MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/03/2011

DUELO ENTRE A MÃE E O TEMPO


 

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 9 de maio de 1993)

Além de ser um dos maiores romances do século, Passeio ao farol (1927), de Virginia Woolf, é também uma profunda reflexão sobre o papel da mãe em nossa vidas.

O livro conta, se é possível dizer isso, a história da família Ramsay, que passa o verão nas Ilhas Hébridas (costa da Escócia), com seus muitos agregados e “protegidos”. Todos ora admiram ora invejam ora se incomodam com a sra. Ramsay, que não só cuida para que tudo corra bem com seus oito filhos e o marido, um conceituado pensador, como também influi na vida alheia. A sua presença, a força da sua maternidade, são o centro das atenções: sua casa de verão está gasta e empobrecida, há expectativas frustradas (como um planejado passeio ao farol local, que não acontece) e problemas afetivo-românticos, mas aparentemente ela consegue manter tudo coeso.  Ela, em si mesma, é um farol, um centro fixo.

A sra. Ramsay domina a própria narrativa: seguindo o seu ritmo interior, Virginia Woolf (que se inspirou na própria mãe) suspende o tempo, por assim dizer, pois tudo que está integrado ao mundo, à existência pura, não o sente. É por esse motivo que a sra. Ramsay, aos 50 anos, desperta “algo” em homens e mulheres, e é por esse motivo que, no vai-e-vem cronológico, o leitor fica sabendo  dos “fatos” muito mais pela ótica das personagens masculinas, intelectuais  que não conseguem a suprema integração da sra. Ramsay ao espetáculo do mundo, bem como Lily Briscoe, a pintora que não constitui família e permancerá estéril.

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O poder da sra. Ramsay tem muito de ilusionismo: transmite a sensação de permanência e segurança, enquanto intimamente também se ressente das modificações inelutáveis que o tempo traz: “Não queria que James ficasse nem um dia mais velho, nem Cam… gostaria de conservar os dois para sempre assim mesmo…nunca vê-los crescer. Nada poderia compensar essa perda… Gostaria de ter sempre um bebê. Era a pessoa mais feliz quando carregava um bebê nos braços… E, tocando no cabelo de James com os lábios, pensou: Ele nunca será tão feliz como agora”.

Pois, como todos sabemos, o “tempo passa”. Na segunda parte, vem a Primeira Guerra Mundial, a sra. Ramsay e outros membros da família morrem e o círculo de amigos fragmenta-se. Os sobreviventes reencontram-se na 3a. parte, anos depois, e finalmente realiza-se o tão almejado passeio ao farol. E é justamente na reconstituição desse projeto que todos constatam o efeito do tempo e a falta da mãe, e, ao mesmo tempo, se dão conta da ilusão que ela conseguiu manter enquanto viva, e como essa ilusão teve um poder mágico sobre suas vidas: “E no mesmo instante em que ela se foi, uma espécie de desintegração se instalou, todos andavam sem rumo, seguindo caminhos diferentes”.

 

A “salvação” possível está na obra de arte, a única forma de se realizar no tempo, uma vez desfeita a integração com a natureza, com a mãe ausente. É o que faz Lily Briscoe, terminando seu quadro na praia, enquanto os demais visitam o farol, em busca do tempo perdido: “Qual o sentido da vida? –Isso era tudo — uma pergunta simples, das que tendem a agrilhoar uma pessoa com o passar dos anos. A grande revelação nunca chegou. Ao invés disso houve pequenos milagres diários, iluminações, fósforos inesperadamente acesos na escuridão e aquele era um deles… a onda estourando, a sra. Ramsay dizendo: Para aqui, vida!, a sra. Ramsay tentando transformar o momento em alguma coisa permanente –isso seria da mesma natureza que uma revelação. No meio do caos havia uma forma”.

O tempo vence a mãe, decerto, mas ela permanece como o caminho para a  volta (à infância, à criação, ao sentimento de existência plena). E a ida ao farol, mais que um passeio real, transforma-se na forma do desejo que nós sempre mantemos em nosso espírito de (re)alcançar isso tudo.

nota de 2010- Nessa resenha de 17 anos atrás, eu comentava a tradução de Luiza Lobo publicada na série “Grandes Romances” da Nova Fronteira (há uma anterior, de Oscar Mendes). Essa mesma tradução ganharia o título de Rumo ao farol (numa coleção da Publifolha) e Ao farol (pela Ediouro). O título original do livro de Virginia Woolf (1882-1941) é To the lighthouse.

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