MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/04/2011

garotos saudáveis; mulheres moribundas e um “manual de disponibilidade”…


“Nunca me bastou ter sido feliz. Não acredito nas coisas mortas e confundo não ser mais com nunca ter sido”; “Toda alegria nos espera sempre, mas quer sempre o leito vazio, ser a única, e que cheguemos a ela como um viúvo”.

O leitor de hoje pode não acreditar, contudo trechos como esses tiveram enorme impacto e influência na França (e no mundo sob sua influência) no século XX, inclusive em autores do calibre de Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Simone de Beauvoir. O livro ao qual pertencem, O IMORALISTA, completa em 2002 seu centenário, e foi uma das duas obras (a outra é Os frutos da terra. 1897) de André Gide (1869-1951) que serviram para várias gerações como uma espécie de manual de disponibilidade e fervor pela vida, de se deixar arrastar pelas circunstâncias como antídoto às convenções sufocantes. Literariamente, Gide tem coisa melhor para oferecer: A sinfonia pastoral, o delicioso e inquietante Os subterrâneos do Vaticano, sua obra-prima Os falsos moedeiros, sua autobiografia Se o grão não morre.

Os frutos da terra era um poema em prosa, ao gosto do pós-Simbolismo. O IMORALISTA instaurou uma fórmula que se tornou marca registrada da literatura francesa: o relato-exame de consciência, em primeira pessoa, sóbrio, clássico, exato, ainda que enfocasse temas muitas vezes polêmicos e subversivos. O narrador, Michel, condena a “beleza já transcrita, perfeitamente interpretada”, e o leitor tem a liberdade de tomar isso como uma ironia, pois é a essência do estilo de André Gide tal como ficou cristalizada pela história literária.

Michel é casado com Marceline, embora sinta impulsos homoeróticos que desabrocharão plenamente no norte da África, em contato com meninos árabes. Veja o leitor como as coisas mudam: há cem anos, as relações de um francês adulto e reprimido com garotos adolescentes do Terceiro Mundo eram vistas (descontando-se a ousadia temática e sexual) como uma libertação pessoal, positiva, tirando a máscara de uma civilização hipócrita e repressiva. Hoje em dia, ninguém conseguiria (a não ser racionalizando muito) abstrair o lado sórdido desse “manual de disponibilidade”, que parece altamente condenável, não pela questão homossexual, mas pelo que hoje se descortina da pedofilia e do turismo sexual: quantos europeus como Michel não temos por aí, desreprimindo-se com garotos e garotas miseráveis de um Terceiro Mundo que se tornou bem mais amplo do que o evocado pela aventura pessoal de O IMORALISTA.

Contudo, isso fica para as avaliações politicamente corretas, no que têm de bom e de ruim. Mais chocante, para mim, é a narração da doença de Marceline, que ocupa boa parte do texto e funciona como o “último entrave” do marido. Parece que é preciso, para que Michel viva de fato, que ela morra, e tem de ser uma morte dolorosa, lenta, como uma depuração, cuja crueldade parece uma vingança psicológica, a evidenciar-se em passagens como a seguinte: “Nunca ela fora nem me parecera mais bela. A doença havia sutilizado e quase extasiado suas feições”!!!??? Com os meninos, a descoberta do prazer; com a mulher, a exaltação de uma beleza moribunda!

Paradoxalmente, nessa parte específica, O IMORALISTA perde um pouco do seu estilo rígido e clássico demais, adquirindo um ritmo entrecortado e “balbuciante”, por assim dizer, que resulta ainda muito eficaz e expressivo, cem anos depois: “A viagem continua à noite, Marceline tosse… Ah! não parará mais de tossir! Penso na diligência de Sousse…Parece-me que eu tossia melhor; ela faz tantos esforços… Como parece fraca e mudada, assim na sombra, eu mal a reconheceria. Como suas feições estão chupadas! Seriam assim mesmo os dois buracos negros das narinas? Ah, ela tosse horrivelmente. É o resultado mais evidente dos seus cuidados. Tenho horror à simpatia, todos os vestígios se ocultam nela; só devíamos simpatizar com os fortes. Ah! realmente ela não agüenta mais! Não chegaremos logo?… Que faz ela! Toma o lenço e o leva aos lábios, volta a cabeça… Que horror! Será que vai cuspir sangue?”

 Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de agosto de 2002, ano do centenário de “O imoralista”

1 Comentário »

  1. oi,alfredo, tudo bem?
    vim fazer uma visita.
    quando vc puder, passa lá em casa:
    http://paulodetoledo.blogspot.com
    abração,
    paulo

    Comentário por paulo de toledo — 27/04/2010 @ 14:57 | Responder


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