MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/01/2011

O amante de Lady Chatterley: o infernal e a promessa do paradisíaco


Um presente inesperado para os leitores brasileiros na nova tradução de O amante de Lady Chatterley (co-edição da Penguin e da Companhia das Letras, e realizada por  Sérgio Flaksman) é o soberbo ensaio introdutório de Doris Lessing (para mim, o maior autor vivo), que eu lera há alguns anos quando foi reproduzido no Estadão, se não me falha amemória, e que mostra como a presença da guerra marca definitivamente a atmosfera do livro. Abaixo um trecho para servir como epígrafe de uma resenha mais antiga sobre o livro:

“nunca um romance mais persuasivo de propaganda tinha sido escrito em favor do casamento, da fidelidade profunda que vem não da moral pública, ou do que chamamos de resoluções tomadas por fulano ou sicrano, ou da religião, mas da unidade entre um homem e uma mulher que torna totalmente impossível o sexo casual ou qualquer tipo de infidelidade”.

( 0 texto a seguir foi publicado originalmente em A TRIBUNA de 02 de dezembro de 2003)

       Entre as comemorações literárias de 2003, talvez a mais ilustre seja a dos 75 anos de publicação de O amante de Lady Chatterley (e olhe que em 1928 foram lançados Contraponto, de Aldous Huxley, e Orlando, de Virginia Woolf), cuja mais recente tradução, salvo engano, é a de Glória Regina Loreto Sampaio, lançada pela Graal (ligada à Paz & Terra).

      Como se sabe, a trajetória editorial de O amante de Lady Chatterley foi acidentada (complicada, ademais, pela morte de D.H. Lawrence em 1930). Há várias versões do romance, que foi considerado pornográfico e circulou em cópias piratas ou mutiladas.

       “,,,poderíamos permitir-nos ouvir a respeito dos assuntos mais íntimos do próximo se houvesse respeito pela alma humana que se debate e luta, se fôssemos tomados por um espírito de fina solidariedade (…) é aí que se coloca a imensa importância do romance, se bem utilizado. Ele pode informar o fluxo de nossa consciência solidária, levando-a a lugares novos, fazendo nossa solidariedade refluir, afastando-a de coisas que já morreram… se corretamente manipulado pode revelar os lugares mais recônditos da existência, pois é naqueles espaços secretos e passionais da vida que a maré de percepção sensível precisa fluir e refluir, limpando e refrescando”.

      Como é difícil fazer justiça a uma obra desse quilate, é preciso ressaltar o ângulo que mais interesse tenha 75 anos depois e que permita verificar melhor as qualidades e defeitos do texto, pois como todos os grandes trabalhos de Lawrence (por exemplo, Mulheres apaixonadas e A serpente emplumada) a história de Constance Chatterley é desigual e desequilibrada, é genial, as prolixa demais e o protagonista masculina, Mellors, o guarda-caça (ou couteiro) que se envolve com a esposa do patrão revela-se um chato de galocha com suas preleções e diagnósticos civilizatórios.

Isso acontece porque O amante de Lady Chatterley é um romance de idéias, que aciona imagens poderosas para dar vida e substância a essas idéias, mas que muitas vezes derrapa no discursivo.

      Por um lado há um estado demoníaco da civilização: finda a Primeira Guerra, os homens estão mutilados, metafórica e literalmente (como Clifford, o marido de Constance), a natureza  e o caráter das pessoas estão sendo devorados pela Revolução Industrial, cujo símbolo são as infernais minas de carvão que desfiguram as aldeias e a paisagem da região onde se passa o romance.

      Em contrapartida, há o bucólico e o idílico: o bosque de  Wragby (propriedade de Clifford, mas alienada dele, que é uma ausência ali), no qual Mellors descobrirá a mulher-fêmea que habita Lady Chatterley, longe da falsidade (e fatalidade) do progresso e da civilização industrial. Nesse sentido, é emblemática a cena em que o casal, nu, se cobre de flores. Nem por isso, Mellors deixa de ter consciência da corda bamba em que vive. Constance lhe pergunta o sentido da sua existência. Ele diz: “Não creio no mundo, nem no dinheiro,nem no progresso, nem no futuro de nossa civilização. Se houver um futuro para a humanidade, terá de ser algo muito diferente do que temos hoje”.

      Parece simplista e regressivo, e de certa forma é mesmo. Mas Lawrence era um grande poeta (foi o sucessor legítimo de Thomas Hardy, autor de Tess, em capturar a Inglaterra agrária que sobreviveu à Revolução Industrial) e consegue momentos belíssimos nessa contraposição do infernal e do paradisíaco (ou da promessa do paradisíaco, sempre ameaçado e frágil).

     O livro só perde sua intensidade quando quer se explicitar demais. Lawrence, aliás, escreveu um pós-escrito (encontrável em outra tradução, a de Fernando Ximenes, pela Ediouro; há ainda uma tradução mais conhecida e reeditada, a de Rodrigo Richter) em que formula claramente suas idéias, e de um modo mais belo e contundente do que o exposto na pedagogia fálica entre Mellors e Constance, que revolta tanto—e com razão—as feministas. Para ele, as pessoas desvitalizaram-se por esquecer das suas necessidades verdadeiras, que estão ligadas ao ritmo de nascimento, morte e regeneração do cosmo e das estações.

     O ensaio permite entender melhor por que ele inicia o romance com as famosas palavras, “Nossa época é essencialmente trágica; assim sendo, recusamo-nos a vivê-la como tal. O cataclismo aconteceu, estamos entre as ruínas”. O curioso é que, considerado imoral e desmoralizador dos costumes, o grande escritor inglês defende o casamento e a igreja católica por estarem sintonizados com as profundas necessidades interiores do ser humano: “Eu entendo que o matrimônio, ou algo parecido com ele, é essencial, e que a igreja antiga conhecia bem as necessidades persistentes do homem, além das necessidades espasmódicas de hoje e de ontem”.

    Setenta e cinco anos depois, todas as questões de O amante de Lady Chatterley ainda estão presentes.

    E a mais trivial e deliciosa é: Lawrence seria mais Mellors ou Lady Chatterley?

(uma versão mais condensada da resenha acima foi publicada em A TRIBUNA de 25 de janeiro de 2011)

2 Comentários »

  1. caro!

    esse livro realmente é uma delícia, como uma boa obra de arte. é perturbador lê-lo depois de tantos anos tendo a consciência que ele fervilhaca na cabeça e no coração das pessoas da época…são muitas ideias, muitas verdades…achei complicado você realçar esse viés de que lawrence colocava o casamento e a igreja católica como salvadores na trama. eu pelo menos li o livro, fiquei emocionado e não percebi isso. eu percebi o que você também falou, aí sim, sobre o fato dos homens “industriais”, modernos, perderem a natureza, o bucólico da vida e se tornarem menos homens. há até um personagem que graceja com proust e seus leitores, se não me engano. é um livro belo, acho que toda mulher feminista ou não deveria lê-lo e compreender o lado masculino das coisas. é um livro que agita o espírito, que realça a importância do sexo, ao mostrá-lo como agente fundamental para compreendermos a beleza da vida, como quando um homem está em pleno relaxamento pós coito. eu sinto dh lawrence assim, como um crítico ao homem que se afasta do essencial por pequenas ninharias!

    Comentário por vinicius — 08/06/2012 @ 4:33 | Responder

    • Caro Vinícus, eu não realcei nada, utilizei as reflexões de Lawrence sobre os seus propósitos ao escrever LADY CHATTERLEY e acho que ficou claro que os propósitos conscientes do autor sempre ficam aquém do que um belo livro proporcina.
      Obrigado pelo seu comentário. Abraço, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 08/06/2012 @ 16:26 | Responder


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