MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/07/2010

Nacionalidade chilena, autenticidade literária paraguaia


  

Em De amor e de sombra (1984), a não ser em alguns detalhes inócuos e inúteis, Isabel Allende livrou-se da carga do realismo fantástico e de sua tendência a imitar ineptamente Gabriel García Márquez que marcavam seu primeiro romance, A casa dos espíritos (1982). Nem por isso o livro deu certo. Nele, conta-se a história do casal Irene-Francisco: ela, jornalista; ele, seu assistente-fotógrafo. Ao investigarem o desaparecimento da camponesa Evangelina, após detenção para interrogatório, eles descobrem, em uma mina abandonada, cadáveres de pessoas eliminadas pela ditadura de Pinochet. Essa descoberta completa a educação político-sentimental de Irene por Francisco, fazendo com que ela abra os olhos para o que acontece no país, ao contrário da mãe, e faz com que ela desperte para o amor, embora quase morra por isso (é alvo de um atentado).

     Allende tem história para contar. Tem elementos de sobra para emocionar o leitor. Seu problema básico é  a seguinte frase, que aparece em Eva Luna: “Também procuro viver a vida como gostaria que fosse…como uma novela”. E é quase numa telenovela que ela transforma De amor e de sombra, realçando os defeitos de folhetim que atrapalhavam A casa dos espíritos, e que já a barravam como candidata a preencher o vácuo de nomes femininos na projeção internacional que a literatura hispano-americana alcançou nas últimas décadas.

     Deparamo-nos com um estilo irremediavelmente cafona, com personagens apresentados da maneira mais esquemática possível, como se ela tivesse de escrever um pequeno relatório sobre cada um, com seus complexos psicológicos e seus problemas existenciais. Não é o conteúdo das histórias de cada um que é fraco, e sim as formulações da autora chilena. Isso faz com que o comportamento de Irene e Francisco às vezes se assemelhe aos personagens da série juvenil Vaga-lume, à cata de aventuras. O peso trágico que se abate sobre eles depois (e faz da terceira e última parte a melhorzinha do livro) nunca parece adequar-se aos personagens. Todos os defeitos que chocaram na adaptação cinematográfica já estão no romance.

     Eva Luna (1987) é pior ainda. E é mais pretensioso. Lendo o primeiro capitulo, parece que ele saiu da gaveta de rascunhos de García Márquez. Portanto, De amor e de sombra fora apenas um interregno dessa emulação irritante. Depois, vai ficando claro que Allende, apesar dessa mania, gosta mesmo é de contar simples histórias, gosta de introduzir personagens novos e anedotas sobre eles.

     É isso que acontece ao longo do romance inteiro, histórias unidas pelas trajetórias da órfã Eva, filha da criada de mumificador de cadáveres, e de Rolf, um imigrante austríaco, os quais vão se conhecer em meio a guerrilhas, revoltas estudantis, repressão militar e muitos fatos anedóticos e bizarros. E tudo contado num estilo de telenovela; não, pior ainda, de radionovela. E dessa vez não há nem os honestos esforços de variar o tom e o estilo, como em De amor e de sombra (que, mesmo assim, resultou bastante fraco). Se Allende fosse norte-americana, ela seria considerada do mesmo naipe de autores de best seller. Seria uma Danielle Steel ou uma Bárbara Taylor Bradford da vida. Como é latino-americana e seu pano de fundo são as ditaduras militares (o que sempre congrega nossos melhores sentimentos de revolta e repúdio a quaisquer formas de repressão institucionalizada) ela parece que tem algo mais a oferecer. Não tem.

    Em matéria de trajetórias de vida ao longo de décadas (como acontece em A casa dos espíritos e Eva Luna), ela tem muito a aprender com John Irving, autor de O mundo segundo Garp, Hotel New Hampshire & o soberbo As regras da casa de sidra, e com Salman Rushdie, autor de Os filhos da meia-noite & O último suspiro do mouro. Ambos são políticos, profundos, engraçados, caleidoscópicos. E excepcionais contadores de histórias.

(resenha publicada, com ligeiras alterações, em 4 de junho de 1996)

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: