MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/03/2011

A ANFITRIÃ NO ALTO DA ESCADA E O SALTO MORTAL


(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 03 de junho de 2003)

Surpreendentemente, uma das conseqüências da repercussão do filme As horas, que deu o Oscar para Nicole Kidman no papel de Virginia Woolf, foi colocar na lista dos mais vendidos Mrs. Dalloway (1925), uma das quatro grandes obras-primas da autora inglesa (as outras são As ondas, Ao farol e Entre os atos, me desculpem os entusiastas de Orlando) que parecem, como já disse e redisse,  verdadeiros milagres por causa da leveza com que conseguem concentrar um infinito de coisas. Não existe nada parecido.

Quando comentei nesta minha coluna de A TRIBUNA As horas (em setembro de 1999), depois de constatar como era fraco o livro de Michael Cunningham (o qual, entretanto, conseguiu inspirar um filme superior a ele), lamentava que Mrs. Dalloway, que o inspirara,  não estivesse em circulação no Brasil há muitos anos. Por ironia, graças a três grandes atrizes e estrelas de Hollywood (além de Nicole Kidman, Meryl Streep e Julianne Moore, esta última roubando a cena; aliás, a sua parte também era a melhor do romance de Cunningham), essa lacuna foi corrigida, feito não conseguido pela modorrenta versão cinematográfica do romance, com Vanessa Redgrave no papel-título.

Clarissa Dalloway é a esposa de um político que prepara uma recepção em sua casa e sai para comprar flores. Ser anfitriã, postar-se no alto de uma escada, é o heroísmo dela, a couraça de seu caráter, e ao mesmo tempo a mantém distanciada dos outros, que a vêem como fria e convencional.

No passado, ela teve dois elos românticos: apaixonou-se pela libertária Sally Seton e pensou em casar-se com o também pouco conveniente Peter Walsh (ambos acabarão comparecendo à sua festa).

Mrs. Dalloway preocupa-se, também, com a ascendência que a fanática miss Kilman mantém sobre sua filha adolescente, Elizabeth. Paralelamente, conta-se o processo que leva Septimus, ex-combatente (toda a atmosfera do livro é permeada pelo pós-guerra de 1914) ao suicídio (pulando de uma janela), notícia que chegará aos ouvidos de Clarissa em plena festa (o que nos proporciona um trecho belíssimo, ainda mais traduzido por Mário Quintana: “Mas esse jovem que havia se suicidado, mergulhara acaso com o seu tesouro? Se tivesse de morrer agora, seria no  momento mais feliz, dissera consigo certa vez, ao descer a escadaria, toda vestida de branco”).

Uma das grandes transformações efetuadas pelo Modernismo foi a apreensão do cotidiano e a reformulação do tempo narrativo (a ação de Mrs. Dalloway passa num só dia). Virginia Woolf, a partir de O quarto de Jacob (1922) levou  isso a limites insuspeitos. Além disso, com o passeio da protagonista para comprar flores e as andanças de Septimus e sua esposa Rezia antes da consulta com o arrogante médico Sir William Bradshaw, Mrs. Dalloway, assim como Ulisses, de James Joyce (que Virginia Woolf leu na época com sentimentos ambivalentes: os seus diários nos dão uma idéia de alguém fundamentalmente competitivo com relação a seus colegas), oferecem o equivalente ficcional da poesia da vida urbana inaugurada por Baudelaire:

“… que loucos somos, pensava ela, atravessando Victoria Street. Só Deus sabe como se ama a isto, como se considera a isto, compondo-o sempre, construindo-o em torno de nós, derrubando-o, criando-o de novo a cada instante; até as últimas mendigas, as mais baixas misérias dos portais faziam o mesmo; impossível salvá-las com leis parlamentares, por esta simples razão: amava a vida. Nos olhos dos passantes,na sua pressa, no seu andar, na sua demora, no burburinho e na vozearia; carros, autos, ônibus, caminhões, homens-sanduíches, bamboleantes e tardos; charangas, realejos, na glória e no rumor e no estranho aerocanto de algum avião sobre a sua cabeça, estava isto, que: que ela amava a vida. Londres, aquele momento de junho (…) e ela própria, também, amando como amava aquilo com uma absurda e religiosa paixão, parte que era daquele mundo, pois os seus iam a palácio desde a época dos Jorges, ela própria ia, naquela noite, receber e iluminar: ia dar a sua festa”.

1 Comentário »

  1. Um bom filme, As horas, o livro não li. Gosto muito dos diários da Virgínia Woolf também. Belo texto!

    Comentário por Daniel Lopes — 14/12/2013 @ 8:15 | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: