MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2011

Um decadentista fora da estufa: AS CIDADES E AS SERRAS


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de janeiro de 2001)

Para o leitor, o evento mais interessante do centenário da morte de Eça de Queirós (1845-1900) talvez seja o lançamento conjunto de A Ilustre Casa de Ramires (1900) & A cidade e as serras (1901) pela editora Hedra. Há muito tempo Eça não ganhava uma edição não-didática tão bonita e caprichada no Brasil, uma iniciativa editorial ainda mais pertinente porque também os dois romances também estão tornando-se centenários.

Nos dois, o protagonista é o último membro de uma antiga estirpe fidalga, com uma diferença fundamental: Gonçalo Ramires é um fidalgo arruinado; Jacinto (de A cidade e as serras) é riquíssimo. Mas ambos são decadentes e a narrativa apresenta sua reabilitação moral e patriótica, porque o destino deles espelha as preocupações e expectativas de Eça com relação a Portugal.

E é nesse sentido que ambos são injustamente desprezados por uma parcela da crítica, a qual vê neles a degringolada ideológica do combativo e anti-conformista autor de O crime do padre Amaro & O primo Basílio. Quando se elogia A Ilustre Casa de Ramires, e especialmente A cidade e as serras, é para exaltar o estilo, a qualidade do uso da língua portuguesa. Mas é uma visão muito pobre e insuficiente de duas obras-primas.

Examinemos primeiro A cidade e as serras, publicado depois de A Ilustre Casa de Ramires, mas cujo ponto de partida é Civilização, conto de 1892 (bem próximo, portanto, de Os Maias, de 1888, e muito próximo também de Às avessas—publicado em 1884—de Joris-Karl Huysmans, com o qual tem pontos de contato evidentes).

Em Os Maias denunciava-se o “anseio francês”, a imitação da civilização de Paris pelos portugueses, tanto que o herói, Carlos da Maia, terminava o livro morando em Paris, nada querendo saber da sua pátria. Em Civilização, Jacinto é ultra-sofisticado, um lisboetaparasiense, por assim dizer, e que, no entanto, morre de tédio, até que resolve visitar suas terras no interior e encanta-se com o mundo rural, como nos conta seu melhor amigo (um narrador para lá de mordaz), que dá um salto no tempo, quatro anos, para nos informar que o ex-paladino da civilização pelas serras interioranas permanecer: “Jacinto ainda habita Torges… Não faz a barba. Nos caminhos silvestres, pára e fala com as crianças. Todos os casais da terra o bendizem. Ouço que vai casar com uma forte, sã e bela rapariga de Guiães. Decerto crescerá ali uma tribo, que será grata ao Senhor”.

Em A cidade e as serras é a mesma história, o mesmo Jacinto hiperbolicamente cercado pelos produtos da civilização, e desta vez morando em Paris (nunca botou os pés em Portugal). Seu amigo, José Fernandes, preocupa-se (um pouco maliciosamente, é verdade) com o tédio e a saciedade bocejante que ele ostenta. E novamente são as serras (em vez de Torges, Tormes), a vida rural e bucólica, que resgatarão Jacinto dessa paralisia da vontade e do viver.

Civilização tem 15 páginas, A cidade e as serras tem 200. Por que ler a mesma história ampliada? Também não é romantizar demais o campo colocá-lo como pólo positivo de uma negatividade absoluta com relação a um estágio civilizatório artificial e neurotizante?

O fato é que Eça não apenas “ampliou” ou “esticou” a história de Jacinto. A mudança para Paris permite continuar de onde Os Maias parara, e propor uma reflexão sobre o fim de século europeu e todas as suas manifestações decadentistas. O mundo de Jacinto, do seu “lodoso fastio”, ecoa o mundo superabundante e saciado do Teodoro de O Mandarim, do Dorian Gray de Oscar Wilde, ou do Des Esseintes de Às avessas. Ampliando o conto no romance, o maior autor português taça um esplêndido painel urbano, e quem pensa que neurose de cidade grande ou obsessão por novas tecnologias são coisas dos dias atuais, que leia A cidade e as serras; além disso, a narrativa feita pelo amigo tornou-se mais sutil, menos afrontosamente satírica, enriquecendo com uma afável malícia que não deixa de trazer interessantes ambivalências psicológicas do narrador quanto ao seu herói.

Quanto à romantização da vida rural, é inegável. Felizmente, a narrativa indireta “protege” o texto, se se pode dizer assim, de qualquer kitsch bucólico. O recurso de fazer as desventuras iniciais e venturas posteriores de Jacinto em Tormes chegarem ao leitor pela voz narrativa de José Fernandes permite muitas ironias, matizes diversos, que relativizam bastante os chamados bordões do Arcadismo (o movimento literário do século XVIII, todo baseado no bucolismo) detectados no texto: o fugere urbem, a fuga do mundo falso e artificial da cidade, cheio de apelos debilitadores (segundo José Fernandes, ecoando Balzac, dois desejos insaciáveis movem o espaço urbano: o lucro e o gozo); a áurea mediocritas, a vida equilibrada, sem grandes paixões ou sobressaltos.

Agora pense, leitor: será que esses temas não estão sempre presentes? Ou melhor, eles não estão cada vez mais presentes?

Talvez a solução dada por Eça ao seu protagonista seja fácil demais (como diz José Fernandes, Jacinto tem os quatro elementos à sua disposição: o ar, a água, a terra e o dinheiro), mas ele estava repensando sua nação e o mundo europeu. E o estilo a que chegou é o máximo que se alcançou em língua lusitana.  Tanto que, ao reler A cidade e as serras para este artigo, eu comecei, como sempre faço, a anotar trechos que pudesse utilizar como citações. Depois de ter enchido 12 páginas em papel ofício, desisti. Mesmo assim, só para dar um gostinho da melhor escrita que se pode encontrar na nossa língua, veja-se esse momento em que o narrador mostra, como, na sua patuscada bucólica, Jacinto descobre, espantado, que há miséria nas suas terras, ao visitar a casa de uma camponesa: “…em redor, a natureza e o trabalho tinham, através de anos, acumulado ali trepadeiras e flores silvestres, e cantinhos de horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roídos de musgo, e panelas com terra onde crescia salsa, e regueiras cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam deliciosas para uma écloga aquela morada da fome, da doença e da tristeza…”


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