MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/01/2011

A ESCOLA DA POSSIBILIDADE


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Já afirmei que Tolstói é um escritor perigoso de se ler, pois parece demarcar o limite do que se pode dizer com palavras. Por isso, a sensação (exagerada, é claro) de que qualquer outra leitura fica sem graça, empalidece, diante da obra desse que talvez seja o autor supremo. Um dos exemplos cabais dessa afirmação é A morte de Ivan Ilitch, que a 34 lançou recentemente, o que se mostra bem conveniente no momento em que a Record reedita o importantíssimo A negação da morte, de Ernest Becker.

É quase chocante ver a ausência da novela de Tolstoi num ensaio tão abrangente sobre o terror da morte que embasa a nossa existência. Aproveitando o ensejo, o único reparo grave que pode ser feito a um livro admirável é a mediocridade das referências literárias ou filosóficas, revelada por citações de segunda mão ou observações empobrecedoras.

Dentro da perspectiva de Becker (de que até o caráter é uma construção mentirosa destinada a fazer esquecer um terror que poderia nos enlouquecer), o pai da psicanálise é o grande pensador dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855). Este opunha possibilidade (ou seja, um universo basicamente apavorante e esmagador) e necessidade (o mundo que construímos à nossa volta, mentiroso e trivial). A vida “normal” seria o filistinismo, a acomodação. Becker: “Kierkegaard teve um vislumbre da liberdade para o homem. Não tinha uma idéia fácil do que a ‘saúde’ é. Mas sabia o que ela não era: não era um ajustamento norma. Ser um indivíduo normal é, para Kierkegaard, ser doente. A saúde mental é algo muito além do homem, algo a ser atingido e pelo qual se deve lutar, algo que leva o homem para além de si mesmo.”

O homem é o animal paradoxal, consciente de si mesmo, ridiculamente emparedado na condição de criatura mesmo possuindo uma vida simbólica: “Este é o horror: ter surgido do nada, ter um nome, consciência de si mesmo, profundos sentimentos íntimos e apesar de tudo isso, morrer. Parece uma mistificação. Que tipo de divindade iria criar um alimento para vermes tão complexo e caprichoso?”

Esse “impasse” é o elemento crucial para que se entenda que há uma “escola da angústia”, na qual o currículo é a desaprendizagem da repressão, de tudo aquilo que ensinamos a nós mesmos a negar para podermos viver na necessidade sem os perigos da possibilidade. Esse reaprendizado nos salvaria também dos distúrbios que resultam de um desajustamento a essa máscara social (esquizofrenia, depressão, psicose).

Educação, nesse caso, significa enfrentar nossa impotência natural e a finitude. É a salvação pelo desespero, o morrer para renascer, a transcendência, enfim (e, no caso de Kierkegaard & Becker, há o salto para a fé, a ligação entre esse profundo desmascaramento da psicologia da humanidade com a religião).

E é na escola da angústia que Ivan Ilitch acaba matriculado, graças a uma doença que se desenvolve misteriosamente e que o segrega da sociedade. Ele, que sempre procurara viver comme il faut, ou seja, dentro da conveniência e decência, descobre a mais terrível solidão: a consciência de que morrer também acontece com a gente, que não adianta nenhuma racionalização ou sentimentalismo. Mas ao se deparar com a verdade, descobre que a morte, ao fim e ao cabo, era a vida que ele vivia.

A obra-prima de Tolstói não consola, não aplaca nenhum terror ou angústia. É uma lição concisa do máximo que a literatura pode fazer por nós: confrontar-nos com nossa mortalidade e abrir nossos olhos. Ou seja, tirar-nos da necessidade e nos jogar no meio da possibilidade.

(resenha publicada em três de fevereiro de 2007)

_________________________

5 Comentários »

  1. alfredo, o livro do tolstói é mesmo impressionante.
    e é atual (quando trata das questões sociais – vi a cidade do ilitch como se visse a minha cidade e seus habitantes. é muito cômico ele falando dos novos ricos do lugar, dos endinheirados loucos por ostentação) e eterno (quando trata da agonia da morte).
    fiz a distinção pelo desejo ingênuo de que as pessoas mudem, já que a morte não mudará.

    o livro é terrível. eu soube dele através de várias declarações da hilda hilst, que o considerava uma das maiores leituras que tinha feito.
    é terrível e cômico. é esperançoso e desesperador, porque a esperança é imediatamemte seguida de sua negação.

    no começo da leitura, pensamos que a morte de ivan ilitch é o fato de a doença estar comendo o homem; mas, depois, vemos que a morte já existia, era a vida dele. o livro narra concomitantemente a doença degenerando-o e a vida (?) do homem, e vê-se que essa vida (?) era um falseamento. então, enquanto “morre”, ele percebe que sempre esteve morto. essa consciência seria a tal esperança; mas, ter essa consciência quando já é tarde… dá-nos apenas a chance de apaziguar a mente, já que o corpo nunca mais será apaziguado.

    gostei de ter relacionado o tolstói e o becker (também conheci o becker através de declarações da hilda hilst. além dela, a lygia fagundes telles também sempre cita o livro).
    no fim de tudo, ilitch percebe que ter vivido na necessidade negou-lhe a possibilidade de ter sido feliz ou real. mas, é nada fácil ser feliz sob a égide da finitude. ou talvez isso de ser feliz seja apenas como chifres: coisas que nos colocam na cabeça.

    falei demais e não sei se falei algo.

    foram só impressões.

    Comentário por niltonresende — 18/08/2010 @ 12:15 | Responder

    • Caríssimo Nilton, o seu comentário foi um dos que mais gostei até hoje entre os que apareceram no blog. Aliás, indiretamente eu soube da existência de Ernest Becker através de Hilda Hilst, no belo artigo de página inteira que Léo Gilson Ribeiro escreveu no Jornal da Tarde, em fins de 1982, em função do lançamento de A Obscena Senhora D. E foi através da leitura deste que considero um dos mais bonitos livros da Hilda que fiquei sabendo da existência de Ivan Ilitch. Há outro artigo meu sobre o texto de Tolstói no post O escritor-limite.
      Aqui estamos no terreno do absoluto, dos limites, dos confins… E sempre me emociono quando lembro dessas leituras dos meus 17, 18 anos.
      Um forte abraço.

      Comentário por alfredomonte — 18/08/2010 @ 16:48 | Responder

  2. pô,
    que massa.

    li o ivan ilitch aos 19. e a senhora d., aos 18, acho.
    lemos os dois no mesmo período, e seguindo um mesmo itinerário.

    :]

    Comentário por niltonresende — 19/08/2010 @ 12:50 | Responder

  3. Li esse A NEGAÇÃO DA MORTE com muito interesse. Reli, não me bastou uma leitura, e o achei melhor ainda. Mas, quanto ao A MORTE DE IVAN ILLICH, é admirável, li pelo menos cinco vezes, sempre o achando um modelo de novela, e sempre espantado com a perfeita compreensão de Tolstoi quanto à vida de um homem medíocre que nem suspeitava que poderia, como o resto da humanidade (que, afinal, não era ele, ou de que ele queria crer não fazer parte, sendo Ivan Illich e não um ser humano…)morrer.É extraordinário. Já indiquei esse livro a muitas pessoas, mas sinto que ele incomoda até hoje – não instaura aquela atmosfera de consolo antecipado e de redenção garantida que acompanha certos livros menos corajosos sobre a morte. Toca no nervo e pronto. Aquela família de Illich, aliás, com sua obsessão por festas e sua aversão pelo patriarca que começou a sua agonia em vida, coisa desagradável ao extremo para quem não quer pensar em nada, muitas vezes me evocou a família de Gregor Samsa, de A METAMORFOSE do Kafka. Não é preciso que sejamos bizarros ou desajustados em excesso pra afastarmos as pessoas – basta que ela, Dona Morte, se aproxime; todos fogem dela: o único fato essencial e inexorável da vida é precisamente o mais temido. Assim se via, também, a recusa dos amigos de Swan, uns fúteis crônicos, em levar a sério a sua doença e se evadir até mesmo à obrigação humana de comparecer ao seu velório, na RECHERCHE…de Proust.

    Comentário por Chico Lopes — 22/04/2013 @ 17:03 | Responder

    • Eu também li muitas vezes o Ivan Ilitch, e tenho uma opinião muito parecida com a sua, Chico. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 22/04/2013 @ 19:18 | Responder


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