MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/01/2011

CABALA E POGROM: “O último cabalista de Lisboa”


O último cabalista de Lisboa [The last kabbalist of Lisbon, em tradução portuguesa de José Lima, a qual, numa estranha opção editorial, foi “adaptada” para o Brasil, por Rosa Freire d´Aguiar), de Richard Zimler, narra, com terrível riqueza de detalhes, o massacre de milhares de judeus na Lisboa de 1506, quando reinava D. Manuel. Embora seja difícil para nós não associar o que estamos lendo a eventos macabros do século passado, a veracidade com que o autor norte-americano, que reside e leciona no Porto, em seu livro de estréia, cria a ambientação histórica dos lisboetas ensandecidos pelo medo da Peste e instigados por dominicanos fanáticos, saindo pelas ruas a trucidar e queimar, é um feito à parte desse livro de estréia.

Como tão bem caracterizou  Barbara W. Tuchman, no seu clássico Um espelho distante, as teorias, emoções e justificativas do antissemitismo foram estabelecidas pelos Concílios da igreja católica no século 4, mas o período de ataques ativos começou com a era das cruzadas: “O homem tem medo daqueles que transforma em vítimas, por isso os judeus eram retratados como diabos cheios de ódio pela raça humana, que secretamente pretendiam destruir. A questão de saber se os judeus tinham ou não certos direitos humanos, de acordo com a proposição de que Deus criou o mundo para todos os homens, inclusive os infiéis, teve respostas diferentes de pensadores diferentes. Oficialmente, a Igreja lhes concedia certos direitos: o de não serem condenados sem julgamento, ode não serem profanadas as suas sinagogas e os seus cemitérios, o de não serem roubados impunemente. Na prática, isso pouco significava, pois como não-cidadãos do estado cristão universal, os judeus não podiam fazer acusações aos cristãos, nem o seu testemunho tinha mais força do que o testemunho dos cristãos…”

   Como toda descrição da loucura e da ignorância que a humanidade pode alcançar, O último cabalista de Lisboa nos faz duvidar da existência de algo superior que dê sentido às coisas incompreensíveis que acontecem aqui na Terra, seja no século XVI ou no século XXI: “Sentado numa pá, via-se um recém-nascido desconhecido cuja cabeça tinham arrancado. Diante do impensável, que assim tomara forma, nenhum de nós ousava falar. Alguém pode imaginar o que significa ver uma criança decapitada sentada numa pá? É como se todas as línguas do mundo ficassem esquecidas,como se todos os livros escritos se tivessem reduzido a pó…”

Para tornar mais digeríveis (se tal operação é possível) tais eventos, Zimler cria uma trama de mistério. Aliás, o estudo da cabala parece criar um apreço por enigmas detetivescos. Nesse ambiente,  Jorge Luis Borges situou seu mais belo conto, A morte e a bússola. E mais uma vez, seguindo a trilha de O nome da rosa, temos crimes e assassinatos que envolvem manuscritos. No meio do tumulto, o cabalista Abraão Zarco, tio de Berequias (o narrador) é assassinado por um membro da própria comunidade judaica. Junto a ele, num porão onde oculta manuscritos valiosos, outro corpo, o de uma moça nua. No caos da violência da turba, Berequias, que era discípulo de Abraão, tenta descobrir qual membro do grupo de neófitos que cercava seu tio o matou e o qual a participação da morta desconhecida. Isso o levará aos mais diversos bairros de Lisboa e arredores, que coadjuvam com grande colorido todos os meandros da investigação.

Portanto, Ó último cabalista de Lisboa equaciona o papel de bode expiatório dos judeus na cultura européia com o esclarecimento de uma morte individual, porém de um membro de um gueto cuja função simbólica e efetiva era justificar o destino universal do seu povo. E Zimler, em geral, se sai bem, embora haja algo de repetitivo e inábil nas idas e vindas de Berequias por Lisboa, repetição talvez inevitável nesse tipo de narrativa nos moldes Os mistérios de Paris.

Qual é problema de O último cabalista de Lisboa, que o impede de ser um grande romance, quanto tudo contribuía para que ele o fosse? Possivelmente a antipatia que o leitor sente a maior parte do tempo pelo narrador-protagonista. Por mais primitivo que seja, é muito difícil se envolver com uma narrativa de qualquer gênero se não se cria empatia com o herói da história (Thomas Harris conseguiu criar empatia do leitor até com um monstro como Hannibal Lecter). Berequias é o ponto fraco do livro e o prejudica consideravelmente, fazendo o leitor não-judeu sentir desconforto com o abismo que o separa dos costumes judaicos.

Deixando de lado essa falta de empatia com Berequias e, em termos de mistério, com o fato de qualquer leitor experiente descobrir com facilidade quem é o assassino, Zimler pode se orgulhar de ter criado um romance policial histórico que não faz feio em seu gênero (sempre apaixonante), além de uma sempre louvável advertência de que muitas vezes a história não se repete como farsa, e sim como tragédia ampliada por novas formas de maldade.

(resenha publicada, em versão mais condensada, em A TRIBUNA de Santos em 11 de janeiro de 2011, focalizando a publicação do livro pela Bestbolso, e baseada numa versão anterior, publicada em 24 de fevereiro de 1998, à época da publicação de O último cabalista de Lisboa no Brasil pela Companhia das Letras)

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