MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/10/2010

Da “velha frança” à guerra mundial numa obra-prima do romance


I

Uma das tendências editoriais destes últimos tempos é o relançamento de clássicos em caixas. Assim, o leitor pode se deparar com a nova edição feita pela Globo de Os Thibault, obra-prima de Roger Martin du Gard, escrita entre 1922 e 1940 (e que lhe valeu um merecido Nobel), e ter o mesmo frissom de um apreciador de perfumes: apequena e delicada caixa contendo os cinco volumes quase em formato de bolso até engana quem o vir na rua com ela. Passa por uma embalagem comprada em uma perfumaria. É perfeito para quem não quer ser tomado por um rato de biblioteca, como se dizia antigamente, e que vai ler 2.400 páginas da mais alta ficção.

Todo o encanto consumista que envolve a caixinha se volatiliza quando se descobre dentro dela volumes impressos em reles papel-jornal. Nada diferencia (a não ser o preço, oitenta e cinco pilas!) a edição nova de Os Thibault de qualquer coisa que se pode comprar em bancas. Dificilmente, qualquer um dos volumes sobreviverá a uma leitura. Pior ainda: onde está a cuidadosa revisão que a Globo prometera na sua sedutora caixa de pandora? Vários anacronismos e acentos regionalistas indevidos da tradução de Casemiro Fernandes,que sempre  tornaram penosa a sua leitura (em edições anteriores) foram mantidos, até mesmo o título da primeira parte, O caderno gris, que deveria ter sido mudado para O caderno cinza. Com isso, a tradução (um relançamento importante e bem-vindo: desde 1969, Os Thibault não aparecia integralmente no Brasil; só os dois primeiros volumes tiveram edição mais recente, em 1986) envelhece o texto de Martin du Gard mais do  que o necessário para o nosso leitor. Este já tem de enfrentar a reconstituição de uma mentalidade reacionária, como a do Pai Thibault e a atmosfera em que procura criar seus dois filhos, Antoine e Jacques: é uma França clerical da alta burguesia, em que o catolicismo formalizado em todas as instituições e relações acaba criando um mundo sufocante e repressivo (e sobretudo mesquinho). Tanto que,nos dois primeiros volumes, antes de a trama desembocar na Primeira Guerra Mundial, parece ser necessário matar o pai para que se possa continuar a viver. É isso mesmo: é longa a narração da morte do Pai Thibault e de sua personalidade opressiva. O protestantismo, representado em contraste através da família Fontanin, é visto com muito mais simpatia, principalmente por causa da figura de mme. De Fontanin, mãe de Daniel, primeiro investimento amoroso de Jacques Thibault.

O grande escritor francês desenha as diferentes reações dos irmãos à tirania do pai: a princípio parece que quer nos deixar de má vontade com relação a Antoine, talvez para que possamos conhecer aos poucos esse personagem maravilhoso, cuja vida vai nos envolvendo cada vez mais nas suas microscópicas transformações. É mais fácil simpatizar com o rebelde e inadaptado Jacques, que opta pela fuga, primeiro como adolescente, fugindo com Daniel de Paris para Marselha (após ser recapturado, o pai o aprisiona num instituto correcional, uma espécie de reformatório, criado por ele, onde o filho que pretende “corrigir” manterá relações sexuais com seus “carcereiros”); depois, já um jovem escritor, ele desaparece e vai para a Suíça, onde Antoine termina por “resgatá-lo” com o fito de acompanhar a agonia do pai.

A literatura promove aproximações insólitas: as sanções do pai ao filho nesse livro tão realista e prosaico (no bom sentido da palavra) adquire uma força dramática quase tão poderosa e simbólica quanto a que observamos no universo de Kafka. Aliás, há sempre um fantasma paterno por trás do desenvolvimento dos personagens de Os Tnibault: muitas vezes a volúpia de autoridade e a força vital de Antoine são um decalque da vaidade de seu pai, e Nicole, prima de Daniel, percebe nele (no momento em que ele a assedia, muito tempo depois de sua ligação apaixonada com Jacques e da subseqüente fuga rimbaudiana de casa) a sombra do pai dele, o escuso Jêrome de Fontanin.

O título do livro é ao mesmo tempo literal e simbólico. Nas palavras de Antoine: “É preciso que essa força, encerrada numa raça, finalmente desabroche! É em nós que a árvore Thibault deve desabrochar: o desabrochamento de uma estirpe!” A estirpe Thibault representa o caráter gaulês. No fundo, eles são a França burguesa, que emergiu para o século XX e para as grandes guerras mundiais.

resenha publicada originalmente  em “A Tribuna” de Santos em 08 de outubro de 2002

II

   Em texto anterior, a respeito do relançamento de Os Thibault numa caixa contendo cinco volumes, focalizei basicamente os dois primeiros, que contêm as seis primeiras partes, publicadas entre 1922 e 1929 (O caderno gris; A penitenciária; Primavera; A clínica; Sorellina; A morte do pai—na verdade, alguns desses títulos brasileiros são bem ruins). Elas abordam as reações dos dois protagonistas, os irmãos Antoine e Jacques Thibault, à tirania do pai, encarnação da alta burguesia clerical na França do início do século XX.

Em 1936,Roger Martin du Gard deu maior fôlego e amplitude à sua obra-prima, com Verão de 1914, que ocupa os outros três volumes (há ainda um longo Epílogo, publicado em 1940). É preciso destacar o terceiro volume do conjunto, no qual se processa a transição entre o mundo do pai Thibault, que parecia tão sólido e duradouro, e a convulsão efetivada pela Primeira Guerra Mundial.

Jacques vive em Genebra, após abrir mão da herança paterna. Atua como jornalista e principalmente como agitador socialista, no meio de um grupo de expatriados, cujas discussões e prognósticos conspiratórios a respeito do que as grandes potências farão a partir do atentado em Sarajevo (enquanto estão na expectativa do congresso da Internacional Socialista, marcado para agosto de 1914, em Bruxelas) preenchem um vasto espectro ideológico,  que vai dos anarquistas aos socialistas e militantes comunistas mais radicais.

Uma coisa fica clara: o imperialismo capitalista precisa da guerra e fomenta a sua aparente necessidade e inevitabilidade.

Para alguns leitores, os imensos diálogos podem parecer áridos e as idéias velhas. Com seu poder narrativo, porém, du Gard consegue fazer com que mergulhemos de cabeça na “mentalidade” que precede a guerra, de um modo mais palpável e palpitante do que qualquer livro de história, mesmo um do nível de A era dos extremos, de Hobsbawn. Num momento em aqui no Brasil estamos na expectativa de uma mudança de rumo, e que na base dessa expectativa encontramos velhos argumentos e diatribes ideológicas [1], é fantástico recuar até as raízes de muitas das posturas atuais, de esquerda ou de direita, e verificar que muitos dos clichês repetidos até hoje eram clichês já na época de Jacques Thibault.

Numa das suas “missões”, Jacques volta a Paris, onde reencontra o irmão. E também a família Fontanin—na qual fez seus mais importantes investimentos erótico-afetivos— que está à procura de Antoine, em razão da tentativa de suicido de Jêrome de Fontanin.

Antoine, ao contrário do irmão mais novo, tomou posse de sua parte na herança, utilizando-a numa guinada ambiciosa de sua carreira. Na verdade, transformou-se num grande burguês, em muitos aspectos parecido com o pai (há um momento em que dá uma risada e se assusta ao constatar que ela é igualzinha á do pai, a quem tanto ridicularizara). Jacques fica chocado com sua alienação com relação à ameaça de guerra. Essa opção por uma existência “monadista”, indiferente aos destinos gerais, como se estivesse isento do que acontece no resto do mundo, já distanciava Antoine da libertária Rachel, seu primeiro grande envolvimento amoroso (agora tem uma ligação com a mulher de um amigo, Anne). Antoine já percebia as “cadeias” que o ligavam ao mundo burguês, da “honesta França”: “mas não desejava nem por um momento rompê-las; e experimentava, contra tudo o que Rachel amava e lhe era tão estranho, a aversão de um animal doméstico contra tudo o que ronda e ameaça a segurança da casa”.

resenha publicada originalmente  em “A Tribuna” de Santos em 15 de outubro de 2002

III

Como se sabe o, romance (dividido em oito partes) Os Thibault,  de Roger Martin du Gard, um dos mais influentes do século passado, foi relançado numa caixa contendo-as em cinco volumes. Faltava ainda um comentário sobre os dois volumes finais[2].

O quarto e o início do quinto dão seguimento à sétima parte, O verão de 1914. Jacques, um dos irmãos Thibault, é quem domina a cena. Ele vê pouco a pouco a opinião pública sendo compelida a resignar-se (e até a rejubilar-se) com a perspectiva da guerra iminente e percebe que nem os círculos socialistas são capazes de resistir á sedução dos apelos patrioteiros e chauvinistas. Mesmo o seu irmão, Antoine, e o seu amigo de infância, Daniel de Fontanin, engajam-se na mobilização geral. Nenhum romance mostrou tão bem o que é um país preparar-se para entrar em guerra.

Jacques está decidido a tentar de tudo para evitá-la e a não lutar nela. Nessa roda-viva, ainda encontra tempo de efetivar sua ligação com Jenny, irmã de Daniel (dessa ligação nascerá um menino que mais tarde simbolizará para Antoine, o tio, a “humanidade futura”). Quando finalmente o conflito começa, Jacques resolve abandonar Jenny e realiza um ato de sacrifício, tentando sobrevoar as trincheiras num aeroplano para espalhar panfletos pacifistas. O avião cai e ele fica gravemente ferido. É tido como espião pelos soldados franceses, que o arrastam numa padiola durante uma retirada, até que ele se torna um tal estorvo, que se é obrigado a abatê-lo. Esse terrível final de Verão de 1914 é um momento antológico da ficção.

Por algum tempo, pensou-se que era também o desfecho de Os Thibault. Tanto que Martin du Gard ganhou o Nobel no ano seguinte (1937) à sua publicação, um dos raros casos em que um autor o ganhou na plenitude de sua vida criativa. Sob essa perspectiva, Jacques aparecia como o grande personagem da obra, uma vez que a figura do  outro irmão não sofrera maior evolução . Para o grande crítico húngaro Georg Lukács, por exemplo, o centro de irradiação do ciclo é “o encontro decisivo de Jacques Thibault com o socialismo”. Será mesmo?

Lançado em 1940, já em plena Segunda Grande Guerra, Epílogo muda tudo. Em 1918, Antoine está condenado à morte devido aos gases utilizados na guerra que está por terminar. Ele enfrenta a realidade de sua extinção pessoal próxima num sanatório (após uma rápida visita a Paris, quando ficamos sabendo mais ou menos do destino das outras personagens importantes de Os Thibault).

Muita gente considera esse epílogo um mero prolongamento de uma obra que já dissera o que tinha a dizer. Não concordo: tanto a figura de Antoine quanto essa seção final são marcantes demais para serem consideradas “mero prolongamento”. Pelo contrário, levam o livro a dimensões insuspeitadas. Um traço da alta ficção do século XX é o enciclopedismo, o passeio por discussões e áreas que ampliam sobremaneira o enredo e a linguagem. No diário que Antoine escreve antes de sua morte, o leitor vai sendo alçado a esse clima enciclopédico (que domina também romances como A montanha mágica, de Thomas Mann, ou Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust). É o destino de um personagem, mas também é o destino da civilização que está em pauta, além de toda uma gama de conhecimentos (filosofia, política, história, medicina, biologia, etc).

Além disso, para quem acha, como eu, que Albert Camus foi o grande escritor francês do século XX (junto com Proust)—e ele, aliás, escreveu um belo ensaio sobre Roger Martin du Gard—, é impressionante constatar como Antoine é um herói camusiano avant La lettre: “Recuso-me por instinto às ilusões metafísicas. Jamais o nada teve para mim tanta evidência. Dele me aproximo com horror, com uma revolta do instinto, mas nenhuma tentação de negá-lo, de procurar refúgio em absurdas esperanças.”

Resenha publicada em “A Tribuna” de Santos em 29 de outubro de 2002


[1] No mês em que escrevi este artigo, LLula ganhou a eleição para o seu primeiro mandato, e foi aquela coisa da esperança vencer o medo, devido ao clima de terror que o PSDB procurou disseminar.

[2] Eu interrompera  a série de resenhas na semana anterior, para comentar Uma vida em segredo, de Autran Dourado, em função da exibição em Santos da versão cinematográfica de Susana Amaral.

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