MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/10/2010

A luz e a sombra de Sartre


(resenha publicada em 18 de junho de 2005)

    Para comentar o centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre (que ocorrerá no dia 21 deste mês) fica-se na dúvida: que obra escolher ? São tantas, e  tantas são apaixonantes, até as obras de filosofia como O ser e o nada… E Sartre ainda continua a ser publicado, diga-se o que se quiser sobre o declínio de sua influência,  os livros mais inesperados ganham contínuas reedições, como Que é a literatura ?  Para homenageá-lo, seria preciso falar de ambos, do teatro, de  A náusea, dos contos de O muro,  da magnífica trilogia, Os caminhos da liberdade, da qual tantos não gostam, de As palavras, de  Questão de método, de textos das  diversas Situações, do belíssimo roteiro-que-não-foi-filmado, Freud, além da alma, do livro sobre Jean Genet, de A esperança agora

    Caminho mais fácil: comentar um livro a respeito dele e que justamente tem a ambição de fazer frente a todas as vertentes sartreanas: O século de Sartre (Nova Fronteira), publicado por Bernard-Henri Lévy na virada do milênio. Lévy vai tão fundo  que acaba por nos dar a impressão de fazer a Sartre o que este fez a Genet e tantos outros, ao estudar suas biografias e obras, precipitando seu eleito “no buraco negro do seu próprio pensamento. É a desventura de Genet, esmagado pela homenagem que ele lhe presta, canibalizado, reduzido a nada e quase parando de escrever, ou seja, de existir, após a publicação de São Genet, esse livro-mausoléu onde le meio que o enterrou vivo… longe de ser um acidente… esse beijo da morte é um dos modos normais de sua relação com os artistas que admira”.

      O nó da questão:  Sartre escreveu São Genet, canibalizou seu objeto de estudo, mas era Sartre, e um escritor muito mais importante do que seu colega. O que era exatamente Bernard-Henri Lévy antes de O século de Sartre ? O mais famoso e vendido dos chamados “novos filósofos” que apareceram na década de 70. Qual foi sua contribuição como pensador? Segundo Michel Winock, no fabuloso O século dos intelectuais,  mereceria um estudo especial a desproporção evidente entre a importância da sua obra e a freqüência com que aparece na tevê  (deve-se lembrar que o próprio Lévy tem um livrinho, Elogio dos intelectuais). No entanto, até que ele revelou certo talento como romancista em O diabo na cabeça e Os últimos dias de Charles Baudelaire.

    Com nó ou sem nó: O século de Sartre é a mais incrível surpresa dos últimos anos. Todos os pontos importantes são esmiuçados, os textos são percorridos com arrepiante minúcia (ainda que a análise peque, às vezes, por uma certa grandiloqüência). Qualquer leitura é sempre redutora, qualquer tipo de  citação poda, mutila, cria um contorno fácil demais ? Nada disso, a sensação é de que o leque Sartre abre-se cada vez, e nunca se esgota. Ele nos resgata a eminência do mais famoso intelectual do século XX, e como ela é constituída por suas próprias qualidades, pelo clima da época e por equívocos, mostra as influências omitidas, tanto literárias (Gide, por exemplo, enquanto ele proclamava Joyce, Kafka e John dos Passos), quanto filosóficas (Bergson, enquanto ele proclamava Husserl e o nazista Heidegger), como ele  pirateava pensamentos e pastichava estilos (moderno, portanto). Acaba com a velha baboseira da filosofia enfraquecer a força do romance sartreano (e finalmente alguém faz justiça a Caminhos da liberdade enquanto obra-prima da ficção), o que não o impede de ser injusto com o teatro praticado por ele (apesar de fazer uma magnífica leitura de Bariona, a primeira peça, ainda amadora). 

    Esmiuça o anti-totalitarismo radical do primeiro Sartre (cujas balizas principais são A náusea e  O ser e o nada, mas também aproveita de forma magistral vários textos  circunstanciais) para contrapô-lo ao segundo Sartre que se colocou a serviço do stalinismo (numa fase em que os intelectuais  já saltavam fora do barco) e, posteriormente, do maoísmo, e que passará a renegar sua obra até chegar ao ponto de condenar radicalmente o ato de escrever como uma doença adquirida na infância, uma quimera que destruiu sua vida, por influência do avô, em As palavras. Tudo pela causa do povo, de uma humanidade futura, ele, que afirmara que  “a existência precede a essência”  e que, por isso, jamais poderia acreditar numa abstração desse tipo.

    Nesses descaminhos da liberdade, a última surpresa do velho pensador, já cego, meio que desacreditado até por sua  “família”, ou seja, o grupo de amigos-discípulos liderados por Simone de Beauvoir (e Lévy nos faz repensar o até agora insuspeito relato do “declínio” de Sartre em Cerimônia do Adeus): sob a influência de um homônimo do autor de O século de Sartre, o ex-maoísta radical, o judeu-egípcio Benny Lévy (conhecido como Pierre Victor), a inclinação para o pensamento judaico. Mas a morte chegou antes de se verificar a extensão da nova mudança de rota, aquela anunciada de modo tão simples e comovente quando Benny Lévy pergunta: “Recomeça-se tudo? Recomeça-se aos 75 anos?” “É claro”.

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