MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/07/2010

BACANTE SEM GRANDEZA:A ficção ruim de Toni Morrison


Há livros cuja avaliação crítica é difícil. Entre esses casos de livros difíceis de julgar um dos mais complicados é aquele escrito por autores de que a gente não gosta. E esse é o caso de Paraíso, de Toni Morrison.

Como se sabe, a autora norte-americana recebeu o Nobel em 1993. Antes disso, já era muito apreciada nos EUA, e eu nunca entendi bem por quê. Se pegarmos seu romance mais prestigiado (vencedor do Pulitzer, inclusive), Amada, temos uma história melodramática que traz o peso da escravidão (uma escrava fugitiva degola a própria filha para que ela não seja levada por um perseguidor), que até se sustenta bem e contém ecos da tragédia grega, mas que é irremediavelmente estragada por um estilo discutível e especialmente por uma grotesca trama sobrenatural e fantástica: o fantasma da filha aparece com dezoito anos (!!!???) para se vingar da mãe. Só mesmo o desejo dos críticos americanos por um García Márquez local pode explicar que se tenha levado a sério tal empreendimento ficcional.

Por isso, não é de se estranhar que, após três leituras decepcionantes (além de Amada, A canção de Solomon, ainda o melhorzinho, e Jazz), Paraíso tenha sido abordado com desconfiança e cautela.  O romance (traduzido por José Rubem Siqueira e lançado pela Companhia das Letras) tem como cenário central Ruby, uma cidade de Oklahoma exclusivamente negra. A maneira como foi fundada chega às raízes do bíblico. Algumas famílias errantes, quase que como os hebreus do Antigo Testamento, encontram uma Terra Prometida e selam um pacto particular com o Senhor. E as famílias principais do lugar, descendentes dos fundadores, procuram manter a pureza racial e os compromissos assumidos na época da Fundação. Um forno comunitário gigantesco simboliza essa coesão dos ideais dos cidadãos de Ruby. Só que, numa época de transformações radicais, como foram as décadas de 60 e 70 (é só lembrar: luta pelos direitos civis dos negros, feminismo, rock, guerra do Vietnã) fica muito difícil de manter tal coesão. E o “paraíso” (que parece mais uma reprodução em miniatura da sociedade branca capitalista) situado em Ruby começa a ser questionado.

As Evas da Queda desse paraíso pertencem ao Convento, uma casa nos arredores da cidade que acolhe mulheres destruídas pelos mais variados motivos. Ao se darem conta da crise que as transformações sócio-históricas instauram no “pacto” fundatório, os homens mais proeminentes resolvem expulsar essas mulheres do Convento e o invadem a bala (há outros motivos mais escusos, como o decorrer da narrativa esclarece).

Ficam evidentes em Paraíso, mais uma vez, dois círculos que sempre se estabelecem na obra de Toni Morrison: por um lado,uma comunidade negra, onde se desdobram todas as contradições comuns a qualquer comunidade; e entrando em choque com esse círculo maior, um círculo menor e incômodo, uma comunidade de mulheres, círculo este duas vezes discriminado (pela cor e pelo sexo).

Apesar de um certo tom de preleção que às vezes se insinua no texto (e que parece inevitável nesta nossa época de “ação afirmativa” e do “politicamente correto”), no que se refere ao círculo maior (que envolve a comunidade de Ruby e seus habitantes), Paraíso surpreende o leitor desconfiado. Intrigas, ressentimentos, ligações perigosas, dilemas éticos e religiosos, quando a narrativa se concentra nos personagens da cidade, a cautela e o pé atrás com a autora caem por terra e em certos momentos o livro consegue ser até magnífico. É muito interessante, por exemplo, a investigação que Patricia, a professora, começa a fazer sobre  as árvores genealógicas de Ruby e que causa um mal estar tão grande quanto as perguntas e pesquisas incômodas da garota que protagoniza o filme Uma cidade sem passado, de Michael Verhoeven: “A maioria de suas anotações provinha de conversas com pessoas, pedidos para consultar Bíblias e pesquisa em registros de igrejas. As coisas não deram certo quando ela pediu para ver cartas e atestados de casamento. As mulheres apertavam os olhos, depois sorriam e ofereciam mais café. Portas invisíveis se fechavam e a conversa virava para falar do tempo”.

O que desanda o bolo de miss Morrison é o outro círculo da narrativa, o das mulheres do Convento. Quando será que a autora de Amada vai se dar conta de que o “realismo mágico” não é a sua seara? Por que destruir toda a narrativa e adotar um ar de embusteira literária com o final tão bobo (após a invasão do Convento, as mulheres desaparecem no ar e reaparecem, meio sobrenaturalmente, nas suas vidas abandonadas)? Por que nos impingir essas trajetórias de vida tão chatas e tão repisadas de martírio das mulheres nesse mundo feito para os homens? Mas, principalmente, por que construir personagens tão fracos, tão pálidos, que não interessam o leitor? Mulheres que deixam filhos morrerem sufocados nos carros, que se mutilam, isto é, que tomam atitudes tão extremas e, no entanto, são tão desinteressantes enquanto seres ficcionais? E por que dar um tom, perto do final, tão similar ao de As Bacantes, de Eurípedes, com mulheres “possuídas” desafiando a ordem dos homens, se ela não é capaz de sustentá-lo com grandiosidade ou, pelo menos, no nível paródico?

É desconfortável ler Paraíso porque parece que fazemos duas leituras, e ambas estranhas entre si: uma, apreciando a maneira como ela construiu convincentemente uma comunidade—que poderia, inclusive, desdobrar-se em outras histórias—; a outra, implicando ranzizamente com o romance e com Toni Morrison por ser tão demagógica e rasa. E, sobretudo, uma romancista ruim na estrutura total dos seus romances. Um blefe da literatura contemporânea.

Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  30 de março de 1999

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/05/morrison-nao-merecia-o-nobel/

 

4 Comentários »

  1. Acredito que vc deveria conhecer um pouco mais da história da escravidão antes de tecer comentários depreciativos acerca da obra de Toni Morrison.

    Comentário por Claudia — 22/06/2011 @ 11:02 | Responder

    • O que tem a ver, minha cara,a história da escravidão com qualidade literária?!!!!

      Comentário por alfredomonte — 22/06/2011 @ 12:55 | Responder

  2. As suas críticas são infundadas (teoricamente falando) e se assemelham ao impressionismo crítico do século XVIII. O recurso do fantástico presente em Beloved dialoga com a teoria de Todorov, mas o que mais me assusta é a sua incapacidade de refletir sobre esse recurso. Ao utilizar um fantasma como um dos personagens centrais do romance, não estaria a escritora interessada em traçar ligações mnemônicas com o próprio fantasma da escravidão? Um recurso alegórico, portanto? No mais, a qualidade estética do texto sobrevive a tudo o que você falou, o universo diegético criado por Morrison atinge o propósito de nos fazer refletir sobre uma realidade distante que está o tempo todo sendo atualizada, seja através do discurso ficcional, seja através do próprio real empírico. Boa sorte.

    Comentário por Emerson — 01/09/2014 @ 13:58 | Responder

    • As minhas críticas são opiniões pessoais, não teóricas (nunca sugeri o contrário), por isso não dou a mínima para “universos diegéticos” e teorias todorovianas, que nunca me disseram nada (aqui, sim, entra o teórico), e são, elas próprias, muito frágeis. Mas não tanto como a ficção (ruim) de Toni Morrison.

      Comentário por alfredomonte — 01/09/2014 @ 14:22 | Responder


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