MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/03/2011

Férias com Durrell (terceira parte): CONSTANCE OU PRÁTICAS SOLITÁRIAS


 

“__Está tudo aqui!

__ Todo o quince da questão. Seu quince?

__ Não. O seu quince, antes. Meu cunce…”

(de Constance ou Práticas Solitárias)

 

“Blanford brincava de amarelinha entre os fragmentos de idéias que poderiam um dia tomar forma em sua prosa.”

(de Constance ou Práticas Solitárias)

 

“Comecei a ver uma saída na trama, a confusão aparente está começando a adquirir sentido…”

(de Sebastian ou Paixões Dominantes)

 

“A Cruz Vermelha, que a princípio me aprecia um cargo representativo e um desperdício de tempo, mostrou-se ser, ao contrário, uma fonte de informações muito valiosa, uma verdadeira vigia sobre a nova Europa nazista; além disso, tinha sede em Genebra, e a tradicional neutralidade suíça não fora violada. Nominalmente, pelo menos, os alemães ainda eram signatários da Convenção, e os funcionários da Cruz Vermelha tinham um status quase diplomático, aceito em toda parte…”

(de Constance ou Práticas Solitárias)

 

“Você sabe, eu não posso mais amar. Como as pessoas com prolapso ou hérnia, estou proibida de carregar objetos pesados: todos os misteriosos símbolos do apego, pesada bagagem metafísica. Sou apenas uma psiquiatra iniciante, uma aprendiz de feiticeiro…”

(de Constance ou Práticas Solitárias)

 

“O mundo como um grande expresso, entra em desvios sem pedir a permissão da ninguém…vivemos sob a servidão do seu simbolismo… Entre o  verismo e o trompe l`oeil, estavam  destinados a tentar viver e amar.”

(de Constance ou Práticas Solitárias)

 

“… a noção de cronologia se perturbara—a história não era o passado, mas alguma coisa que estava na iminência de acontecer. Era a parte da realidade que estava em suspenso!”

(de  Quinx ou O Conto do Estripador)

ENTRE O VERISMO E O TROMPE L`OEIL

Comentando meu post Férias com Durrell (segunda parte), a respeito de Livia ou Enterrado Vivo, Denise Bottman escreveu: “Sem dúvida meio `rococó`, arabesquices à l`outrance”.

O que Denise incisivamente põe a nu no seu comentário é o lado bizantino, excessivo, demasiado (“à l`outrance”) dos dois volumes do Quinteto de Avignon comentados até aqui, Monsieur & Livia. Quando se começa a ler Constance ou Práticas solitárias (1982),e por boa parte do livro, a impressão é a de que Durrell se deu ao luxo de escrever um romanção tradicional, de uma forma até afetada, algo realmente old fashioned, faisandé, um exercício do tipo que Ian McEwan se propôs anos mais tarde em Reparação, e o tipo de romance que Anna Wulf escreve nas suas reminiscências da África em The Golden Notebook,  de Doris Lessing.  Uma paródia no sentido estrito do que é paródico mesmo, ou seja, a sério, um experimento metalingüístico.

Constance é muito mais extenso, sem comparação, que os anteriores (e os próximos), Se fosse paginado como os demais teria mais de 500 páginas (no formato da edição da Estação Liberdade, em tradução de Waltensir Dutra e letrinhas miúdas, temos 443 páginas): os dois primeiros volumes eram alentados, mas não chegavam a tanto,e os dois últimos são volumes magros (devido a isso, o fato de Constance ser o volume “do centro” e tão extenso, desequilibra ainda mais um projeto já desequilibrado).

O aparato enganoso de romance “histórico” e evocativo talvez tenha colaborado para que ele concorresse ao Booker Prize daquele ano. Mesmo com todos os seus aspectos extravagantes e excessivos dá para acreditar que ele perdeu para o nada notável A lista de Schindler (o original de Thomas Kenneally, que depois virou filme de Steven Spielberg)?[1]

O romance é dividido em 15 partes (com um apêndice, que é o “Testamento de Pedro, o Grande,” o qual complementa a ideologia dos “Protocolos dos Sábios do Sião” para os personagens simpatizantes do nacional-socialismo).

A primeira parte é um tour-de-force narrativo excepcional, no qual parece que Durrell está nos dizendo: olha como eu poderia escrever uma narrativa lapidar, se quisesse. Há uma rápida abertura, com a cidade de Avignon já tomada pelos alemães (embora fique numa risível “zona livre”), momento em que Quatrefages, aquele funcionário de Lord Galen obcecado pelos templários, é torturado pelos nazistas (o próprio Hitler tinha uma cisma com essa questão e investiu muito na pesquisa da localização do suposto tesouro). Logo a seguir, recua-se um pouco e ainda nos primórdios da guerra, antes da Ocupação, o grupo de ingleses passa suas maravilhosas e míticas férias no castelo de Tu Duc: os irmãos Constance, Livia e Hilary, donos do lugar, e seus amigos e convidados Blanford e Sam, além do cônsul Felix Chatto.

O fulcro dessas primeiras páginas é o apaixonado relacionamento de Sam e Constance, que resolvem casar-se antes de ele partir para a guerra (como é pobre, a carreira militar é o que lhe resta).

Blanford não tem vontade de lutar, e o Príncipe Hassan o convida a trabalhar como seu secretário no Egito, onde ele ficaria “longe deste insensato mundo” que está se configurando. Curiosamente, embora no volume anterior tenhamos acompanhado o Príncipe em incursões pedófilas e degradantes, ele é apresentado quase que como um sábio em Constance.

Ao contrário do que vinha acontecendo nos volumes anteriores (com a exceção de Felix Chatto), simpatizamos com o casal, com essa relação fundada na precariedade, abençoada pelo sol, pelo vento e pelo mar provençais.

A seguir, somos apresentados ao general alemão Von Esslin, às vésperas da invasão da Polônia, visitando sua mãe e “visitando” a criada polonesa, na calada da noite: “Ele a possuía, e esse pensamento excitava-lhe a cupidez: dominava-a como seu exército dominaria dentro em pouco o país e o povo dela, estuprando-os, chafurdando em seu sangue…” Mais tarde, ele será o comandante militar em Avignon, mas considerará o posto de pouco prestígio, sentindo-se desdenhado, passado para trás, por ser católico e se confessar: “… não havia dúvida quanto à pouca importância do seu novo posto, e dele ninguém poderia esperar glórias e promoções. Não era exatamente uma preterição e, não obstante, ele se sentia preterido…”  A presença dos alemães na economia narrativa de Constance é importante, como veremos, por trazer à tona o incômodo e importantíssimo tema da adesão francesa ao nazismo, ao colaboracionismo institucionalizado, e também o antissemitismo francês, tão forte quanto o alemão.

Blanford realmente viaja para o Egito (a narrativa desliza para a primeira pessoa, embora devamos considerá-la por inteiro, dentro do “projeto geral” do Quinteto, uma narrativa escrita por ele, mesmo em terceira pessoa): “A Inglaterra é uma pontada ocasional, um ocasional estertor de consciência que vai diminuindo [ele está comentando sua defecção do esforço de guerra]. A nova vida é de uma variedade avassaladora, enquanto as informações que proporciona tão liberalmente me convencem a ver este velho país não como alguma coisa esgotada pela História, que só existe em suas ruínas, mas como algo ainda palpitante, contemporâneo, ainda cheio de mistério e de magia infernais”.

Lá ele conhece um dos colaboradores do Príncipe, o atraente todavia estranho Affad, tido como homossexual por sua vida casta e ascética.

Sam, numa licença, faz uma visita a Blanford e os dois conhecem um médico chamado Bruce, e um casal de gêmeos franceses, Bruno e Sylvaine (não há como não lembrar aqui da obra mais ambiciosa de Lewis Carroll, com seus protagonistas Bruno e Sylvie, um empreendimento entre realidades ficcionais que se interpenetram que pode ser o grande antepassado literário de O quinteto de Avignon), apelidados de “Les Ogres” por causa do nome de família (LeNogre). E, vejam só: “Eram donos, ou pelo menos foi o que ele disse, em seu inglês calmo e estudado, de um velho castelo arruinado na aldeia de Villefoin, não muito distante de Tubain, onde ficava o nosso castelo, a casa de Constance…” Todo mundo tem um castelo  na Provença.

Eles excursionam pelo Nilo. Sim, temos mais uma viagem pelo rio, há um interesse pelos templários e planos de viver a três no castelo: “Começamos a ficar sentimentais e falamos do  après la guerre. Os dois franceses expressam, sem hesitação, seu propósito de voltar à Provença e passar o resto da vida no castelo arruinado de seus ancestrais. Bruno queria escrever um livro sobre os templários—parecia haver uma massa de papéis inéditos na sala dos arquivos do castelo (…) Depois, com um sobressalto, reconheci o rosto de Sylvaine: é estranho como as pequenas coisas ficam. Eu o tinha visto por um breve momento no hospício de Montfavet, perto de Avignon… Vi, então, uma moça morena, uma paciente, caminhando pelo roseiral. Muito parecida com Sylvaine…”. Mas, como lemos mais adiante: “… eu sonho obstinadamente com esse livro, cheio de personagens que não se distinguem bem umas das outras…poderia essa gente entrar e sair uns da vida dos outros sem prejudicar a sua qüididade?… Um grande livro instável, todos os pontos e lados. Um livro que será um Gólgota”.

    A breve licença de Sam terá como evento apoteótico uma visita às ruínas de um mosteiro copta num oásis do deserto, fora da “zona protegida”. Ali, ele e Blanford serão colhido por uma explosão (o exército britânico fazia exercícios de tiro): Sam morre e Blanford fica com a coluna seriamente lesionada, tornando-se um aleijado.

Em Genebra, o teor da narrativa vai mudar e os jogos metalingüísticos voltarão, mas de uma forma muito mais sutil e divertida do que nos romances anteriores: Constance recebe a notícia da morte de Sam. Trabalhando como psiquiatra, discípula das idéias de Freud (então francamente discutidas pelos “dissidentes” como Jung) e convive com os “personagens” de Blanford, Sutcliffe e Toby, o qual trabalham subalternamente no Foreign Office (o primeiro) e na contra-espionagem (o segundo), além do “real” Felix Chatto, transferido para Genebra, após quase morrer de tédio e insignificância em Avignon. Aliás, Constance informa ao criador (lá no Egito) que está convivendo com sua criatura (o que lemos, todavia, não é uma narrativa de Blanford; então Constance também é uma criatura, uma personagem dele, embora ele seja apaixonado por ela e tenham convivido um verão inteiro?). Ao “conhecê-lo”, Constance diz: “Então, afinal de contas, você é real!”. Ele replica: “Todo mundo é real”. [2]

É Constance quem trata Pia, a mulher de Sutcliffe que prefere outras mulheres (como a amante que está sempre ao lado dela, a voluptuosa Trash) e que sofreu um sério colapso mental.

O Príncipe Hassan (que tem uma facilidade incrível de se movimentar pela guerra) aparece em Genebra e propõe a Constance ser a representante da Cruz Vermelha em Avignon. Lá, ela voltará a residir em Tu Duc (“…a emoção e a agitação se acumulavam nela ao pensar na pequena e sombria casa senhorial nos bosques, com suas janelas altas e os telhados das águas-furtadas em ângulos estranhos. Estava em sua recordação como um rosto humano—o rosto de uma velha e humilde governanta desgastada por toda uma vida de cuidados domésticas. Lembrava-se do último olhar que lhe lançara, quando o portão se fechou—fechou-se sobre o último verão do Éden antes da Queda…”), num processo ambivalente de negação (que também consiste em superação) da morte de Sam, e conhecerá Von Esslin (a quem assombra com a semelhança física com a irmã, Constanza, já morta), e também Fischer, o líder local da Gestapo, além da personagem que rouba o livro, a meu ver, a francesa Nancy Quiminal, que é odiada por dormir com Fischer, mas que o faz pela sobrevivência das filhas e para salvar alguns dentre aqueles que serão deportados para os campos de extermínio (e é uma dura negociação com o amante cada nome que salva da lista). Pelas suas falas, comportamento e pela sua trajetória estratégica (embora pequena, infelizmente) em Constance, Nancy é a sua personagem mais interessante e que permanece na memória do leitor.

O que Constance testemunha ali é a progressiva nazificação do povo francês e a consolidação das Milícias do próprio país, perseguindo os indivíduos listados para deportação. Ali também reencontra sua irmã, Livia, agora cega de um olho (não saberemos ainda neste volume a causa) e que comete suicídio em Tu Duc, uma situação embaraçosa que um dos oficiais nazistas, Smirgel, justamente o encarregado de encontrar o tesouro templário (“Não é a cupidez nem a rapacidade que impulsionam o Führer, mas o desejo de pelo menos uma vez deixar que o lado escuro do homem predomine, se realize”, diz ele, para chegar a uma conclusão orwelliana: “Visto deste modo, o Mal é o Bem, não percebe?), ajuda a contornar (ele parece ter sido íntimo de Livia e nós descobrimos que ele é um agente duplo, trabalhando também para os ingleses). A irmã de Constance parte da mesma forma como participou do “Quincunce”: não dizendo a que veio). O pior é aturar o diagnóstico psicanalítico da própria Constance:

“Por que, por exemplo, não tinham sido mais parecidas, já que haviam sido criadas juntas pela mesma inadequada pessoa avessa a crianças, privadas dos mimos e carícias que formam a auto-estima do corpo, de modo que sua imagem possa projetar confiança e aceitação, segura de si? Era assim que Constance lia Livia, quando pensava nela, como um problema médico. O amargo narcisismo, o ciúme, o caráter reservado e melancólica tinham evoluído desse pano de fundo que Constance compartilhara com ela…”

A morte de Livia é um dos motivos para que Constance se afaste de Avignon e volte para Genebra. É uma pena para nós, leitores, porque daí pra frente o romance simplesmente naufraga (há uma redenção na parte final, graças a Nancy Quiminal, mas ainda chegaremos lá). Pois em Genebra vai ocorrer a paixão avassaladora entre Constance e Affad/Sebastian, o qual será como um daqueles intragáveis protagonistas de D.H. Lawrence (Mellors & Rupert Birkin) que “reeducam” sexualmente a mulher (Affad através dos conceitos gnósticos, da ioga, da respiração conjunta, do melhor aproveitamento do orgasmo, enfim uma baboseira interminável).  Não é por acaso que ela é homônima da heroína de O amante de Lady Chatterley. Tudo vai começar numa das cenas de gosto mais duvidoso da história da ficção: Constance estava na banheira, deitou-se depois num ambiente cheio de vapor, sem que ela percebesse sua menstruação desceu, ela encharca tudo de sangue à sua volta, Affad entra e pisa naquele sangue todo, penetrando-a mesmo assim… Só Cassandra Rios e suas transas mirabolantes (como em Macária, por exemplo) chegariam tão perto, mas ela era mais divertida. Ainda bem que a cena ocorre na pág. 302 (e seguintes), e eu já tinha lido muito do romance (e gostado de muito do que li), portanto não ia desistir a essa altura, porque se fosse no início, não conseguiria terminar O Quinteto de Avignon.

Olhem uma amostra do que temos de aturar de Affad:

“…o esperma pode ser um veneno se não for fresco,ou mal documentado, ou enfermo como o dos esquizofrênicos graves, e outros. Retido, pode causar doenças, encefalite, estreiteza mental, como se pode observar nas culturas hipócritas, baseadas no puritanismo… O esperma precisa ser cultivado: é realmente uma riqueza… a mulher devia estar sempre fazendo mais e mais esperma, manipulando o escroto, acariciando-o, contando o seu tesouro. Devia senti-lo descer fisicamente da uretra, gota a gota, devia recebê-lo com satisfação e cuidar dele, deixar que o ventre ressequido se voltasse para ele…” Aos 70 anos, Durrell já devia estar meio esclerosado.

É no auge dessa paixão que Affad revela o seu nome mais recôndito e secreto, Sebastian, que era como a mãe o chamava! Isso acontece porque, vejam bem, “Constance estava ainda faminta de uma maior aproximação com ele, de devorá-lo à maneira das mulheres”!!!!

O problema (nada interessante) é que Affad tem de se afastar dela porque tem de cumprir o seu destino, que é o suicídio ritual da seita gnóstica à qual pertence, ou seja, será executado por alguém em Genebra. Fugindo da paixão por Constance, ele também foge do seu destino e comete uma infração terrível de seu compromisso gnóstico. Ele parte quando a carta que determina a data da sua morte chega. Ela acaba nas mãos de Constance.

Mais interessante é a aparição de Blanford em Genebra para tratamento mais especializado dos danos que sofreu. Sutcliffe fará tudo para evitar encontrar pessoalmente o seu criador, o que também fará o romance voltar para aquele jogo metalingüístico alimentado desde Monsieur:

“Quero que leve um recado de desprezo para Sutcliffe, pela sua covardia em não ousar enfrentar-me. Sei que ele se refugiou num apartamento com um elevador pequeno demais para acomodar minha cadeira de rodas, alegando como desculpa uma forte gripe. Diga-lhe que será punido pela visita de uma mulher escura, de força e glória inesperadas, com quem será forçado a manter relações”.[3] Mais adiante: “Estou aborrecido porque meu poder sobre ele não é absoluto. Afinal de contas, ele é criação minha; mas por vezes consegue libertar-se e evidenciar traços de livre-arbítrio. Minha dominação é incompleta, diabo!”. Quando ocorre o encontro entre os dois escritores,Sutcliffe diz ao seu criador: “É como se fôssemos versões um do outro, colocados em diferentes níveis de tempo. A realidade é muito cansativa”.

Nesse imbróglio todo, também ficam sabendo da existência da bomba atômica, o que vale uma pérola de Affad:

“Quando o homem começa a sentir com sua razão, com sua inteligência, ora, então Monsieur está presente”. E Constance: “Deve haver uma estratégia para ser feliz. É nosso dever descobri-la”. O que rende o seguinte pensamento ao seu amante: “Como essa afirmação era feminina!”.

Em Avignon, o general Von Esslin se sente afeiçoado a um “escravo” polonês a seu serviço e sofre um grave acidente que aquele provoca, ficando praticamente cego. Mas aí, com as crescentes derrotas e o avanço dos Aliados, a partida alemã de Avignon é inevitável (o general que substitui Von Esslin tenta explodir a famosa ponte local e destruir a cidade, mas os encarregados se recusam a fazê-lo, sendo fuzilados). Com a libertação da cidade, os loucos do hospício fogem e se misturam à multidão que acende fogueiras como os ciganos e assiste à degradação (a raspagem dos cabelos) das colaboradoras. A principal delas: Nancy Quiminal, que é assassinada (com um tiro durante sua execração pública) por um tipo exaltado na multidão:

“Quanto ao rapaz, tão embriagado, estava arrebentando de orgulho cívico e de dúvidas profundas quanto ao seu modesto papel na guerra e na Resistência. Ansiava por afirmar, com um gesto dramático, que era um adulto e um guerreiro de princípios. Cambaleando sobre o palanque, diante da multidão, acreditou que seus gritos eram de aprovação. A princípio pensava disparar alguns tiros como alarme… Mas ali estava a odiada concubina do chefe da Gestapo, afinal de contas. Os gritos que pediam justiça e vingança tinham influído gradualmente em sua confusa adolescência, até que, quase sem pensar, colocou o frio cano do revólver na testa da mulher em farrapos, bem entre os olhos, e puxou o gatilho.

    Como sempre, nessas ocasiões, há pessoas que dizem não ter sido sua intenção fazer aquilo, Foi um erro, estavam mal informadas; e é certo que um gemido de surpresa e choque foi ouvido na multidão, mas rapidamente afogado entre os gritos de aprovação e a música dos tambores. Mesmo assim, houve um silêncio, ou uma redução do barulho, e choro, pois surgiu o sentimento de que tinham ido longe demais”.

O seu fim, e depois o reconhecimento do corpo no necrotério pelo marido e pelas filhas é o melhor episódio do romance[4]:

“Depois [o encarregado] abriu uma gaveta que mostrou a forma imóvel da mulher assassinada. Parecia um pequeno gnomo insone em seu capuz: estava calva como um bebê, mas com as pequenas orelhas alertas. O que mais os comoveu, porém, foi o doce olhar panorâmico dos grandes olhos abertos, os olhos azuis franceses que tinham apenas uma faísca de humor satírico. Não havia marcas de pólvora, só o buraco azul aberto limpamente entre os olhos. As meninas estavam em lágrimas, e era preciso partir. O marido estendeu a mão para tocar o rosto pálido; deixou-a ali por um momento e depois retirou-a. Disse que voltara pela manhã para cumprir as formalidades com as autoridades. Mas não voltou nunca. Coube às duas meninas acompanhar a mãe à sepultura de indigente—a fosse ommunale”.

“A realidade é muito cansativa”, afirma Sutcliffe. O romance de Durrell, apesar de trechos como as duas últimas citações, também.

(escrito especialmente para o blog em janeiro-fevereiro de 2011)


[1] Os outros competidores eram The 27th Kingdon, de Alice Thomas Ellis; o delicioso A guerra do sorvete, de William Boyd; Sour Sweet, de Thimothy Mo; Silence among the weapons, de John Arden.

[2] Diga-se de passagem que o “fictício” Sutcliffe reproduz os sentimentos  do “real” Felix Chatto ao se ressentir de sua posição subalterna: “Por vezes, quando Ryder criticava um trecho de uma tradução, ficava azul de raiva… Tinha, porém, de aceitar tais críticas pelo que realmente eram—observações de alguém com um conhecimento superior—e inclinar-se às circunstâncias, pois Ryder era o chefe da seção, e as traduções  levavam o seu nome e assinatura. Sutcliffe era apenas um auxiliar. Como era odioso ser subordinado!”

[3] A “mulher escura”, que remonta aos sonetos de Shakespeare, é Trash.

[4] Outro momento bonito, simples e tocante, mais verismo que trompe l`oeil, acontece no Egito, quando Blanford conhece uma enfermeira inglesa e passa uma noite encantadora e bem-sucedida sexualmente com ela. No dia seguinte, fica sabendo do seu suicídio : ela, pouco antes de sair com ele, soubera da morte do marido na guerra.

4 Comentários »

  1. às vezes vc quase consegue me convencer que durrell é um grande autor. mas sua conclusão é irretorquível: ele é cansativo. e quando volto sobre meus juízos esquemáticos e sumários (quase fui reler o quarteto), quem sabe para modificá-los, não consigo… é um decadentista meio dépaysé, fora de tempo e de lugar, corteja perigosamente o pior kitsch, o involuntário (gosto de vários decadentistas quando cortejam o kitsch de maneira consciente e deliberada). sei lá, talvez sobreviva pelo rebuscamento das imagens, pela proliferação de incongruências, pelo efeito de saturação… mas, pelo menos, certamente não é um autor de quinta categoria 😉

    Comentário por denise bottmann — 04/02/2011 @ 16:15 | Responder

    • Graças aos seus comentários incisivos, acabei relendo o “Quinteto” com um pouco do seu olhar também, principalmente os volumes finais.
      Obrigado mais uma vez, Denise.

      Comentário por alfredomonte — 06/02/2011 @ 13:56 | Responder

  2. tsc, sei lá, às vezes penso: foi isso o que ele pôde fazer, então está bem também. pois imagine só, devia ser “um pé no saco” ser um durrell e ter de escrever assim. não conseguiu sublimar suficientemente, a um grau estético respeitável, tantos demônios que teve então de vomitar no texto. demanda guts, no mínimo, e só por isso já merece respeito, né mesmo? enfim, critico demais, não suporto muito o narcisismo desse tipo de texto, mas não deixa de ser expressivo, em algum outro nível existencial igualmente importante.

    Comentário por denise bottmann — 10/02/2011 @ 21:03 | Responder

    • Realmente o narcisismo d o tom, e principalmente a ferida de no emplacar um outro “Quarteto de Alexandria”… Um abrao.

      ________________________________

      Comentário por alfredomonte — 11/02/2011 @ 10:20 | Responder


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