MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/09/2010

Cozido narrativo no Fim do Mundo


Para meu amigo Miguel Loureiro

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   Uma das formas de resistência ao processo de de globalização (novamente em evidência com os Fóruns de Porto Alegre e Nova York) é a insistência de certos autores no particularismo de suas regiões, no privilégio dado à feição dialetal para a construção da sua linguagem. Portanto, longe de estar ameaçado, o regionalismo parece mais vivo do que nunca. O galelo Camilo José Cela (nobel de 1989), recém-falecido, é um exemplo ainda mais contundente do que o siciliano Camilleri, cujo Por uma linha telefônica comentei nesta coluna.

    No informe para a imprensa da tradução brasileira de Madera de boj (1999), feita por Mário Pontes e lançada como MADEIRA DE LEI, a Bertrand toca num ponto importante sobre Cela: “Cada novo livro é uma surpresa; como um camaleão da literatura, está sempre mudando o foco e o modo de escrever suas histórias”. Na verdade, o livro radicaliza a experiência feita em A cruz de Santo André, este último também uma narrativa-ladainha. Ambos estão, certamente, entre as leituras mais desconcertantes que fiz nos últimos anos: “semeia-se a dúvida para o que leitor se desoriente e não saiba com qual da cartas deva ficar…”

    A costa litorânea da Galícia domina MADEIRA DE LEI, que se vale da velhíssima oposição terra/mar exemplificada pelo inventário (que atravessa todo o texto) de navios que afundaram na região. É um dos fios condutores da narrativa, ou da ladainha, como se queira, e representa a instabilidade que ronda a existência. O outro é o desejo de Dick (antepassado do narrador) de uma casa construída com vigas de madeira de buxo, desejo irrealizado e utópico, tentativa de fixação e segurança no fluxo incessante das coisas. Portanto, temos a luta entre o que nos é familiar e o que é desconhecido, ignoto, e que associamos ao perigo e à morte: “todos nós gostaríamos de conhecer o mistério da morte, acontece que Deus é muito calado e não costuma dizer as coisas aos homens, talvez seja isso o livre-arbítrio…”

    Temos a impressão, lendo MADEIRA DE LEI, de que Camilo José Cela desistiu do esforço de circunscrever o amorfo e o indefinido da vida numa forma acabada e fixa, isto é, construir sua casa com vigas de madeira de buxo. O narrador, por exemplo, tem dúvida diante do que está narrando: “Acho que já falei disso, não tenho muita certeza” (…)”isso vai indo apenas um pouquinho confuso”; e às vezes o autor se coloca no quadro: “quando me deram o Nobel fiz um cozido memorável”.

    A região tem a alcunha de Finis Terrae (Fim do Mundo), o que combina com um texto onde encontramos tudo no limiar: entre o mar e a terra, entre a vida e a morte, entre a memória e o esquecimento, entre a permanência e a mudança, entre o sagrado e o profano, entre o recatado e o chulo, entre o vivido e o inventado. Aliás, a palavra “fim” colocado após a última linha é uma ironia, trata-se de um texto que não começa nem termina, é cíclico, anti-linear: “a vida não tem argumento, quando pensamos que estamos indo para um lugar tal a fim de cometer determinados heroísmos, a bússola começa a girar loucamente e nos leva cobertos de merda para onde lhe manda a vontade, para a catequese para o prostíbulo para o quartel ou diretamente para o cemitério…”

   Esse recurso permite que ele insira dezenas de personagens, de historietas, que funcionam como vinhetas e lembretes do eterno fluxo de nascimentos, mortes, crimes, pecados, loucuras e paixões, entrecruzados num peculiaríssimo rincão do mundo, só que válidos universalmente.

     No incessante fiar das histórias, as constatações desalentadoras sobre a condição humana prevalecem: “porque cada um é cada um e ninguém jamais aprende nada com ninguém” (…) “gosto de ir aprendendo a morrer ficando sozinho…”; só que no cozido preparado pelo nobelizado Cela, o trágico é temperado por um grotesco-escatológico sem limites. Veja-se uma vinheta da história de amor entre a viúva Annelie e o anão francês Vincent: “Annelie janta frutas, uma noite enfiou cerejas no cu de Vicnent para que depois as cagasse em sua boca”.

    Nesse sentido, Mário Pontes, que também traduziu outros livros de Cela comentados nesta minha coluna (A colmeia; Saracoteios, meneios e outros tateios; A cruz de Santo André) mostra-se, apesar do resultado irrepreensível, demasiadamente comedido em suas soluções. Cela é explícito em sua utilização do pesado e chulo linguajar popularesco: “é un santo tan putañero que lhe foi facer um neno” vira, na versão de Pontes, “um santo tão chegado a mulheres que saiu para fazer um filho”. Que distância entre “putañero” “chegado a mulheres” em termos de colorido e expressividade. Outro exemplo: “O Xan e maila Xoana foron ós garabulliños, a Xoana caeu de cu e o Xanciño de fociños”– Pontes: “O João e minha Joana foram brincar de perna-de-pau, a Joana caiu de bunda e o Joãozinho de focinho”!

     Ler Camilo José Cela pode não ser uma experiência tão divertida e agradável quanto ler Andrea Camilleri, todavia um texto como MADEIRA DE LEIé a prova cabal de que o mundo ainda não se uniformizou, ainda não foi engolfado pela mesmice, que cada lugar tem algo de irredutivelmente seu. E que a literatura é uma ponte privilegiada entre mentalidades diversas.

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna”, em 05 de janeiro de 2002)

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