MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/02/2011

Robinson Crusoé na Martin Claret e a questão das traduções dúbias


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CLÁSSICOS TÊM TRADUÇÕES DÚBIAS

(resenha publicada em quatro de dezembro de 2001)

 

     Ultimamente, em qualquer livraria ou papelaria, o leitor se depara com uns livrinhos de formato atraente, com pouco capricho na apresentação gráfica, mas que sobrevivem à leitura (o que já não acontece com o empreendimento similar da L&PM) e que tem a dupla vantagem de dar acesso a clássicos, antigos e modernos, e serem muito baratos. E é até pitoresco que o nome da coleção da Martin Claret, A obra-prima de cada autor, seja desmentido pela própria lista de títulos publicados (há vários de Shakespeare, de Machado de Assis, de Nietzsche etc).

     Por conta disso, resolvi experimentar a coleção, relendo um dos meus livros prediletos, Frankenstein ou O Moderno Prometeu (1818), de Mary Shelley, o qual, sempre tão mal traduzido para o cinema, apesar de tantas tentativas, está na ordem do dia, com a possibilidade da clonagem de seres humanos. Mas outro tipo de clonagem, de deixar os desgrenhados cabelos de Juca de Oliveira/Albieri em pé, revelou-se nessa leitura: na sua ficha técnica, a Martin Claret apresenta Pietro Nassetti como tradutor. Será que é um pseudônimo de Everton Ralph, o tradutor do livro para a Ediouro? Se não for, estamos num terreno digno da série Arquivos X: duas pessoas diferentes que traduzem semelhantemente, vocábulo por vocábulo.

    O comecinho de alguns capítulos ainda sofreu ligeiras alterações, todavia é só um estratagema engana-trouxa. Por exemplo, o capítulo em que Victor Frankenstein narra as suas origens para Robert Walton, depois de umas vinte linhas encontramos em Pietro Nassetti: “Meu pai estimava Beaufort com devoção e sentia profundamente a partida do amigo em circunstâncias tão penosas, não lhe perdoando o falso orgulho que o levava a uma conduta tão pouco condizente com a afeição que os unia”. Veja-se em Éverton Ralph como o referido trecho fora traduzido: “Meu pai estimava Beaufort com devoção, e sentiu profundamente a partida do amigo em circunstâncias tão penosas, não lhe perdoando etc etc”. É um fenômeno para ser estudado essa telepatia em que duas pessoas encontram durante duzentas páginas as mesmas palavras para traduzir outra língua!

    Tal fenômeno não afetou outros tradutores de Frankenstein, como o da L&PM, Miécio Araújo Jorge Honkis (“Meu pai dedicava uma amizade muito sólida a Beaufort, e sentiu grandemente sua retirada nessa situação tão infeliz. Amargamente deplorou o falso orgulho que levou seu amigo a se conduzir de maneira tão pouco digna da afeição que então os unia”), e o da Ática, Geraldo Galvão Ferraz (“Meu pai gostava de Beaufort com a mais verdadeira das amizades e ficou profundamente magoado com esse afastamento em circunstâncias tão desafortunadas. Considerada deplorável o falso orgulho que levara seu amigo uma conduta tão pouco digna da afeição que os unia”).

    Depois dessa surpresa desagradável, nova tentativa, dessa vez com a obra-prima de outro autor inglês: Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe. E aí, outro cúmulo de cinismo: na contracapa e na página que abre o volume encontra-se a expressão texto integral. É claro que se pode ter alguma desconfiança inicial diante das magras duzentas páginas (ta certo que a letra é espremidinha) do volume, uma vez que a edição da Companhia Editora Nacional que me apresentou às aventuras do náufrago mais famoso tinha mais de quatrocentas páginas, o mesmo acontecendo com a edição clássica da Jackson com a tradução canônica de Flávio Poppe de Figueiredo & Costa Neves.

    O leitor poderá julgar por si mesmo. Na edição Jackson, a auto-apresentação de Robinson (“Nasci no ano de 1832 na cidade de York etc etc”) até sua fuga de casa para Londres, numa desastrosa primeira viagem de navio: cinco páginas e dez parágrafos. No texto integral da Martin Claret está tudo na primeira página e em três parágrafos!

    Não há nada de errado em se condensar um texto, aliás é uma prática há muito executada para atrair o leitor juvenil, para livros justamente como os de Shelley & Defoe. Agora, apresentar uma condensação como texto integral é algo indefensável pois desfigura a idéia que se terá do texto já de saída. Quanto a utilizar camufladamente, quase na íntegra, uma tradução anterior, há um nome no Direito para tal ação. Esperemos que os outros títulos publicados pela Martin Claret tenham procedimentos menos dúbios e mais corretos.

 

Adendo de 2009- Na maciota, a Martin Claret trocou sua nefanda condensação pela republicação da tradução de Flávio Poppe de Figueiredo & Costa Neves, o que foi ótimo porque trouxe de volta a mais impecável das versões brasileiras do livro. Agora a letra continua espremidinha porém são 384 páginas de texto. Um detalhe hilário: na 4ª. capa temos a seguinte afirmação: “esta nova edição sai, agora, completada com as partes que não foram incluídas nas edições anteriores”. Mas a capa da edição picareta era de melhor gosto. A nova é horrenda.

       Denise Bottmann me informou que a tradução de Frankenstein também foi substituída, por uma de Roberto Leal Ferreira.

Acesse: www.naogostodeplagio.blogspot.com

 

 

 

1 Comentário »

  1. em vista do padrão dominante no catálogo da martin claret, fiquei imaginando se essa edição condensada do robinson se basearia também em alguma tradução anterior, tipo aquelas condensadas para o público infanto-juvenil.

    Comentário por lolaxavier — 11/09/2009 @ 18:47 | Responder


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