MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/09/2010

Regurgitando um vulcão


 

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   Depois que ganhou o Nobel de Literatura em 1989, o espanhol Camilo José Cela, que já tinha uma obra famosa (os romances A família de Pascual Duarte e A colméia) resolveu provar que continua em plena ebulição criativa. Tanta fúria criadora já rendeu alguns dos livros mais surpreendentes e inusitados dos últimos anos, como a coletânea de contos erótico-grotescos Saracoteios, tateios e outros meneios e o recém-lançado no Brasil (com tradução de Mário Pontes)A cruz de Santo André (La Cruz de San Andrés, 1994).

      Nele, aparentemente, Matilde Verdú (que anuncia para o leitor estar escrevendo em rolos de papel higiênico, e, por esse motivo, discorre sobre as qualidades e defeitos de várias marcas:  O melhor papel de privada, o melhor para escrever a crônica dos acontecimentos, é o La Condesita, quanto a isso não resta a menor dúvida, dá gosto ver como a história vai se debulhando com rigor e circunspeção; ou então: Aqui, nestes rolos de papel de privada marca El Gaitero Bucólico, vou narrando pelo método da regurgitação) contará a história de sua vida, ou melhor, de sua derrocada, como chama a crucificação junto ao marido, à qual se refere tantas vezes: Declaro que nem meu marido nem eu soubemos representar com um mínimo de competência, com a necessária dignidade, o difícil papel de justiçados na cruz de Santo André, às vezes caíamos na risada, pelo menos três vezes nos deu aquele frouxo de riso, e isso o bom espectador não perdoa, não levamos a sério e ensaiamos mal o nosso papel, e não conseguimos nunca memorizar e recitar as nossas falas, especialmente as longas.

      A estrutura do romance (e as citações de Shakespeare) parecem acentuar o aspecto teatral. Ele é dividido em cinco partes: Dramatis Personae, Argumento, Exposição, Nó, Desenlace. Parece tudo certinho, não? Doce ilusão, leitor. Nada mais emaranhado  e decididamente regurgitado do que A cruz de Santo André. Matilde Verdú vai se orientando, e nos desorientando.  Isso acontece porque ela, ao anunciar que está contando a história de sua vida, acaba é contando a história de conhecidos,  de parentes, de amigos, de gente da sua terra natal, La Coruña. Histórias bufas, deformantes, bizarras, escatológicas, na mesma linha do delicioso Saracoteios, tateios e outros meneios, só que com uma carga mais dramática. Dessa vez não existe só a enxurrada sexual, tudo é permeado também  pela irremediável  mistura de tragédia e miséria  da nossa existência.

      Matilde parte do individual, anunciando sua história (Matilde Verdú às vezes se sente gelada com as suas próprias recordações, algumas são muito tristes, muito angustiantes,  e de tão estranhas, não dá para esquecer coisa nenhuma delas,  é um caso em que não pode haver  desperdício,  é como o boi abatido no matadouro,  dele tudo se aproveita), passa a falar da condição das mulheres em geral (para a mulher o cabelo  é o que há de mais importante, renunciar a ele é o mesmo que se enforcar, ou tomar um vidro inteiro de soníferos ou praticar  o haraquiri), e, progressivamente, da condição humana,  num tom quase shakesperiano (em julho de 1969, o homem  chegou à Lua,  podendo assim alargar o âmbito das suas necessidades, o homem não sabe governar nem pacificar, nem alimentar a Terra, também não sabe curar nem o câncer nem a Aids, naquela época ainda não se falava de Aids, mas é capaz de acertar com o caminho da Lua, dilatando cada vez mais o vergonhoso horizonte do seu orgulho estúpido) , embora numa clave irreverente. Esse tom não é gratuito, pois não foi à toa que na Espanha do Século de Ouro se desenvolveu um grande teatro.

     O impressionante no livro, mais do que a narrativa enovelado, enrolada em si mesma, sempre às voltas com os mesmos fatos, é que o leitor nunca tem acesso ao interior das personagens, eles são sempre vistos de fora, como a opinião pública os vê, jamais têm uma chance de mostrar um lado melhorzinho, menos ridículo. Como o estilo de Cela hipertrofia essa tendência ao exagero bufo, nós temos a impressão de dar uma espiada no inferno, onde todos os que estão mergulhados na vida quotidiana ardem.

        O texto que me vinha à cabeça durante a leitura como termo de comparação para A cruz de Santo André era sempre A obscena Senhora D (1982), de Hilda Hilst, também uma mistura de verve irreverente, de escatologia e de documento de uma solidão desamparada e aterradora.

      Hillé, a Senhora D da escritora paulista, compreenderia muito bem o sentimento expresso no seguinte trecho do relato de Matilde Verdú: Eu sou apenas uma dona amargurada por tudo ter me saído mal nesta vida, e o provável é que na outra as coisas me saiam ainda piores, sou apenas uma doente que começa a envelhecer e que não aprendeu a suportar a solidão, me sinto sozinha e meio maldita, sinto o dedo de Deus apontando para mim, peço perdão por não ter mais saída,  gostaria que alguém me ajudasse a dar mais vida à minha existência vazia, mas sei que isso é o mesmo  que pedir um copo d´água a uma pêra…).

     Camilo José Cela tanto se esforça em mudar,  em ampliar seu horizonte criador, seu mundo de formas, tanto injeta nos seus textos sua energia desmedida, sua vontade de sacudir a pasmaceira do leitor, sua convicção em querer ser um grande escritor que às vezes acaba convencendo a gente de que ele é mesmo grande. Difícil saber ainda (pelo menos, a meu ver) se ele o é de fato, é como querer analisar um vulcão em plena erupção. E essa analogia com um vulcão permite pelo menos um elogio provisório: é um fenômeno digno de admiração.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  primeiro de março de 1997)

1 Comentário »

  1. Camilo José Cela ganhou mais um leitor graças ao Alfredo Monte!

    Miguel

    Comentário por Miguel — 01/08/2010 @ 20:28 | Responder


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