MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/05/2010

Destaque do blog: O DIA DA CORUJA, de Leonardo Sciascia


O INIMIGO MORTAL DAS PALAVRAS OCAS (ou o insólito cruzamento Rulfo-Borges)

INTRODUÇÃO

Mesmo entre os maiores ficcionistas,  poucos poderiam aspirar ao adjetivo “irretocável”, a uma essencialidade quase que absoluta da expressão. Os nomes que me vêm à mente de imediato, nesse sentido, são o mexicano Juan Rulfo, autor de Pedro Páramo & Chão em Chamas, e o bem mais prolífico italiano Leonardo Sciascia (1921-1989), de quem eu li pelo menos quatro obras-primas que posso considerar irretocáveis: Il giorno della civetta- O dia da coruja (1961), Il Consiglio  d´Egitto- O Conselho do Egito (1963), A ciascuno il suo- A cada um o seu (1966) e Il contesto- A trama  (1971).

Interessei-me por Sciascia devido a um grande filme de Francesco Rosi (que, aliás, fez um dos meus filmes favoritos, Tre Fratelli- Três Irmãos,uma das coisas mais belas feitas na virada dos anos 70 para os 80 do século passado), Cadaveri eccelenti- Cadáveres ilustres (convenhamos, um título maravilhoso), de 1976. Por sorte, na época do lançamento no Brasil da adaptação de Rosi de Il contesto, a editora Fontana e o Instituto Italiano di Cultura lançavam os três outros.  Até hoje foi a única edição brasileira, salvo engano, do melhor de todos, O Conselho do Egito (traduzido por Aurora Bernardini), magistral romance sobre imposturas e perseguições inquisitórias no século XVIII. A cada um o seu (traduzido por  Homero Freitas de Andrade) teve uma recente nova versão (por Nilson Moulin), publicado pela Alfaguara, que publicou há pouco uma nova tradução de O dia da coruja (de Eliana Aguiar), a terceira: a primeira foi a de Solange Lima Caribé da Rocha, e a segunda (de Mario Fondelli) fez parte de uma série de lançamentos sciascianos pela Rocco (entre eles, a tradução do mesmo Fondelli para A trama, que eu considero o romance que Jorge Luis Borges escreveria se ele fosse dado a alegorias políticas.[1]

I-

“Com efeito, disse o advogado Di Blasi, cada sociedade gera o tipo de impostura que, por assim dizer, lhe convém. E a nossa sociedade, que de por si é uma impostura, impostura jurídica, literária, humana (…) Nossa sociedade nada mais fez a não ser produzir, naturalmente, obviamente,a impostura oposta (…) se na Sicília a cultura não fosse, mais ou menos conscientemente, uma impostura, se não fosse um instrumento nas mãos do poder dos barões, a falsificação da realidade, da história… Pois bem, eu lhes digo que a aventura do abade Vella [um religioso com rudimentos de árabe que falsifica um Código, que na verdade era apenas uma corriqueira vida de Maomé, anunciando-o como um documento sobre os anos de domínio árabe na Sicília, e que se serve dele para chantagear toda a nobreza da região, temerosa de revelações incômodas a respeito dos ancestrais e de como adquiriram a posse da terra] teria sido impossível… Digo mais: o abade Vella não cometeu um crime, apenas montou a paródia de um crime, trocando os termos… De um crime que na Sicília se perpetra há séculos”… (O Conselho do Egito)

“… tratava-se de defender o Estado  contra aqueles que o representavam, os que detinham o poder. O Estado detido. Era mister libertá-lo. Mas ele mesmo estava em detenção: só podia tentar abrir uma rachadura no muro”… (A trama)

Em  A cada um o seu, o fabuloso  Sciascia mostra o protagonista (um corretíssimo e quixotesco professor de literatura) indo ao fórum, para obter o atestado de antecedentes que lhe facultará a licença para dirigir: “Subia as escadarias, masoquistamente desenvolvendo aquelas apreensões que são típicas do italiano que está para entrar no labirinto de uma repartição pública, ainda mais dedicada à justiça”.  

Em nenhuma região da Itália essa desconfiança com relação à justiça enquanto instituição do Estado, enquanto instância que não combina com sentimentos atávicos e milenares, é tão profunda quanto na Sicília, e esse é o tema do paradigmático  O dia da coruja: o dirigente de uma cooperativa de construção, que recusou a “proteção” dos mafiosos locais (apesar de que, oficialmente, a Máfia não existe,é como se fosse uma lenda: “existiu alguma vez um processo que tenha concluído pela existência de uma associação chamada Máfia a qual atribuir, com certeza, o mandado e a execução de um delito? Foi, alguma vez, encontrado um documento, um testemunho, uma prova qualquer que constitua uma relação segura entre um fato criminal e a assim chamada Máfia? Faltando essa relação, e admitindo que a Máfia exista, eu posso dizer-lhe que é uma associação de socorro mútuo e secreto, nada mais nada menos como a maçonaria”) é assassinado numa aldeia e o encarregado da investigação é um “continental”, o capitão Bellodi [2]. Aqueles que são intimados para prestar esclarecimento, ao conhecerem o oficial, pensam: “os continentais são gentis, mas não entendem nada”. 

E realmente, Bellodi “não entende nada”: insiste em ligar o crime à ação local da Máfia (incomodando, com isso, várias instâncias políticas: deputados, senadores) enquanto todos propõe uma explicação “passional”, como raiz desse e de outros dois homicídios (uma testemunha incauta, que vira o assassino, e um delator): “um daqueles motivos passionais que, para a Máfia e a polícia são, em proporções iguais, um grande recurso. Desde quando,no súbito silêncio do seio da orquestra, o grito ´Mataram o compadre Turiddu` tinha, pela primeira vez, estremecido o fio da espinha dos apaixonados da ópera,nas estatísticas criminais relativas à Sicília e nas combinações do jogo da loto, entre chifres e mortos assassinados estabeleceu-se uma freqüente relação. O homicídio passional se descobre rápido e logo passa a fazer parte do ativo da polícia; o homicídio passional se paga pouco, e entra portanto no ativo da Máfia.”  

Ele coloca em detenção três suspeitos, e vai juntando provas irrefutáveis, que serão refutadas entretanto através da impostura, uma palavra cara ao universo sciasciano: cidadãos respeitáveis juntam-se para fornecer álibis para os culpados.

II-

Bellodi (“com a fé de um homem que  participou de uma revolução e desta viu surgiu a Lei; a esta Lei que assegurava liberdade, justiça, a Lei da República, servia e fazia respeitar. E se ainda vestia a farda, por circunstâncias fortuitas envergada, se ainda não havia deixado o serviço para enfrentar a profissão de advogado à qual era destinado, era porque o mister de servir à Lei da República, e de fazê-la respeitar, tornava-se cada vez mais difícil”)  pertence a uma categoria recorrente nos romances de Sciascia: o herói de antemão derrotado, de ação por fim irrisória, e resignado com sua derrota, como o investigador Rogas, de A trama ou o nobre libertário e iluminista de O Conselho do Egito, Francesco Paolo Di Blasi, sem falar no iludido e incauto professor Laurana, aquele mesmo que subia a escadaria do fórum em A Cada Um o Seu, o qual, ao contrário dos outros, nem faz idéia de onde está se metendo.

O Dia da coruja é uma narrativa maravilhosa, no seu registro dos costumes, da mentalidade e do dialeto sicilianos. O preciso e calibrado estilo de Sciascia faz dele o “inimigo mortal das palavras ocas” (como Goethe se caracterizou pouco modestamente na sua Viagem à Itália, ao chegar em Veneza), estas tão celebradas na Sicília como aqui no nosso país: “Bellodi contou a história do médico de uma prisão siciliana que enfiou na cabeça que ia retirar dos presos mafiosos o privilégio de ficar na enfermaria…O médico ordenou que voltassem às dependências comuns.. Nem os agentes nem o diretor deram seqüência às determinações do médico. O médico escreveu ao ministério. E assim certa noite foi chamado à prião…os chefões o espancaram, cuidadosamente, metodicamente. Os guardas não viram o nada… O médico foi exonerado de suas funções pelo ministério, visto que seu zelo era causa de distúrbios…Como não conseguiu obter satisfação pela agressão sofrida, procurou outro chefão da Máfia que lhe desse pelo menos a satisfação de mandar espancar, na prisão para onde tinha sido transferido, um daqueles que o haviam agredido. Teve, pouco depois, a confirmação de que o culpado já tinha recebido a surra que lhe competia”. 

 

(uma parte deste post foi publicada, de forma condensada, numa resenha em “A Tribuna” publicada em 11 de maio de 2010)


[1] Aliás, Borges é citado explicitamente no texto: “Fecho os olhos e vejo um bando de aves. A visão dura um segundo, talvez até menos. Não sei quantos pássaros vi. O número deles era definido ou indefinido? O problema abrange o da existência de Deus. Existindo Deus, o número era definido, uma vez que Deus sabe quantos eram os pássaros. Não havendo Deus, o número é indefinido, pois ninguém podia contá-los. Digamos, neste caso, que eu vi menos de dez pássaros e mais de um, mas não vi nove, nem três,nem dois. Vi um número de pássaros compreendido entre dez e um, e que não é nove, nem oito, nem sete, nem seis,nem cinco  etcetera. Ese numero entero es incocebible, ergo, Diós existe. Quando a breve página toma forma na sua memória do jeito que está aqui impressa, ele procura afastá-la do pensamento e voltar a prestar atenção no que o presidente dizia: mas com a impressão de que aquele bando de pássaros, que durante um segundo ou menos tinha passado voando pelos olhos fechados de Borges, fosse muito mais real, além de mais definido, do que o homem que estava falando e qualquer outra coisa ali em volta”.

[2]  Apesar da sua alta qualidade, as traduções de Fondelli & Eliana Aguiar cometem alguns pecados contra o pitoresco siciliano, ora adotando um tom muito formal, ora abrasileirando em excesso: por exemplo, uma das coisas mais saborosas desse e outros romances de Sciascia é o fato de que a hierarquia dos carabinieri ter suboficiais com títulos pomposos como “marechal” e “brigadeiro”, o que, convenhamos, dá maior sabor à sua subalternidade.

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: