MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/01/2011

A velha disputa entre a prima rica e o primo pobre: Dona Paródia e Seu Pastiche


tabajara ruaso detetive sentimental

O DETETIVE SENTIMENTAL PERDE-SE NO BESTEIROL

   O herói de O Detetive Sentimental é Cid Espigão, investigador particular desempregado, em Porto Alegre, e que sobrevive como segurança de boate.  Logo nos primeiros capítulos (são 43 ao todo), ele ajuda um playboy bêbado a entrar no seu carro e ambos são seqüestrados por uma dupla estonteante de loiras (na verdade, usam perucas e são carecas) que os levam para os esgotos da cidade, diante do trono de sua líder: o playboy, um mexicano chamado Cisco Maioranos Júnior, será julgado pelos crimes do pai (embora ele seja filho daquele de quem herdou o nome, elas afirmam que seu pai é um tal Terry Lennox). Quanto a Cid Espigão, ainda que tenha entrado incautamente na situação, será devorado ou pelos ratos ou pelos jacarés que infestam as galerias subterrâneas.

    É um começo divertido, porém perigoso, dependendo do rumo que a trama seguirá. E logo constatamos o quão perigoso era: Cisco e Cid conseguem escapar dessa primeira situação de perigo, o detetive é contratado pelo mauricinho, e somos levados ao Pantanal (o pai do cliente tem uma fazenda no Mato Grosso) e depois aos EUA e ao México. Antes disso tudo, aparece um assassino chinês chamado Chung Ching Chim, falando como o Cebolinha da Turma da Mônica, e aí já sabemos que estamos no reino do besteirol. Entre os disparates que O Detetive Sentimental oferece temos: o bunker de um ditador, El Generalíssimo, em pleno Pantanal; uma tribo de cortadores de cabeças, cuja princesa perde a virgindade para Cid Espigão; uma caçadora de nazistas; uma cobra que engole um piloto de avião; um lobisomem; a aparição na trama de Philip Marlowe, o supremo detetive do noir; a transformação dos braços do herói em cobras em pleno deserto mexicano, quando então ele encontra um curandeiro centenário que o leva a uma pirâmide e… ufa, e ainda há a seita satânica que domina a mente de todos os vizinhos de Espigão e um gato maligno… ah, e também seres criados em laboratório…

    Tabajara Ruas não nos poupa nem do ridículo de fazer aparecer aquelas irritantes piruetas voadoras tipo O tigre e o dragão ou Cirque du Soleil: “E então você, detetive Cid Espigão, assistiu algo inacreditável: a bela Irmã Um deu dois passos e tomou impulso, dando um salto. Mas o salto foi mais do que um salto, foi um vôo de quatro metros de altura, passando sobre a cabeça de Chung Ching Chim e caindo atrás dele. Chung voltou-se para a Irmã Um, com a Magnum apontada” (pág. 408).

     Decerto, o autor gaúcho pretendia que seu livro fosse uma paródia, e toda paródia deveria por definição conter uma crítica. Confesso que não penetrei nos arcanos da mente tabajarana e não consigo ver o propósito de O Detetive Sentimental, a não ser o mesmo de besteiróis do tipo Todo mundo em pânico: despejar de cambulhada todo um entulho de referências, todo o lixo tóxico da indústria cultural. É exatamente o que fazem tantos filmes B e blockbusters e também tantos autores jovens que vinculam ficção ao sobrenatural e ao fantástico: todos eles misturam de forma estapafúrdia tantas coisas diferentes que elas perdem identidade, sabor, e se tornam irreversivelmente auto-paródicas, frívolas e risíveis. É um universo estético sem leis, e portanto sem consistência ou valor.

    No final, o cliente de Cid Espigão, Cisco Maioranos Júnior vira mulher (Dolores) e foge com Chung Ching Chim da maldade familiar. Ximena, sua irmã, revela-se a líder da seita secreta das mulheres carecas (“o rosto dela começou a partir-se em dois, pois a longa unha do seu dedo indicador descia por ele como se fosse um faca. Debaixo dos pedaços de pele que caíram até o chão havia outra carne e outro rosto”). E o pai deles, Cisco Maioranos, é Terry Lennox… e o Diabo. Quando o enfrenta no último capítulo, Cid Espigão o vê como realmente é (“o homem sentado na poltrona diante de mim tinha a cabeça de um touro negro com dois cornos afiados”).

    Meu Deus, fui um desmancha-prazer, revelei o final da história.  Ah, é verdade, não há prazer algum a desmanchar, só o aborrecimento de ler 440 páginas inúteis.

____________________________

Serviço: O Detetive Sentimental, de Tabajara Ruas. Coleção Negra. Record. 446 páginas. R$52,90.

(RESENHA PUBLICADA EM  “A TRIBUNA” EM 15/09/09)

ANOTAÇÕES DE LEITURA

INTRODUÇÃO (09.09.09)

        Volta e meia me ocupo de  algum título de uma das duas séries policiais que mantém uma constância já de anos: a da Companhia das Letras e a “Coleção Negra” da Record. A essa última pertence O DETETIVE SENTIMENTAL, do gaúcho Tabajara Ruas, que tem 440 páginas. Já li uma boa parte delas e estou na maior perplexidade. A princípio, achei que era uma pilhéria com os clichês do tipo de romance cujo herói é o detetive durão ( no fundo, todos os durões do noir são sentimentais), o que seria muito batido não fosse a ambientação em Porto Alegre e a inegável qualidade da prosa do autor (que é o motivo pelo qual ainda estou lendo o texto, por mais que ele me desagrade o tempo todo). Mas agora parece que Tabajara Ruas, sem perder o vezo de besteirol (antes pelo contrário, acentuando-o), parece que embarcou numa linha Carlos Ruiz Zafón, o autor de O jogo do Anjo & A sombra do vento, devido à presença cada vez maior de elementos fantásticos, os quais me parecem, francamente, ridículos.

       Ao que parece, Ruas retoma, trinta anos depois, o “herói” (o detetive particular Cid Espigão)  do seu romance de estréia, A região submersa (belo título), também publicado na mesma série. De lá (1978) para cá, ele publicou romances que tiveram certa repercussão (Os varões assinalados, Netto perde sua alma) e dirigiu alguns filmes.

       Há muito charme no seu estilo, tanto que mesmo sem estar gostando especialmente da história, estou totalmente envolvido por O DETETIVE SENTIMENTAL.

         Bem, além de pequenas discrepâncias na ortografia de nomes e palavras e até da época do ano (o narrador diz que tudo começou em agosto de 1987, depois afirma que é junho), que podem ser propositais, ainda que eu não atine na sua razão de ser; além de mudanças no foco narrativo (ora em primeira pessoa, ora numa segunda pessoa, como se o narrador estivesse se dirigindo a si mesmo, ora na terceira pessoa), procedimento que também parece gratuito; bem, além disso tudo, o andamento da história, que começava divertidamente exagerada, já chegou a um ponto em que se aparecer extraterrestre, vampiro ou templários, não vou me surpreender. O sexagenário Tabajara Ruas (nasceu em 1942) parece aqueles (infelizmente numerosos) autores jovens que praticam uma literatura fantástica meio chinfrim porque tentam misturar nossa realidade brasileira às fórmulas americanas e européias, e o resultado é sempre meio constrangedor.

continuação (10.09.09)

       Quando o livro começa, Cid Espigão (que ama a obra do uruguaio “suavemente perverso” Juan Carlos Onetti, num cruzamento de referências que não ajuda em nada a narrativa) está desempregado como detetive, com a arma no penhor (a única coisa de que não lança mão para penhorar é a cadeira do cliente, sagrada para ele), trabalhando como segurança de boate,  e recebendo a visita do folclórico Tio Chinão, o qual personifica o gaúcho proverbial, nas vestes e nas falas (após 40 anos trabalhando numa estância foi “aposentado” sumariamente, com uma mão na frente outra atrás, como ele mesmo diz, e veio cavar algum trabalho na capital). Na tal noite de agosto (ou será junho?), Espigão ajuda o playbozinho bêbado Cisco Maioranos Junior a entrar no seu rolls royce prateado (o livro começa assim: “Curvado sobre a porta do Rolls Royce, segurando as chaves, o bêbado ergueu um olhar interrogativo, onde poderia haver um anúncio de súplica”) e duas loiras estonteantes (uma delas, que lembra Jane Fonda, é chamada pelo narrador de “a mais bela mulher do mundo”) rendem a dupla (não antes de os dois descobrirem que as fartas cabeleiras louras são perucas e que as duas são carecas; a princípio eu achei que seriam travestis) com hilárias  pistolinhas com cabos de madrepérola. Os dois são levados para as entranhas dos esgotos de Porto Alegre, onde há uma mulher num trono, que diz a Maioranos que ele será réu em um julgamento. Espigão, por sua vez, que entrou na situação de gaiato, é trancafiado numa cela na qual milhares de ratos o atacam. Ele só não é devorado porque arrebenta uma tubulação e consegue escapar por uma abertura, após a água encher o recinto. Ao invés de encontrar libertação, se depara com jacarés (é isso aí, mesmo, leitor, nos esgotos de Porto Alegre) que o atacam, mas ele é salvo no último momento por Cisco Maioranos, que parece ter um”cinto de utilidades” (e que foi deixado “livre, leve e solto”,por assim dizer, pelas mulheres de peruca).  Correndo dos jacarés, os dois caem num abismo e são levados pela corrente, numa espécie de pesadelo sub-Sobre heróis e tumbas, a obra-prima de Ernesto Sábato onde há uma sequência similar envolvendo um dos protagonistas, Fernando Vidal Olmos (mas que diferença!!!!). Peripécia vai, peripécia vem,  eles conseguem sair do mundo dos esgotos e chegam à superfície numa lixeira, onde são perseguidos por pivetes que tentam incendiá-los. E esses foram os quatro primeiros capítulos.

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       No seu apartamento, assistido pelo recém-chegado Tio Chinão, Cid Espigão jaz adoecido (também foram milhares de mordidas de ratos) por tr~es dias. Recuperado, ele pensa (pois quando o texto se inicia, acabou de fumar um baseado) se não sofreu um baita pesadelo, uma bad trip  (“Sentei-me na cama, o coração pensando. As louras de peruca! Os ratos. O subterrâneo da Borges! Os jacarés! Santo Deus, teria sido tudo um pesadelo? O baseado estaria batizado com alguma droga pesada?”), mas recebe um bilhete de Cisco Maioranos, que deseja contratá-lo profissionalmente. porque, além da aventura que viveram, suspeita que está sendo seguido e mulheres misteriosas telefonam-lhe com ameaças, mencionando uma “dívida de sangue” e um tal Terry.  Os dois se encontram numa churrascaria e Cisco revela ser mexicano, filho de um latifundiário(para cúmulo do ridículo, ele é estudante de filosofia e está preparando uma tese sobre Spinoza, dá para acreditar, claro): “Meu pai tem fazendas no Mato Grosso do Sul e propriedades na Bolívia e no Paraguai… Mas acho que o negócio principal são os cassinos, em Las Vegas… Ele centraliza tudo, não deixa ninguém tomar parte nas decisões de negócios importantes. E tem outros negócios: petróleo, indústrias… Mas eu sei muito pouco sobre isso”

     Nisso, eles vêem uma das mulheres que os levaram ao subterrâneo e correm no seu encalço, no rolls royce de Cisco. Mas uma kombi investe contra eles e explode. Escapando ilesos, eles se deparam, na luxuosa suíte do hotel de Cisco, com um portentoso assassino chinês, Chung Ching Chim (a essa altura, eu já não levava mais o livro a sério),o qual fala como o Cebolinha (parece que estamos lendo uma tradução ruim de algum autor B), e que com uma espada decepa uma das mãos do Tio Chinão (que agora já não poderia sair da estância “com uma mão na frente e a outra atrás”, com certeza), além de dar golpes que quebram móveis, destroem o telefone e abrem um buraco na parede. Só não dá cabo do trio porque Tio Chinão mesmo maneta consegue prender seus pés com uma boleadeira.

      Cisco recebe outro telefonema, e a mulher o chama de “irmãozinho”, diz que ambos são filhos de Terry Lennox e que ele deve ir a Las Vegas, a um cassino chamado Terrapin Club, falar com um tal de Randy Starr. Porém, Cisco envia o seu detetive contratado, Cid Espigão, primeiro para o Mato Grosso, para a fazenda do pai: “Quero que você fale com minha irmã”, que não é a do telefonema, mas a real, Ximena. Antes de viajar, Cid descobre que a Seita das tais mulheres marcou seu apartamento com uma cruz de sangue (é mole?).

     O avião, um jato de oito lugares, rota Porto Alegre-Cuiabá, leva além de Cid uma mulher loura, magra, alta, usando óculos de lentes grossas e um homem que parece morto. E cai no meio do Pantanal. Sobrevivem os três passageiros e um piloto, que está em choque e regrediu ao estado infantil, chamando Cid de “Papai” !!!!! Eles enfrentam o ataque de jacarés (não iguais àqueles do subterrâneo, os quais, segundo Maioranos, foram treinados pela CIA) e são resgatados  por uma piroga na qual vem sentado o Reverendíssimo Cardeal Acevedo e que é conduzida pelo Capitão Marvel (um índio de braços raquíticos, com apenas um dente na boca e usando um “macacão amarelo, puído, colado ao corpo, e que lhe ficava pelo meio das canelas. No peito, meio descosido, um raio de veludo vermelho. Nas costas, presa ao pescoço por uma corda desfiada, esvoaçante capa de seda azul. Estava descalço, os pequenos pés escuros embarrados”), que os declara prisioneiros de Sua Excelência, El Generalíssimo. Nesse passo, entramos numa espécie de versão tupiniquim e pândega do bunker do enlouquecido Kurtz de Coração das Trevas.  Pois bem, El Generalíssimo é um sujeito que pesa 180 kilos e que age como imperador do lugar, tendo os nativos sob seu comando, e negócios com contrabandistas e ate com o pai de Cisco Maioranos. Quem tem negócios com este último também é a outra passageira do jato caído, a loira, Golda, que caça nazistas para o latiundiário (o homem que está com ela e que realmente está morto é uma presa, era um deles). Como se vê, estamos num  samba-enredo sem pé nem cabeça. Há também uma escrava de El Generalíssimo, que é na verdade a princesa de uma tribo que coleciona cabeças dos seus inimigo.  Antes de a tribo atacar (comandada pelo irmão da princesa, que não pode governar sua tribo por ser homem, já que sua sociedade é matriarcal, e por isso aderiu ao marxismo para libertar as massas da sua alienação), o piloto que sofria de crises de tatibitate é devorado por uma imensa jibóia chamada Fraternidad, cena narrada com pormenores gráficos e que deve ter se inspirado no filme Anaconda. E de onde saiu essa tribo de colecionadores de cabeças? Apesar de todo o nonsense estapafúrdio, numa saraivada de disparates como ainda estou para ver igual, dois detalhes me divertiram muito: em primeiro lugar, El Generalíssimo, que sempre invoca a proteção que oferece aos “direitos humanos” e depois manda torturar, matar ou cometer horrores decretando que os direitos humanos estão suspensos por duas horas,ou até o amanhecer, etc (isso sem contar o Cardeal que tem um manual da Inquisição para inspirá-lo nos interrogatórios aos prisioneiros do Generalíssimo); e em segundo ludar,  o esdrúxulo monarca chama os jacarés de “ingleses”, descrevendo suas características psicológicas. Prova de que, apesar da gratuidade irritante do seu romance, Tabajara Ruas não é nada bobo.

      Após muitas páginas e peripécias indianajonescas (El Generalíssimo acaba comido por piranhas, só sobrando a cabeça), Cid Espigão transa com a princesa da tribo selvagem, restituída à sua dignidade. E dorme… acordando sozinho em pleno pantanal. O Capitão Marvel lhe explica (será o seu guia para que ele alcance a terra firme e depois a fazenda dos Maioranos): ela só podia ofertar sua virgindade a um estrangeiro, desde que depois ele partisse, é o costume!

     Ufa, ele agora é hóspede dos Maioranos. E descobre que Cisco pai nada tem de mexicano, com seus olhos azuis muito norte-americanos! Além de ser um gangster ameaçador, que causa medo na própria filha. E pode ser outra coisa, pois um lobisomem (é isso aí, leitor) aparece no quarto de hóspedes de Cid Espigão em plena lua cheia. Não satisfeito com essa bobajada, na volta de Espigão para Porto Alegre (o cliente e Tio Chinão já foram para os EUA), o autor faz com que todos os vizinhos do detetive estejam possuídos pela seita satânica e o cercam. Até o gato que fica na escada do segundo andar se transforma sobrenaturalmente. E Porto Alegre parece a Barcelona de Zafón, transfigurada por um imaginário para lá de discutivel: “… eu estou com medo. A cidade de Porto Alegre está contaminada: doença maligna a corrói”,  lemos na pág. 241, capítulo 22.

      Amanhã vamos para os EUA…

11.09.09- continuação da leitura de ontem:

       Nos EUA, eles procuram Randy Starr um mumificado macróbio, que os informa que Tenny Lennox era um “herói” (“Um herói não é o mais valente ou o mais nobre. É aquele que, depois de três dias numa trincheira cheia de água, sem comer nem dormir, ainda tem forças para apanhar  uma granada dos alemães e mandá-la de volta“),mas que tivera uma história trágica: “Dizem que ele tinha matado a mulher. Fugiu para o México.O México é um bom lugar para uma pessoa fugir, mas alguma coisa deu errado. Meteu uma bala na cabeça.”  E evoca os tempos de guerra, uma evocação chatíssima, aliás, mas que fornece o gancho para reforçar a idéia de Maioranos Pai é na verdade Terry Lennox, já que este fora prisioneiro dos nazistas e o latifundiário financia caçadas aos nazistas.

    Nos EUA, o trio (o cliente, o detetive e o tio folclórico) recebem nova visita de Chung Ching Chim, que passou para o lado deles. Aí então vão para um clube noturno, o Gipsi´s, onde iipera a música punk (“foram envolvidos violentamente na teia urdida pela música alucinada dos Sex Pistols”) e é nas redondezas do Gipsi´s que Cid Espigão reencontra a perigosa mulher mais bela do mundo, a Irmã Zero, e ambos vivem uma dos capítulos amoroso-sexuais mais horrendos de que já se teve notícia na ficção (eles sentem que estão numa “trégua” e fazem amor num parquinho de diversões, no barco do amor, na roda gigante, etc) e ela tira a peuca: “Era o lado verdadeiro ou que poderia ser o lado verdadeirodela, que se revelava, e era u lado extremo, desafiador, acima das leis e convenções a que estava acostumado, e que considerava  plenas e aceitas por todos”. Não se pode deixar de notar que apesar de sentimental e fodido na vida,nosso herói mesmo assim é um fodão com as mulheres, sendo objeto de desejo da Irmã Zero,da Princesa do Pantanal e até de Ximena, a irmã do cliente: “Caminharam de mãos dadas, gozando o doce prestígio de desafiar o destino, incomodados pela proximidade da manhã, escondida atrás do azul cada vez mais claro do céu. Ele comprou um sorvete de morango e uma rosa de uma menina mexicana… Tinham se amado no alto da roda-gigante, apertados na barquinha, as pernas dela apoiadas em seu ombro. Amaram-se depois, vestidos, em pé contra o muro do estacionamento, ouvindo o som do sax atravessá-los de nostalgia. Amaram-se na areia que se tornava rosa, quando no horizonte do mar apontou a primeira fímbria da manhã, dourada e vitoriosa”.

      Para arrematar essa abobrice toda, ela dá uma dica a Cid: ele tem de falar com um homem chamado Philip Marlowe. E aí  O DETETIVE SENTIMENTAL despenca ladeira abaixo. Nem vou me dar ao trabalho de resumir a participação de um envelhecido e chatinho Marlowe nessa sequência americana.  Ele surge na pág. 274 (num asilo) e só nos livramos dele na pág. 329 (nesse ínterim, Randy Starr foi eliminado e Cisco Maioranos Júnior sequestrado).

    Tio Chinão volta para o Brasil  e Cid Espigão vai para o México de ônibus, a partir do capítulo 32 (e eu já achando o livro interminável, enfadado ao extremo). Vem então o pior: durante a viagem todos os passageiro se tornam gordos imensos, as mãos do detetive sentimental começam a esverdear e seus braços viram cobras (justificando a capa da edição da Record, aliás). Ele é expulso do ônibus suspeito de rir (já que todos são gordos), e vaga pelo deserto, até ser levado para uma povoação onde um curandeiro centenário, emprestado talvez de Castañeda, lhe propõe uma jornada existencial rumo a uma pirâmide, para se livrar da “maldição”. Apesar de achar tudo um porre, fui lendo achando que as bizarrices prosseguiriam de uma forma ou outra e eis que, para minha estupefação, Tabajara Ruas utiliza o manjadíssimo recurso de fazer toda essa parte mexicana ser um pesadelo ocorrido durante a viagem (um pesadelo de leitura que vai da  pág.330 até a 387). No México, conversando com um corcunda, ele apura mais fatos sobre o passado de Cisco Maioranos Pai, que agora temos quase certeza ser Terry Lennox, como se isso tivesse o menor interesse.

     E agora voltamos para Porto Alegre… Estou na pág. 400 e o vizinho hippie de Cid Espigão aponta uma arma para ele, levando-o para um carro dirigido pela parceira da Irmã Zero, a Irmã Um…

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