MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/06/2010

VICENTE DE CARVALHO


Resenha publicada em ” A Tribuna”, de Santos,  de forma ligeiramente condensada em 10 de maio de 2008

   Poemas e Canções alcança o centenário agora em 2008 como obra difícil de encontrar: para conhecer a produção de Vicente de Carvalho (1866-1924), o leitor comum tem como opção acessível a seleção feita por Cláudio Murilo Leal para a Global, onde, entre versos ligeiros e “graciosos”, metrificados com uma “naturalidade” que, por um lado, pressagia a miraculosa obra de Manuel Bandeira e sua inacreditável simplicidade em meio a uma lírica afeita ao preciosismo lexical e a uma sintaxe arrevezada e, por outro, parece “fácil”, preguiçosa demais, deparamos com os seguintes trechos, pertencentes a De manhã:

“… Ver é o supremo bem.

                   Surpreendo-me a cismar

Se a alma será, talvez, uma função do olhar…

É com os olhos que eu sinto, e compreendo –ou suponho.

//

A vida é para mim como a névoa de um sonho

—Névoa confusa de um sonho material

A que somente o olhar, de certo modo, e mal,

Dá, com as formas e a cor, expressão e sentido…

//

…Sei que um beijo de amante é uma bem doce coisa:

Mas no encanto do beijo esfaimado de amor

Há muito da visão rósea de um lábio em flor.

Ao contato da mão, ou num lírio, ou num verme,

É a sugestão do olhar que domina a epiderme…

//

…No que o ouvido escuta —é o olhar que traduz:

Para a imaginação do homem órfão da luz

Que exprimiria o som —canto, sussurro, grito,

Ribombo de trovão rolando no infinito…

//

…Nunca tivesse o olhar humano convivido

Com a natureza; nunca houvesse o homem subido,

Pelos olhos, suave escada de Jacó,

Da Terra e de si mesmo, isto é, de lama e pó,

Para a resplandecência astral e inacessível

Do céu…

//

…Desconheces a luz que revela a beleza,

A luz, que espiritualiza a Natureza,

Que, num foco fugaz de espuma sem valor,

Cria a mais deslumbrante apoteose da cor;

Não aprendesse, amando a luz fecunda, o forte

Horror da sombra, horror do vácuo, horror da morte.

//

Encerrado em si mesmo e chumbado no chão,

Insulado na funda, imensa solidão

Que em derredor do cego a cegueira dilata;

O homem, órfão da luz, na Terra estreita e chata,

Quase só conhecendo o Universo —através

Do pedaço de solo em que pousasse os pés,

//

Dentro da escuridão de su´alma vazia

Que humilde sonho de molusco sonharia?”

– 

   Esqueçamos os banais “beijo de amante”, “esfaimado de amor” e “visão rósea de um lábio em flor”. São poluentes agregados espuriamente à espuma das vagas dessa surpreendente e lúcida poética do olhar. É uma pena que esse exercício seja tão raro numa obra em que o dinamismo do verso e da rítmica poderia obedecer a um critério fenomenológico menos atrelado àquela “sensibilidade” que se espera do poeta, evitando a pobreza das seguintes anotações sobre a natureza:

“Vai branca e fugidia,

A nuvem pelo ar:

Roça de leve a lua,

Embebe-se em luar

//

E toda resplandece

No brilho do luar,

Mas pouco a pouco passa

E perde-se no ar…”

    E vai ficando pior, pelo entrecho sentimental:

“Minha alma na tua alma

—Nuvem que trouxe o vento—

Passou por um instante,

Roçou por um momento…

//

…Eu refleti apenas

Um brilho que era teu;

Passei, e tu ficaste,

Ficou contigo o céu.”

    E as célebres Cantigas Praianas  vão na mesma toada de lirismo trivial e fácil, “natural”, com uma “natureza” que parece feita de palavras cristalizadas em puros rochedos de clichês:

“Ouves acaso quando entardece

Vago murmúrio que vem do mar,

Vago murmúrio que mais parece

         Voz de uma prece

         Morrendo no ar?

//

Beijando a areia, batendo as fráguas,

Choram as ondas; choram em vão:

O inútil choro das tristes águas

         Enche de mágoas

         A solidão…”

         Vicente de Carvalho foi vítima da sua época, aquele período indeterminado, quase invertebrado, entre o Parnasianismo-Simbolismo e o Modernismo, etiquetado como o Pré-Modernismo. Ele escapou dos piores defeitos que assolam até a (grande) poesia de Olavo Bilac, aquele pedantismo horroroso, aqueles temas clássicos coligidos com informações de almanaque; como Afonso Schmidt, porém, nunca logrou uma voz poética inteiramente sua e parece ter se debatido entre destroços de tradições poéticas e vagas correntes intuitivas de uma “outra poesia”, que por vezes perpassa o seu lirismo e o faz surfar sobre águas menos rasas. Ele prova isso nos melhores trechos do seu A arte de amar, nas anotações sobre a natureza com uma clivagem mais irreverente, como nas Fantasias do luar (“O conjunto descosido/Da paisagem// A apagada fantasia/ Do colorido—parece /De um pintor que padecesse/ De miopia// Tudo, tudo quanto existe/ Extravaga, e se afigura/ Tomado de uma loucura/ Mansa e triste.”) ou no conceito freudiano de felicidade que aparece em Velho Tema:

“Essa felicidade que supomos

Árvore milagrosa que sonhamos

Toda arreada de dourados pomos,

//

Existe, sim: mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos

    E dessa forma o melhor Vicente de Carvalho escapa ao moribundo “lirismo de crepúsculo” que inunda versos como:

“Tudo amortece; a tudo invade

Uma fadiga, um desconforto…

Como a infeliz serenidade

Do embaciado olhar de um morto.”

2 Comentários »

  1. Maravilhoso trabalho. Parabéns !

    Comentário por Nicéas Romeo Zanchett — 09/08/2010 @ 16:21 | Responder

    • Muito obrigado. Abraço, Alfredo

      Comentário por alfredomonte — 09/08/2010 @ 20:07 | Responder


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