MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/07/2010

A BARATA-MONÓLITO: “A Paixão segundo G.H.”


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 24 de novembro de 1998)

A Rocco vem reeditando as obras da nossa mais cultuada  escritora. Além disso, a Scipione está lançando os volumes da Archivos, coleção planejada internacionalmente para oferecer edições críticas de obras representativas. Uma delas é justamente A Paixão Segundo G.H., que Clarice Lispector publicou em 1964 (os outros títulos brasileiros publicados são, por enquanto,  Macunaíma, de Mário de Andrade, Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, e, vai se saber por que, uma obra tão infeiror à ambição representativa da coleção como é o caso de Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso).

A Paixão Segundo G.H. é um texto que parece ter sido escrito para dar vida, numa amalgamação impressionante de experiência e linguagem, ao que Octavio Paz descreve tão bem em O arco e a lira: a experiência do sagrado:

“A experiência do sagrado é uma experiência repulsiva. Ou melhor, convulsiva. É um pôr para fora o interior e o secreto, um mostrar as entranhas. O demoníaco, dizem todos os mitos, brota do centro da terra. É uma revelação do oculto…. implica uma ruptura do tempo e deo espaço: a terra se abre, o tempo se parte; pela ferida ou abertura, vemos o outro lado do ser”.

A abertura da narradora G.H. para o outro lado do ser é o quarto de empregada do seu apartamento, que ela resolve arrumar numa certa manhã. Lá encontra uma barata (e a esmaga com a porta do guarda-roupa, expondo justamente as “entranhas”, literais e metafóricas) e esse encontro é a sua “paixão”, a desagregação e aniquilação da vida alienada, “humanizada demais”, rumo à identificação com a Vida, “pré-humana”. Ou seja, o Inominável, que dá nojo, causa náusea, é o Inferno.

Essa experiência, contada sob a forma cristã da confissão penitente (e é por isso que, quando G.H. coloca a barata na boca, para prová-la, lembramos do ato de comungar), é “demoníaca”, no sentido das palavras de Paz. Ou, nas palavras de G.H., ao falar do neutro, do insosso, do inexpressivo que é o estado bruto do ser:

“Pois o inexpressivo é diabólico. Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco. Se a pessoa tiver a coragem de largar os sentimento, descobre a ampla vida de um silêncio extremamente ocupado, o mesmo que existe na barata, o mesmo nos astros, o mesmo em si próprio — o demoníaco é antes do humano”.

Há uma assimilação muito forte entre o sagrado e o imundo (a barata é chamada, entre outras coisas, de “amostra de calmo horror vivo”), nessa narrativa onde se tenta, justamente com um estilo “tateante”, interrogativo (e onde talvez a obra clariceana atinja seu ápice), mostrar “a verdade que não se quer”. Pois a verdade é o horror de ter que admitir que o Ser passa pelo nosso não-Ser, essa é a metamorfose de G.H, “de mim em mim mesma”, ali, presa no quartinho de empregada com uma barata que é um portal para o cosmo tanto quanto o monólito de 2001-Uma odisséia no espaço o era para os astronautas da história.

Para atingir esse estado é preciso perder tudo: a identidade, as extensões que nós criamos no mundo para registrar nossa identidade e que nos tornam objetos de nós mesmos (construções, cômodos, artefatos, sentimentos, conceitos). Para então abismar, ou, como se lê, em O arco e a lira, estupefar-se:

“a estupefação ante o sobrenatural não se manifesta como terror ou temor, como alegria ou amor, mas como horror. No horror estão incluídos o terror –o cair para trás– e a fascinação que nos leva a nos fundirmos com a Presença. O horror nos paralisa. E não porque a Presença seja por si mesma ameaçadora, mas porque sua visão é ao mesmo tempo insuportável e fascinante. E essa Presença é horrível porque nela tudo se exteriorizou. É um rosto no qual afloram todas as profundidades, uma Presença que mostra o verso e o reverso do ser… E a essa repulsa segue-se o movimento contrário — não podemos tirar os olhos da Presença, nos inclinamos para o fundo do precipício. Repulsa e fascinação. E depois a vertigem: cair, perder-se, ser um com o Outro. Esvaziar-se. Não ser nada– ser tudo: ser”.

É justamente na crucificação de G.H. em torno da barata-portal-para-o-cosmo que temos a confirmação mais poética, mais avassaladora literariamente, das afirmações do genial poeta e pensador mexicano: ‘Cada vez mais eu não tinha o que pedir. E via, com fascínio e horror, os pedaços de minhas podres roupas de múmia caírem secas no chão, eu assistia à minha transformação de crisálida em larva úmida… Eu havia prendido defronte de mim o imundo do mundo — e desencantara a coisa viva”.

Embora seja meio absurdo desentranhar desse texto lindíssimo passagens isoladas, pois elas darão conta de apenas um momento de um processo,de uma travessia, que têm de ser vividos pelo leito. E vivendo essa processo, essa travessia, ainda se descobre uma das obras-primas da literatura deste século. É uma recompensa e tanto, mesmo que não se saia ileso. Aliás, sair ileso é não ter lido o livro.

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