MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/02/2011

Viver no além


Num dos melhores capítulos de Temporada de caça (“Affliction”), o narrador dá a palavra às pessoas que testemunharam diretamente os eventos que está tentando reconstruir para o leitor. Russell Banks fez desse procedimento a estrutura total de O doce amanhã (the sweet hereafter, EUA, 1991),transformado num filme belíssimo e doloroso de Atom Egoyan (embora a adaptação de Temporada de caça, realizada por Paul Schrader, não seja nada desprezível; o problema é que, ao contrário da versão de Egoyan, dá a impressão de ser uma diluição do texto literário).

  O doce amanhã conta, de forma desoladora, é preciso dizer, um acidente com um ônibus escolar que mata quase todas as crianças e pré-adolescentes da pequena comunidade de Sam Dent. Quatro personagens tomam a palavra: Dolores, a motorista; Bill, um dos pais e herói da cidade; Nicole, uma sobrevivente (mas que ficou paralítica); e Mitch Stevens (que, no filme, é interpretado de maneira soberba por Ian Holm, uma das maiores atuações que já vi), o único “estranho” à tragédia, um advogado de cidade grande que vem oferecer seus serviços aos pais num possível processo de negligência criminosa.

     Apesar de dar origem à trama e de ser um fato quase inimaginável de tão terrível, o acidente não é o que mais importa no romance (e nem no filme). O que faz a grandeza de O doce amanhã (um título nacional muito mal escolhido, uma vez que o “hereafter” do original se refere á “vida depois da morte”, que é uma sensação compartilhada pelos personagens principais) é o entrelaçamento que faz fa constatação da precariedade da vida (o qual, não se pode deixar de admitir, fica até mais forte no filme porque ele mistura cenas acontecidas antes e depois do acidente) com a sutil descrição da desagregação da comunidade. Desagregação que já estava em curso, é verdade, e da qual o acidente foi mais um elemento catalisador.

    Já em Temporada de caça, Banks mostrara uma pequena comunidade em meio a uma paisagem gelada, onde conviviam destroços dos anos 60 com o tradicional puritanismo conformista e estranho do norte-americano médio, que faz com que muitos autores dos EUA (e do Canadá) nos mostrem os personagens mais solitários que já existiram, mesmo cercados por famílias e vizinhos. Nos últimos anos, além de Banks, e The sweet hereafter é a sua declaração mais eloqüente sobre o assunto, isso é muito perceptível na obra de Sue Miller, autora de The good mother (aqui no Brasil, O preço de uma paixão-!!!???), Por amor & A hóspede especial.

    E, no meio de veteranos do Vietnã, de hippies que ainda insistem numa vida alternativa meia boca, de pessoas que vivem da assistência social e de ajuda das igrejas, de pessoas fracassadas que moram  num lugar que apenas “está no caminho” e que, portanto, não tem qualquer atrativo, nós vamos conhecendo um pouco como eram as pessoas antes do acidente, como o simpático viúvo Billy Ansel, que tem um casal de gêmeos, escondia uma vida não tão simpática com sua esposa (há a narração de uma viagem medonha à Jamaica, na qual se alternam a esquizofrenia e a paranóia) e que, após a morte dela, começou um caso com Risa, esposa de um amigo; o também simpático e meio apagado Sam Burnell, pai de Nicole, mantinha relações sexuais com a filha, cujo depoimento no processo é uma forma de punir o pai; o marido de Risa, Wendell, por sua vez, utiliza o processo como meio de expressão  para o seu ressentimento contra tudo e todos.

    E, como contraponto, há a própria relação de Mitch, o advogado forasteiro, com a filha. Após desistir de interná-la em clínicas para viciados, ele recebe ocasionais telefonemas em que ela mente tenta extorqui-lo, o agride, e assim por diante. É essa relação horrível que permite que se extrapole o drama do lugarejo de Sam Dent e permite a Mitch proferir a grande frase apocalíptica do livro (e do filme também): “Todos nós perdemos nossos filhos”. E que se torna mais horrivelmente irônica por causa de uma lembrança da infância da filha em que Mitch teve que fazer ele mesmo uma operação traumática para salvá-la de um envenenamento (não convém contar aqui, contudo é um dos pontos altos de O doce amanhã e talvez a parte que melhor simbolize o significado da história).

     Como se vê, o romance de Russell Banks é sobre a perda, uma perda mais perversamente disseminada no nosso cotidiano e nas nossas relações do que a causa pela morte, mas que a morte transforma numa aflição irreversível (porque deixa tudo sem sentido).[1]

    Igualmente sem sentido são certas soluções da tradução: por exemplo, fazer Nicole formar-se no primário, aos catorze anos!!??; a mesma Nicole, que talvez tenha reflexões até maduras demais (é preciso aceitar certas incongruências num livro tão bom) para sua idade: “Mas eu olhava para meu pai. Olhava direto para ele. Mudei depois do acidente, e não mudei só no corpo, e ele sabia disso. O segredo dele era meu agora; eu  o possuía. Antes, era como  se eu o compartilhasse com ele; mas agora não. Antes,  tudo era fluido e mudava e confundia,  sem que eu soubesse direito o que tinha acontecido ou de quem era a culpa.  Mas agora o via como um ladrãozinho safado no meio da noite que roubou da própria filha o que deveria ser permanentemente dela—como se ele tivesse roubado minha alma ou algo que o valha… Depois veio o acidente e roubou o meu corpo…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de fevereiro de 1999).


[1] nota de 2010: Anos depois desta resenha, em 2004, perdi meu irmão caçula e The sweet hereafter se tornou mais forte para mim, nesse sentido.

1 Comentário »

  1. É uma bela resenha sobre o livro e o filme. Pouca coisa resta para ser dita e o que resta é: Parabéns, Alfredo.

    Comentário por Cássio Queirós — 22/02/2011 @ 18:14 | Responder


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