MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/01/2011

O último ato de uma possível “trilogia do exílio”: O sol se põe em São Paulo


Bernardo Carvalhoosolsepoe

Nos dois últimos romances de Bernardo Carvalho, Nove noites (2002) e Mongólia (2003), os narradores se viam, em sua obsessão investigativa, às voltas com fiapos de informação, fatos mínimos, desencontrados, prenhes de pistas falsas, e relato adquiria uma conotação incômoda, uma vez que se esboroava, se esgarçava, fazia-se fantasmático. Que havia o desejo de contar histórias (Carvalho é um pouco irmão de armas de Paul Auster), isso havia, todavia elas (com resultados qualitativos bem diversos,  pois considero Nove Noites infinitamente superior a  Mongólia)   furtavam-se, desrealizavam-se nas “convenções da realidade”.

Até certa altura de O sol se põe em São Paulo, tem-se a impressão de que finalmente haverá um encontro entre o desejo do narrador e o relato, que este não será mais uma ilha do dia anterior. É inegável que se trata de um desencontrado: descendente de japoneses, não se sente em casa no Brasil (mais adiante, sentirá o mesmo no Japão, que não conhecia ainda), frustrado em sua ambição como escritor; desempregado, sem mulher, nunca escreveu nada. Um dia, a macróbia dona de um restaurante na Liberdade pergunta se é escritor, ele diz que sim, ela se dispõe a lhe contar uma história. O leitor habitual de Bernardo Carvalho espanta-se com sua  linearidade e coesão, ainda que narrada em meio aos ataques promovidos pelo crime organizado e tendo como palco a caricatura de um jardim japonês escondido pela fachada de um sobrado.

Mas é uma trama (no após-guerra japonês) que envolve um gênero teatral, o kyogen (farsa, artimanha, simulação). Setsuko, a dona do restaurante (ela mesma, uma simuladora), desaparecerá e encontraremos, então, uma afirmação que poderia estar nos livros anteriores: “Não conseguia juntar as peças, embora tudo estivesse diante de mim”.

A partir daí, querer saber o seu final e relatá-la se confundem na mente do narrador e também com esqueletos escondidos no armário da imigração, e mais o paradeiro de um criminoso de guerra e de um herdeiro afastado do front pelo pai, que mandou outro em seu lugar, um burakumin, pária na sociedade japonesa (o próprio narrador se vê como um burakumin existencial)…

Em algum ponto de O sol se põe em São Paulo alguém diz: “Leia isto, essa coisa urgente que é a leitura de algo empolgante, e quanto mais o relato inicial, tão certinho, se esfacela, mais a evidência de que Bernardo Carvalho é um dos melhores escritores atuais vai se impondo. Não é mais possível parar de ler. Um momento culminante é o reencontro entre o narrador e sua irmã (que foi para o Japão como operária, nessa inversão sarcástica da imigração que estamos vivendo), em Osaka, por apenas uma árida noite, num monstruoso (em todos os sentidos) cybercafé, onde se pode navegar, comer, tomar banho e dormir.

Carvalho só erra a mão no capítulo no qual se revela o teor da carta da falsa Setsuko que o narrador carregava. Veja-se um trecho, onde se comenta a recepção de Yukio Mishima, em visita ao Brasil, por um grupo de compatriotas: “Da parte de Mishima, só a loucura podia explicar a convivência pacífica de um escritor homossexual de talento extraordinário com um grupo de fascistas iletrados a justificar uma pretensa coesão de classe”. Isso não é Setsuko, falsa ou não, escrevendo, e sim o Bernardo Carvalho das suas colunas na “Folha de São Paulo”. A não ser que já seja o romance que o narrador por fim escreve… Vamos dar o benefício da dúvida.

Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em dois de junho de 2007

novenoitesmongólia

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