MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/03/2011

O APELO DO PENSAMENTO: o senhor Tavares


 

“O mundo era o conflito entre uma carga positiva e uma carga negativa e esse mundo terminaria quando, quer a nível geral, universal, gigantesco, quer a nível individual e microscópico, se atingisse o zero, a anulação das duas cargas fortes e opostas. Esse seria o momento do fim do mundo e do fim de cada coisa.

    Aplicado individualmente, este raciocínio permitia que ´um ser humano conseguisse perceber qual o fim da sua morte`, pois esse dia, ´qualquer que ele seja, demore muito ou pouco, será o dia em que individualmente o corpo atinge o zero, anuladas as cargas positivas e negativas recebidas e enviadas para o mundo`. Porém, apesar de quase recomendar esta espécie de profecia doméstica, Theodor Busbeck, sobre si próprio, recusava-se a fazer qualquer balanço entre sofrimentos infligidos e recebidos. Não por não acreditar seriamente na  sua teoria e na transposição do seu estudo geral e histórico para uma aplicação individual; ele não fazia cálculos sobre o seu percurso enquanto emissor-receptor de violência—recusava-se mesmo a fazer um simples diário—apenas queria ser ´surpreendido´. Havia, de fato, em Theodor Busbeck, uma convicção enorme na sua teoria: crença que tocava o místico, o não racionalizável; teoria sentida como explicação universal, ´sem exceções`.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de fevereiro de 2011)

Em 2002, em Uma casa na escuridão, José Luís Peixoto imaginava um país invadido.    Em 2004, outro talento jovem da ficção portuguesa, nascido em Angola, quatro anos mais velho que Peixoto (e que mal chegou aos quarenta[1]), Gonçalo M. Tavares, também narrava a invasão de um país alegórico em A Máquina de Joseph Walser. Fazer parte, como primo pobre e fraco, da União Européia deve ter trazido novos pesadelos ao imaginário lusitano.

     A Máquina de Joseph Walser é o segundo romance de uma ambiciosa tetralogia, O Reino (a qual corre paralela à outra série, O Bairro). Curiosamente é lançado por último aqui no Brasil, só agora, bem depois do primeiro, Um homem : Klaus Klump (2003), e dos demais: o premiadíssimo Jerusalém (2005), a notável obra de ficção da qual tirei a citação que abre este texto,  e Aprender a rezar na era da técnica (2007).

Enquanto se processa a invasão de seu país,  Joseph Walser mantém a sua rotina de homem “mediano”: opera uma maquina à qual é afeiçoado, é casado com uma mulher que o trai com Klober Muller, um de seus superiores (que gosta muito de conversar com ele), sem que isso lhe cause maior desconforto  (mais por curiosidade do que por outra coisa, investiga a identidade do amante), joga dados a dinheiro com colegas aos sábados (um dos quais se insurgirá contra os invasores) e coleciona pequenos artefatos metálicos (chegará a roubar um cadáver para acrescentar uma fivela à sua coleção): “…a sua coleção constituía a verdadeira marca individual que Joseph Walser sentia estar a deixar no mundo…”

Um acidente, porém, na utilização da sua máquina causa-lhe a amputação do dedo polegar da mão direita e ele é afastado dela: “A tristeza de Walser era, teremos de dizer de novo, lógica e racional, era aquilo que podemos expressar como melancolia infiltrada nos sentimentos da eficácia”.

Veja-se o quilate da formulação. O leitor encontrará inúmeros outros exemplos no texto.   Gonçalo M. Tavares, seguindo os passos daqueles grandes escritores modernistas austríacos, Robert Musil (em O homem sem qualidades) e, pela linguagem cortante e concisa, e sempre surpreendente (por exemplo, Walser gosta de utilizar sapatos “irresponsáveis”), sobretudo Hermann Broch (de Os sonâmbulos), traz à tona, com um sopro filosófico alimentando a fabulação, velhas dicotomias da mentalidade ocidental que deram forma à Europa: produção, mercado, eficácia, racionalidade, planejamento, lógica, contra loucura,  insubmissão, acidente, acaso, ociosidade e disponibilidade.

Outro nome pode ser lembrado aqui, também herdeiro de Musil-Broch: Milan Kundera que, num dos ensaios de A arte do romance, mostrou como esses dois mestres incorporaram os paradoxos terminais do destino europeu na vastidão das suas obras. Acredito que Kundera & Tavares prolongaram a exploração desses paradoxos terminais em sua ficção.

Kundera também aponta, no mesmo ensaio  os apelos do gênero ao qual se dedica aos quais é mais sensível. Um deles, é o apelo do pensamento: “Musil e Broch fizeram entrar no palco do romance uma inteligência soberana e radiosa. Não para transformar o romance em filosofia, mas para mobilizar sobre a base da narração  todos os meios, racionais e irracionais, narrativos e meditativos, suscetíveis de esclarecer o ser do home, de fazer do romance a suprema síntese intelectual. Sua façanha é o acabamento da história dos romances ou, antes, o convite para uma longa viagem?”

Ao longo da narrativa, Walser vai se tornando mais e mais acentuadamente um “homem sem qualidades”: “Ainda não era o verdadeiro Homem, com dizia Klober, o Homem que quando se aproxima se aproxima para matar, mas havia já nele algo de muito significativo: qualquer aproximação a outra existência, não sendo ainda para a eliminar, era já, e desde há muito, para não amar. Posso aproximar-me com segurança, pensava Walser… posso aproximar-me sem medo de qualquer pessoa porque sei que não a vou amar. Já estou preparado para não amar ninguém…”

Mas o jogo de dados (a que ele se dedicava por lazer) irá ser usado contra ele, num final delicioso e brilhante, que mostra mais uma vez o humor paradoxal desse escritor tão peculiar no cenário lusitano, e que recorre ao critério do “surpreendente” no meio da racionalidade, que aparece no raciocínio “lógico-místico” do Theodor Busbeck da minha citação de Jerusalém.

Esse apelo ao jogo (que é também um dos apelos que mobilizam o romancista Milan Kundera) está presente também no pacto quase que exclusivamente “ficcional” que Gonçalo M. Tavares estabelece com o leitor, com nomes de personagens e situações-síntese que fogem totalmente ao modelo mimético convencional, totalmente desestabilizado e desossado tanto em O Reino quanto que conheço de O Bairro[2].

É preciso ficar atento a essa nova geração portuguesa: algo de muito sério está acontecendo por ali. Não sei se a jangada de pedra vai se separar do continente europeu, mas a literatura que ali está sendo feita talvez venha a ser a melhor da atualidade.


[1] Peixoto nasceu em 1974 e Tavares em 1970.

[2] Veja-se por exemplo, esta vinheta de O senhor Valéry (os “senhores” que dão nome a cada volume são todos ligados à alta literatura), de 2001: “O senhor Valéry tinha um animal doméstico, mas nunca ninguém o tinha visto.

     O  senhor Valéry deixava o animal fechado numa caixa e nunca o tirava para o exterior. Atirava-lhe comida por um buraco na parte de cima da caixa e limpava-lhe as porcarias por um buraco da parte de baixo da caixa.

    O senhor Valéry explicava:

— É melhor evitar os afetos por animais domésticos, eles morrem muito, e depois é uma tristeza para o coração.

    E o senhor Valéry desenhou uma caixa com 2 buracos: um na parte de cima e outro na parte de baixo.

    E dizia:

__ Quem poderia ganhar afeto por uma caixa?

    O senhor Valéry, sem qualquer espécie de angústia, continuava, pois, muito contente com o animal doméstico que escolhera”.

É interessante que, pelo menos na edição brasileira, o texto vem acompanhado de uns singelos e expressivos desenhos (como o da caixa desenhada pelo senhor Valéry), o que nos leva à lembrança do Pequeno Príncipe,  de Saint-Exupéry, que também tinha essa linguagem descarnada, mas cujo apelo emocional é justamente o oposto.

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: