MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/08/2010

A repartição dos pães de Clarice


No lindíssimo A repartição dos pães (publicado em 1964 na coletânea A legião estrangeira), um grupo de pessoas, contrafeito, chega para um almoço “de obrigação” e é surpreendido com uma refeição preparada “para homens de boa vontade”: “Então aquela mulher dava o melhor não importa a quem?” Trata-se de uma boa ilustração da situação da própria Clarice Lispector ao tornar-se cronista profissional, devido a problemas financeiros, e no entanto brindando o leitor de jornal com alguns textos inesquecíveis, dando o melhor não importa a quem.

Dessa atividade surgiu um livro póstumo, com um título digno da autora, A descoberta do mundo. Ali eram reunidas quase todas as crônicas que escrevera (de 1967 a 1973) para o Jornal do Brasil, 500 páginas onde se podia verificar como frutificara o processo de aproveitar o “fundo de gaveta” que já fizera sua estréia na segunda parte de A legião estrangeira, textos sem gênero, anotações livres de quaisquer amarras, fragmentos que circulavam pela totalidade de uma obra ímpar. Se os fragmentos publicados de O livro do desassossego, de Fernando Pessoa, indicam um palácio em ruínas, essas “pulsações” (para utilizar da definição dada a Um sopro de vida) indicam que Clarice realmente optou por repartir seus pães com generosidade, desprivilegiando o publicado em livro de reter apenas o melhor.

Porém, como todos os autores mortos, Clarice tem que sofrer o processo do mercado. Se não se descobre mais nada de inédito, então aproveita-se o que já está aí: a Rocco pegou as crônicas de A descoberta do mundo, fez uma seleção aleatória, embaralhou a ordem cronológica e de 500 passamos a 200 páginas com um título deplorável (porém perfeito nessa nossa época de auto-ajuda): Aprendendo a viver (e ela que já achava terrível o título dado à segunda parte de A legião estrangeira quando foi publicada em separado: Para não esquecer!). Qualquer um que passeie os olhos pelos títulos da obra clariceana poderá ver que esse “novo livro” não combina nada. Enfim… o melhor não importa a quem.

E a mesa está preparada realmente “para homens de boa vontade”, pois não é que a seleção ainda assim é muito boa?  E até que os textos organizados dessa maneira ficaram mais límpidos, sem a indicação cronológica (que, entretanto, aparece no final). Lembra, guardadas as devidas proporções, o recorte realizado por Leyla Perrone-Moisés para uma edição do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, publicada pela Brasiliense.

Deveria ter sido mais rigorosa a escolha, há trechinhos que poderiam ser sacrificados sem dó nem piedade. Se a autora tinha um carinho pelo que chamava de “lixo”, pelo malfeito, pelo tosco, e os colocou na sua coluna, não precisamos ter a mesma complacência numa seleção. Coisas como: “Sou tão misteriosa que não me entendo.”  Ou:  “Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente –como em dores de parto—e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.”

Mas boa parte é mesa farta. Os textos de reminiscências da infância  são  banquete à parte (alguns foram publicados com outros títulos, como “Tortura e glória” que virou o conto-título de Felicidade clandestina). Em “Medo da eternidade”, por exemplo, ela experimenta pela primeira um chiclete do qual se diz que “dura a vida inteira” e ela se sente culpada por jogá-lo fora por causa do “gosto de nada” daquele “puxa-puxa cinzento de borracha”: “E a vantagem de ser uma bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito. Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava era aflição.” Perdido o chiclete, o alívio: “Sem o peso da eternidade sobre mim”.

Para quem estranhar, a advertência da própria autora: “Vocês vêem como estou escrevendo à vontade ? Sem muito sentido, mas à vontade. Que importa o sentido ? O sentido sou eu.”

 

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