MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/09/2010

A vida sexual bufonarizada pelo comentário alheio


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Dona Vitelinha casa aos quarenta anos e tão empedernidamente  virgem que é preciso um abridor de latas para executar o serviço. Uma turista inglesa fica esmagada num cubículo por um eventual amante, que pesa cem quilos, e acaba socorrida por mecânicos.

São situações de Costumes ancestrais e Parábola da dama esmagada, dois dos vinte e um contos eróticos reunidos por Camilo José Cela (Nobel de Literatura de 1989) no seu Saracoteios, tateios e outros meneios (Cachondeos, escorceos y otros meneos, traduzido por Mário Penedo).

Fornicar com a mãe e a filha. Ou com a mãe e o filho. Desvirginar. Masturbar-se. Gula associada à volúpia. Prostituição a domicílio. Pederastia. Lesbianismo. Zoofilia. Padres concupiscentes. Adultérios de todo o tipo. Velhos e velhas insaciáveis… Crua e cruelmente, o repertório habitual da sexualidade humana emerge da coletânea. Qual a novidade? Não vemos isso até em programas populares da televisão? O que torna Saracoteios, tateios e outros meneios um dos mais interessantes lançamentos literários de mil novecentos e noventa e cinco?

É a maneira como Cela constrói o livro, através de conversas ou cartas. Ele não isenta nem a si mesmo, colocando-se como personagem e compartilhando das grosserias, das cafajestadas, das picardias e atitudes varzeanas que exageram e tornam hipertrofiadas e grotescas nossa chamada vida sexual, ou pelo menos nossas práticas sexuais. Essas grosserias e exageros chegam a um ponto quase surreal nos textos, principalmente pela atitude paródica do autor com relação a nomes de personagens, trocadilhos e uso do infinito, anatômica e metaforicamente, vocabulário lascivo.

 

Não há área da vida humana em que o politicamente correto falhe mais fragorosa e miseravelmente e em que as pessoas se enforquem de forma mais primitiva, truculenta e retrógrada, mais refratárias à evolução do que a da linguagem para comentar a sexualidade alheia, com a qual somos sempre pouco generosos.

Pouco generosos, mas nem por isso menos curiosos. Todo mundo quer saber o que os outros fazem, como fazem, como acertam,como falham, seus ridículos, suas baixarias, seus aviltamentos. Cela sabe disso muito bem e não conta os episódios como poderiam ter acontecido, de uma forma realista, e sim como os outros comentam, aumentam, distorcem, bufonarizam. Exatamente como fazemos no nosso quotidiano, pelo pente fino do desregramento verbal e chulice desatarraxada das convenções de bom gosto e  disfarces civilizatórios.

O que atrapalha o autor espanhol, como sempre, é sua vinculação ao tremendismo (corrente estética da Espanha, que prega o exagero na expressão dos aspectos mais crus da realidade), que passa por humor, contudo é quase o seu contrário. Em Camilo José Cela não existe humor, não existe alívio, tudo é pesado mesmo e o grosseiro jamais é redimido.

O que talvez seja bastante eficaz numa coletânea onde se coloca o dedo na ferida da boçalidade com que abordamos nossa própria intimidade e o desrespeito pelo outro que transparece na linguagem desabrida, e que no entanto é um vício, um componente das nossas relações.

Eficaz, mas ao fim e ao cabo, extremamente desagradável.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em vinte e oito de novembro de mil novecentos e noventa e cinco)

 

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