MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/07/2010

Chaya Pinkhasovna: desvarios em torno da judia Clarice Lispector (primeira parte)


VER TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2013/05/26/chaya-pinkhasovna-desvario-em-torno-da-judia-clarice-lispector-segunda-parte/

(escrito em julho de 2010, especialmente para o blog)

Em agosto de 2006, quando realizei um curso em Santos sobre Clarice Lispector (1920-1977), Fragmento e Totalidade, o material mais pitoresco com o qual lidei sobre o assunto, e que mais divertiu meus alunos, foi o extraído de O Cânone Republicano II, o último tomo de uma série que compreendia O Cânone Colonial, O Cânone Imperial e O Cânone Republicano (em dois volumes), escrita por Flávio R. Kothe e publicada pela editora da UNB.

O objetivo de Kothe na série era expressamente atacar o cânone instituído pela historiografia literária e pela crítica, por ser uma expressão do luso-fascismo, excluindo as minorias, entre elas, os imigrantes, especialmente os alemães: “A imigração alemã imprimiu milhões de jornais, revistas e livros no Brasil, mas é como se ela nada tivesse feito e nada tivesse valor. Ao espírito totalitário a supressão e o olvido parecem naturais, necessários e lógicos. O ´brasileiro´ pensa assim”. Em outra passagem, lemos: “A tradição de genocídio físico e espiritual lusitana convertida em espírito em princípio de brasilidade imobilizou os modernistas… se citavam o índio, era  para bater no imigrante e seus descendente (Macunaíma) ou para zerar a cultura mais alta (Manifesto Antropófago). Enquanto exercia o alto cargo de confiança de chefe de gabinete ministerial de uma ditadura fascista [a de Getúlio Vargas], Drummond, poeta principal, dava-se ao luxo de exaltar o russo em Berlim, mas nada expunha sobre a perseguição a brasileiros de origem alemã, japonesa, polonesa e italiana no Brasil”. E nesta outra: “O cânone é racial e racista, e discrimina quem não seja luso-brasileiro”. Querem mais uma amostra? “A língua portuguesa não produziu nenhum grande filósofo. Os dois mais renomados escritores portugueses, Camões e Pessoa, fazem parte da ´síndrome luso-nazista´ : expansionistas, autoritários, prepotentes, bélicos fascistas, racistas, intolerantes. Não são um acaso. Expressam a ´pura cepa lusitana´. E esta última gera a oligarquia brasileira…”

      O racismo luso-brasileiro pode ser encontrado, por exemplo, em Vidas Secas:

 

“Quando Graciliano Ramos fez de Fabiano um tipo de olhos claros e cabelos ruivos e, ao mesmo tempo, um sujeito fraco um mero ´cabra´, sob a aparência de atacar o arianismo caiu no lugar-comum oligárquico de atacar os tipos germânicos, portanto basicamente os teuto-brasileiros, ele está muito situado ao lado de Aluísio Azevedo, Graça Aranha, Mário de Andrade e tantos outros consagrados no cânone porque cultivam o preconceito e a discriminação… Vidas Secas é uma obra racista, o que alegra luso-brasileiros que, ao promovê-la a obra-prima, podem apresentar-se como donos do país… sem se apresentar como racistas e senhoriais (embora o sejam).”

E Clarice (que é quem me interessava então, e agora também), que afinal era imigrante, e de ascendência não luso-brasileira, porém judaica? Ela, no entanto, não escapou de ser uma diluidora e quase uma charlatã oportunista, que visava agradar ao público, ao poder e às fortes instituições religiosas (católicas) do nosso país:

“Clarice aparenta representar um horizonte novo na literatura brasileira e tem basicamente duas  (!!!???) obras consagradas no cânone,  A paixão segundo G.H. e A hora da estrela [1]… O que parece novo na ´grande ficção´ de Clarice é, em grande parte, não mais que a inserção da temática do existencialismo francês—Camus, Sartre, Beauvoir e Co—na ficção brasileira, mas sem passar propriamente por sua forma alemã mais densa, Nietzsche e Heidegger. A versão francesa foi uma diluição jornalística dos pensadores alemães, sendo, portanto, a versão de Clarice, a diluição de uma diluição.”

“Sendo Clarice de origem judaica num mundo católico, um tema óbvio e central—não elaborado propriamente por ela—seria  o sentido da ´epifania´, da história revelada a propor a divisão dos tempos em um mundo pré-salvação e um mundo já salvo… Os judeus mais esclarecidos, ainda que sintam vinculados à história de seu povo, não acreditam nos princípios religiosos do judaísmo, mas aproveitam seus impulsos para diferenciarem-se da limitada cosmovisão cristã. É o que se tem na obra de escritores como Freud, Kafka, Benjamin e Celan. Não se sente, porém, tal impulso duplamente crítico na autora brasileira… Clarice procurou produzir uma ´literatura da revelação e do milagre´: o texto como produto e afloramento de uma súbita iluminação desencadeada como que por uma graça divina, na qual um sentido transcendental afloraria. Assim, a autora seria uma espécie de anjo, mensageira do divino ou do profeta, destinada a revelar os homens a sabedoria divina. Se Clarice ficou presa a uma estética de pressupostos religiosos, foi sobretudo pelo judaísmo… Perdeu a oportunidade de discutir uma diferença que seria algo original em relação à tradição católica preponderante no país. Ela poderia, talvez, perder público e incompatibilizar-se com o poder e com fortes instituições religiosas do país. Foi-lhe oportuno reduzir tudo à psicologia e à sutileza da palavra.”

 

Tendo demonstrado as causas gerais da irrelevância conseguida pela produção clariceana, ele se volta para as suas obras “canônicas”. Em G. H. tudo se resume ao sentimento de angústia de uma madame que não precisa trabalhar para sobreviver. Sua conclusão sobre o livro é lapidar: “Perder uma empregada não é o fim do mundo, mas consegue sê-lo para a madame de Clarice. Tem-se aí uma bagatelização da temática existencialista; não por acaso, foi posta no cânone”.

Mas o clímax é mesmo o que ele escreve sobre A hora da estrela, principalmente quando ele escreve sobre o atropelamento de Macabéa, a heroína do livro, por um Mercedes Benz  “amarelo”, dirigido por um motorista “alourado e estrangeiro”:

Ora, em 1977, quando foi publicada essa história, o contexto brasileiro dava um sentido bastante unívoco a isso: o imperialismo está matando a brasilidade.  O que importa, portanto, é a defesa do ´nacional e popular´. É estranho que esse carro esteja pintado de amarelo. Quem iria estragar um carro tão bom com uma cor tão feia? Esse homem alourado e estrangeiro que aí aparece, tudo indica que deve ter sido quem dirigiu o carro, cuja cor é uma extensão ampliada e berrante da cor do cabelo: uma hipérbole por metonímia. O Mercedes não era no Brasil, na década de 1970, um carro usual. Era carro de milionário e de estrangeiro. Ora, a lógica de toda a narrativa leva a concluir que o capitalismo estrangeiro estava caçando nordestinas pobres pelas ruas para matá-las… Sob esse estreito e gritante nacionalismo há algo mais, porém. O homem é loiro, portanto, um tipo ariano. Essa loirice é tornada gritante na coloração absurda do carro. Não se trata de um carro qualquer, mas de um carro alemão. Clarice retoma o preconceito contra as alemães cultuado no cânone brasileiro desde Graça Aranha, como extensão de outros preconceitos tradicionais, cultivados desde os primórdios do cânone. Isso atinge principalmente a quem?—As teuto-brasileiros. Em nome da nacionalidade, é preciso persegui-los. Quem for brasileiro deve ajudar a aniquilá-los. E, eles mesmos, se quiserem sobreviver no Brasil, devem aniquilar a sua própria cultura e identidade, a começar pela língua. Esse preconceito antigermânico corrente no Brasil é tão estreito quanto o antissemitismo nazista. E a judia Clarice caiu nele. Mostrou-se mesquinha e pequena, o que corresponde ao seu comprometimento com o DIP.”

Portanto, alguém sempre ocupará com o maior prazer e pressa o papel de vítima, de mártir, de bode expiatório, mesmo que se invertam os termos. E a intolerância será a mesma.


[1] Há um resumo biográfico da vida dela muito mal-intencionado, ou pelo menos, feito com má-vontade evidente, além de mal embasado: “Clarice Lispector é oriunda de uma família que saiu da Ucrânia como protesto contra o advento do comunismo [isso não corresponde aos fatos]. Por volta de 1940, ela entrou para a Agência Nacional, um órgão oficial de informação do governo que logo foi transformado no DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda, um órgão de defesa e propaganda da ditadura fascista. A atividade na imprensa permitiu-lhe contatos com intelectuais, os quais a ajudaram a publicar seus trabalhos. Ao ter estudado Direito, casou-se em 1947 com um diplomata, o que lhe permitiu conhecer cidades como Nápoles, Berna e Washington. Quando solicitou  a cidadania brasileira a Getúlio Vargas, citou os seus préstimos ao governo. Retornou ao Rio de Janeiro em 1959, com o fim do seu casamento, e passou a ser jornalista e colunista  de diversos jornais. Teve um emprego na Secretaria da Administração do Estado do Rio de Janeiro. Participou, em 1968, na ´Marcha dos 100 mil´ contra a ditadura militar, mas não foi toi propriamente atingida pela censura e nem deixou de ter espaço na imprensa pós-64. Não abriu fogo, em sua trincheira literária, contra a ditadura. Faleceu em 1977.”

3 Comentários »

  1. rapaz, que doideira.
    agora fico pensando no cuidado que devemos ter nas leituras alegóricas de um texto.
    rapaz, que doidice.

    Comentário por niltonresende — 18/07/2010 @ 17:45 | Responder

  2. Caro Alfredo, se estes absurdos disfarçados de correção política fossem ditos por algum mestrando mal doutrinado de 25 anos, dava até para cair na gargalhada. Mas não, são ditas por alguém inegavelmente inteligente, professor de uma grande universidade e conhecedor das obras de Adorno e Benjamin. É por estas e outras que, mesmo sendo professor de uma universidade, não confio muito que elas irão formar leitores.

    Comentário por Wanderson Lima — 27/05/2013 @ 16:01 | Responder

    • É por isso, meu caro Wanderson, que escolhi prosseguir como professor de ensino fundamental, apesar do doutorado, acho que não conseguiria suportar muito a “burrice” acadêmica. Para o bem ou para o mal, foi uma escolha de vida, para manter o prazer da literatura. Obrigado pelo comentário, um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 28/05/2013 @ 14:15 | Responder


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