MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/07/2010

Nacionalidade chilena, autenticidade literária paraguaia

  

Em De amor e de sombra (1984), a não ser em alguns detalhes inócuos e inúteis, Isabel Allende livrou-se da carga do realismo fantástico e de sua tendência a imitar ineptamente Gabriel García Márquez que marcavam seu primeiro romance, A casa dos espíritos (1982). Nem por isso o livro deu certo. Nele, conta-se a história do casal Irene-Francisco: ela, jornalista; ele, seu assistente-fotógrafo. Ao investigarem o desaparecimento da camponesa Evangelina, após detenção para interrogatório, eles descobrem, em uma mina abandonada, cadáveres de pessoas eliminadas pela ditadura de Pinochet. Essa descoberta completa a educação político-sentimental de Irene por Francisco, fazendo com que ela abra os olhos para o que acontece no país, ao contrário da mãe, e faz com que ela desperte para o amor, embora quase morra por isso (é alvo de um atentado).

     Allende tem história para contar. Tem elementos de sobra para emocionar o leitor. Seu problema básico é  a seguinte frase, que aparece em Eva Luna: “Também procuro viver a vida como gostaria que fosse…como uma novela”. E é quase numa telenovela que ela transforma De amor e de sombra, realçando os defeitos de folhetim que atrapalhavam A casa dos espíritos, e que já a barravam como candidata a preencher o vácuo de nomes femininos na projeção internacional que a literatura hispano-americana alcançou nas últimas décadas.

     Deparamo-nos com um estilo irremediavelmente cafona, com personagens apresentados da maneira mais esquemática possível, como se ela tivesse de escrever um pequeno relatório sobre cada um, com seus complexos psicológicos e seus problemas existenciais. Não é o conteúdo das histórias de cada um que é fraco, e sim as formulações da autora chilena. Isso faz com que o comportamento de Irene e Francisco às vezes se assemelhe aos personagens da série juvenil Vaga-lume, à cata de aventuras. O peso trágico que se abate sobre eles depois (e faz da terceira e última parte a melhorzinha do livro) nunca parece adequar-se aos personagens. Todos os defeitos que chocaram na adaptação cinematográfica já estão no romance.

     Eva Luna (1987) é pior ainda. E é mais pretensioso. Lendo o primeiro capitulo, parece que ele saiu da gaveta de rascunhos de García Márquez. Portanto, De amor e de sombra fora apenas um interregno dessa emulação irritante. Depois, vai ficando claro que Allende, apesar dessa mania, gosta mesmo é de contar simples histórias, gosta de introduzir personagens novos e anedotas sobre eles.

     É isso que acontece ao longo do romance inteiro, histórias unidas pelas trajetórias da órfã Eva, filha da criada de mumificador de cadáveres, e de Rolf, um imigrante austríaco, os quais vão se conhecer em meio a guerrilhas, revoltas estudantis, repressão militar e muitos fatos anedóticos e bizarros. E tudo contado num estilo de telenovela; não, pior ainda, de radionovela. E dessa vez não há nem os honestos esforços de variar o tom e o estilo, como em De amor e de sombra (que, mesmo assim, resultou bastante fraco). Se Allende fosse norte-americana, ela seria considerada do mesmo naipe de autores de best seller. Seria uma Danielle Steel ou uma Bárbara Taylor Bradford da vida. Como é latino-americana e seu pano de fundo são as ditaduras militares (o que sempre congrega nossos melhores sentimentos de revolta e repúdio a quaisquer formas de repressão institucionalizada) ela parece que tem algo mais a oferecer. Não tem.

    Em matéria de trajetórias de vida ao longo de décadas (como acontece em A casa dos espíritos e Eva Luna), ela tem muito a aprender com John Irving, autor de O mundo segundo Garp, Hotel New Hampshire & o soberbo As regras da casa de sidra, e com Salman Rushdie, autor de Os filhos da meia-noite & O último suspiro do mouro. Ambos são políticos, profundos, engraçados, caleidoscópicos. E excepcionais contadores de histórias.

(resenha publicada, com ligeiras alterações, em 4 de junho de 1996)

08/07/2010

NEM MORFINA ALIVIA LEITURA DE “O PACIENTE INGLÊS”

Os críticos ingleses e o Oscar têm uma coisa em comum. Eles parecem dizer aos escritores e cineastas: dai-nos paisagens exóticas, dai-nos tramas situadas no passado, nada de dramas contemporâneos, questionando a nossa época. Em troca, os prêmios choverão.

É o caso do romance O paciente inglês, de Michael Ondaatje. Será que em 1992 não havia um romance melhorzinho para receber o prestigioso prêmio Booker na Inglaterra? Será que o exotismo e o passado continuarão imperando na cultura inglesa, afetando até o Canadá (onde vive Ondaatje)?

Mas do que se trata O paciente inglês, perguntará o impaciente leitor. Bem, temos uma enfermeira, Hana (no filme, ela é vivida pela sonolenta e sonífera Juliette Binoche), a qual se sente obrigada moralmente a cuidar de um paciente horrivelmente desfigurado pelo fogo e ainda por cima supostamente desmemoriado. Para esse fim, Hana se isola com ele numa villa italiana, onde serve de leitora, fornecedora de morfina e exploradora das perdas e danos.

Ali ela também descobre não só que a liberdade é azul, mas que os afrescos italianos são muito coloridos, graças a Kip, um desarmador de bombas que veio da Índia e usa turbante.

Ah, dirá o leitor esperto, uma vez que Hana é canadense, cuida de um inglês e tem um romance com um sikh da Índia, então a villa italiana é o encontro de vários mundos! Está aí uma pista para  a compreensão da história. O difícil, leitor, é compreender como o livro pode ser tão arrastado e aborrecido com tantos mundos encontrando-se, e com o perigo das minas.

Por falar em vários mundos e nacionalidades, o paciente inglês não é inglês. Ah,como é irônica, a história, ora vejam só! Ele é húngaro, embora ame ler Kipling como um inglês. É o conde Almásy e tem um romance ardente, no Norte da África (embora a palavra ardente, em se tratando de deserto e de uma vítima de queimaduras, seja uma redundância), com uma inglesa, Katharine Clifton, esposa de um homem aparentemente (mas tudo é aparência enganosa nessa história?) tolo, porém utilizado pela inteligência britânica no período pré-guerra. Almásy, por sua vez, acaba trabalhando para os alemães. Clifton tenta matá-lo com um avião em pleno deserto, só que morre na tentativa e Katharine se fere seriamente. Como estão longe de qualquer posto civilizado, Almásy deixa Katharine numa caverna (descoberta pelo seu grupo) e parte em busca de ajuda, iniciando uma corrida que o levará aos cuidados da insustentável leveza binochiana da enfermeira Hana.

Não pense o leitor que a história é apresentada assim bonitinha e amarradinha. Não, senhor, Michael Ondaatje é um autor moderno, mais ainda, pós-moderno, e por isso, tudo vem fragmentariamente, num quebra-cabeça. É o filme que se encarrega de colocar tudo nos eixos, aliás, de forma bem envolvente. E pelo menos tem a coragem de mergulhar fundo no romantismo enquanto que a narrativa de Ondaatje é apenas estropiada e desfigurada, tal qual o conde Almásy. Para dizer a verdade, o romance O paciente inglês é um frankenstein literário. Ondaatje parece ter reunido um pouco de tudo para que o livro dê ao leitor a aparência de ser alguma coisa. Não é. Tem comentários eruditos, tem uma atmosfera histórica saturada de reminiscências, tem aquele clima bem inglês de sentimentos inconfessados ou então cheio de reticências, que para alguns tem o nome de lengalenga, tem um herói misterioso que segue o preceito de Camus de que o homem é mais homem quanto menos fala, tem as grandes paixões inglesas (Itália e o Oriente, só faltou a Grécia)e, é claro, o clima  “fim de época”, isto é, mostrando um mundo que está chegando aofim. Quem simboliza isso é o próprio Almásy.

O incrível é como ele consegue fazer desse personagem algo tão insignificante e amorfo. O filme é que conseguiu dar a ele alguma vida e relevância, mesmo porque o romance vivido entre Almásy e Katharine não poderia ter um casal de intérpretes mais chique do que Ralph Fiennes e Kristin Scott Thomas, chiques até na intimidade sexual.

O livro, por sua vez, simboliza a agonia da literatura contemporânea que já não tem mais o que dizer, ou pelo menos quase já não tem mais quem o diga. A grande ironia é que Ondaatje escreve como quem tem noção do que é escrever. Parece faltar é sentimento do mundo, garra, feeling. Talvez fosse preciso injetar um pouco de morfina para animar seu moribundo universo de fantoches e palavras tão áridas quanto o deserto,e tão maltratadas quanto a villa onde Hana  e o paciente se encasulam, e ainda com o perigo sempre iminente (e nem sempre evitado) das minas explosivas da breguice e da embromação.

O clima amoroso entre Almásy e Katharine merecia uma Marguerite Duras para insuflar nele os sentimentos extremos e perigosos aninhados no sil~encio. E a  história do rei Candaules e de seu servo Giges, que é pedra-de-toque para que esse relacionamento aconteça, já foi muito melhor explorada em outro romance oriundo do Canadá, Fifth Business-O quinto personagem, de Robertson Davies.

O leitor brasileiro tem uma provação suplementar a enfrentar na leitura clorofórmica de O paciente inglês: embora a tradução seja excelente, a editora 34 paginou o livro de forma a destruir sistematicamente a vista de quem o lê, com um tipo mínimo e que toma toda a página, sem quase um espaço em branco para descanso. Se era para economizar papel, a alternativa mais sábia era nem editar tal baboseira. Livro ruim com letra minúscula, só com um aviso do Ministério da Saúde advertindo sobre o perigo.

(resenha publicada em 18 de março de 1997)

06/07/2010

BACANTE SEM GRANDEZA:A ficção ruim de Toni Morrison

Há livros cuja avaliação crítica é difícil. Entre esses casos de livros difíceis de julgar um dos mais complicados é aquele escrito por autores de que a gente não gosta. E esse é o caso de Paraíso, de Toni Morrison.

Como se sabe, a autora norte-americana recebeu o Nobel em 1993. Antes disso, já era muito apreciada nos EUA, e eu nunca entendi bem por quê. Se pegarmos seu romance mais prestigiado (vencedor do Pulitzer, inclusive), Amada, temos uma história melodramática que traz o peso da escravidão (uma escrava fugitiva degola a própria filha para que ela não seja levada por um perseguidor), que até se sustenta bem e contém ecos da tragédia grega, mas que é irremediavelmente estragada por um estilo discutível e especialmente por uma grotesca trama sobrenatural e fantástica: o fantasma da filha aparece com dezoito anos (!!!???) para se vingar da mãe. Só mesmo o desejo dos críticos americanos por um García Márquez local pode explicar que se tenha levado a sério tal empreendimento ficcional.

Por isso, não é de se estranhar que, após três leituras decepcionantes (além de Amada, A canção de Solomon, ainda o melhorzinho, e Jazz), Paraíso tenha sido abordado com desconfiança e cautela.  O romance (traduzido por José Rubem Siqueira e lançado pela Companhia das Letras) tem como cenário central Ruby, uma cidade de Oklahoma exclusivamente negra. A maneira como foi fundada chega às raízes do bíblico. Algumas famílias errantes, quase que como os hebreus do Antigo Testamento, encontram uma Terra Prometida e selam um pacto particular com o Senhor. E as famílias principais do lugar, descendentes dos fundadores, procuram manter a pureza racial e os compromissos assumidos na época da Fundação. Um forno comunitário gigantesco simboliza essa coesão dos ideais dos cidadãos de Ruby. Só que, numa época de transformações radicais, como foram as décadas de 60 e 70 (é só lembrar: luta pelos direitos civis dos negros, feminismo, rock, guerra do Vietnã) fica muito difícil de manter tal coesão. E o “paraíso” (que parece mais uma reprodução em miniatura da sociedade branca capitalista) situado em Ruby começa a ser questionado.

As Evas da Queda desse paraíso pertencem ao Convento, uma casa nos arredores da cidade que acolhe mulheres destruídas pelos mais variados motivos. Ao se darem conta da crise que as transformações sócio-históricas instauram no “pacto” fundatório, os homens mais proeminentes resolvem expulsar essas mulheres do Convento e o invadem a bala (há outros motivos mais escusos, como o decorrer da narrativa esclarece).

Ficam evidentes em Paraíso, mais uma vez, dois círculos que sempre se estabelecem na obra de Toni Morrison: por um lado,uma comunidade negra, onde se desdobram todas as contradições comuns a qualquer comunidade; e entrando em choque com esse círculo maior, um círculo menor e incômodo, uma comunidade de mulheres, círculo este duas vezes discriminado (pela cor e pelo sexo).

Apesar de um certo tom de preleção que às vezes se insinua no texto (e que parece inevitável nesta nossa época de “ação afirmativa” e do “politicamente correto”), no que se refere ao círculo maior (que envolve a comunidade de Ruby e seus habitantes), Paraíso surpreende o leitor desconfiado. Intrigas, ressentimentos, ligações perigosas, dilemas éticos e religiosos, quando a narrativa se concentra nos personagens da cidade, a cautela e o pé atrás com a autora caem por terra e em certos momentos o livro consegue ser até magnífico. É muito interessante, por exemplo, a investigação que Patricia, a professora, começa a fazer sobre  as árvores genealógicas de Ruby e que causa um mal estar tão grande quanto as perguntas e pesquisas incômodas da garota que protagoniza o filme Uma cidade sem passado, de Michael Verhoeven: “A maioria de suas anotações provinha de conversas com pessoas, pedidos para consultar Bíblias e pesquisa em registros de igrejas. As coisas não deram certo quando ela pediu para ver cartas e atestados de casamento. As mulheres apertavam os olhos, depois sorriam e ofereciam mais café. Portas invisíveis se fechavam e a conversa virava para falar do tempo”.

O que desanda o bolo de miss Morrison é o outro círculo da narrativa, o das mulheres do Convento. Quando será que a autora de Amada vai se dar conta de que o “realismo mágico” não é a sua seara? Por que destruir toda a narrativa e adotar um ar de embusteira literária com o final tão bobo (após a invasão do Convento, as mulheres desaparecem no ar e reaparecem, meio sobrenaturalmente, nas suas vidas abandonadas)? Por que nos impingir essas trajetórias de vida tão chatas e tão repisadas de martírio das mulheres nesse mundo feito para os homens? Mas, principalmente, por que construir personagens tão fracos, tão pálidos, que não interessam o leitor? Mulheres que deixam filhos morrerem sufocados nos carros, que se mutilam, isto é, que tomam atitudes tão extremas e, no entanto, são tão desinteressantes enquanto seres ficcionais? E por que dar um tom, perto do final, tão similar ao de As Bacantes, de Eurípedes, com mulheres “possuídas” desafiando a ordem dos homens, se ela não é capaz de sustentá-lo com grandiosidade ou, pelo menos, no nível paródico?

É desconfortável ler Paraíso porque parece que fazemos duas leituras, e ambas estranhas entre si: uma, apreciando a maneira como ela construiu convincentemente uma comunidade—que poderia, inclusive, desdobrar-se em outras histórias—; a outra, implicando ranzizamente com o romance e com Toni Morrison por ser tão demagógica e rasa. E, sobretudo, uma romancista ruim na estrutura total dos seus romances. Um blefe da literatura contemporânea.

Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  30 de março de 1999

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/05/morrison-nao-merecia-o-nobel/

 

04/07/2010

O sorvete e o chup-chup

No mundo da cabeça oca, Guardar pode ser considerado um livro de poesia.  Seu autor, Antonio Cícero, escreveu algumas  letras simpáticas e bacanas, as quais, interpretadas pela irmã, Marina Lima, resultaram num pop competente. Aliás, algumas dessas letras constam do volume lançado pela Record, e continuam simpáticas e bacanas, mas era preciso abater árvores e mais árvores para lermos algo como “O meu amor me deixou/ levou minha identidade/ Não sei mais bem onde estou/ Nem onde a realidade” ou então”Meu amor eu lhe juro/ Que não quero deixá-lo na mão/E nem sozinho no escuro”?

Como faz falta a voz de Marina Lima. Talvez a solução fosse ter feito o livro como aqueles cartões musicais. Você abre e a mensagem banal vem embalada em sons. As mensagens banais de Antonio Cícero vêm a seco. O leitor fica num dilema, ri ou chora? Cícero,o carioca, ao contrário de Cícero, o romano, desperdiça toda a bagagem filosófica (seria conveniente revistar essa bagagem, talvez o declarado não corresponda ao conteúdo) pela qual também é conhecido.

Temos um misto de helenismo, hedonismo e homoerotismo, ou seja, referências à cultura greco-romana clássica (“Vai e diz ao rei/ cai a casa magnífica/ O santuário de apolo/ fenece o louro sagrado”) e uma procura do prazer, do corpo masculino bonito, do momento perfeito em que esse corpo se insere numa paisagem, num instante de beleza.

Há um poeta que ficou famoso por tentar essa conjunção, o grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933). Embora eu não tenha particular admiração por Kaváfis, é inegável que ele deixou sua marca na literatura do século XX, com seus poemas sobre a busca do prazer, a admiração pelos rapazes bonitos, a tentativa de fixar imagens fugazes, amores de ocasião: “Minha atenção, por algo que ali perto se disse/ voltou-se para a entrada do café/ E vi o belo corpo que, ao fazer/ parecia Amor ter usado perícia suprema/com alegria plasmando-lhe os membros tão simétricos/ elevando-lhe o talhe escultural/ com emoção lhe aperfeiçoando o rosto/ e, ao só toque de suas mãos, nele deixando/ uma irradiação na fronte, nos olhos e nos lábios” (tradução de José Paulo Paes, em Poemas, editado pela Nova Fronteira). Como Fernando Pessoa, ele às vezes lamenta obsessões e deseja sair do círculo vicioso, inutilmente: “A cada momento jura começar vida nova/ Mas quando a noite vem com seus conselhos/seus compromissos, com suas promessas/ mas quando a noite vem com sua força/ (o corpo quer e pede), ele de novo sai/ perdido, atrás da mesma alegria falsa”.

Antonio Cícero está para Konstantinos Kaváfis como o chup-chup para o sorvete. Temos de agüentar elegias para surfistas, hinos às furtivas caçadas gays em parques e aborrecidas alusões clássicas. Logo no início ele avisa: “Jamais regressarei à Esparta”. Esse tom solene logo é substituído pela necessidade estridente de exaltar o corpo masculino da forma mais ávida, óbvia, servil e constrangedora possível: “Hesitante entre o mar ou a mulher/ a natureza o fez rapaz bonito/rapaz/ pronto para armar e zarpar”; ou então: “Dormes/Belo/ Eu não, eu velo/Enquanto voas ou velejas/ E inocente exerces teu império/ Amo: o que é que tu desejas/ Pois sou a noite, somos/Eu poeta, tu proeza/ E de repente exclamo/Tanto mistério é/Tanta beleza”. E o leitor exclama: quanta abobrinha!

E o leitor exclama isso porque ainda está na página 53 e não viu o que tem pela frente. Ele ainda não chegou a um poema chamado Onda,onde se fala de um garoto conhecido no Arpoador, “garoto versátil, gostoso/ ladrão, desencaminhador/ de sonhos, ninfas e rapsodos”. E o que o nosso poeta/rapsodo faz? Segura o tchan? Não: “Comprei-lhe um picolé de manga”. Não é lindo, não é bucólico? Mas ele é recompensado: “…e deu-me um beijo de língua/ e mergulhei ali à flor/ da onda, bêbado de amor”. E ainda estamos apenas na página 57.

Há, é claro, poemas onde se fala do ser, da poesia, do tempo, não se fique com a impressão de que ele só pensa naquilo, porém por que será que sentimos que eles são só embromação para o tema principal?

Depois do picolé do garoto versátil, chegamos ao verdadeiro banana split que é o poema Eco: “A pele salgada daquele surfista/parece doce de leite condensado”. Não é lírica essa conjunção agridoce de pele salgada com doce de leite condensado? Tanto é que o horizonte fica “inflamado” porque ele, o horizonte, está muitíssimo interessado nesse surfista, “mergulhado em pé na areia: folgado/ ao pôr-do-sol/ de um lado a prancha em riste”.

Os cicerólogos do mundo da cabeça oca terão muitos símbolos fálicos a desvendar: picolés de manga, pranchas em riste, embora o poeta não perca tempo em sutilezas: “O amante/ Cabeça tronco membro/Eretos para o amado/ Não o decifra um só instante…/ Já o amado/Por mais ignorante e indiferente/Decifra o seu amante/De trás pra frente”. Ao leitor comum restará a saudade de uma letra tão bonita como o Menino do Rio, de Caetano Veloso.

Será que no Rio não surgirá um escritor redentor, que fuja do besteirol, das panelinhas (só esse termo pode explicar a inexplicável orelha do outrora respeitável Silviano Santiago, que podemos chamar de, no mínimo, embusteira) e da banalidade?

Kaváfis também cultuava o fálico. Ele tem um conselho a si mesmo que poderia ser útil a Antonio Cícero: “Esforça-te, poeta, para retê-las todas/embora sejam poucas as que se detêm/ As fantasias do teu erotismo/ Põe-nas, semi-ocultas, em meio às tuas frases/ Esforça-te, poeta, por guardá-las todas/ quando surgirem no teu cérebro, de noite/ ou no fulgor do meio-dia se mostrarem”

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 21 de janeiro de 1997)

03/07/2010

A Sherazade do Paraguai

Nélida Piñon fez, com A roda do vento,uma primeira incursão pela literatura juvenil, procurando construir um elogio à imaginação contra a mesmice do cotidiano, contra a rotina, os hábitos institucionalizados. Elogio, aliás, de praxe nesse filão editorial.

Muito bonito. Mas eu jamais quererira ser o jovem destinatário desse elogio: A roda do vento é o tipo de livro que coloca o leitor iniciante contra a literatura, o tipo de livro que faz co que ele ache a leitura a coisa mais chata do mundo.

Tal fato não é muito surpreendente em se tratando de Nélida Piñon. Ela já foi ruim e ilegível (qual  “coração valente” terá chegado ao final de Madeira feita cruz, Guia-mapa de Gabriel Arcanjo ou Fundador?). Mais tarde, ela tentou ser legível e foi igualmente ruim (em A casa da paixão& A república dos sonhos); é uma lástima, porém, o caso de A roda do vento, pois parecia um livro promissor. E essa parece ser a maldição de Nélida: alguns textos seus (contos de Sala de armas, o romance paródico A força do destino) começam prometendo, parecendo que vão decolar e que a autora conseguirá atravessar o inferno astral de chatice, falta de espontaneidade e ausência do senso de realidade, no qual chafurda e agoniza como uma penitente de Dante. Alguma coisa acontece, contudo, no coração da narrativa, um enfarte fulminante, e tudo desmorona no besteirol.

A roda do vento tem como cenário a cidadezinha de Catavento (podia ser mais óbvio?), onde não acontece nadaa não ser um misterioso vento semanal e a chegada de Gênia (!!??), tia da dupla central de crianças, Tarzan e Beijinho. Ela é o ídolo da garotada porque conta histórias.

Para o leitor, ela parece mais uma chata de galocha que diz coisas do tipo: “O Brasil é como um doente que precisa de remédios. Só que, para sarar, ele precisa de cultura”. É mole? Mas também o pai deles, Armando, não fica atrás em sentenciosidade ridícula: “O Brasil não tem memória porque as famílias se esquecem de entregar aos filhos os retratos, os papéis, as intrigas escondidas no porão de cada casa”!!??

Na intriga armada pela autora, em que os personagens ficam “genuflexos”, “impávidos” e saem “vencedores da pugna” (o que me confirma a desconfiança, após umas coxas de alabastro que apareciam em A casa da paixão, de que  Nélida Piñon veio ao mundo com o coração parnasiano), Tarzan descobre que o dono do bar da cidade e seu sócio escondem alguma coisa relacionada com o vento. Através de um mapa, ele e sua turma encontram uma caverna onde o misterioso vento vive aprisionado pelos dois comparsas, dentro de um odre (para que a autora possa nos remeter ao mito de Éolo e sua participação no regresso de Ulisses para casa na Odisséia).Como foi Gênia quem começou toda a especulação sobre o vento, caberá a ela a palavra final, salvando a garotada que ficou em apuros na caverna, pois, segundo ela, quem começa a contar uma história é seu dono.

Há coisas boas. Apesar de tudo, é sempre necessário um fundo pedagógico nas histórias juvenis, e por isso são válidas as informações sobre o vento, tanto literárias quanto geográficas. Seria muito instigante, caso melhor aproveitada, a idéia de que todos, mesmo os personagens mais prosaicose mergulhados na rotona, projetam sua fantasia em algo.

A narrativa vai desenhando diversos graus de envolvimento com a imaginação e a criatividade, desde a empregada Nhonhô,com seus quitutes, até a tia Gênia. O problema é que a imaginação da autora simplesmente não decola. E nem a linguagem. A expedição à caverna é sabotada por trechos como: “Se o triunfo promovia a glória, o fracasso vergava-lhe os ombros” (referindo-se à situação de Tarzan como líder do grupo) ou “Aquele mundo de pedra haveria na manhã seguinte de dardejar setas de luz oriundas do sol”!!??

E quando o próprio Tarzan toma a narrativa para si, no capítulo 15, a autora fá-lo afirmar coisas como “Aquela excursão precisava ser coroada de êxito. Havia que acreditar na concórdia dos homens”, e temos a interminável e impagável litania de Gênia invocando o vento: “Tu que governas os grotões da terra, que alicias as ondas do mar, que atormentas os sentidos dos fracassados, castigas os que traem,os que mentem, os que não sabem sonhar”, lembrando aquela iinsuportável e bisonha canção de Guilherme Arantes, Planeta Água.

A mediocridade do seu estilo não impede que Nélida Piñon tente dar um clima grandioso para o seu livreco: “Dava-se na caverna, em torno do odre, uma batalha que, desde a criação do homem, perseguiu a humanidade.As forças do bem e do mal defrontando-se em acirrada contenda”!!??

Há, anexo ao livro, um suplemento de apoio para os alunos (deveria ser, na verdade, um pronto-socorro porque muitos poderão sucumbir ao tédio mortal), com um roteiro para o professor trabalhar com eles, cheio de observações interessantes e inteligentes. Tal suplemento-roteiro é mais criativo do que o próprio A roda do vento: inventa um livro que o leitor não leu. Temos declarações como: “Tal indefinição proposital faz com que o leitor não possa ter uma atitude passiva, de quem apenas segue um trabalho acabado. Ele é de certa forma um co-autor da obra… Enfim, trata-se de uma escritora que promove verdadeira iniciação à ficção literária e desvenda-lhes o fascínio perene da literatura, a possibilidade de construir um mundo a partir das palavras…” Isso sim é uma imaginação delirante. Ou uma cabeça-de-vento.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 03 de dezembro de 1996)

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