MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2011

OS MAIAS E A TRAGÉDIA DA MEDIOCRIDADE


(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos, em 22 de agosto de 2000)

Uma estirpe ilustre. Uma sina monstruosa que se abate sobre ela: a ironia do destino torna amantes dois irmãos separados na infância. São elementos para tragédia, conforme aprendemos com os gregos. Não é, porém, o que acontece em OS MAIAS, de Eça de Queirós.

Temos efetivamente no livro uma família fidalga e todo o segundo volume gira em torno do incesto praticado pelo casal central, Carlos Eduardo e Maria Eduarda. Quando ambos descobrem seu parentesco não há, entretanto, o elemento trágico: ninguém se enforca, ninguém arranca os próprios olhos,  ninguém enlouquece, ninguém vira ermitão num penhasco inacessível. Todos tratam de tocar a vida para a frente, se possível com o máximo de luxo e conforto. Talvez a grande tragédia mostrada em OS MAIAS seja a tragédia da mediocridade.

Estamos longe do desfecho da história de amor entre os pais de Carlos e Maria Eduarda: a mãe deles abandona Pedro da Maia, o pai, fugindo com um italiano (e levando a filha); ele, após entregar o filho ao pai, Afonso da Maia (que fora contra o casamento), suicida-se.

Mas Pedro da Maia vivia num mundo de romantismo e passadismo, era um sujeito melancólico e mórbido. Carlos, o filho, pelo contrário, é guiado pelo espírito científico e materialista, que também é a bandeira assumida pelo seu melhor amigo, João da Ega. O vocábulo Ega lembra Eça e isso não é acidental, leitor: há muito do autor nesse personagem que é o mais marcante de OS MAIAS, responsável pelas suas frases-chaves.

Eça, aliás, para ser mais exato, parece ter se desdobrado entre Carlos e Ega. Fez algumas transposições biográficas para a figura de Carlos, como o fato de não ter sido criado pelos pais, injetando também algo de obscuro e vergonhoso no casamento dos pais do personagem, de forma a espelhar seu próprio nascimento. E projetou-se em Ega no plano intelectual e filosófico.

Os dois amigos, após estudos e viagens, fixam-se em Lisboa, onde a casa em que vão residir Carlos e o avô, o Ramalhete, torna-se ponto de encontro diário de um grupo exclusivamente masculino, o qual dá margem ao incomparável tanto caricatural de Eça de Queirós.

Carlos e Ega compartilham um mesmo defeito: com todo o seu esclarecimento e sua visão crítico-cínica do país onde vivem, eles não passam de diletantes, acomodados na sua confortável posição de rapazes endinheirados, ociosos, cujo maior passatempo é o adultério. Ega envolve-se com a esposa de um judeu, Raquel Cohen; Carlos, com a Marquesa de Gouvarinhos, casada com um importante político. Essas diversões à primo Basílio ocupam a maior parte do primeiro volume. Mais tarde, ele se interessará por Maria Eduarda, supostamente esposa do brasileiro Castro Gomes. Ela é alvo, também, das atenções de um dos mais admiráveis personagens de OS MAIAS: o repelente Dámaso Salcede, obcecado pelo que é chique e uma verdadeira personificação da mediocridade imperante.

Carlos até que tem planos grandiosos: formado médico, abre um consultório luxuoso. Só que, como não há praticamente clientela, ele passa os dias dormindo ou matando o tempo de alguma forma. É o seu status de médico, contudo, que o aproxima de Maria Eduarda, pois ela o chama para tratar da preceptora da filha, durante uma prolongada ausência do suposto marido.

O caso de amor entre os dois desdobrar-se-á em duas revelações tempestuosas: primeiro, Maria Eduarda não é casada com Castro Gomes, sendo apenas sua manteúda; segundo, a descoberta do incesto. Que, enfim, serve como alavanca para que ele abandone Portugal e passe a residir em Paris, concretizando o anseio francês que toma conta de quase todos os personagens do romance.

O único realmente afetado de forma trágica pelo aspecto de maldição que reveste o encontro dos irmãos, talvez por ser um glorioso representante do passado, é o avô (que parece ser o único personagem poupado pela corrosiva ironia do autor): “…afastou-se, todo dobrado sobre a bengala, vencido enfim por aquele implacável destino que depois de o ter ferido na idade da força com a desgraça do filho, o esmagava ao fim da velhice com a desgraça do neto…”.

Muitos reclamam que não acontece praticamente nada em OS MAIAS, especialmente no primeiro volume. Quem sobreviver a ele constará que pouquíssimos romances conseguiram retratar de maneira tão poderosa um determinado tipo de sociedade. E com tal genialidade literária, de um modo tão natural e coeso, que é impossível saber o que é mais impressionante, se o ato narrativo, se o ato descritivo (e pouquíssimos romances fizeram uso tão majestoso e orgânico da descrição), se os diálogos incríveis.

Como já afirmei, a propósito de O mandarim,  muitos dos livros de Eça foram releituras de outros livros. OS MAIAS recria no contexto português A educação sentimental (1869), de Flaubert. Seria muita impertinência e ousadia dizer que a releitura supera o original? Concordando-se ou não, seria bom que a publicidade em torno da data centenária motivasse um conhecimento mais amplo da maior obra de ficção da literatura portuguesa, pois embora OS MAIAS seja a obra-prima de Eça de Queirós sempre perdeu longe em popularidade para O crime do padre Amaro e para O primo Basílio e, nos últimos anos, para A cidade e as serras e A Ilustre Casa de Ramires (que estão em alta), e até mesmo para A relíquia (o qual nunca teve um consenso por parte dos críticos). Por isso, é ótimo que finalmente apareça uma edição brasileira acessível, como a da Ática, de um livro que é, em última análise, bem pouco conhecido.

Só assim o leitor poderá verificar por si mesmo se é justo o mortífero diagnóstico que ali se faz do homo lusitanus: “indivíduo inferior que se governa pelo sentimento e não pela razão”.

nota de 2011– Não sou fã do novelão pseudoviscontiano que Luis Fernando Carvalho extraiu de Os Maias (com contribuições de A relíquia). Faltou a viga principal da construção: o olhar sarcástico de Eça. Como sempre, Carvalho se leva a sério demais. Está para Eça como Franco Zefirelli para Visconti.

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