MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/04/2011

“O que não tem governo nem nunca terá…” (ELIZABETH primeira)


VER TAMBÉM NO BLOG:  

https://armonte.wordpress.com/2012/04/23/uma-toca-de-coelho-para-o-pais-das-maravilhas-freudianas/

“Catarina de Siena (1347-80) afirmou um dia não ter comido nada tão delicioso quanto o pus dos seios de uma cancerosa.”

O que o desiderato extremado de auto-mortificação de uma mística (canonizada pelo Vaticano), mesmo que nos pareça grotesco, poderia ter em comum com o genocídio sistemático praticado em Auschwitz pelos nazistas?

É o que se propõe a desvendar A parte obscura de nós mesmos, boa síntese que a veterana Elisabeth Roudinesco propõe a respeito da metamorfose do conceito de perversão desde a era medieval, circulando pelo biográfico, pelo filosófico, pelo literário (uma de suas grandes virtudes), pelo psicanalítico, pelo historiográfico, com grande desenvoltura e clareza, de forma a ser ao mesmo tempo contundente e didático (Roudinesco deve ser uma grande professora). Porém, algumas passagens (principalmente as biográficas) parecem muito claramente de segunda (ou pior ainda, de terceira) mão, transcritas sem maior preocupação de reelaboração, e há repetições indefensáveis de frases e formulações em vários trechos. O que está havendo com a velha e boa revisão de textos?

Ainda assim, A parte obscura de nós mesmos vale a pena porque organiza conhecimentos dispersos em disciplinas diversas, ao abordar as vidas não-exemplares de emblemáticos perversos. Começa com o conceito da prática pervertida como uma transgressão da Lei Divina (a figura catalisadora é Gilles de Rais, o monstruoso protetor de Joana D´Arc) e todas as experiências de supressão da tentação carnal (e o gozo proporcionado por tais experiências, que levaram a novas práticas perversas…), o que permite a indagação: por que esse apetite pelo Mal, que percorre a humanidade (aliás, onde se localiza o Mal: na prática perversa ou na sua repressão pura e simples, sem uma tentativa de aprofundar as raízes da perversão?); depois, nos estertores do absolutismo e início da nossa era iluminista e laica, a organização pervertida e subversiva do universo realizada pela obra do Marquês de Sade e as tentativas de suprimir sua circulação e impacto. O século 19 se encarregará de propor uma catalogação racional e com fins higiênicos de todas os comportamentos desviantes e assim começará a era totalitária da normalidade burguesa, amparada pelos princípios científicos positivistas, que será ameaçada pelo Darth Vader do Iluminismo otimista: Com Freud, a patologia esclarece a norma, e não o contrário. É precisamente a ênfase colocada no mandamento Não Matarás que nos dá a certeza de que descendemos de uma linhagem infinitamente longa de assassinos que tinham no sangue o prazer do assassinato, como talvez nós ainda.”

    Freud fornece a ponte para o século 20 e o resultado da catalogação e da higienização perseguidas pela “norma” autoritária: o genocídio. E sempre a sombra do Mal, antes teológico, agora patológico, presente. E a nossa dificuldade em separá-lo exata e coesamente de um suposto Bem. E no nosso preocupante século 21, a redefinição do que é perverso acarreta novos perigos à liberdade individual e ao esclarecimento da humanidade sobre si própria. Ou seja, esse terreno continua minado. Ainda bem.

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 21 de junho de 2008)

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