MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/02/2011

A deformação da psique masculina: o “homem” visto pelo homem


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de janeiro de 1999)

    Nick Nolte esteve entre os indicados ao Globo de Ouro e está indicado ao Oscar deste ano por sua interpretação em Temporada de caça[1], filme do grande Paul Schrader[2] baseado num romance de Russell Banks (Affliction: EUA-1989, traduzido por Geni Hirata), no qual  o narrador chamado Rolfe, um professor universitário, procura revelar a seqüência de eventos que levaram seu irmão, Wade, a assassinar o pai (esmagou o crânio dele com um rifle e depois incendiou-o) e Jack, um colega de serviço (ambos trabalhavam para uma companhia de perfuração).

      Ao contrário de Rolfe, Wade permaneceu na pequena cidade onde ambos nasceram, Lawford. Divorciado, fracassado, bêbado e violento, além do serviço que divide com Jack, ocupa o posto de único policial do lugarejo. Não que isso lhe dê qualquer prestígio ou autoridade, pois não consegue entregar sequer uma multa de trânsito ao dono de uma BMW (que coloca a multa no bolso de Wade e o manda passear).

     Três situações vão desencadear a “explosão” de Wade, ao mesmo tempo em que transcorre a temporada de caça aos veados da região: uma dor-de-dente intolerável (Wade arrancará o dente com um alicate); a luta pela custódia da filha com a ex-mulher; a possibilidade de que seu patrão na companhia perfuradora, Gordon, tenha utilizado Jack no assassinato de um importante sindicalista, morto durante uma excursão de caça.

    Mais do que uma mera historinha de fracassados e de conspirações criminosas, a Aflição de Wade e Rolfe é uma impressionante investigação ficcional a respeito da brutalidade e da boçalidade masculinas. Enquanto escrevo este artigo, vejo uma matéria sobre a rivalidade de gangues de jiu-jitsu, que levou dois idiotas a trocarem tiros numa danceteria. E toda a estrutura do livro de Banks é destinada a mostrar os estragos causados por essa cultura da porrada e da demonstração de macheza.

     Wade tem um comportamento violento e ameaçador porque, sendo costumeiramente espancado pelo pai desde criança, quando chegou à adolescência, mesmo assim não conseguiu revidar ou enfrentá-lo, como fizeram outros irmãos. Essa “covardia” inata distorceu completamente seu relacionamento com um mundo cheio de códigos truculentos (não é à toa que Temporada de caça, e nesse sentido o título brasileiro foi bem feliz, relaciona a história de Wade com a revoltante cerimônia anual dos caçadores “por esporte” chegando à região para matar o “seu” veado; aliás, qualquer sociedade que permita e tolere a caça “por esporte” jamais poderá ser chamada de civilizada e, no que me diz respeito, quem gosta de caçar está junto do estuprador, do pedófilo e do latrocida).

    Todos os personagens masculinos importantes do livro são destruídos pela mistura de frustração e violência: Wade, Rolfe, o pai deles, Jack. A esse respeito, nenhuma passagem é tão contundente em Temporada de caça quanto aquela em que Wade e Rolfe atribuem um ao outro um espancamento que teria ocorrido aos seis anos. Wade conta o episódio como se tivesse acontecido com Rolfe, este nega e diz que, na verdade, ouviu dos outros irmãos que tinha acontecido com Wade, como uma advertência do que poderia acontecer a ele. Rolfe, que está  sempre conversando com o leitor, diz então que se tornou uma criança cautelosa e depois um jovem cauteloso e, por fim, um adulto cauteloso, mutilado de qualquer espontaneidade e autenticidade na sua relação com o mundo.

   É curioso notar como Temporada de caça faz o leitor brasileiro lembrar  dos dois magistrais romances de Graciliano Ramos, São Bernardo & Angústia, que também tratam da deformação da psique masculina por causa da tradição da violência e brutalidade: tanto Wade quanto Rolfe crescem num ambiente que incita a vencer o mundo pela brutalidade (uma brutalidade que não desdenha de utilizar a astúcia), como faz Paulo Honório em São Bernardo, mas o fracasso social (de Wade) e a intelectualização da frustração (por Rolfe) lembram o Luís de Anngústia. Não por acaso ambos os livros têm como títulos distúrbios emocionais e psicológicos (angústia e aflição).

     Infelizmente, o autor de Perdidos na América fica aquém do nosso Graciliano por conta de escorregões no tom da narrativa, momentos em que ele adquire um meloso emocionalismo, um exagero da dramaticidade, que leva quase ao dramalhão, portanto ao pieguismo, lembrando muito um autor de talento que se perdeu no clima soap opera, Pat Conroy, de O príncipe das marés (que, como o leitor deve recordar, gerou um dos mais horrorosos filmes de todos os tempos, por coincidência estrelado também pelo sonolento Nick Nolte,e que também lhe rendeu uma indicação ao Oscar), no qual o narrador-protagonista também era um produto da violência e da brutalidade, que ele procura apaziguar em si mesmo ao longo da história.

     Mesmo com as imperfeições apontadas, Temporada de caça não se perde no caminho como O príncipe das marés (que, no entanto, não é de se desprezar). É  um romance marcante, forte, porque mostra que ainda temos de lutar com as forças irracionais, primitivas e desagregadoras que as pessoas geralmente se abstêm de analisar e sentimentalizam, perpetuando-as em relações familiares e amorosas.

   


[1] Mas quem acabou levando Oscar pelo filme foi o veterano James Coburn no papel do pai de Nolte, e de fato sua interpretação é muito forte.

[2] Lamentavelmente, apesar de ser uma adaptação da mais absoluta correção, não é dos filmes mais marcantes de Schrader.

2 Comentários »

  1. Caro Alfredo, parabéns pela lembrança do nome de Russell Banks. Talentoso, eu diria. Com todos os seus defeitos,TEMPORADA DE CAÇA (livro)ainda se equilibra bem em cima de suas virtudes. A analogia com a obra de Graciliano Ramos é deveras interessante. Sua crítica à versão cinematográfica também foi justa (que saudades de James Coburn!) e Nick Nolte tem sempre uma atuação que gera amor ou ódio. Na minha opinião de simples leitor, o melhor livro de Banks ainda é o pungente O DOCE AMANHÃ (THE SWEET HEREAFTER,1991) que, na minha ótica, recebeu uma versão cinematográfica também inferior ao livro, apesar de algumas sacadas legais do filme (como, por ex., a ligação com o belo poema de Robert Browning, O FLAUTISTA DE HAMELIN), do talento de Ian Holm e da bela fotografia do canadense Paul Sarossy. Eu tenho uma certa dificuldade com adaptações cinematográficas que, quase sempre, mutilam e tiram boa parte do impacto dos livros de real valor como, por exemplo, a versão em filme para o belíssimo romance AS REGRAS DA CASA DE SIDRA. Neste último caso, por ironia, o roteiro (premiado com Oscar e tudo) foi do próprio John Irving que cortou na “própria carne”, por assim dizer. Mas, pelo sucesso do filme, eu devo estar mais uma vez errado…

    Comentário por Cássio Queirós — 18/02/2011 @ 20:48 | Responder

    • Caro Cássio, concordo plenamente com você: a versão de Lasse Hallstrom para AS REGRAS DA CASA DE SIDRA é horrível, xaroposa, e o que Irving cortou da própria carne foi a essência do seu livro (mas faltou mesmo a mão de um diretor forte). No mais, também acho que o grande Banks é “The sweet hereafter” (e gosto muito do filme de Atom Egoyan), sobre o qual escrevi e estou colocando em post.
      Um abração.

      Comentário por alfredomonte — 20/02/2011 @ 19:58 | Responder


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