separa do futuro”, como deputado pelo seu distrito, ele se deixa subjugar pelo administrador da região, André Cavaleiro, antigo companheiro com o qual esfriara relações por causa de seu comportamento desprezível com a irmã, Gracinha Ramires. Por reatar interesseiramente a amizade com Cavaleiro, Gonçalo acaba amargando uma nova intimidade amorosa entre o administrador e Gracinha, agora casa. E, é como se ele tivesse consentido e aplainado o caminho para o sedutor.

Quando conhece melhor seus eleitores, que acorrem para votar nele maciçamente, devido aos rasgos de generosidade e cavalheirismo, Gonçalo percebe que não precisava ter se sujeitado a conchavos degradantes. Num momento doloroso de tomada de consciência, intui que, se permanecer em Lisboa como deputado, estará condenado ao servilismo e à bajulação para obter e manter cargos e mandatos. Por isso, resolve mudar radicalmente de vida, indo para a África (A Ilustre Casa de Ramires transcorre, como se sabe, numa época ainda colonial). No final, ele é comparado por um amigo à própria nação portuguesa, igualmente uma mistura contraditória de misérias e grandezas, de apego à realidade chã e de espera por milagres.

Paralelamente (e de uma forma que antecipa procedimentos da ficção modernista), o livro mostra Gonçalo empenhado na tarefa de fazer brilhar sua família, através de uma novela que narre os feitos de um antepassado medieval, Tructesindo Ramires. Além de parodiar o estilo dos romances históricos românticos, derivados de Walter Scott, Eça coloca em questão o próprio heroísmo façanhudo desses antepassados de Gonçalo. O “grande feito” de Tructesindo é de uma barbárie atroz: para vingar a morte do filho, ele ordena que coloquem o assassino num lago, localizado num lugar sinistro, para vê-lo sendo chupado por sanguessugas até a morte!

Eça faz confluírem no texto esse clímax da história medieval que Gonçalo está escrevendo e sua subseqüente eleição. Ao terminar sua “obra”, o último Ramires se desilude com esse mundo anacrônico e brutal que procurou evocar, tanto quanto se desgosta com suas mesquinhas maquinações e mazelas para se ver deputado. Esse desgosto duplo sinaliza que tanto ele quanto Portugal devem sair da sombra da torre do passado glorioso e se preocupar com o futuro, com o que está por fazer.

Portanto, o grande satirista, o mais irreverente dos autores, acaba tendendo para o espírito de redenção, mais do que para o da condenação pura e simples que governava obras como O crime do padre Amaro. Talvez se possa dizer que o final de A  Ilustre Casa de Ramires acaba sendo demasiado “arrumadinho”. Antes disso, entretanto, cria um inigualável retrato da vida rural portuguesa, e no Fidalgo da Torre seu personagem mais inesquecível, mais humano e completo, um daqueles personagens que parecem tão reais quanto qualquer um de nós.

OS MAIAS E A TRAGÉDIA DA MEDIOCRIDADE

(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 22 de agosto de 2000)

Uma estirpe ilustre. Uma sina monstruosa que se abate sobre ela: a ironia do destino torna amantes dois irmãos separados na infância. São elementos para tragédia, conforme aprendemos com os gregos. Não é, porém, o que acontece em OS MAIAS, de Eça de Queirós.

Temos efetivamente no livro uma família fidalga e todo o segundo volume gira em torno do incesto praticado pelo casal central, Carlos Eduardo e Maria Eduarda. Quando ambos descobrem seu parentesco não há, entretanto, o elemento trágico: ninguém se enforca, ninguém arranca os próprios olhos,  ninguém enlouquece, ninguém vira ermitão num penhasco inacessível. Todos tratam de tocar a vida para a frente, se possível com o máximo de luxo e conforto. Talvez a grande tragédia mostrada em OS MAIAS seja a tragédia da mediocridade.

Estamos longe do desfecho da história de amor entre os pais de Carlos e Maria Eduarda: a mãe deles abandona Pedro da Maia, o pai, fugindo com um italiano (e levando a filha); ele, após entregar o filho ao pai, Afonso da Maia (que fora contra o casamento), suicida-se.

Mas Pedro da Maia vivia num mundo de romantismo e passadismo, era um sujeito melancólico e mórbido. Carlos, o filho, pelo contrário, é guiado pelo espírito científico e materialista, que também é a bandeira assumida pelo seu melhor amigo, João da Ega. O vocábulo Ega lembra Eça e isso não é acidental, leitor: há muito do autor nesse personagem que é o mais marcante de OS MAIAS, responsável pelas suas frases-chaves.

Eça, aliás, para ser mais exato, parece ter se desdobrado entre Carlos e Ega. Fez algumas transposições biográficas para a figura de Carlos, como o fato de não ter sido criado pelos pais, injetando também algo de obscuro e vergonhoso no casamento dos pais do personagem, de forma a espelhar seu próprio nascimento. E projetou-se em Ega no plano intelectual e filosófico.

Os dois amigos, após estudos e viagens, fixam-se em Lisboa, onde a casa em que vão residir Carlos e o avô, o Ramalhete, torna-se ponto de encontro diário de um grupo exclusivamente masculino, o qual dá margem ao incomparável tanto caricatural de Eça de Queirós.

Carlos e Ega compartilham um mesmo defeito: com todo o seu esclarecimento e sua visão crítico-cínica do país onde vivem, eles não passam de diletantes, acomodados na sua confortável posição de rapazes endinheirados, ociosos, cujo maior passatempo é o adultério. Ega envolve-se com a esposa de um judeu, Raquel Cohen; Carlos, com a Marquesa de Gouvarinhos, casada com um importante político. Essas diversões à primo Basílio ocupam a maior parte do primeiro volume. Mais tarde, ele se interessará por Maria Eduarda, supostamente esposa do brasileiro Castro Gomes. Ela é alvo, também, das atenções de um dos mais admiráveis personagens de OS MAIAS: o repelente Dámaso Salcede, obcecado pelo que é chique e uma verdadeira personificação da mediocridade imperante.

Carlos até que tem planos grandiosos: formado médico, abre um consultório luxuoso. Só que, como não há praticamente clientela, ele passa os dias dormindo ou matando o tempo de alguma forma. É o seu status de médico, contudo, que o aproxima de Maria Eduarda, pois ela o chama para tratar da preceptora da filha, durante uma prolongada ausência do suposto marido.

O caso de amor entre os dois desdobrar-se-á em duas revelações tempestuosas: primeiro, Maria Eduarda não é casada com Castro Gomes, sendo apenas sua manteúda; segundo, a descoberta do incesto. Que, enfim, serve como alavanca para que ele abandone Portugal e passe a residir em Paris, concretizando o anseio francês que toma conta de quase todos os personagens do romance.

O único realmente afetado de forma trágica pelo aspecto de maldição que reveste o encontro dos irmãos, talvez por ser um glorioso representante do passado, é o avô (que parece ser o único personagem poupado pela corrosiva ironia do autor): “…afastou-se, todo dobrado sobre a bengala, vencido enfim por aquele implacável destino que depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho, o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto…”.

Muitos reclamam que não acontece praticamente nada em OS MAIAS, especialmente no primeiro volume. Quem sobreviver a ele constará que pouquíssimos romances conseguiram retratar de maneira tão poderosa um determinado tipo de sociedade. E com tal genialidade literária, de um modo tão natural e coeso, que é impossível saber o que é mais impressionante, se o ato narrativo, se o ato descritivo (e pouquíssimos romances fizeram uso tão majestoso e orgânico da descrição), se os diálogos incríveis.

Como já afirmei, a propósito de O mandarim,  muitos dos livros de Eça foram releituras de outros livros. OS MAIAS recria no contexto português A educação sentimental (1869), de Flaubert. Seria muita impertinência e ousadia dizer que a releitura supera o original? Concordando-se ou não, seria bom que a publicidade em torno da data centenária motivasse um conhecimento mais amplo da maior obra de ficção da literatura portuguesa, pois embora OS MAIAS seja a obra-prima de Eça de Queirós sempre perdeu longe em popularidade para O crime do padre Amaro e para O primo Basílio e, nos últimos anos, para A cidade e as serras e A Ilustre Casa de Ramires (que estão em alta), e até mesmo para A relíquia (o qual nunca teve um consenso por parte dos críticos). Por isso, é ótimo que finalmente apareça uma edição brasileira acessível, como a da Ática, de um livro que é, em última análise, bem pouco conhecido.

Só assim o leitor poderá verificar por si mesmo se é justo o mortífero diagnóstico que ali se faz do homo lusitanus: “indivíduo inferior que se governa pelo sentimento e não pela razão”.

nota de 2011– Não sou fã do novelão pseudoviscontiano que Luis Fernando Carvalho extraiu de Os Maias (com contribuições de A relíquia). Faltou a viga principal da construção: o olhar sarcástico de Eça. Como sempre, Carvalho se leva a sério demais. Está para Eça como Franco Zefirelli para Visconti.

12/04/2011

O LIVRO DE CABECEIRA DE DORIAN GRAY

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de abril de 2011)

“Sempre tentei viver numa torre de marfim, mas uma maré de merda arrebenta os muros, quer derrubá-los…”

(Gustave Flaubert, 1872)

“Nossos mais ardentes momentos de êxtase são meras sombras daquilo que algures sentimos ou daquilo que desejamos um dia sentir. Ao menos assim me parece. E, o que é bastante estranho, o que disso resulta é somente uma curiosa mistura de ardor e de indiferença. Eu mesmo sacrificaria tudo por uma experiência nova, mas sei que não existe em absoluto algo assim como uma experiência nova…”

(Oscar Wilde, 1886)

Em O Retrato de Dorian Gray (1891), o protagonista ficava abalado por um livro venenoso”, que parecia a ele “conter a história de sua própria vida, escrita antes de ele a viver”. Era uma referência velada a uma obra-prima que existe de fato: Às avessas [“À rebours”], de Joris-Karl Huysmans (1848-1907), cuja magnífica tradução (de José Paulo Paes) foi incluída na coleção de clássicos da Penguin-Companhia das Letras[1]. Oscar Wilde estava em Paris— em lua-de-mel, aos 29 anos—, no momento em que o romance era lançado (em 1884), tendo sido colhido diretamente pelo seu impacto.

De minha parte, só vim tomar conhecimento menos genérico do romance de Huysmans, em 1995, num curso que o próprio José Paulo Paes ministrou na pós-graduação (embora  como professor não fosse nem de longe tão vivaz e interessante como era como escritor multifacetado: ensaísta, poeta, tradutor), em que ele comparava duplas de romances, entre elas a dupla Às avessas e Mocidade Morta, de Gonzaga Duque.[2]

O herói de Às avessas, Des Esseintes, último e lânguido representante de uma estirpe aristocrática, por sofrer do “mal do século”, o spleen, o tédio, a saciedade absoluta—além de um refinamento estético que o faz desprezar a cultura burguesa, a mediocridade mercantilista da sua época—,personifica uma tendência chamada decadentismo[3], na qual—na contramão dos ideais de progresso, fraternidade e igualdade (“Seu desprezo pela humanidade aumentou; compreendeu enfim que o mundo se compõe, na maior parte, de sacripantas e imbecis… A essa altura, já sonhava com uma refinada tebaida, num deserto confortável, com uma arcada imóvel e tépida onde ele se refugiaria, longe do incessante dilúvio da parvoíce humana”)—procura-se uma Torre de Marfim para cultivar a própria sensibilidade.

Atacado pela nevrose (o nome pré-psicanalítico da neurose), não suportando mais viver entre seus semelhantes, Des Esseintes se isola numa casa modelada conforme seus princípios peculiares, com dois criados, nos arredores de Paris. Uma parte da decoração lembra um navio, dando a ele a impressão de estar viajando: “Ele obtinha assim, sem sair de casa, as sensações rápidas, quase instantâneas, de uma viagem de longo curso”. Para esse excêntrico, “a imaginação podia facilmente substituir-se à realidade vulgar dos fatos”. Pois “o artifício parecia outrossim a Des Esseintes a marca distintiva do gênio humano. Como ele costumava dizer, a natureza já teve a sua vez”.

O fascinante em Às avessas é que nada acontece no romance. Até o final, em que a evasão de Des Esseintes é colocada em xeque pelo seu médico, a única peripécia é um divertidíssimo episódio de “viagem” à Inglaterra, após a leitura de Dickens: ele prepara as malas, sai de casa, vai a Paris, sob bátegas de chuva (“ruído monótono de sacos de ervilha despejados acima de sua cabeça pelo aguaceiro que se derramava sobre as malas  e a cobertura do fiacre”), refugia-se num restaurante inglês, come e bebe à larga, mais do que o seu costume (“Sentia um peso no estômago e uma moleza pelo corpo todo”) e desiste de prosseguir, já tendo experimentado os “ares de além do canal da Mancha”. Para que prosseguir? : “…uma imensa aversão pela viagem, uma imperiosa necessidade de ficar tranqüilo se lhe impunham com uma firmeza cada vez mais acentuada, cada vez mais tenaz (…) Em suma, experimentei e vi o que queria experimentar e ver. Estou saturado de vida inglesa desde a minha partida (…) regressou, com suas malas, seus pacotes, suas valises, seus estojos, seus guarda-chuvas e suas bengalas, a Fontenay, sentindo o esfalfamento físico e a fadiga moral de um homem que retorna ao próprio lar ao cabo de uma longa e perigosa viagem…”


No mais, ficamos conhecendo as idéias e experiências (narradas com uma volúpia inventariante e enumerativa que faz desse romance uma espécie de As palavras e as coisas fin-de-siècle XIX) desse quixotesco herói nos campos da literatura, bibliofilia, mobiliário, decoração, moda, jóias e pedrarias, pintura, floricultura, licores, perfumaria.

Egresso do Naturalismo (o movimento literário que então dominava o romance), ex-discípulo de Zola, pode-se ter a impressão de que Huysmans rompeu com a feição naturalista e se bandeou para os lados do Simbolismo-Parnasianismo, ao criar essa existência emparedada no esteticismo e no elitismo, esse ser de exceção. No entanto, me parece que ele mais dá ênfase ao absurdo dessa existência e a parodia do que lhe ratifica os princípios (como pensou equivocadamente o Dorian Gray de Wilde, que se deixou “contaminar” pelo livro). Patrick McGuiness evoca a dupla flaubertiana Bouvard e Pécuchet em sua introdução ao texto de Huysmans, porém eu reivindico a precedência, já que o meu exemplar da edição de 1987—todo anotado na leitura de 1995—ostenta na pág.132 a seguinte observação na margem: “é quase um lado Bouvard e Pécuchet: tudo malogra”; eu me referia às experiências botânicas de Des Esseintes as quais acabavam por agravar sua nevrose (e todos devem lembrar dos absurdos experimentos da tola dupla flaubertiana0, tirados da leitura de milhares de livros): “Seu tédio passou a não conhecer limites; fora-se a alegria de possuir mirabolantes florações; já estava farto de sua contextura e de seus matizes;pois, malgrado os cuidados de que as cercou, a maior parte das plantas pereceu…” Outro exemplo: ele manda cravejar de pedrarias preciosas a carapaça de uma tartaruga para que ela combine com suas tapeçarias (é obcecado por nuances, matizes e combinação de cores em seus ambientes). O encarregado do serviço entrega o pobre animal, causando espanto nos criados; após um episódio rememorativo, Des Esseintes “inquieta-se com a tartaruga”: “Ela não se movia mais; apalpou-a; estava morta. Habituada sem dúvida a uma existência sedentária, a uma vida humilde passada sob a sua pobre carapaça, não conseguira suportar o luxo deslumbrante que lhe impunham, a chapa rutilante de que a haviam revestido, as pedrarias que lhe tinham engastado nas costas, como um cibório…”


Ademais, de ponta a ponta do romance, avulta o fisiologismo, numa presença saturante que nada fica a dever aos romances naturalistas mais ortodoxos. Do peso da hereditariedade (a deterioração da estirpe dos Des Esseintes) a dores de dente e lavagens estomacais, passando por estados patológicos e interesses “anormais” (algumas predileções sexuais de Des Esseintes), sem contar a presença da autoridade médica, todo o aparato do Naturalismo se faz onipresente em contracanto à sua linguagem parnasiana, com seu gosto descritivo e vocabulário preciosista. Nesse sentido, além do pendor inventariante ao qual já aludi, Às avessas é uma espécie de livro-síntese, fazendo valer a vocação enciclopédica do romance, que seria uma característica do Alto Modernismo.

Por falar em fisiologismo, há um lado assustador e odioso em Des Esseintes: podia-se imaginar que esse esteta, no seu isolamento, cultivasse apenas o suprassumo da civilização. Não, ele tem um gosto específico pela perversidade, pelos artistas que trabalham com o sofrimento humano, a tortura, a brutalização e a destruição do corpo, com massacres e suplícios, “corpos crestados sobre os braseiros, crânios com a calota decepada por sabres, trepanados por pregos, entalhados com serras, intestinos arrancados do ventre e enrolados em bobinas, unhas lentamente extraída com tenazes, pupilas vazadas, pálpebras reviradas com aguilhões, membros desconjuntados, quebrados com cuidado, os ossos postos a descoberto, demoradamente raspados a faca”. Foi dessas mentes sensíveis, desses eleitos, que surgiram as lideranças do totalitarismo que semeará o terror décadas depois.  Nessas estufas é que foi cultivada a flor dos nazismos  vindouros.[4]

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/04/08/o-retrato-desfigurado/

https://armonte.wordpress.com/2011/03/30/mr-hyde-emoldurado/

https://armonte.wordpress.com/2011/04/14/um-decadentista-fora-da-estufa-as-cidades-e-as-serras/


NOTAS

[1] A Companhia das Letras publicara a tradução de Paes em 1987, um dos primeiros títulos de seu catálogo. A edição atual, com introdução e notas de Patrick McGuiness, teve Donaldson M. Garschagen como tradutor do material inédito.

A capa traz a reprodução de um óleo de  Frantisek Kupka, Le yellow scale, de 1907, que traz uma lãnguida figura masculina que lembra sobremaneira Lúcio Cardoso, autor de Crônica da casa assassinada.

[2] Esse romance de 1900 é, no mínimo, uma curiosidade. Seus personagens são um grupo de artistas e intelectuais, cujas aventuras—ou antes desventuras—são narradas num estilo divertidamente pomposo e meio ridículo. Para narrar que um deles broxou, eis que “nascia-lhe, deste íntimo entendimento, uma rijeza de ânimo para suportar as desventuras que a sua hiperestesia aumentava com a nitidez e a grandeza das pesquisas microscópicas, dentre as quais ressaltava este percebido insucesso para o requesto, esta falha de masculinidade para o gozo comum da mulher… que ele, agora, desprezava, insexualizando-se numa elevada espiritualização de desprendimento da carne, até a suposição alucinante da hipocrisia abjeta do próprio amor, na sua mais imperiosa mutualidade de tendências gestativas, sublimizadas pela estesia poetizante de cada ser. A digressão reminiscente, penosa e demorada que fizera pelo passado, excitou a complicada filigrana do seu aparelho nervoso, predispondo-o a trabalhar nas suas frases atormentadas de incontentável, consubstanciando-se a irregularidade heteresial na contextura sintética de páginas originais, com a fina penetração das autopsicologias…”

O final do livro também serve como exemplo delicioso: “O plenilúnio, alma do esoterismo, transformada em astro, estranhamento belo como uma esfíngica e régia coroa de fantástica ninféia luminosa, levada pelo bafejo sussurrante da loucura sobre a quietação morta de uma lagoa infinita, ia flutuando, boiando, deslizando, serena e indiferentemente, banhada em seu halo de pérolas lucifeitas, a aveludar as ilusões dos que põem os olhos nos céus, a esmaecer nos sonhos as almas meigas dos que lhe vão na esteira macia de sua luz nostálgica, a esvair na sucessão de enganos os que a seguem, pela Terra, fascinados… fascinados… fascinados… Para onde?”


É preciso dizer que o universo de Huysmans pode ser enfadonho, exasperante e até antipático, mas está longe de ser cômico assim. No entanto, Des Esseintes—seu protagonista—também sofre de impotência. Quando ela se manifesta, após anos de desregramentos e deboches, ele oferece, “para celebrar o mais fútil dos infortúnios”, um “retumbante jantar”, um banquete de luto no estilo século XVIII:

“Na sala de jantar forrada de preto, aberta para o jardim de sua casa subitamente transformado, com as aléias cobertas de carvão em pós, o tanquezinho debruado agora de um parapeito de basalto e cheio de tinta, os maciços providos de ciprestes e pinheiros, servira-se o jantar sobre uma toalha negra, guarnecida de violetas e escabiosas, iluminada por candelabros onde queimavam chamas verdes e castiçais onde ardiam velas. Enquanto uma orquestra dissimulada tocava marchas fúnebres, os convivas haviam sido servidos por negras nuas, de chinelas e meias de tecido de prata pontilhadas de lágrimas…”


Além da impotência, há o fantasma da sífilis, moléstia que pode ter acometido Des Esseintes que tem um pesadelo apocalíptico com ela (“a mirada terrível da sífilis que sentia pesar sobre si”), contudo mesmo antes do episódio onírico, ele tem uma visão da humanidade “trabalhada sem cessar pelo vírus das épocas antigas. Desde o começo do mundo, de pai para filho, todas as criaturas transmitiam umas às outras a imperecível herança, a eterna doença que devastou os antepassados dos homens”. A conclusão do herói de Huysmans: “Tudo não passa de sífilis”.

Segundo Richard Ellmann, Oscar Wilde  (1854-1900) também contraiu sífilis. No seu estilo expressivo, o grande biógrafo nos diz que “talvez nesse momento tenha começado a se formar em sua mente a parábola da decadência secreta de Dorian Gray, enquanto a espiroqueta começava a subir pela espinha dorsal em direção às meninges…”

[3] A dica aqui é Caminhos do Decadentismo Francês, de Fúlvia L. Moretto, que nos fornece um panorama completo desse Zeitgeist.

Nas duas últimas décadas do século XIX, sem que se prefigurasse um movimento específico, reconhecível facilmente, difundiu-se um esteticismo que configurava uma “mentalidade decadentista. Ela herdou um tanto do spleen ultra-romântico, um tanto do misticismo de Swendenborg, um tanto do pessimismo de Schopenhauer, um tanto da música de Wagner, um tanto do imaginário de Poe. Mesclou-se com o nascente Simbolismo, enquanto também encantava os parnasianos e nem o “realista” Flaubert deixou de sentir o seu influxo.

Há, em certa parte da elite intelectual, um sentimento de vazio, a sensação de que algo morre e que se está em uma civilização em declínio, um mundo em decomposição. Enquanto o povão e a outra “elite” (classes abastadas) vivem a euforia e o otimismo em função da ideologia positivista, os decadentes procuram se evadir dessa grande farsa burguesa e utilitarista.

Um dos fenômenos mais interessantes do decadentismo é o fato de que seus adeptos desdenhavam a prosa de ficção, no sentido de construção de intrigas, de pormenores realistas. Muito mais cultuada, e considerada mais rara, era a prosa poética, mais evanescente, menos tangível enquanto mimesis da realidade. Por isso, o decadentismo não produziu muitos romances, por razões óbvias. Duas exceções notáveis: o próprio Dorian Gray (em Oscar Wilde, o decadentismo se traduziu como esteticismo, sobre o qual ele discorreu em inúmeras conferências pelo Reino Unido e por todos os EUA), e, claro, Às avessas, o grande, autêntico e genuíno romance decadentista. Ao discorrer sobre suas preferências literárias, Des Esseintes faz a apologia do “poema em prosa”: “De todas as formas de literatura, a do poema em prosa era a preferida de Des Esseintes. Manejada por um alquimista de gênio, ela devia, a seu ver, encerrar em um pequeno volume o poder do romance de que suprimia as longas análises e as superfetações descritivas. Muito freqüentemente, Des Esseintes meditara sobre esse inquietante problema: escrever um romance concentrado em algumas frases que contivessem o suco coado das centenas de páginas sempre preocupadas em estabelecer o ambiente, em desenhar os caracteres, em acumular exageradamente as observações e os pequenos fatos…”


Um aspecto que me interessa particularmente em todas as considerações de Des Esseintes a respeito dos (poucos) autores contemporâneos que ele admira, é que os admiráveis apresentam um “estilo novo”, “o verbo indispensável às civilizações decrépitas que para expressar suas necessidades exigem, não importa em que época se produzam, acepções, estruturas, construções novas, tanto nas frases quanto nas palavras…” Uma equação insólita, não?, se insinua nessas reflexões: civilização decrépita + estilo novo.

Outra dica, além do livro de Fúlvia L. Moretto, é o ensaio “Os usos da decadência: Wilde, Yeats, Joyce” no qual Richard Ellmann fala bastante de Às avessas. Ele pode ser encontrado em ao longo do rio corrente (a edição brasileira que eu tenho é de 1991, não sei se foi reeditada pela Companhia das Letras–a tradução é de Denise Bottmann, o que é uma garantia de rigor e qualidade).

[4] E sabe-se como o catolicismo em sua feição mais reacionária, o antissemitismo arraigado e o chauvinismo francês tem parentesco de primeiro grau com o nacional-socialismo. É preciso lembrar também que, antes de isolar-se, um dos experimentos de Des Esseintes é a tentativa de criar um assassino: ele pega um rapazote Zé-ninguém, sem vintém, leva-o a um bordel chique, oferece-lhe todos os prazeres e combina com a dona que ele terá acesso de quinze em quinze em dias durante três meses: “…ao cabo de três meses, suspendo a pequena renda que te vou entregar adiantadamente para cumprimento dessa boa ação, e então ele irá  roubar a fim de poder voltar aqui; lançará meio de todos os meios para revolver-se nesse divã à luz desse gás!”. Pode-se argumentar que tal  episódio é pueril e inconseqüente. Eu acho que não. Não quero dizer que Huysmans seja um Des Esseintes, mas este prefigura um tipo que facilmente aderirá ao nazismo e/ou será colaboracionista.

“O que não tem governo nem nunca terá…” (ELIZABETH primeira)

VER TAMBÉM NO BLOG:  

https://armonte.wordpress.com/2012/04/23/uma-toca-de-coelho-para-o-pais-das-maravilhas-freudianas/

“Catarina de Siena (1347-80) afirmou um dia não ter comido nada tão delicioso quanto o pus dos seios de uma cancerosa.”

O que o desiderato extremado de auto-mortificação de uma mística (canonizada pelo Vaticano), mesmo que nos pareça grotesco, poderia ter em comum com o genocídio sistemático praticado em Auschwitz pelos nazistas?

É o que se propõe a desvendar A parte obscura de nós mesmos, boa síntese que a veterana Elisabeth Roudinesco propõe a respeito da metamorfose do conceito de perversão desde a era medieval, circulando pelo biográfico, pelo filosófico, pelo literário (uma de suas grandes virtudes), pelo psicanalítico, pelo historiográfico, com grande desenvoltura e clareza, de forma a ser ao mesmo tempo contundente e didático (Roudinesco deve ser uma grande professora). Porém, algumas passagens (principalmente as biográficas) parecem muito claramente de segunda (ou pior ainda, de terceira) mão, transcritas sem maior preocupação de reelaboração, e há repetições indefensáveis de frases e formulações em vários trechos. O que está havendo com a velha e boa revisão de textos?

Ainda assim, A parte obscura de nós mesmos vale a pena porque organiza conhecimentos dispersos em disciplinas diversas, ao abordar as vidas não-exemplares de emblemáticos perversos. Começa com o conceito da prática pervertida como uma transgressão da Lei Divina (a figura catalisadora é Gilles de Rais, o monstruoso protetor de Joana D´Arc) e todas as experiências de supressão da tentação carnal (e o gozo proporcionado por tais experiências, que levaram a novas práticas perversas…), o que permite a indagação: por que esse apetite pelo Mal, que percorre a humanidade (aliás, onde se localiza o Mal: na prática perversa ou na sua repressão pura e simples, sem uma tentativa de aprofundar as raízes da perversão?); depois, nos estertores do absolutismo e início da nossa era iluminista e laica, a organização pervertida e subversiva do universo realizada pela obra do Marquês de Sade e as tentativas de suprimir sua circulação e impacto. O século 19 se encarregará de propor uma catalogação racional e com fins higiênicos de todas os comportamentos desviantes e assim começará a era totalitária da normalidade burguesa, amparada pelos princípios científicos positivistas, que será ameaçada pelo Darth Vader do Iluminismo otimista: Com Freud, a patologia esclarece a norma, e não o contrário. É precisamente a ênfase colocada no mandamento Não Matarás que nos dá a certeza de que descendemos de uma linhagem infinitamente longa de assassinos que tinham no sangue o prazer do assassinato, como talvez nós ainda.”

    Freud fornece a ponte para o século 20 e o resultado da catalogação e da higienização perseguidas pela “norma” autoritária: o genocídio. E sempre a sombra do Mal, antes teológico, agora patológico, presente. E a nossa dificuldade em separá-lo exata e coesamente de um suposto Bem. E no nosso preocupante século 21, a redefinição do que é perverso acarreta novos perigos à liberdade individual e ao esclarecimento da humanidade sobre si própria. Ou seja, esse terreno continua minado. Ainda bem.

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 21 de junho de 2008)

08/04/2011

O RETRATO DESFIGURADO

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de abril de 2011)

“A alma nasce velha, mas rejuvenesce. Esta é a comédia da vida. O corpo nasce jovem e envelhece. Esta é a tragédia da vida.”

Pela capa, a recente edição da Landmark para O retrato de Dorian Gray parece querer atrair os jovens que se deleitaram com a saga Crepúsculo, essa renovação adolescente das histórias de maldição eterna (mas também de uma mocidade que perdura indefinidamente), com vampiros lânguidos, capitaneada pela tribo dos “emos”[1], assim como a versão cinematográfica de Oliver Parker (e também se deve levar em conta a “zona de conforto” de adaptações de clássicos, típica do cinema inglês).

No entanto, o que distinguiria mesmo essa nova tradução, feita por Marcella Furtado, de um dos romances mais populares do século XIX é que, ao contrário das diversas já feitas por aqui (das quais a mais célebre é a do “wildeano”  João do Rio), aproveitou-se não o texto em livro de 1891, mas o original publicado um ano antes em revista, a Lippincott´s Monthly Magazine [2]: trata-se de uma versão mais crua, pois ao rever sua criação, Oscar Wilde (então no auge da popularidade, à qual se seguirá a desonra e a prisão) acrescentou sete capítulos, passando de 13 para 20, introduziu personagens e sub-tramas (a jovem atriz destruída pela crueldade de Dorian e levada ao suicídio, Sybil Vane, ganhou uma mãe e um irmão que busca vingança, e enfatizou-se mais a vida mundana do protagonista e do seu “Mefistófeles”, isto é, daquele que o faz cair na tentação de querer prolongar sua aparência jovem, fazendo um pacto sabe-se lá com quais potências, Lord Henry—no filme interpretado pelo ganhador do Oscar deste ano, Colin Firth—, com cenas que parecem tiradas do notável teatro de Wilde), além de atenuar um pouco o homoerotismo, embora —a meu ver— só alguém muito ingênuo não consiga percebê-lo. O fato é que, nessa versão original, Basil Hallward (o pintor do quadro que envelhece e denuncia a deterioração moral do sempre jovem Dorian) declara inequivocamente sua paixão pelo seu modelo. Além disso, fica implícito porque alguns cavalheiros recusam-se a cumprimentar Dorian ou têm reações violentas ao ser mencionado o seu nome, após ele ganhar uma “reputação”.

Na versão mais comprida, Wilde enriqueceu a ação e a textura das experiências de Dorian, ao seguir o credo (mas apresentando-o de forma moralista e crítica) de um de seus ídolos intelectuais, Walter Pater, de que devemos cultivar ao máximo cada momento[3]. Na versão da revista, tudo se torna mais essencial e a fábula vai direto na jugular.

Portanto, seria um tento da Landmark (uma editora que no saldo geral deixa a desejar, mas publicou ótimas traduções de A volta do parafuso e da Divina Comédia) se a editora não sabotasse o próprio projeto com a certamente pior tradução que o texto já recebeu por aqui, e cujas medonhas e bizarras soluções são pioradas pelos incontáveis erros de revisão.

Há de tudo: trechos errados (“Indeed, I should be sorry to look like him” vira “Na verdade, eu deveria lamentar por não me parecer com ele”[4]); escolhas assustadoras (“To realize one´s nature perfectly—that is what each of us is here for” vira “Entender a natureza de alguém perfeitamente—eis o porquê de estarmos aqui”[5]), tempos verbais absurdos no contexto (“That is the reason, I suppose, that you will never dine with me now” vira “Esta é a razão, suponho, pela qual você nunca jantará comigo), trechos truncados e quase  incompreensíveis pela falta de um referente gramatical (“They neither bring ruin upon others no rever receive it from alien hands” vira Nunca arruínam os outros nem a recebem de mãos alheias”—esse “a” é referente a quê?); erros de sintaxe e concordância (“Ele não deveria ser permitido saber”; “Há poucos de nós quem, às vezes, não acordamos antes da aurora”;”Nos místicos ofícios às quais  estes objetos eram usados”; “O retrato ainda estava lá. E se ela fosse roubada?” e por aí vai); e até erros de informação nas notas (o Manon Lescaut a que ele se refere não é a ópera de Puccini, que estreou anos depois de Dorian Gray ser publicado, e sim o fabuloso romance do Abade Prévost, de 1731).

Enfim, perdeu-se uma ótima oportunidade de introduzir leitores neófitos  no universo do grande escritor irlandês e na excelência do seu estilo, atraindo-os para a alta literatura, para além de Stephenie Meyer. É um retrato de Dorian Gray desfigurado e hediondo. E as vítimas somos nós.

VER TAMBÉM

https://armonte.wordpress.com/2011/03/30/mr-hyde-emoldurado/

https://armonte.wordpress.com/2011/04/12/o-livro-de-cabeceira-de-dorian-gray/

dorian_gray_CAPAat.pdf


NOTAS

[1] O mesmo tipo de apelo acontece também com as últimas edições de O morro dos ventos uivantes.

[2] Há um problema aqui: na sua extraordinária biografia de Oscar Wilde (publicada no Brasil pela Companhia das Letras em 1988, um ano após a morte do autor), Richard Ellmann  nos conta que na primeira versão (a da revista), o capítulo X começava assim: “Era 7 de outubro, véspera do seu trigésimo segundo aniversário”, e na versão em livro, por sua vez (e já não como capítulo X) começava assim: “Era 9 de novembro, véspera de seu trigésimo oitavo aniversário”. Na tradução de Marcella Furtado lemos: “Era 7 de novembro, a véspera de seu trigésimo segundo aniversário”. De onde apareceu essa data, já que é improvável que Ellmann tenha errado?

Diga-se de passagem, era pouco crível que Ellmann escrevesse outra obra-prima biográfica, como a que fez de James Joyce (1959; publicada no Brasil pela Ed.Globo), que, a seu modo, é páreo para Ulisses , uma coisa avassaladora, que nos leva para junto dos “trabalhos e dias” de Joyce como se o conhecêssemos intimamente. Para mim, é a maior biografia já escrita, e um espelho apaixonante para a leitura dos livros de Joyce. E o danado do homem ainda repetiu o feito! Ellmann não se limita a nos dar fatos e fatos da vida do autor de Dorian Gray. Ele, por exemplo, analisa as imagens que aparecem nos seus (medíocres) poemas da juventude, mostrando o peso da influência dos gregos nos seus versos. Isso sim é o que se deve fazer na biografia de um autor, e não nos informar o que ele fazia no dia 3 de maio de 1887.

Graças a ele, temos uma quase-antologia da produção do autor de Salomé, um Portable Wilde.

[3] Ele coloca na boca de Lord Henry palavras do próprio Pater:  Henry instiga Dorian a buscar “não o fruto da experiência, mas a própria experiência”. É fascinante ver como muito do livro permanece atual, ou ficou mais atual ainda: essa confusão entre viver o momento e experimentar de “tudo” com manter a juventude, no sentido de aparência física e não de jovialidade e disposição. Nossa sociedade adolescentizada e cada vez mais recauchutada, botoxzada mostra como a fábula de Dorian mantém-se em voga.

[4] Ou ainda: “You never say a moral thing, and you never do a wrong thing…”

“Você nunca diz nada sobre a moral e nunca faz nada de errado…”

[5] “It is better not to be different from one´s fellow…” ficou espantosamente assim em português: “È melhor não ser diferente dos amigos de alguém…” Mas acho que a pior de todas as utilizações desse obsessivo “de alguém” é a da passagem seguinte, uma das mais famosas do livro:

“One´s own soul, and the passions of one´s friends,—those were the fascinating things in life…”

“A própria alma de alguém e a paixão dos amigos de alguém—estas eram as coisas fascinantes na vida…”

O termo “yet” é invariavelmente traduzido como “ainda”, independentemente de ficar absurdo em vários trechos: “That such a change should have taken place was incredible to him. And yet it was a fact”: “Que tal mudança tenha ocorrido lhe era inacreditável. E, ainda, era um fato”. Acho que ela nunca ouviu falar das expressões “ainda assim” “mesmo assim” “apesar disso”.

E os trechos horrorosos do tipo: “Could it be that what that soul thought, they realized?—that what at dreamed, they made true?”: “Poderia ser o quê (sic)aquela alma pensasse, eles realizavam? Que o que fosse sonhado, eles faziam acontecer?”

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